quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dom Orani ordena religioso carioca


Seg, 16 de Maio de 2011 00:00
 Carlos Moioli

Na manhã do Domingo do Bom Pastor, 15 de maio, o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, presidiu, na Basílica Menor de Santa Teresinha do Menino Jesus, na Tijuca, a celebração de ordenação presbiteral do Frei André Severo de Araújo, religioso da Ordem dos Carmelitas Descalços.

A celebração reuniu familiares, amigos, paroquianos, religiosas e diversos estudantes do Convento São João da Cruz, de Belo Horizonte (MG), onde frei André concluiu seus estudos eclesiásticos. Entre os presbíteros concelebrantes, o mestre dos estudantes de teologia, Frei Geraldo Afonso, e o pároco, Padre Cesar Cardoso de Resende.

- Quando os valores religiosos estão sendo rechaçados, colocados de lado, sinto uma alegria inefável por ver ainda almas grandiosas se abrirem para Deus e terem a coragem de assumir o compromisso de ser sinal de Deus nesse mundo tão conturbado e de tão pouca fé, afirmou a religiosa carmelita Maria Arlete dos Santos, da Congregação Servas dos Pobres do Brasil, do Jardim Botânico.

Nascido no Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1974, Frei André se aproximou da Igreja já adulto para receber a primeira Comunhão e o sacramento do Crisma. Tocado pela graça de Deus, iniciou um processo de discernimento vocacional, quando foi atraído pela espiritualidade carmelita durante a visita das relíquias de Santa Teresinha, no Rio de Janeiro. Deixando a profissão de técnico em mecânica, ingressou em 2002 na Ordem, vinculada à Província São José que, neste ano de 2011, está celebrando o centenário da chegada dos primeiros Carmelitas Descalços da Província Romana ao Sudeste do Brasil.

Na primeira parte da celebração, Frei André esteve junto à assembleia, na companhia de sua mãe, Madalena Severo da Rocha, e de seus familiares. Após a Liturgia da Palavra, foi chamado para se apresentar, ficando de frente ao celebrante. De acordo com o Rito, o pedido de ordenação foi feito pelo superior provincial, frei Rubens Sevilha.

Na homilia, Dom Orani manifestou sua alegria por verificar que o Cristo Pastor, independente do tempo, do lugar e das circunstâncias, continua escolhendo e modelando pastores conforme o Seu coração, para transparecer Sua presença no mundo e servir o povo de Deus.

Também agradeceu a Deus pela vocação e resposta generosa do ordinando, e ainda, em função de ser o ordenante, pelo “parentesco espiritual” e pela oportunidade de multiplicar os dons recebidos e de confirmar o chamado do Frei André em nome da Igreja.

- Apesar da realidade cosmopolita de nossa cidade, marcada pela pluralidade e pelas dificuldades sociais e, em meio a outras vozes, os mercenários que falam, mas nem sempre levam a Cristo, os que não querem o bem das ovelhas, ainda existem pessoas que ouvem e creem em Cristo, e se consagram para serem Suas testemunhas, afirmou.

Aos fiéis, o Arcebispo lembrou que diante das vozes potentes do mundo, cada um é desafiado a discernir e a perceber a voz do Senhor, e a viver com coerência a mística da vida cristã. No contexto do Dia Mundial de Oração pelas Vocações, lembrou a responsabilidade dos fiéis para com os pastores, pedindo apoio e orações pelo novo presbítero.

- Como testemunhas de sua consagração, precisamos apoiar e rezar pela santidade do Frei André, para que ele possa, como religioso carmelita, ser um homem de Deus. Para que ele, através do anúncio da Palavra de Deus e de seu testemunho de vida, possa converter, entusiasmar e santificar as pessoas, proporcionando para que elas possam fazer a experiência do encontro com o Cristo Ressuscitado, concluiu.

Após a homilia, houve a continuação do Rito da Ordenação, quando Frei André manifestou publicamente o propósito de ser ordenado presbítero. De joelhos, em frente ao Arcebispo, prometeu respeito e obediência aos sucessores dos apóstolos e aos seus legítimos superiores. Em seguida, enquanto os fiéis pediam a intercessão de todos os Santos e Santas de Deus, o ordinando permaneceu prostrado ao chão, em sinal de humildade e despojamento.

O momento mais importante da celebração foi quando o Arcebispo fez a imposição das mãos, gesto que foi seguido por todos os presbíteros concelebrantes, conferindo ao religioso a dignidade de presbítero, o segundo grau da ordem sacerdotal.

- Tamanha graça que recebo de Deus. Fico preocupado com a responsabilidade que agora tenho sobre os meus ombros, mas a misericórdia e a providência de Deus me sustentam e me impulsionam a caminhar, a seguir em frente. Jesus nos ensinou que se ficarmos unidos a Ele, poderemos dar bons frutos. Esse é o segredo, e isto basta, afirmou Frei André depois de ordenado.

O ordinando também foi revestido com a estola presbiteral e a casula, e suas mãos ungidas com o óleo do Santo Crisma. Após receber a patena com o pão e o cálice com o vinho, foi acolhido pelos presbíteros na Ordem do Presbiterato através do abraço da paz.

- Estou feliz por colher um bom fruto que nasceu e se desenvolveu na minha paróquia. Muito fervoroso, trabalhava com amor na Missão Popular, na Pastoral da Visitação e na Catequese de Adultos para o Crisma. Quis que ele, como eu, experimentasse na vocação a proteção de Santa Teresinha, por isso o encaminhei para a Ordem Carmelita, contou o Padre Avelino Contini, da Paróquia Divino Salvador, do bairro Piedade, que fez a sua paramentação.

Ao fazer uso da palavra, no final da celebração, o superior provincial agradeceu o carinho de Dom Orani por ter presidido a celebração de ordenação, pedindo as bênçãos de Deus para seu ministério por meio da intercessão de Santa Teresinha: “Uma chuva de rosas, de graças, se possível, sem espinhos”, desejou.

O recém-ordenado também fez vários agradecimentos. Em especial, pelo apoio que recebeu de sua mãe em todas as suas decisões, e a Deus, pelo dom da vida, da vocação e por ter sido conduzido pelo caminho da espiritualidade carmelita.

- Quando meu filho revelou que queria ser padre, entreguei-o, em sinal de agradecimento, para Jesus. Hoje, estou sentindo toda a felicidade do mundo. Como mãe, tenho certeza de que ele vai ser fiel ao chamado, ser um bom padre e fazer muitas coisas boas, declarou a mãe, Madalena Severo da Rocha.


Entrevista:

Conte-nos um pouco de sua história.

Frei André: Nasci no Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1974, filho de Damião Severo de Araújo, já falecido, e de Madalena Severo da Rocha. Eu tinha os sonhos que todo mundo comumente possui: trabalhar, crescer profissionalmente e me casar. Apesar de ter sido batizado aos três anos de idade, não frequentava regularmente a Igreja.


Em que circunstâncias surgiu sua vocação religiosa?

Frei André: Comecei a me questionar em termos de vocação quando tinha aproximadamente 24 ou 25 anos de idade. Aproximei-me da Igreja já adulto (com uns 20 anos) para receber os sacramentos que ainda não havia recebido – da Eucaristia e do Crisma, ocorridas em 17 de outubro de 1997. Comecei, então, a participar mais intensamente da paróquia a que pertencia – Divino Salvador – no bairro de Piedade, na zona norte do Rio. Nessa paróquia, alguns amigos conheciam monges beneditinos e me levaram algumas vezes ao mosteiro para participar de tardes de espiritualidade. Sentia certa atração pelo modo de viver dos monges, mas, ao mesmo tempo, não me identificava com a ideia de ser monge. Mas quando conheci a espiritualidade carmelitano-teresiana eu entrei em crise, pois senti mais forte a atração pela vida consagrada. Eu trabalhava nessa época e comecei a relativizar a minha atividade profissional – era técnico em mecânica –, algo pelo qual sempre achei que me realizaria enquanto gente. Agora era a vida religiosa que se me apresentava como o que poderia me realizar enquanto pessoa.


Quando foi o passo decisivo?

Frei André: Iniciei um processo de discernimento vocacional a partir de 1999. Um pouco depois de ter conhecido a Ordem do Carmelo Descalço, durante a visita das relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus ao Brasil, ingressei na Ordem em 2002. Em 15 de agosto de 2009 fiz minha profissão solene, emitindo publicamente os votos de castidade, pobreza e obediência para sempre. A minha ordenação diaconal aconteceu em 1° de maio de 2010.


O que motivou-o a consagrar a sua vida a Deus, como caminho de felicidade, nesse tempo em mudança de época?

Frei André: Enquanto cristãos que somos – e também enquanto religiosos – nós somos “filhos do nosso tempo”. Não há como negar que trazemos estas características dentro de nós, mesmo que sejam elas a subjetividade e o individualismo. Contudo, a tônica da vida consagrada está na vida fraterna. E isto faz toda a diferença, pois muitos valores que nos são apresentados devem confrontar-se com os valores do Evangelho, que para nós, que somos cristãos, é o que deve prevalecer.


Qual é o valor da vida em comunidade?

Frei André: Na vida consagrada, a comunidade religiosa é uma escola de amor. Conforme a regra carmelita, ela tem a característica de ajudar a crescer no amor para com Deus e para com os irmãos, tornando-se também lugar de crescimento humano. Como consagrados podemos testemunhar que a doação ao outro, a exemplo de Cristo, tem o seu valor perene e relativiza quaisquer outros valores. Devemos sair do subjetivismo e do individualismo exacerbados para uma vida de doação.


O que é ser presbítero hoje?

Frei André: Cada tempo tem suas particularidades, e buscamos responder às necessidades e às exigências do tempo em que vivemos. Deus nos concede Sua graça e isto nos basta. Não podemos viver de maneira anacrônica, mas buscar em dar uma resposta de acordo com os desafios de hoje, assim como o mundo é e se apresenta a nós. E no futuro, o Espírito Santo suscitará pessoas que responderão de acordo com as exigências que porventura surgirem. E para realizar isto devemos permanecer em Cristo, como Ele mesmo nos ensinou.


Qual é a sensação de ser um ministro de Deus?

Frei André: O único a quem podemos chamar verdadeiramente de sacerdote é Jesus Cristo e, ainda assim, Ele permite-nos participar de seu sacerdócio. Parafraseando São Paulo, “sinto-me como quem traz um tesouro” – o próprio Cristo – “em um vaso de barro”. Este sou eu, com minhas fragilidades e limitações. Mas, afirma o Apóstolo no mesmo texto bíblico: que isso acontece “para que apareça claramente que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós” (cf. 2Cor 4,7). Por este motivo escolhi como lema para minha ordenação presbiteral uma frase do livro de Jeremias, na qual Deus nos convida a confiar na sua providência: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15). É um Mistério! E eu quero responder a este mistério de Deus na minha vida!


Qual é a principal missão de um religioso carmelita?

Frei André: Como frades carmelitas descalços nós temos um apostolado muito fecundo no âmbito da espiritualidade. Devemos apontar para os outros o caminho da intimidade com Deus, que nos ama e nos quer como amigos em Seu Filho Jesus Cristo. Todas as atividades que viermos a exercer devem ter impressas estas características da nossa espiritualidade. É isto que o povo de Deus espera de nós, bem como é o que temos de melhor e mais específico para oferecer aos outros.

Fonte: Portal Um

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