terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Como Deus me chamou ao Carmelo - Gustavo Castro (OCDS de Camaragibe-PE)


Foi uma longa caminhada iniciada ainda em criança, junto à pequena igreja conventual dos Carmelitas da Antiga Observância, na praia da Piedade, no Recife. No verão de 1947-1948, recebi o Escapulário das mãos de um frade de quem não guardei o nome. Acho que se chamava fr. Eliseu, pois ouvia seu nome em minha casa, naquelas férias. Mas não tenho certeza. “Assistíamos” ali a missa aos domingos. Naquela época, os carmelitas celebravam no ritual próprio da Basílica da Ressurreição, em Jerusalém, vinculados historicamente que sempre foram à Terra Santa, berço da Ordem.
Apesar de haver cursado todo o período dos estudos secundários com os Irmãos Maristas, não me senti em momento algum atraído por seu carisma.
Mais tarde, pelos meus quinze anos, comecei a me pôr a questão vocacional. Logo, a formular o desejo de ser carmelita. Falei isto a uma senhora aparentada da minha família, que havia deixado o Carmelo depois de muitos anos. Para mim, vinte e dois anos de Carmelo eu considerava uma vida inteira. Chamava-se Helena. Vivia em seu pequeno apartamento, que transformara num Carmelo no meio do mundo. Lá acolhia e orientava pessoas como eu, e as acompanhava na vida de oração sob a influência de Santa Teresa.
Diante da minha revelação, tratou de dissuadir-me alegando não estar a Ordem do Carmo em Pernambuco (O.Carm.), naquele momento, em condições ideais de receber e formar novas vocações. Enfim, que seria melhor aguardar, vivendo – entrementes – o espírito carmelitano teresiano, e a isto me orientava.
Meses depois, apresentou-me um religioso que poderia orientar-me ainda mais conforme meu intento, como disse. Explicou que se tratava de um homem de oração segundo o modo teresiano sãojoanista. Chamava-se frei Querubino Mones. Era um conceituado missionário franciscano, recém-chegado da Missão entre os índios Mundurucu. Ele passou a ser meu diretor espiritual. Aos poucos conduziu-me à decisão de fazer-me franciscano, mas guardando na minha prática de vida espiritual as inspirações de Santa Teresa de Jesus. Aos dezoito anos entrei no noviciado franciscano. O retiro de Vestição foi pregado por aquele franciscano. Santa Teresa e São João da Cruz estiveram presentes nas suas prédicas. Ao despedir-se -  deixando-me no noviciado, no Convento de Serinhaém  -  entregou-me o livro “Caminho de Perfeição”, de Teresa d’Ávila, dizendo-me dever ter o livro como uma leitura permanente naquele período de minha vida. Assumi a leitura alternando-a com “A História de uma Alma”, livro autobiográfico de outra carmelita e Teresa, a de Lisieux. Numa releitura desses acontecimentos a estupefação é acrescida quando recordo que naquela cerimônia deu-me o nome religioso de frei Graciano! Sabemos quem foi fr. Gracian de La Madre de Dios para Santa Teresa!
E a vida caminhou um pouco assim, fazendo-me um franciscano muito teresiano. Passei ao longo dos sete anos como franciscano por duas crises vocacionais, mas em nenhum momento cheguei a trazer de volta a alternativa carmelitana. No rolar da vida franciscana não houve contato com os carmelitas. Numas férias passadas no Sul da Bahia, em Itajuípe, ouvi falar da existência de uma comunidade de frades carmelitas descalços na Cidade de Ilhéus. Nesse ínterim realizei a minha Profissão Solene e recebi o Diaconato. Com toda a Igreja, fui igualmente envolvido e atingido pelo torvelinho das discussões havidas ao redor do evento eclesial de maior envergadura no seio da Igreja Católica nos últimos cinco séculos, o XXI Concílio Ecumêmico Vaticano II (1962-1965). Quanta proposta de reforma e restauração, mas quanta reação a ser superada.
Como admitia anos depois o nosso ex-mestre de clérigos no período dos Estudos Teológicos, na Bahia: “perdíamos muito tempo valorizando o que era secundário e acessório, mas deixávamos de lado, muitas vezes, o principal, o mais importante e até o essencial”. Quem reconhecia isto assim já era então bispo de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, Dom Frei Adriano Hipólito Mandarino, franciscano.
Com inseguranças de identidade religiosa convenci-me dever deixar os franciscanos em busca da verdade do Senhor para a minha vida. Voltar para o lugar de onde saí  -  parecia-me o caminho mais certo. Resumindo, fui trabalhar na Universidade Federal, lá encontro minha futura esposa, pego uma bolsa de professor nos Estados Unidos, nos casamos; voltamos ao Brasil, chegam os três filhos, etc.
Muitos anos passaram e meus vínculos com o Carmelo resumiam-se a três: contatos em trabalho pastoral com alguns bons carmelitas da antiga observância, contato com uma monja carmelita que me acolhia em momentos de dificuldades espirituais e, sobretudo, pelo sentimento de amizade que sempre crescia com Santa Teresinha. A releitura das obras de Santa Teresa e São João da Cruz alimentavam-me nas férias de verão a cada ano. Pela internet retirei o texto do Capítulo Geral de 2003: Caminhando com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, “voltar ao essencial”. Li-o e reli-o, sublinhei-o. Fiquei tomado por dentro. Havia reencontrado o caminho do Carmelo, muito mais do que as tantas vezes que estivera lá mesmo naquela montanha participando de celebrações. Em 2005 fomos Martha e eu convidados pela nossa madre Ir. Miriam, do Carmelo de Camaragibe (PE), para compormos um grupo e iniciar o Carmelo Secular. Após tentativas, finalmente iniciamos regularmente o grupo em março de 2007. Aportamos afinal! Estamos subindo e descendo, por etapas, junto com tantos outros caminheiros pelas trilhas e jornadas teresianas. Ressalto como momentos fortes da Província os nossos Congressos Provinciais e Regionais, para a animação, formação, convivência fraterna.
Gustavo Castro –Grupo Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face – de Camaragibe – PE

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