sábado, 14 de julho de 2012

CONHECER PARA VIVER E AMAR: os documentos da OCDS na vida do carmelita descalço secular




Em meio aos preparativos para a celebração do “V Centenário do nascimento de Santa Madre Teresa de Jesus”, somos chamados a nos debruçarmos sobre seus escritos. Tarefa nada fácil para nós leigos, mas que deve ser cumprida com zelo, com um forte sentimento de obediência aos nossos superiores e, sobretudo, de um amor filial à Teresa. Este “kairós” - momento oportuno - que vivemos leva-nos a rever, refletir e questionar a nossa trajetória vocacional no Carmelo Descalço e, ao mesmo tempo, nos perguntar como “anda” o nosso comprometimento com a vivência da espiritualidade, assumida livremente por meio das promessas.


Neste ano, a Ordem nos propõe para o estudo e reflexão o livro das “Fundações”. Nele podemos contemplar as motivações de santa madre para a reforma que empreendeu no Carmelo e os sofrimentos que suportou para por em prática tal empresa, bem como na fundação dos “seus” mosteiros. Desde o princípio, Teresa desejou viver com toda fidelidade a regra de vida que assumiu[1], o que fez com perfeição durante o tempo em que esteve no mosteiro da Encarnação. Mas o desejo de servir mais perfeitamente o Senhor, a fez fundar o mosteiro de São José de Ávila e ali buscar viver  com toda a fidelidade a regra primitiva do Carmo.


Como sabemos o conhecimento, a fidelidade e o comprometimento de Teresa e dessas primeiras irmãs à regra primitiva,  foram de tal forma que, o padre geral ao visitar o pequeno mosteiro de São José se encantou com o que viu, e concedeu a Teresa “amplas patentes[2]” para fundar outros mosteiros. A fidelidade com que seguiam os conselhos evangélicos e a regra primitiva da Ordem teve consequências imediatas: a fundação de novos mosteiros, a fundação dos frades “descalços” e o nascimento de uma nova ordem religiosa na Igreja, ou seja, o Carmelo Descalço.


É interessante notar que um dos desejos de santa madre Teresa de Jesus foi que as irmãs [os carmelitas descalços] nunca perdessem de vista a “história” da fundação do primeiro mosteiro da reforma, porque, para ela “isso muito animará as monjas [frades e leigos também] vindouras a servir a Deus e a pro­curar que a perfeição inicial não só não decaia como avance, ao verem o muito que Sua Majestade se empenhou em estabelecer a casa […][3].
Para isso, santa madre nos lembra de que é necessário a fidelidade e o comprometimento, ou seja, “devemos sempre nos considerar alicerces dos que vierem mais tarde. Porque, se agora os que vivemos não tivéssemos perdido o fervor dos antepassados e se os que viessem depois de nós fizessem outro tanto, a edificação sempre estaria firme”[4]. Este é o ponto, o segredo para que o Carmelo 


Descalço esteja sempre firme e atuante no mundo, e do qual nós temos grande responsabilidade! Considerar-se alicerce é ter em mente quem nós somos e o que temos por fazer, e para isto é preciso o conhecimento, “que é muito importante para tudo esclarecer”[5]. Conhecimento da identidade que caracteriza a vocação que abraçamos.


Ao fundar outros mosteiros, não tardou para Teresa se ver obrigada a colocar no papel as constituições, ou seja, os preceitos que caracterizariam a nova forma de vida que nascia. O “COMO” viver, por em prática a regra primitiva. Configurava-se assim, definitivamente, o “espírito” do Carmelo Descalço, sem o perigo “de alguma priora, que pensando nada fazer, tira[va] e põe [punha] o que lhe dá[dava] na veneta [...]”[6].


Para assumir um “estilo” de vida é preciso conhecê-lo. Ninguém casa, vira frade ou monja da noite para o dia. Antes, porém, precede o tempo do enamoramento, do conhecer, do apaixonar-se... E quanto mais intenso, mais profundo, mais bem preparado for este período, melhor se viverá depois. Da mesma forma quando se abraça uma vocação numa determinada Ordem da Igreja. No Carmelo Descalço – nos três estados de vida -, o período de formação é crucial. Deste deriva-se mais tarde a intensidade e o comprometimento com o qual se viverá a espiritualidade, ou seja, a própria vocação.


Por isso, Teresa deseja que suas irmãs e mais tarde seus irmãos vivam com todo ardor e perfeição a regra e as constituições, e para isso focará priorizará a formação no espírito do Carmelo. Para nós não deve ser diferente. Ter um conhecimento pleno e profundo das constituições OCDS e do Estatuto particular da Província São José, além de outros documentos que a Ordem publicar, é de suma importância. Como poderá uma pessoa querer ser carmelita descalço se não conhecer aquilo que “dá forma” à vida no estilo do carisma teresiano? É inaceitável e incompreensível que isto aconteça, mas infelizmente acontece!


Muitos de nós esquecemos que as Constituições e todos os documentos da OCDS, são de extrema importância para TODA a vida e não só no momento em que se está se preparando para as promessas. Inclusive, acontece que, às vezes, os documentos só são estudados no período inicial da formação ou no momento que surge alguma dúvida na comunidade. Por mais que conhecemos esses documentos, especialmente, as constituições, não podemos cair na tentação de deixá-los esquecidos na gaveta. É preciso utilizá-los constantemente nas formações. De transformá-los em matéria de oração, de reflexão e meditação na comunidade e na vida pessoal.


Pode acontecer que muitos conheçam de cor e salteado as obras de santa madre Teresa, do santo padre João da Cruz e enfim, de muitos santos carmelitas, o que louvável, mas sequer conhece aquilo que deve reger o seu estado de vida enquanto carmelita descalço secular. Conhecer, rezar, praticar aquilo que as nossas constituições e documentos dizem é penetrar no “espírito” de Teresa e ali encontrar Aquele que sabemos que nos ama[7].
Seguindo as constituições e documentos da OCDS, temos a segurança de estarmos no caminho certo. Eles nos revelam, em 


nome da Igreja e da Ordem, quem somos, o que e o quanto devemos fazer. Ou seja, qual a identidade da vocação que abracei e qual as implicações intrínsecas a ela. Ao mesmo tempo, afasta o perigo de querer acrescentar algo que foge à “regra” e ao espírito teresiano, pois, muitas vezes, acrescentam-se tantos costumes, “cerimônias”, enfeites, palavras e até “documentos” que acaba descaracterizando-os, se afastando daquilo que é o cerne, o princípio, ou seja, do carisma de Teresa.


Ser carmelita descalço não é conhecer profundamente as obras dos santos - isso faz parte -, mas é, sobretudo, configurar-se ao espírito do Carmelo Descalço e para isto, é necessário conhecer e aderir às constituições e às orientações expressas nos documentos da Ordem. Somente assim poderemos nos considera alicerces para aqueles que virão.


Entretanto, Teresa deixa um recado: “Quem considerar áspero o nosso modo de vida deve culpar a sua falta de espírito, e não o que se observa aqui (porque pessoas delicadas e não saudáveis, tendo o espírito, podem suportá-lo com muita suavidade), devendo ir para outro convento [outra Ordem], onde se salvará de acordo com o espírito que o anima”[8]. Conhecer e viver as constituições OCDS é valorizar, reconhecer e dar continuidade à obra iniciada por Teresa de Jesus e João da Cruz.
Abraço fraterno a todos!

Comissão de Formação, OCDS







[1]  V 32, 9
[2] F 2, 2
[3] V 36, 9
[4] F 4, 6
[5] C 5, 2
[6] Cf. Introdução das Costituições. (Obras Completas Teresa de Jesus. São Paulo: Loyola, 1995, p. 997.)
[7] V 8, 5
[8] V 36, 29

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