segunda-feira, 4 de junho de 2012

A EXPERIÊNCIA DE PERDÃO E COMUNHÃO FRATERNA:


 exigências do AMOR

O século XXI apresenta muitos desafios aos seres humanos. A equação desenvolvimento econômico e meio ambiente; o processo de democratização de alguns países; a descoberta da cura de algumas doenças como o câncer e a AIDS; a politização das sociedades, particularmente da nossa, são alguns exemplos dos desafios que temos pela frente enquanto “humanidade”, nação, comunidade e indivíduo. Contudo, talvez, o maior desafio será o de alcançar um profundo diálogo e respeito, entre tantos interesses convergentes e divergentes, que possibilite a conciliação e, sobretudo, o consenso.

Saber dialogar exige outro saber, o ouvir
Na tradição monástica, é costumeiro escutar que, “como temos dois ouvidos e uma boca, isso significa que devemos ouvir duas vezes mais do que falar”. Para Platão, o diálogo - dialética - é um meio pelo qual os indivíduos buscam a verdade, saem das considerações sensíveis (das emoções) e chegam às coisas inteligíveis (racionais). Assim, o diálogo é uma das portas para se chegar à verdade, a conciliação e certamente à comunhão.
Contudo, atualmente, a concorrência é uma das exigências para a sobrevivência. Estas duas palavras estão infelizmente se tornado sinônimas. Com isso, além de outras coisas como o hedonismo, o imediatismo, o utilitarismo e o cinismo, estamos, consciente ou inconscientemente, encarnando esses “novos” valores da nossa sociedade “pós-moderna”. Atualmente, moral, ética, sinceridade, bondade, caridade, amizade (exceto se for virtual), coerência, fidelidade, subjetividade, estão “fora de moda”. Simplesmente, estes “arquivos” estão selecionadas para serem deletados definitivamente da grande pasta chamada VIDA e, destarte, a comunhão torna-se impossível.
Parece que amiúde, trazemos esses valores para a nossa vida espiritual e, principalmente, comunitária. Decerto, não notamos que muitas das nossas atitudes estão cheias de egoísmo e de “segundas” intenções, no fundo, de incoerências com o compromisso batismal de sermos “imagem e semelhança” (Gn1,26) de um “Deus que é amor” (1Jo 4,8). Esquecemos que ser cristão é uma luta diária para cumprir aquilo que nos caracteriza: “viver é Cristo” (Fl 1,21).
Quando menos esperamos, vemos no meio das nossas comunidades algumas exigências e atitudes que não condizem com o evangelho e, consequentemente, com a espiritualidade carmelitana descalça. Contudo, Santa madre Teresa deixa bem claro que  “nesta casa [...], todas as irmãs [e irmãos] devem se amar”(C 4,7), e “Se por acaso vos escapar alguma palavrinha dita de repente, corrigi logo a situação e orai muito. Quando qualquer coisa como essa perdurar, se­jam grupinhos, desejos de ser mais do que as outras ou questiúnculas ligadas à honra (e parece que o sangue gela em minhas veias quando escrevo isto, só de pensar que algum dia essas coisas venham a acontecer, pois vejo ser esse o principal mal dos mosteiros [nas comunidades]), quando isso acontecer, dai-vos por perdidas. Pensai e crede que expulsastes vosso Esposo de casa e que O obrigastes a procurar outra pousada, pois O deixastes fora do Seu lar. Clamai a Sua Majestade. Procurai remediar a situação [...]” (C 7, 10).
Porém, para Teresa, “não há problema que não seja resolvido com facilidade entre os que se amam, e deve ser grave a coisa capaz de causar um problema” (C 4, 5).
E como saber se a coisa é grave para causar um problema na comunidade? Somente o diálogo, iluminado e fundamentado no amor fraterno, no desapego e na humildade (cf. C 4,4) pode nos dizer se a coisa é séria, passível de causar problema entre os membros de uma comunidade. E mesmo se for, somente o amor entre os irmãos poderá resolver o impasse. Então, a primeira pergunta que deve ser feita é: Nós nos amamos? Se a resposta for positiva, ótimo. Assunto encerrado! Se não, é melhor que todos revejam o que significa SER cristão e Carmelita Descalço, e então, fazer a sua escolha...
Amar é uma ação que exige atitude, testemunho, coragem. Prova maior disso é o exemplo que Deus Pai nos deu e continua a nos dar diariamente: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). É o Pai quem nos dá o seu Filho amado para salvar-nos, para ensinar-nos que a nossa vida só terá sentido se fizermos o que ele nos diz: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo” (Jo 15,12). No amor, esta implícito outras dimensões da vida cristã: o respeito, a caridade, o desapego, a unidade, a paz, entre outras. Mas o amor traz consigo uma dimensão sublime, talvez a mais divina de todas as outras dimensões: o perdão.
Do verdadeiro amor nasce o perdão entre os irmãos. É esse, sem dúvida, o maior poder que Jesus nos concedeu: o de perdoar. O perdão liberta quem errou e cura aquele que sofreu com o erro. Ao mesmo tempo, por meio do diálogo, do respeito e da sinceridade, é o ponto de partida para um novo recomeço e uma nova vida fundamentada no amor de Jesus, que nos deu a sua vida para nos salvar (Jo 10, 17-18).
Por certo, numa comunidade comumente as diferenças, as discussões, as antipatias estão presentes. Mas, tudo isso deve ser suplantado por meio da caridade fraterna e do perdão. Santa Teresa referindo-se às palavras do Pai nosso: “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos” (Mt 6,12) nos lembra: “Trata-se, irmãs, de algo a que devemos dar muita atenção; uma coisa tão grave e tão importante quanto o perdão de nossas culpas, que mereceriam o fogo eterno, pelo nosso Senhor nos é concedida por algo tão ínfimo quanto o fato de nós perdoarmos, ainda mais que o perdão inferior que é o nosso ocorre tão poucas vezes que quase nada temos a oferecer [...]” (C36, 2).
No entanto, para que isso se cumpra, é necessário seguir o conselho de Jesus: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (26,41). Na tentação de achar que sempre estamos certos; que somos sempre as vítimas, que sempre aquilo fizemos é que era o melhor para a comunidade, que esse ou aquele é que tem a razão, ou seja, de sermos parciais... Em tudo isso, “O conhecimento é muito importante para tudo esclarecer” (C 4,5).
Teresa lembra-nos que  “a suma perfeição [...] consiste em estar a nossa vontade em tamanha conformidade com Deus que jamais deixemos de querer com todas as nossas forças tudo aquilo que percebamos que Ele quer, aceitando com a mesma alegria o saboroso e o amargo e compreendendo que Sua Majestade assim o quer” (F 5,10), e que a “obediência [é] o caminho ou meio mais rápido para chegar a esse estado tão prazeroso” (F 5,11).
Não podemos esquecer que desde o princípio da fundação do Carmelo Teresiano, santa madre queria “seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição” (C 1,2) e que todas as irmãs fizessem o mesmo. Esse é o cerne do carisma teresiano, ou seja, o Evangelho de Cristo. Só assim, podemos “construir” o nosso “tratado de amizade — estando muitas vezes tratando a sós — com quem sabemos que nos ama” (V 8,5) e viver plenamente os desdobramentos dessa relação, ou seja, uma vida harmoniosa com o próximo.
No século XXI, o catolicismo não poderá continuar sendo um cristianismo intelectualizado, devocional ou de sacristia, mas sim da vivência, da prática, do TESTEMUNHO diário manifestado em nossas comunidades e famílias. Em suma, de uma profunda espiritualidade. Que o Carmelo Descalço, por meio da sua unidade e fidelidade ao evangelho, continue sendo “uma estrela da qual [sai] um grande resplendor” (V 32,11) para o mundo e para a Igreja. Caminhemos à luz do Cristo que VIVE entre nós!

Comissão de Formação OCDS

Um comentário:

maria ignez disse...

OBRIGADA PELO TEXTO. IREMOS REFLETIR, HOJE, NA REUNIÃO.

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