domingo, 21 de abril de 2013

XXX CONGRESSO OCDS- As Sétimas Moradas - Ana Maria de Santa Teresinha - OCDS


As Sétimas Moradas


                                                                                              Ana Maria de Santa Teresinha - OCDS
O livro Castelo interior ou Moradas se refere aos diferentes modos como a pessoa pode viver o seu relacionamento com Deus. Teresa o inicia por obediência em dois de junho de 1577, no dia da Santíssima Trindade.

O Papa emérito Bento XVI retrata assim sobre o castelo:
“O livro é uma obra mística mais famosa de Santa Teresa onde ela já está em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete "moradas", como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no "Cântico dos Cânticos", para o símbolo final dos "dois esposos", que permite descrever, na sétima "morada", o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial”.

As sétimas moradas, assim também como as sextas são chamadas de moradas místicas. Nela se desenvolve:
* Cume da graça batismal;
* Manifestam a unidade plena contemplação-ação: a máxima polarização em Deus leva a uma maior aproximação  serviçal ao homem;
* Máxima interiorização em Deus-Trindade – máxima expansão e abertura aos outros;
 * São a revelação mais grandiosa e plena da pessoa humana em comunhão com o Deus Trino, por Quem é habitado.

Esquema das sétimas moradas:
Capítulo 1:
1-5: fascínio pelo mistério de Deus e da alma
6-12: entrada nas 7M e visão trinitária;
Capítulo 2: Matrimônio espiritual
1-3: como se realiza;
4-11: o que é;
Capítulo 3-4
 1-3: efeitos do matrimônio espiritual;
 4,4-18: síntese e releitura do livro.

 Sétimas moradas – “Matrimônio místico.”
“A Santidade como estado terminal, plenitude (“ pleroma”) da vida nova. Chegamos ao centro do castelo, centro da alma, centro de si mesmo. Plena união do espírito humano com o Espírito divino: Matrimônio místico. Duas graças de ingresso nesta fase final: uma cristológica e outra trinitária. “Aqui as três pessoas divinas se comunicam com a alma. Nunca mais a deixaram”. Notas psicológicas e éticas que caracterizam a este ser humano na plenitude: “esquecimento do criado”, “grande gozo interior”, “desejo de servir”, “paz profunda”, cessam os arrebatamentos místicos. Plena configuração a Cristo. Plena entrega na ação e no serviço: “que surjam sempre obras, obras”.
“A chegada às sétimas moradas fica marcada pelas mais brilhantes imagens                      bíblicas: reaparecem embora com sinal diferente, a dupla de convertidos das primeiras moradas, São Paulo e a Madalena do Evangelho; a sétima morada é como o templo de Salomão, que se constrói sem barulho; aí recebe a alma o ósculo da esposa do Cântico; e a paz, paz como a anunciada pela pomba do dilúvio; ou como a que no cenáculo produz a palavra do Ressuscitado. “Fome da honra de Deus, como a teve Elias. “Fome de achegar almas a Deus”, como a tiveram São Domingos e São Francisco. Consignação suprema: “Os olhos no Cristo Crucificado, e tudo lhe parecerá pouco!”
Tecer um comentário sobre as sétimas moradas é ousar a experiência no mais profundo do ser, para o encontro com o infinito Ser- O Senhor.
Podemos saber que esta é uma morada de total entretenimento com o Senhor, não somente de gozo, mas o mesmo expresso em obras.
Talvez pudéssemos exemplificar a partir de algumas narrações do evangelho. Quando alguém tem um encontro com o Senhor, sua vida e história muda e o mesmo tem de fato necessidade de às pressas anunciar com a vida e a palavra.
É o caso de Maria ao encontrar com o Ressuscitado - Jo 20,11-18
Encontro de Jesus com Saulo- Conversão- At 9, 1-20
Discípulos de Emaús - Lc 24, 29-35
Após o encontro, a alma tem sede de também dar de beber a outros. Essa é uma preocupação eclesial.
“Suponhamos encontrar um cristão amarrado a um poste, com as mãos atadas para trás por fortíssima cadeia. Está ele morrendo de fome. Não que lhe falte alimento. Tendo junto de si as mais delicadas iguarias, não as pode pegar e levar à boca. Além do mais, sente-se completamente enfastiado. Não seria grande crueldade se o ficássemos olhando sem lhe chegar o alimento à boca?” 7M,1,4
Santa Teresa nos alerta que é necessário ajudar o Crucificado- 7M 3,6.
Quando tratamos de ajudar o crucificado, é bom saber que Ele se encontra em cada um que mendiga o amor, e quantas vezes não há ninguém para partilhar desse amor. Quantos não conhecem seu verdadeiro rosto pois não há ninguém que os mostre.
A finalidade do matrimônio espiritual é para que dele nasçam obras, sempre obras! 7M 4,6
O tema básico do capítulo das sétimas moradas é a santidade, santidade de vida. Teresa nos apresentará a santidade como estágio final, plenitude de vida nova. Desenvolverá tudo isso em quatro capítulos:
1.Santidade- Um acontecimento trinitário que acontece na alma do cristão. Acontecimento transformante. A santa teve esta experiência em 1572, junto a S. João da Cruz, no Mosteiro da Encarnação, em Ávila
2. A santidade do cristão orante deriva da santidade de Cristo e realiza a plena comunhão, relação do homem com Deus.
3.Em sua dimensão antropológica, a santidade promove a plenitude do desenvolvimento humano, a maturidade do homem novo.
4.Por fim, a santidade é algo que supera os apertados limites do sujeito: é graça para os outros, para a comunidade humana, para assumir em pleno a condição de “servo de Jahvé” que caracterizou a existência de Jesus, que foi “o homem para os outros”. Isto é, a santidade cristã tem destino eclesial, e por isso implica um carisma de serviço aos irmãos.

O homem novo é caracterizado pelo esquecimento de si mesmo, grande gozo interior, desejo de servir, paz profunda. Assim acontece a verdadeira configuração com Cristo.

Teresa é uma mulher aberta aos problemas de seu tempo, sente as dores da Igreja naquele momento: a heresia protestante e o desejo da reforma religiosa (Concílio de Trento).

A busca da santidade é o investimento em fazer plenamente a vontade de Deus, manifestando-a na atuação afetiva e efetiva do reino.

    Entrando na sétima morada
Teresa tendo a experiência do encontro com o Rei, que se faz esposo, sabe da importância da intimidade com Ele nesta morada principal.
Nas primeiras linhas do capítulo tinha advertido as leitoras: “grande misericórdia tem Ele para conosco ao comunicar tais segredos a alguém de quem podemos vir a sabê-los, a fim de que, quanto mais soubermos que Se comunica às criaturas, tanto mais louvaremos a Sua grandeza...” (n. 1).
    Bem consciente de sua missão de profeta e testemunha, no umbral do capítulo ela se deteve a orar e pedir ao Senhor que “dirija minha pena e me faça compreender como explicar-vos algo do muito que há para dizer sobre o inefável revelado pelo Senhor a quem Ele introduz nesta morada. Tenho suplicado veementemente a Sua Majestade” (n. 1)
    Teresa inicia testificando-o assim: “quando Nosso Senhor é servido, compadece-se de tudo o que essa alma padece ou já padeceu ansiando por Sua presença e amor. Assim, tendo-a já tomado espiritualmente por esposa, antes de consumar o matrimônio sobrenatural, põe-na em Sua morada, que é a sétima. Assim como o tem no céu, Deus deve possuir na alma um pouso, digamos outro céu, onde só Ele habita” (n. 3).
    Em seguida completa o quadro empregando termos parecidos: “Quando pois é servido de conceder-lhe a mencionada graça, - do divino matrimônio -, Sua Majestade faz a alma primeiro entrar em Sua Morada... O nosso bom Deus quer já tirar-lhe as escamas dos olhos, bem como que veja e entenda algo da graça que lhe é concedida, embora isso se efetue de um modo algo estranho” (nn 5.6).
    Continua referindo o fato da experiência do mistério trinitário pela alma e conclui: “Aqui (na sétima morada) comunicam-se com ela e lhe falam as Três Pessoas. Elas lhe dão a entender as palavras do Senhor que estão no evangelho: que viria Ele, com o Pai e o Espírito Santo, para morar na alma que O ama e segue Seus mandamentos” (n. 6).
    São dois os componentes deste supremo acontecimento: o “humano” e o “trinitário”. A saber: do lado humano emergem, no mais profundo do homem, certas camadas subliminais e primordiais que só agora estreiam, por serem reservadas ou destinadas a conectarem-se com “o divino”, e que expressam a dimensão de transcendência que anima em nosso espírito. Teresa distingue-os, talvez inspirada em São Paulo, entre alma e espírito humanos. A alma, com a função biológica de animar o corpo. O espírito, com dimensão de transcendência. Agora é este último o convocado pelo Espírito.
    Mas o que santifica nesse acontecimento não provém daí, mas da vertente divina, que se faz presente e operante desde o “âmago” do espírito criado. Também Teresa sabe que “só Deus é santo”, e que toda possível santidade humana é derivação da e comunhão na santidade d`Ele.
    No cristão, esta comunicação traz o selo trinitário: a partir do batismo o crente está selado pela graça da Trindade. E como plenificação dessa graça, Jesus faz ao crente a promessa suprema da inabitação: se alguém o ama e lhe é fiel na vida, “viremos a ele e nele faremos morada”.
    O cumprimento dessa promessa de Jesus terá lugar, pois, em todo o crente que lhe seja fiel no amor e nas obras. Porém terá lugar em fé, como a própria graça. Como todo o mistério da salvação.
    Em troca, o que acontece ao místico é que esse fato misterioso se desvela e passa ao âmbito da experiência. Obviamente sem eliminar a fé, mas traspassando-a de luz. E isso acontece para que o místico se converta em testemunha e profeta do mistério latente e presente na vida de todo o cristão.
    É justamente isso que acontece a esta mística, Teresa de Jesus. Por isso mesmo ela fica parada um momento, pena na mão, para deixar-se levar pelo espanto: “Oh! Valha-me Deus! Ouvir essas palavras e crer nelas é uma coisa; entender a sua verdade pelo modo de que falo é algo inteiramente diverso!” (n. 7).
    Teresa, como Paulo, fala disso a partir da experiência vivida, não desde ideologias ou teologias.
    O que é fascinante e surpreendente é o testemunho autobiográfico de Paulo passa a ser dado autobiográfico de Teresa. O trecho em que ele garante que “meu viver é Cristo” (Gl 2,20), é a primeira palavra do apóstolo incorporada nos escritos da santa carmelita.
    Ao falar da Humanidade de Jesus e de sua presença insuperável na vida do cristão, Teresa prometeu desenvolver certos e aspectos doutrinais nestas moradas finais do Castelo.
    Que a Humanidade de Jesus, os fatos e as palavras referidas no evangelho, inclusive as conotações corporais de sua condição de homem - sofrimentos, humilhações, paixão - não eram coisas reservadas somente aos aprendizes de cristão, válidas para um primeiro trato do caminho, mas que eram recurso insuperável ao longo de toda a vida cristã.
    Em toda a obra há sempre o esforço da alma e a ação infusa de Deus.
    É de fato um empreendimento espiritual que tem como fundamento a humildade.
“Por conseguinte, irmãs, para cavar sólidos alicerces, procure cada uma ser a menor de todas, a escrava da casa. Buscai meios e modos de causar prazer e prestar serviço a todas. O que neste campo fizerdes, redundará mais no vosso proveito que no delas. Assentareis pedras tão firmes, que o vosso castelo não virá a cair.” 7M 4,8.
“Torno a dizer: para isso é necessário que não ponhais vosso fundamento só em rezar vocalmente e em contemplar. Se não buscardes as virtudes e não vos exercitardes nelas, ficareis sempre anãs. E praza a Deus que vosso mal seja só não crescer. Como já sabeis- quem não cresce míngua. Tenho por impossível que o amor resigne a ficar estacionário, se verdadeiramente existe.” 7M 4,9
Santa Teresa tem a preocupação de fazer andar juntas Marta e Maria. O Senhor quer hospedagem, é necessário que o acolhamos, o demos de comer e em seus pés nos coloquemos à escuta. Assim seremos verdadeiros discípulos, carmelitas fieis na contemplação e ação.
Teresa termina de escrever no Mosteiro de São José de Ávila, na vigília de Sto André em 1577, somente o fez para glória de Deus.

Fontes bibliográficas:
Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou Moradas - Ed.Paulinas
Álvarez, Tomás- Comentário ao castelo interior- traduzido por Frei Antonio Perim

Material diverso de estudo elaborado por Frei Debastiani, Alzinir OCD

Menezes, Ana Geórgia Bezerra de e Frei Sciadini, Patricio OCD- As Moradas do Castelo Interior.


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