segunda-feira, 27 de agosto de 2012

UMA VIDA DEDICADA A DEUS

Jornal Gazeta do Oeste Divinópolis | Sábado, 25 de agosto de 2012                                
Por: Amilton Augusto

 Esta reportagem foi ao mosteiro das Carmelitas Descalças, no bairro Niterói, Divinópolis - Minas Gerais para conhecer de perto a vida dessas mulheres que deixaram família, estudos e namoro para se dedicarem integralmente à vida religiosa.
                                                     
 De acordo com o Censo de 2010, o Brasil tem pouco mais de 64% de sua população adepta ao catolicismo, são mais de 120 milhões de pessoas que nem sempre conhecem os detalhes da vida religiosa. Em Divinópolis, essa demonstração de fé é levada com interessante zelo pelas irmãs Carmelitas.

 Atualmente são 17 freiras que convivem em espírito de comunidade e união pelo amor à Deus. Esta reportagem foi ao mosteiro das Carmelitas Descalças, no bairro Niterói, para conhecer de perto a vida dessas mulheres que deixaram família, estudos e namoro para se dedicarem integralmente à vida religiosa.

 As Carmelitas Descalças se consideram Esposas de Cristo e dedicam uma vida integral de oração e diálogo com Deus. A ordem foi fundada na Europa do século XVI, por Santa Teresa de Ávila. Os preceitos da vida religiosa de uma carmelita passam, inicialmente, por três votos: de pobreza, de castidade e de obediência. As freiras devem se desapegar de todos os bens materiais supérfluos e viver somente daquilo que for necessário, o luxo não pode mais fazer parte do cotidiano delas. Além dos bens materiais, não se deve ter apego pelos afetos, pelas pessoas e pelos bens espirituais. Torna-se, portanto, uma vida dedicada inteiramente à intimidade com Cristo.

Uma das primeiras mudanças que se faz é trocar seu nome de batismo por outro nome à escolha da própria religiosa. A vida no mosteiro é de silêncio. Existem somente dois momentos de recreação durante o dia em que as freiras podem conversar umas com as outras.

 O dia começa às 4h30m e o primeiro momento de oração é às 5h. Até o final do dia, que termina às 21h30m, as freiras se revezam em atividades de administração e manutenção do mosteiro, fabricação de hóstias, orações e atividade física no pátio. O imóvel é totalmente mantido pelas Carmelitas, que arrecadam dinheiro através da venda de hóstias para as paróquias e de doações espontâneas dos devotos. A liderança das freiras é exercida pela Madre Maria Terezinha do Menino Jesus, 36 anos, que foi escolhida pelas próprias religiosas, perante o bispo diocesano.

 As irmãs vivem enclausuradas, ou seja, vivem restritas dentro do mosteiro, só saem de lá para resolverem situações que outras pessoas não podem fazer por elas, como, por exemplo, ir ao médico ou resolver problemas de documentos. Não vão, por exemplo, ao supermercado, à feira, etc. As visitas são recebidas em uma sala especial, onde as carmelitas ficam do outro lado da grade e não existe uma aproximação maior entre elas e o visitante. Dos seus corpos só é possível ver o rosto, nada mais. A vestimenta, conhecida como hábito, só deixa à mostra o rosto, todo o resto do corpo é coberto.

 Acontecem missas todos os dias no Carmelo, de segunda a sábado no horário de 7h e no domingo às 18h. Quem deseja pedir uma oração às freiras carmelitas pode se dirigir ao próprio mosteiro que fica próxima do Hospital São João de Deus ou ligar para o telefone 37-3221-1650.

 VOCAÇÃO
 A vocação é o chamado de Deus para que essas pessoas se dediquem aos trabalhos religiosos. Cada manifestação acontece de forma diferente e em momentos diferentes. As freiras que foram ouvidas por esta reportagem contaram sobre a angústia e a inquietação que viviam antes de entrarem para a ordem religiosa. Todas já vinham de famílias com forte tradição religiosa e aos poucos foram descobrindo a vocação e atenderam o chamado de Deus. Para se tornar Carmelita Descalça a jovem deve ter no mínimo 18 anos e muita vontade de seguir esse novo caminho. “Primeiro a pessoa sente o chamado de Deus.

 Ela sente que Deus a chama para uma vida de maior intimidade com Ele, uma vida de total dedicação a Ele. A jovem nos procura e nós vamos dar uma orientação e formação”, relata a Madre Terezinha. Após fazer contato com a prioresa do mosteiro, a pessoa interessada passa por uma fase de preparação fora do mosteiro, que vai de seis meses a um ano. Depois deste primeiro momento há um período de experiência de 3 meses dentro do convento para um discernimento mais profundo. Após o período de experiência, se tudo ocorrer dentro das regras, a pessoa se torna uma moradora do mosteiro e inicia uma jornada de estudos e de afirmação dos votos. Somente depois de alguns anos de dedicação é que a irmã deixa o noviciado e se torna uma freira com votos definitivos.

 Os testemunhos são interessantes e comoventes. A própria madre Maria Terezinha nos contou como foi sua trajetória. “Eu descobri minha vocação religiosa aos 23 anos quando eu li a vida de “Santa Terezinha, História de Uma Alma”. Eu não pensava em ser religiosa antes, mas lendo este livro fui percebendo o grande amor que ela tinha a Deus. A partir disso eu senti muito forte no meu coração o desejo de servir a Deus na vida religiosa. Comecei a procurar onde tinha um Carmelo. Soube através de um amigo meu, que na época era seminarista e hoje já é sacerdote, o Pe. Ideci, que em Divinópolis tinha um Carmelo. Ele entrou em contato com a Madre da época e pediu para eu fazer um retiro aqui na portaria e eu sentia cada vez mais esse desejo de me entregar a Deus, de me tornar Esposa de Cristo”, relata a madre que veio de Itaúna.

 Maria Letícia de Jesus, 28 anos, natural de Brasília, também deu seu testemunho, “entrei para o Carmelo com 22 anos, mas antes eu participava de encontros vocacionais em Brasília. E em um desses encontros eu senti que Deus me fazia um chamado. Mas eu sentia muito medo da vocação, porque eu sempre senti vontade de me casar e ter muitos filhos. Sempre me faltava alguma coisa, mas eu não sabia o que era. Tive uma experiência de namoro, e durante essa experiência eu vi que o namoro não me satisfazia. Algo me faltava. Eu fiz um encontro da Renovação Carismática na Canção Nova e durante esse encontro eu senti que Deus me chamava. No início eu fiquei com medo com a forma de funcionamento do Carmelo, as grandes, o silêncio... Mas eu me senti também muito encantada. A vida do jovem em Brasília é totalmente avessa à igreja. Eu fiquei totalmente desconcertada quando eu voltei do convento, colocar um hábito e viver atrás das grades para mim era algo totalmente novo. Mas eu comecei a participar, a conhecer mais de perto e fui descobrindo que aquilo era o que Deus queria para a minha vida. Depois de muita luta interior eu tive essa força de tomar a decisão, então eu falei com as freiras que eu queria fazer uma experiência no Carmelo, ainda em Brasília. Mas o Carmelo de Brasília tinham 22 irmãs e não tinha vaga. Ela me deu uma lista de nomes e eu escolhi pelo nome da cidade. Quando eu vi o nome Divinópolis eu achei interessante e perguntei: “onde fica Divinópolis?”. Daí eu vim para cá e comecei o processo para me tornar uma carmelita”.

 Maria José de Jesus, 31 anos, é de Porto Velho, Rondônia e recebeu o chamado de Deus no Canadá. “Até chegar ao Carmelo foram 5 anos. Eu não acreditava muito que eu tinha vocação para a ordem, até por ser uma pessoa muito extrovertida. Para vir para o Carmelo tem que ter esse primeiro desejo de ser esposa de Deus. Eu participei de três peregrinações, e em 2002 ao acompanhar o Papa João Paulo II, no Canadá, decide mesmo procurar o Carmelo. Nessa época eu estava fazendo faculdade de Letras e tranquei a matrícula para me dedicar a vida religiosa. Procurei alguns endereços de mosteiros e enviei uma carta com o pedido. Vim para cá e conheci o Carmelo, quando cheguei aqui eu não tinha dúvida nenhuma de que era aqui que eu queria ficar até morrer. Fiz uma experiência de 20 dias, participei de encontros e comecei meu postulantado e já estou no meu último ano de formação no noviciado. Eu sou muito feliz aqui dentro!”.

 A irmã Dalva Maria do Espírito Santo, 27 anos, natural de Itatiaiuçu. “Eu tinha sete anos quando me senti tocada para a vida religiosa, quando eu vi uma freira pela primeira vez, na escola. Uma irmã Clarissa foi à escola e passou em todas as salas falando da vida religiosa. Aquilo ficou dentro de mim e com o passar do tempo sempre me vinha esse desejo. Quando eu fiz a crisma com meus 15 anos esse desejo aumentou e com meus 17 anos eu procurei um convento das Clarissas. Com 18 anos eu entrei para outra congregação e fiz uma experiência de 3 anos e meio. Mas eu percebi que aquele ainda não era o meu lugar. Mesmo lá dentro eu recebi o chamado de Deus para ter uma vida mais recolhida e silenciosa e entrei em contato com o Carmelo de Divinópolis, em 2009 e esse caminhada é uma graça de Deus”.

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