segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O ABRAÇO AMOROSO À CRUZ


Morta no campo de concentração, Edith Stein tomou o nome de Benedita da Cruz quando entrou no Carmelo. Cécile Rastoin, carmelita, lançou no inicio desse ano (2011), uma biografia desta filósofa judia, canonizada por João Paulo II - «Edith Stein, enquête sur la source», ed. CERF. Em entrevista à «Croire», a autora explica o sentido que a Irmã Benedita da Cruz dava ao sofrimento.

Porque é que Edith Stein, quando entrou no Carmelo, escolheu o nome de Benedita da Cruz?
Cada carmelita escolhe o seu mistério. Se uma irmã se chama da Cruz, da Trindade, da Incarnação, isso mostra que ela se reconhece nele, que esse é o caminho que a leva ao coração de Deus. Toda a sua vida será marcada por esse mistério, que elegeu em diálogo com a superiora, e que está em relação com o que Deus escolheu para ela. Edith Stein disse que entrou no Carmelo com esse nome dentro dela. Foi esse verdadeiramente o seu mistério, pelo qual ela se aproximou de Deus. Gosto de dizer que Benedita da Cruz quer dizer “bendita da cruz”. Cristo fez da cruz uma fonte de bênção. É esse o reverso espectacular da cruz. E Edith Stein embateu muitas vezes no mistério da cruz.

Que sofrimentos é que ela passou?
Em criança viveu numa família muito unida, mas perdeu o pai aos dois anos. Para mais, os seus dois tios suicidaram-se, e ela diz com muita franqueza que tinha tendências depressivas. Edith Stein era muito exigente, apaixonada pela verdade, e sofria com os seus limites. A sua inteligência era admirada mas ela só via as limitações! A sua fragilidade era ampliada por esta exigência. Durante a I Guerra Mundial, enquanto enfermeira da Cruz vermelha, sentia uma resistência a entrar nos sofrimentos do outro, ao mesmo tempo que se dava completamente. Penso que ela ressentia o sofrimento e que via nele o triunfo paradoxal: Edith era completamente solidária com o sofrimento do povo judeu.
Edith Stein entrou tardiamente no Carmelo, muito depois da sua conversão. Mas dá a impressão que teve o pressentimento do seu destino desde muito jovem.Como jovem filósofa agnóstica, ela já tinha concebido um pensamento sobre a responsabilidade e a solidariedade. Ela teve, desde a adolescência, ambições absolutas para a humanidade, mas também a ambição de ser ela própria. Edith desejava sofrer com o povo judeu: desejava partilhar o seu destino. A sua tese foi sobre a empatia e ela pressentia desde logo que, diante de um sofrimento, não há discurso possível, e que a única resposta é a capacidade de entrar em relação com o outro. Cristo não deu explicações sobre o sofrimento, mas tornou-o comunicável e partilhável. A Virgem e Cristo não se fecharam no seu sofrimento, mas acolheram os outros no seu coração. Vemos a fecundidade da cruz com o centurião e o ladrão: ambos se abrem ao amor. Edith gostava de contemplar Maria ao pé da cruz. Não nos é dito que Maria chora mas que recebe um filho – Cristo dá-lhe João; Edith diz que acolhe todos os seus no seu coração. É esta co-presença, esta empatia pelo outro que a toca. Ela diz que se Deus existe, ele é capacidade infinita de entrar na alegria ou no sofrimento do outro. O sofrimento fixa-nos sobre nós mesmos, corta-nos a respiração. Cristo, por seu lado, mostra-nos o sofrimento como lugar de partilha, de comunhão. Ele não nos diz que se trata de um bem escondido, que será compreendido mais tarde, mas junta-se àquele que sofre, cura, faz perguntas para saber se o outro deseja ser curado.

A cruz é portanto a passagem obrigatória para estar junto de Deus?
É possível compreender hoje esse discurso?
A cruz é o caminho para o céu. As pessoas têm necessidade de o compreender, dado que demasiadas vezes culpabilizam o sofrimento. Os cristãos são muito pouco audaciosos quanto ao sofrimento! É verdade que depois do Holocausto há um bloqueio no entendimento desse discurso... Mas o cristianismo rompe essa atitude, porquanto é o inocente que sofre, sem explicação. Cristo assume plenamente esse sofrimento até o inverter. Uma certa piedade diz-nos que Cristo nos salva pelo seu sofrimento, ou que é preciso oferecer o próprio sofrimento. Há aí uma parte de verdade, mas é uma diminuição da linguagem. Cristo não nos salva pelo seu sofrimento, mas pela sua vida dada até ao extremo do sofrimento.

Então, o que dizer a alguém que sofre?
Oferece o coração do teu ser, que é amor, até ao sofrimento e une-o ao de Cristo. É ser consolado ao contemplar o sofrimento de Cristo: há uma partilha que se faz. A passagem obrigatória do mistério pascal é a união a Cristo, na alegria e no sofrimento. É preciso assumir o sofrimento e a alegria em união a Cristo. Não há nenhum lugar da vida onde Cristo esteja ausente. Ele abarca tudo. O sofrimento deixa de ser um fechamento sobre si para se tornar um lugar de encontro com Cristo! Não é o sofrimento que é canonizado, é o amor!

Entrevista realizada por Sophie de VilleneuveIn CroireTrad.: rm

Postado por Moises Rocha Farias
(Grupo de Trabalho Edith Stein)
'A Aproximação ao Sofrimento'

http://gtedithstein.blogspot.com/

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