sábado, 20 de abril de 2013

XXX CONGRESSO- VI Moradas --Carlos Alberto de Almeida


Castelo Interior ou Moradas
VI Moradas

Introdução
            As sextas moradas são um tratado de vida mística, é a parte mais difícil do Castelo Interior, no qual Santa Teresa alargou-se. São 11 capítulos com material variado, fenômenos místicos e o caráter autobiográfico sob anonimato.
            Teresa expõe sua experiência espiritual no período de 1560 a 1572 (12 anos), data do matrimonio espiritual. Tudo é muito pessoal, tem por objetivo a sistematização teológica. Sua experiência pessoal ajuda-a na reflexão, bem como, a doutrina de alguns letrados (São João da Cruz).
            Motivos Bíblicos, personagens (A Samaritana...) e símbolos (Fogo, Escada de Jacó...)compõem as sextas moradas.
            As sextas moradas são caracterizadas pela ação de Deus que irrompe soberano no ser humano, manifestando-se a força e a radicalidade do amor que leva a alma a uma pureza extrema, com o objetivo de prepará-la a união com Ele. É um dom de Deus. Caracteriza-se ainda por novas e intensas funções no relacionamento, na comunicação (sobrenaturais). Supõe uma nova psicologia da oração, incluindo a participação do corpo, purificação e iluminações das regiões mais recônditas do espírito (entendimento, memória, vontade, sensibilidade, alma, espírito, corpo). Isto tudo se realiza através de novas graças: revelações/locuções-audições/êxtases-raptos/feridas de amor-ímpeto de morte. As sextas moradas caracterizam-se ainda pela oração (aspecto teologal), reconstrói interiormente a “criatura nova”, com uma imensa vida teologal: progresso, purificação e iluminação pela ; dinamismo teologal e iluminação da esperança até os céus e purificação e dilatação do amor.
            Entre outras palavras, as 6M desenvolvem um intenso processo passivo de iluminação, purificação e união:
-purificações passivas: Trazer a consciência estados afetivos e lembranças recalcadas no inconsciente, ficaráacrisolado tudo o que necessita de absoluta pureza;
-iluminação passiva: Pela graça, a alma recebe novas luzes, revelações, manifesta o mistério de Deus em Cristo, entende as palavras, comunica-lhe visões, teofanias...
- processo unitivo: Dispõe a alma a partir de novas graças para o matrimônio espiritual.          
            Essas experiências desembocam numa forte tensão ESCATOLOGICA, alimentada por ímpetos, feridas, desejos de ver a Deus, a fim de alcançar as formas mais estáveis e seguras. Desperta a virtude teologal da esperança, como desejo da glória apoiado na misericórdia divina.

A EXCESSIVIDADE DAS SEXTAS MORADAS
            Teresa dedica a esta morada mais de um terço da obra, ou seja, onze capítulos dos 27 que constituem o Castelo Interior. Não tinha pressa de escrever, pois é precisamente nesta morada que Teresa retoma o assunto que ficará truncado quando relatado no Livro da Vida (escrito há doze anos), pois conta agora com mais experiência e clareza da função que estas graças tem no processo místico. Reordena inteiramente e descreve de forma acertada, o que não foi possível no Livro da Vida, por ela chamado de “tratadinho”, como as quatro maneiras de regar o jardimda alma.
            As sextas e sétimas moradas requerem uma pausa na leitura, pois Teresa escreve com fôlego de exposição doutrinal, como um tratado de teologia espiritual. A teologia empregada tem cunho e tempera teresiano, bem como, uma plataforma subjacente de autobiografia pessoal. O livro contem a história interior da autora, seu currículo espiritual, camuflado e no anonimato. Na realidade, estas sextas moradas são vividas por Teresa no castelo de sua própria alma, por ela codificados dentro do esquema teológico do livro.
            A leitura destas sextas moradas requer confrontar com os capítulos de Vida (16-21 e 23-40), perceberá assim a riqueza encontrada nas páginas desta morada.
            Do ponto de vista autobiográfico, no decorrer de 15 anos de duração, período de dura luta com os teólogos de Ávila, que recusavam a referendar a autenticidade das suas vivências místicas, foi nesse períodoque ocorre opromessado “livro vivo”, da tranverberação do coração, da missão de fundadora, de tensão interior, ímpetos e desejos, êxtases e arroubos. Foi ainda neste período que lança mão a pena e demonstra seu carisma magisterial.
A MISTICA E O MISTÉRIO HOJE
            Antes se dizia: ”Existe Deus” e isto bastava. Hoje é preciso mostrá-lo a partir do centro da existência humana. Karl Rhaner (1904-1984), Teólogo Alemão, em 1982 afirmou: “O cristão do futuro ou será um místico ou não será um cristão”; ou perceberá a presença de Deus por sua experiência e em sua experiência, ou buscará por outros cantos um sentido para a vida. Ele dizia referindo-se a tendência ao racionalismo, a secularização e incredulidade já presente e manifesto na época.
            Para Juan Martín Velasco[1], há uma atualidade da mística numa época de eclipse cultural e social de Deus e de profunda e massiva crise das religiões estabelecidas. Uma atualidade originada pela sede de experiência espiritual de que muitas pessoas padecem numa cultura instalada na imanência.
            Inspirado em Teresa, Velasco questiona os cristãos de hoje: “Saberemos interpretar, como Igrejas, o sinal dos tempos que supõe, por uma parte, o abandono de tantos de seus membros, e, por outra, a sede de experiência, o desejo de transcendência, o interesse pela mística, a busca do espiritual que manifestam grupos cada vez mais importantes e variados de pessoas?”. Mas oferece uma resposta confiante: “Místicos hoje? Estou certo que sim. Místicos enquanto existam seres humanos, embora provavelmente sob formas tão variadas como eles e os tempos em que lhes caiba viver”.

Capitulo 1
A noite do espírito
“Começando o Senhor a fazer maiores mercês, surgem maiores trabalhos e sofrimentos. Menciona alguns e diz como neles devem proceder as almas que estão já nesta morada. É útil para quem sofre penas interiores.”
            Um aviso preliminar da Santa nos introduz na sexta morada e nos ajuda a compreender que estamos em terra de alta mística: tudo é dom de Deus, que dá para saborear essas delícias os que querem:
"... E existem muitas pessoas santas que nunca souberam o que é receber uma destas mercês, e outros que a receberam, que não são" (6M 9,16).
            Teresa inicia o itinerário espiritual trazendo à luz a realidade purificadora da noite mística (escuridão, provas, cruz...), pede o favor do Espírito Santo      (6M,1,1), ao adentrar nela produz-se a “ferida” definitiva da alma, que nos remete ao texto bíblico do Cântico dos Cânticos (vulnerasti cor meum) e a passagem da autobiografia que a santa conta a graça do dardo com que o anjo lhe fere o coração (V 29,13). Ferida pelo fogo do amor e dos desejos desencadeara a primeira grande prova: a noite do espírito, que a Santa, sente-se incapaz de descrevê-la, como ela própria diz :“porque é indizível”, entretanto elabora um esquema simples e claro.
            Tal prova (dolorosa e total) a que é submetido o místico, desde fora e de dentro de si mesmo, atingindo seu dinamismo psicológico, obscurecimento e impotência interior, nas suas relações com os demais, incompreensão e isolamento e em sua relação com Deus, radical sentimento de ausência e desamparo.
            Primeiramente Teresa mencionará (n.3) as tribulações (processo exterior) em que a consideravam possessa pelo demônio, sentindo o afastamento dos amigos e assessores de espírito. Teresa foi provada na comunhão, obrigada a “não pensar” em Cristo nem na sua paixão, inclusive a zombar da imagem do Senhor e fazer-lhe caretas (figas) cada vez que lhe aparecesse (n.4 e 5).“Também costuma o Senhor mandar enfermidades gravíssimas”(6M 6-7).
            Finalmente, descreverá o período mais intenso desta noite, “a prova da fé”. Período de desolação e secura em relação com Deus. Sentimento de sua ausência, lembranças dos pecados passados, secura em pleno mar de amor (n.8), obscuridade da mente e confusão na fé (n.9).
            Teresa dirá: “Em suma, nenhum remédio há nesta tempestade senão aguardar a misericórdia de Deus”(n.10) e diz que :”...Nada lhe penetra o intimo. Nem ela mesma entende o sentido das orações que recita vocalmente. Oração mental é absolutamente impossível nesses tempo, porque as faculdades não tem disposição para isso. A solidão a prejudica...”(n. 13).
            Então qual seria o remédio para esse tempo? A santa mesma nos diz: “....São angústias e penas espirituais que ninguém sabe definir. O melhor remédio não digo para acabar com isto, que não o acho, mas para conseguir suportá-lo—é ocupar-se em obras de caridade e outras obras exteriores. E confiar na misericórdia de Deus, que nunca falha aos que nele esperam...”(n.13).
            Perguntaríamos o “para quê” da noite? A resposta seria: O aperfeiçoamento dos olhos para entrar na luz do amanhecer. No livro da Vida, Teresa expressa que o sofrimento é necessário para a alma se purificar, tal como o ouro no crisol, a fim de receber o esmalte dos seus dons, padecendo ali o que deveria padecer no purgatório. (V 20,6).

Capítulo 2
Região dos Desejos
Diversos modos pelos quais Nosso Senhor desperta a alma. Trata-se de favores muito grandes e elevados, nos quais, ao que parece, nada há que temer.
            Teresa é a mulher dos desejos. Ao lermos atentamente os números de 1-7, os místicos não falam de trauma, mas de feridas. A ferida é uma expressão bíblica, como no Salmo 41,2 (a Corça ferida, que vai à procura das águas) e os versos de são João da Cruz (como cervo fugiste/havendo-me ferido).
            No n.1 alude a pombinha, empreende vôo mais altos, desejos ardente, pois o Senhor faz que o deseje ardentemente. Neste instante, o Senhor produz em Teresa desejos mais profundos “... Muitas vezes, estando à pessoa descuidada, sem se lembrar de Deus, Sua Majestade a desperta como se fosse um meteoro, ou um trovão, sem ruído. A alma entende muito bem que Deus a chamou...”(n.2).
            A santa fará uso do adjetivo “saboroso” com cadeia intencional, “... embora esse toque divino não produza dor, sente-se ferida saborosissimamente, sem atinar como nem quem a feriu... (n.2).”... É dor aguda— ao mesmo tempo em que saborosa e suave... (n.2). O fato é que a alma está ferida pelo amor do Esposo, e esta ferida é produzida conforme a mesma relata no livro da Vida 29,3, a história do anjo, do dardo e o transpassamento do coração.
            O simbolismo empregado pela santa neste capitulo aproxima-nos da “inefável região dos desejos”. Assim há uma combinação de símbolos: o da ferida e do fogo. Teresa faz questão de comunicar que não se trata de manipulação diabólica (n.6), nemde imaginação, nem melancolia, nem fantasia, (n.7).
           
Capitulo 3
O místico diante da palavra de Deus;
Como discernir a palavra de Deus.      
           
Trata do mesmo assunto e diz os modos pelos quais Deus fala a alma, quando assim é servido. Avisa o que se há de fazer, não se guiando a alma pelo próprio parecer. Dá alguns sinais para se reconhecer quando há ou não engano. Este capítulo é muito proveitoso.
Teresa entra na região da experiência religiosa profunda, trata-se de um argumento místico, o qual a santa tratará como Deus fala a alma, ou como “falas de Deus”, mais precisamente “locuções místicas”. Faz questão de enfatizar de onde e como vêm essas falas e chama a atenção especialmente de pessoas com natureza fraca ou melancólicas (n.1).
            É oportuno considerar dois enfoques, o religioso do crente ou do teólogo e o enfoque científico do psiquiatra ou do psicólogo. Tanto para um simples cristão como para um teólogo falar de “a palavra de Deus”, remete ao fato histórico de um Deus que se revela aos homens e fala com eles (através de símbolos da criação, da bondade das pessoas), ou nos exemplos bíblicos como de Samuel, Paulo e o prólogo da carta aos Hebreus.
            Já o enfoque cientifico é diferente, oposto, pois a ciência encerra o âmbito do seu saber das coisas criadas e de suas leis imanentes, ou seja, o que existe além desse espaço criatural e empírico, não interessa ou é rejeitado, desterrado para a condição de fenômenos paranormais. Diante dos fenômenos descritos por Teresa. O coerente dentro desse enfoque é considerá-lo como alterações patológicas, a um tipo de epilepsia.
            Teresa abordará duas linhas temáticas: a primeira testificadora :  o Senhor falou com ela e sua primeira missão é testificá-lo e a segunda, teológica e literária: definir como pode ser isso, e assegurar que “essa palavra d’Ele se diferencia netamente das alucinações”.
            Teresa está segura de que no auge da vida espiritual há pessoas – místicos ou profetas – aos quais Deus dirige a palavra, não só os inspira, mas que os surpreende com uma linguagem divina, seja como for, precisa dizer que assim aconteceu com ela.
            No livro da Vida, capítulo 19,9 se dará a primeira vez que “ouve” a voz de Deus: “Serve-me e não te envolvas nisso!”. Nesta morada (n.5) explicamelhor, pois quando uma alma está no cúmulo da extrema aridez e o intelecto obscurecido, com uma palavra do Senhor “não te aflijas”, desaparece de súbito, ainda que humanamente todos quisessem consolá-la. O objetivo é demonstrar como é a fala de Deus, entretanto esbarracom a barreira do inefável, pois simplesmente “palavras” e “falar”, no nossa pobre gramática humana para definir a incomensurável comunicação entre Deus e o homem.
            No n.1, Teresa distingue como são as falas de Deus: “Algumas palavras de Deus parecem vir do exterior, outras do mais intimo, outras ainda tão do exterior dela”. O característico das falas de Deus é a irrupção e o poderio e suavidade de sua palavra quando ‘vem sobre o homem’, como expressado nos profetas bíblicos. Teresa relata isto nos n.5 ao 7 deste capítulo.
            Entretanto, foi imposta a Teresa questionamentos sobre o discernimento do que acontecia com ela, vejamos sobre três enfoques diferentes:
1-     A partir do enfoque ético ou moral: O que acontece com ela é bom ou mau?. Impuseram de forma obsessiva seus primeiros assessores teólogos, considerando seugrande ânimo pelas ‘palavras interiores’. O que responderam negativamente afirmando ser: é mau, é diabólico o que se passa nela...;
2-     A partir do enfoque psicológico: Há aproximadamente um século e meio, expuseram as experiências de Teresa e seus testemunhos a nível científico, formulando o seguinte questionamento: normal ou anormal? Considerado o ponto de vista cientifico, os fenômenos que ocorriam com Teresa podem ser considerados alterações da psicologia normal. Porém são alucinações? Isto é, respondem a algo objetivo que supera de fato o fichário dos fenômenos sadios da psique, ou situam-se na zona do vazio e dos alucinógenos? Foram muitos os psicólogos e psiquiatras que responderam categoricamente: histeria, epilepsia, alucinações.
3-     Do ponto de vista religioso: para teólogos e metafísicos, isto é, para quem o fator Deus entra como hipótese possível no espaço dos interrogativos que o homem se faz diante da própria vida, o discernimento dessas palavras testemunhadas por Paulo ou por Teresa é, antes de tudo, um discernimento religioso do transcendente: palavras de Deus, sim ou não? Quando dizemos “enfoque religioso” ou “discernimento religioso”, não abaixamos o nível do problema. Nós o elevamos à altura do filosofo (de H. Bergson, por exemplo), ou à altura do teólogo (de Karl Rahner e Urs Von Balthasar por exemplo)ou do professor universitário que de repente deparou-se com situações existenciais semelhantes à de Teresa (Morente ou Frossard, por exemplo).

            Sem dúvida o enfoque de Teresa é o do ponto de vista religioso, pois a fim de discernir melhor, apresenta em confissão ao sacerdote, depois aos professores universitários, enfim submete-se ao crivo da Igreja. Quer sempre caminhar na verdade, na obediência, por isso a palavra de origem divina é obradora e transformadora, pacificadora psicológica e moral do homem e de caráter indelével, não se apagam da memória por muito tempo, ou nunca talvez. É uma palavra que se cumpre sempre que ela tenha alcance profético.
            O carismático não discerne a si mesmo, mas se deixa discernir por outro. Teresa consulta sempre a decisiva norma de discernimento, sempre que a palavra interior implique uma instância de ação ou irradiação pública (n.11).


Capítulo 4
Santa Teresa fala-nos do êxtase.
Como o Senhor suspende a alma na oração mediante os arroubamentos, êxtases ou raptos, nomes que parecem designar a mesma coisa. Como é preciso grande coragem para receber altas mercês de Sua Majestade.
            Foi em 1557. Teresa teve seu primeiro êxtase na Encarnação em Ávila (Vida 20,1), contava com 42 anos de idade, três de sua conversão mediante um Cristo “coberto de chagas”, que a levou por total confiança em Deus. Há ainda o problema da afetividade dispersiva, é materialmente incapaz de resolvê-lo. A partir da oração recorre com toda a sua alma ao Espírito Santo, e de repente sobrevém um arrebatamento tão grande que quase a tirou de si. Escutano fundo de si mesma uma palavra decisiva: “Já não quero que tenhas conversas com os homens mas com os anjos”. “Esta foi a primeira vez que o Senhor me fez esta mercês de arroubos...Assustou-me muito, porque  a moção da alma foi grande e essas palavras foram ditas no fundo do meu espírito”.
            Porém essas palavras sanaram pela raiz e definitivamente sua fraqueza afetiva e deixaram-na limpa e pronta para o que depois - nas Moradas – ela chamará de “desposório da alma com Deus. A essa altura de recordações e vivências regressará, à distância de vinte anos (1557-1577) quando abordará, no plano estritamente doutrinal, o tema do êxtase na presente passagem das Moradas.       
Etimologia – Êxtase:
- estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente etc. (Dicionário Houaiss)
Teresa não é dar definições, mas poderíamos resumir seu pensamento sobre êxtase assim:
- Antes de tudo uma graça santificadora, que prepara o espírito humano à união com Deus, graça cujo conteúdo é o amor, de conhecimento divino, de gozo e de dor...supera a capacidade funcional de nossas potências e sentidos: desborda “o nosso natural”, desencadeia uma atividade mais além deles no puro espírito humano, diante do espírito divino, e no âmbito corporal produz uma atenuação ou inclusive uma extinção da atividade psicossomática, com possível perda de sentido, excepcional repercussão na conduta e na personalidade do agraciado.
            Em resumo, segundo Teresa o êxtase envolve estes quatros planos: o teológico sobrenatural (graça que se infunde), o psicológico (amor, gozo, luz...), o somático (suspensão de sensações), e o ético prático (reforço da personalidade, libertação e elevação da conduta).
            No n.1 deste capítulo Teresa adverte que está próximo o desenlace no drama do castelo interior, aproxima-se as moradas centrais, que são as terminais. Para descrever o êxtase, no presente capítulo, vejamos como Teresa recorrerá a uma copiosa e fascinante imaginária: - “ansiedade da borboletinha em vôo livre (n.1); - ousadia: como uma mulher pobre que ousa “desposar-se com o rei” (n.2), - êxtase, centelha que põe fogo na ave fênix do espírito, para limpá-la a fogo e fazê-la renascer de suas cinzas (n.3); - evocação das simbólicas figuras bíblicas (n.6); de Jacó e a escada que alcança o céu (n.6) E Moisés diante da sarça ardente incombustível (n.7); - ingresso no camarim dos tesouros régios e ofuscação diante de sua verdade e beleza: camarim no céu empíreo da alma (n.8),- aproximação da morada secreta do castelo, fechada todas as portas de acesso (n.9 e 13); - nova evocação bíblica: identificação da alma com a esposa do Cântico, na busca anelante do Esposo “por bairros e praças”(n.10); à espera da luz, como o cego que foi curado por nosso Esposo”(n.11)
            Então, em que consiste o êxtase místico? Qual o núcleo dessa fulgurante experiência religiosa que chamais arroubamento rapto, êxtase..?Teresa adverte precisamente a dificuldade insuperável que tem o místico para superar a barreira da “inefabilidade” que permeia a singularíssima experiência extática, por alguns momentos o místico é transportado mais além da realidade intramundanas. Paulo o primeiro místico de todos, arrebatado ao terceiro céu, viu coisas e ouviu palavras que ao voltar, resultaram-lhe indizíveis, irreptiveis: ouviu palavras arcanas que um homem não é capaz de repetir (2Cor 12,4).
O que Teresa diz sobre a experiência do êxtase:
1º O exterior, parcialmente perceptível de fora: são as alterações da atividade corporal, com atenuação ou suspensão da sensibilidade. Nem ver nem sentir. Afastamento do mundo sensível. Suspensão que chega a afetar as funções psíquicas, como atender, comunicar com os outros, recordar... ”embora não esteja destituída de sentidos interiores, porque isto não se assemelha a um desmaio ou a um paroxismo, nos quais não se entende nenhuma coisa interior ou exterior”(n.3).
2º O interior. Muito mais importante. Pelo que entendo deste caso, a alma nunca esteve tão desperta para as coisas de Deus, nem com tão grande luz e conhecimento de Sua Majestade. Isto pode parecer impossível, porque, se as faculdades estão tão absortas que podemos dizer estarem mortas (o mesmo acontecendo com os sentidos), Como pode a alma entender este segredo não sei, nem talvez nenhuma criatura, só o próprio Criador..”(n.4) Não só conhecer, mas amar, gozar e sofrer.
Teresa frisa entender as verdades, iniciar-se nos segredos de Deus, é o núcleo do êxtase. ”ficam na alma certas verdades tão vividas da grandeza de Deus que, mesmo que não existisse nela a fé – ensinando-lhe quem é Deus e a obrigação que tem de crer n’Ele, ela O adoraria como tal desde esse momento (n.6).
Não há êxtase sem a experiência do mistério de Deus. Eis o núcleo religioso. Eis a teofania com que é agraciado o místico.
3º O transcendente, a graça originante. O êxtase místico é o resultado de uma interação entre Deus e o espírito humano. Teresa não se cansa de reiterar essa nova e inefável interação – Deus-homem – sem qual o êxtase resultaria em mero desvanecimento.
4º O eco humano do êxtase. É certo que o acontecimento religioso profundo se celebra no mais recôndito da morada que o Senhor do castelo reservou para si na alma humana. Mas usa repercussão no corpo têm manifestações fenomênicas espetaculares.
A finalidade do êxtase
            O êxtase serve para tornar possível “a união”, marco culminante do processo espiritual:
a-      O êxtase não é somente um corretivo de nossas insuficiências naturais, mas também uma superação de nosso augusto espaço vital e funcional;
b-     O êxtase, porém é para a alma um crisol de fogo;
c-      Por isso mesmo a graça do êxtase é passageira. Moralmente preparatória da pessoa humana para que possa avançar rumo a plenitude final das sétimas moradas.

Teresa atinou muito bem ao inserir o delicado tema do êxtase místico no contexto do complexo e progressivo do processo espiritual, dentro do tecido da vida mística do crente.


Capítulo 5
Novamente sobre o êxtase místico

Prosseguindo, diz como Deus levanta a alma por um vôo do espírito, diferente do que ficou dito. Explica várias causas pelas quais é necessário ter ânimo. Procura declarar em parte esta graça. È bastante proveitoso.
            Ao por-se nas sextas moradas o tema do êxtase, Teresa iniciou dizendo que havia dois tipos de êxtase.
Um primeiro modo de êxtase era interiorizante. No léxico moderno, diríamos, chamar-se “êntase”. Regresso ao âmago de si mesmo, até transcender a última camada do próprio subsolo e entrar na órbita do divino.
O “outro modo” de êxtase, do qual Teresa nos vai falar neste quinto capítulo, tem rumo em certo modo oposto: não pelo caminho da imersão em si mesmo, mas da saída de si: saída e elevação até ao transcendente e divino. É o êxtase propriamente dito.
Mais próximo de nós e de nossas categorias léxico - cientificas, tanto os psicólogos como os especialistas da mística preferem o termo técnico “levitação”. Este sim já tem carta de cidadania no Dicionário da Academia, que o define discretamente e sem comprometer-se em demasia: “Levitação; sensação de manter-se no ar sem qualquer ponto de apoio”. No Houaiss: erguer-se pessoa por cima do solo, sem que nada visível a sustenha ou suspenda.
A chave literária de leitura
            Teresa a fim de explicar o êxtase utiliza-se de recursos expressivos, antes de tudo, os símbolos, e de imagens literárias combinadas ou sobrepostas:
(n.1) – Ele, nosso grande gigante poderoso;
(n.3) – A imagem do mar e do navio;
(n.7) – A imagem da viagem a outra região;
(n.9) -A imagem do sol e dos seus raios
(n.9) – A imagem bélica;
(n.11) – A imagem nupcial.
            Teresa se pergunta se o que se passa no êxtase acontece-lhe com a alma no corpo, ou momentaneamente liberta dele (n.7) e (n.8). O fato é que Teresa insistirá que no retorno da lama ao corpo é adquirido um “conhecimento admirável”, que não saberia explicar (n.8), é precisamente o núcleo substancial do êxtase.
            Na descrição feita por Teresa – já vimos isso – fica pendente como uma espada a pergunta se “no corpo ou fora do corpo”. E a afirmação que se o êxtase se prolongasse, seria impossível continuar vivendo. Como se uma sombra de morte rondasse pelas proximidades do fenômeno extático.
            Teresa adverte (três vezes) que “é preciso ânimo” para submeter-se a essa espiral, e que Deus o infunde. Isto é, que o êxtase mesmo é o crisol que proporciona nova têmpera à pessoa. E que deixa “esculpida a memória” para viver sem esquecer.
            Enfim, Teresa no final do capítulo pontuará as três “operações de paz, sossego e aproveitamento”, que faz parte desta decisão esculpida: o êxtase induz a uma nova tomada de consciência da majestade de Deus e de sua transcendência, um novo conhecimento de si mesmo, nova postura relacional diante das “coisas da Terra”.

Capítulo 6
Fome e sede de Deus
A oração explicada no capítulo precedente produz um efeito pelo qual se entende ser graça verdadeira e não engano. Trata de outra mercê que o Senhor faz à alma com o fim de a mover a seus louvores.
            Teresa divide este capítulo em dois veios: primeiro fala dos efeitos que no místico deixa o êxtase “do capítulo anterior” (nn1-9); em seguida refere, como novidade, o surgimento de um jubilo incontenível, que “empenha” o místico nos louvores de Deus (nn.10-13)
            Ao lermos este capítulo, podemos seguir estas duas pistas: o impacto que o êxtase produz na vida teologal do crente; e continuando, a explosão gozosa e glorificadora que antecipa nela o louvor da glória e o converta em pura doxologia de Deus.
            Teresa retoma ao tema dos desejos. Já tinham aflorado com ímpeto primaveril da vida nova bem no umbral das sextas moradas (cap.2). Porém agora já não são desejos ponteiros, presos nos dardos da vontade ou nos latidos do coração. Agora se apoderam da pessoa na sua totalidade. A própria pessoa se torna “desejos”. “homem de desejos” define a Bíblia o profeta. Aqui “mulher de desejos!”. Essa totalidade é apresentada pela santa em dois planos, psicológico e teologal. No primeiro, inicia o seu texto assim: “a alma fica tão desejosa de fruir por inteiro (de Deus)..” (n.1). No plano teologal: é Deus quem “doa a estas almas um desejo tão grandíssimo de não descontentar em coisa alguma, por pequena que seja... (n.3: o tema dos “desejos” estará presente, um a um, em todos os números).
            Teresa deseja a Deus. Porém esse desejo é Ele que “o coloca”, isto é, o instala na alma. E com isso muda-lhe os registros desse mecanismo secreto do desejar. (n.1 e 3).
            Não é possível fazer um balanço de tudo isso. Desejos, gozar, tormento delicioso, ânsias de morrer-se, lágrimas e cansaço, ternura de amor, fogo e vôo de borboleta, ataduras e liberdade, cadeias e temores... São elementos que trazem consigo potencial diverso na psicologia de Teresa e em sua vida teologal. Dispersos no mosaico literário de seu texto acercam-nos do mundo interior e exterior por ela agora habitado.
            Pode até parecer à primeira vista, que o ímpeto dos desejos faça com que Teresa se volte para si mesma., fechando-a no castelo do próprio perfectismo. Que ela como todo o místico é retaguarda encastelada dentro de si. Pois não. Esse anseio de “ser mais e melhor” até atingir a medida da própria capacidade. Teresa o vive em plena comunhão com os outros. Vive-o pressionada por uma espécie de apelo bipolar; por um lado, ansiando o “a sós” de que falou no primeiro número. Por outro, atraída e envolta no turbilhão da cidade e da vida social. (ver n.3)
            “Entre estas coisas – penosas e deliciosas ao mesmo tempo – nosso Senhor dá à alma algumas vezes certos júbilos... estranhos”(n.10).è a explosão de gozo que estala de repente no interior de Teresa. Entrelaçam-se novamente dois componentes, o teologal e o psicológico. Esse seu júbilo não e um deleite remansado e reservado a si mesma: “todo o seu contentamento provoca louvores a Deus”(n.a0), em pura doxologiateologal. Porém também desborda ao redor como uma onda expansiva que alcançam os outros: “trata-se de um a felicidade de que a ajudassem a louvar Nosso Senhor. É apara isso que se dirige todo o seu ímpeto”(n.10)

Capítulo 7
O mistério do mal humano diante do olhar do místico
Trata da intensidade da dor que as almas sentem pelos pecados, quando Deus lhes concede as mercêssobreditas. Por muito espirituais que sejam, é grave erro não se exercitarem em trazer presente à humanidade de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e sua sacratíssima vida e paixão, assim como sua gloriosa Mãe e os santos. È de muito proveito
Teresa une dois temas neste capítulo das sextas moradas: “os pecados do homem (nn.1-4)” e a “Humanidade de Cristo(nn.5-15)”.O capítulo todo é redigido em forma de dialogo e metodológico com as leitoras do livro, as carmelitas de seus Carmelos. Neste contexto vital e caseiro é fácil entender a correlação e, até certo ponto, a coesão dos dois temas: Cristo Jesus que nos salva de nossos pecados. Não seria fácil, em troca, e quiçá sequer possível, entender e experimentar o mistério de sua Humanidade santa, sem relacioná-lo com o mistério do mal, sem projetá-lo sobre o mistério salvífico do Senhor Redentor. Essa correlação é compreendida mais e melhor precisamente desde a altura das sextas moradas. Isto é, desde a experiência mística da salvação, para onde convergem o mal e o Salvador.
Por que Teresa interrompe a exposição da experiência forte do mistério de Deus, para regressar ao tema do pecado? Não ficou este superado após as lutas das segundas moradas, com a metamorfose do bicho-da-seda em borboleta a partir das quintas moradas?
É patente que a ela o “trato com Deus” não só lhe apurou e intensificou a capacidade de “relacionar-se com os homens”, mas lhe aguçou o olhar para ver e entender tudo o que é humano, desde “a farsa desta vida” – como ela chama – até o recôndito mistério do castelo interior de cada homem. Disso decorre que o mistério do mal esteja sempre presente, e ela não perca de vista a realidade do pecado como parte da história humana.
            Teresa nos diz, que só agora e desde a altura da experiência é possível ao homem medir a envergadura e o profundo sentido ou (não-sentido) do pecado. Ao teólogo deixa uma mensagem paradoxal: que nem a partir da ética filosófica, nem da teologia vai ela conseguir ponderar adequadamente a dimensão deste abismo do mal. Chegar a esse abismo é algo que se consegue somente com o olhar penetrante do místico.
            Ao cristão comum, desprovido de teologias e hoje com serias dificuldades mentais, éticas e sociológicas para recuperar o “sentido do pecado”, o fato que a lhe falar dele seja uma mística humaníssima como Teresa quiçá lhe proporcione uma catequese inesperadamente eficaz.
            Recordamos que Teresa é uma convertida. E que compartilha a psicologia religiosa típica de todos os convertidos. Vive sua religiosidade, sua relação com Deus e consigo mesma tendo presente o fato da conversão. Em sua história não houve crimes, nem perversão nem pecados graves. Porém... Teresa foi capaz de resistir a Deus. Cruzou os braços quando Deus lhe indicava o rumo da vida. Atrasou por longos anos a hora de Deus. Isso fez com que ela perdesse tempo precioso, perdesse a vida. Mais de uma vez elevará ao Senhor o seu clamor: ”devolvei-me o tempo perdido”.
A Humanidade de Cristo
            Teresa a partir de um episódio da história pessoal[2], em seu relacionamento com a Humanidade de Cristo, deixou-nos uma tese doutrinal, uma mensagem decisiva para a vida espiritual: a centralidade radical da Humanidade de Cristo em toda a vida cristã.
            No n.6, explicitará a Humanidade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo: “sua sacratíssima paixão e vida”, inclusive o “corpóreo” de Jesus. A humanidade de Jesus para ela é o Jesus da historia da salvação. Antes de tudo, o Jesus histórico, enquadrado em tempo, lugar, pessoas e modos: seu ser, seu fazer, seu padecer. Sentimentos interiores e acontecimentos exteriores. Suas palavras e seu amor. Com atenção especial ao mistério pascal de Jesus, que padece a paixão e ressuscita glorioso. E com expressa ampliação ao Jesus do sacramento eucarístico. Porém também, Humanidade que se integra no mistério de sua pessoa, no qual “divino e humano a um só tempo” (n.9) constituem o conjunto misterioso de seu ser e de sua história.
            Teresa não reduz a Humanidade do Senhor ao componente corpóreo, tampouco a passa por alto, a ela como todo autêntico enamorado fascina com seus olhos, suas mãos transpassadas e gloriosas, sua presença, seu modo de falar. Tudo isso, quer o Jesus histórico, quer do glorioso e transfigurado. (ver Vida 37,4).
            O Padre José de Anchieta-SJ em seu livro “Conhecer Jesus”, faz a seguinte ponderação sobre a experiência humana de Jesus :
”A experiência humana de Jesus nos ajuda a perceber o quanto é equivocada a idéia de que a relação com o divino, ou com o transcendente, pode levar a pessoa humana a se afastar ou se alienar das experiências autenticamente humanas. A experiência humana de Jesus, sua relação íntima e profunda com Deus Pai, também ajuda a perceber o que de fato acontece com a pessoa humana quando esta se deixa conduzir pela ação de Deus em sua vida. Verifica-se justamente o oposto da idéia de que a relação com Deus distancia a pessoa da sua realidade histórica concreta. Assim, quanto mais a pessoa humana aceita depender do Deus Criador e Senhor, e dele se aproxima com liberdade e confiança, mais livre, mais autentica e mais humana ela se torna.” (COSTA, José de Anchieta Lima, Conhecer Jesus, Coleção Faje, Edições Loyola,2009)
            Utilizando de termos teológicos atuais, poderíamos resumir o pensamento de Teresa em duas importantes palavras: cristocentrismo e pancristismo.
            Para Teresa, a Humanidade de Jesus constitui o centro insuperável da vida cristã e estende seu influxo salvifico a todo o arco de crescimento da vida espiritual. Em cada cristão e na Igreja, inclusive no mais elevado da vida mística.
            O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática “Gaudium ET Spes”, encontra-se a seguinte afirmação: Só Jesus Cristo revela verdadeiramente o ser humano ao próprio ser humano.”[3]
            Cristocentrismo quer dizer que a fé e a vida cristã não estão alicerçadas em abstrações, nem em filosofias, mas na existência singularíssima de uma pessoa histórica que se chama Cristo Jesus. É ele o centro orbital de nossa vida, que é “vida em Cristo”. Sem ele ou fora d’Ele, a vida do cristão sai de sua órbita. É isso que por primeiro Teresa quer inculcar.
            O pancristismo, é a graça, a vida e a salvação que recebemos de Jesus em fluxo descendente, d’Ele a nós, mas também que em todo o processo da vida cristã – em todas as suas etapas e manifestações. Por Ele subíamos ao Pai. Nele se realiza e se consuma nossa união com Deus. (n.6).
            Teresa é uma contemplativa, sua experiência mística a introduziu no âmago do mistério de Cristo, enamorou-se de sua Humanidade e num momento decisivo de seu caminho interior, o ingresso na presença do Senhor Jesus, misteriosamente instalado ao seu lado direito (Vida 27,2).
            Teresa fórmula seu pensamento em termos categóricos: que a mais alta contemplação mística tem por objeto normal os mistérios de Jesus e sua Humanidade. Articula-o a partir de três etapas fundamentais do caminho da oração: a meditação do mistério de Cristo, a contemplação dele e a união com ele.

Capítulo 8
Visões Intelectuais
De como Deus se comunica à alma por visão intelectual. Dá alguns avisos e expõe efeitos causados por essa visão, quando é verdadeira. Aconselha a guardar segredo sobre essas mercês.
            Para a mística de Teresa o fato decisivo é Cristo Jesus, acontecimento também decisivo na codificação da e experiência mística do cristão. Teresa apresenta o acontecimento culminante da experiência mística, intimamente relacionado com o centro crucial de todo o seu ensinamento, sua tese cristológica da Humanidade de Jesus: o crente, assim como o orante contemplativo chega às graças mais elevadas da experiência cristã através da Humanidade de Cristo, sacramento fontal de todas as graças. Por isso, Teresa acrescentao “vivido por ela”, acontecimento decisivo de sua experiência mística é o Senhor, Cristo Jesus, homem e Deus.
            Os capítulos sete e oito formam uma espécie de conjunto de duas obras que se completam (díptico)cristológico categóricos. Primeiro, assenta a tese pancristologica a nível doutrinal: Cristo, Deus e homem, é mediador de todas as graças, quer na escala ascendente como na descendente (c.7). Segundo, eis aqui a prova: para continuar o processo de experiências místicas que conduzem à “união”, acontece o que Teresa chama “visão intelectual” de sua Humanidade”.
“para que vejais mais claramente, irmãs, que é verdadeo que eu vos disse – e que quanto mais adiantada está a alma, tanto mais se faz acompanhardesse bom Jesus –, será bom dizermos que, quando sua Majestade assim o quer, não podemos andar senão com Ele. Isso se manifesta com nitidez pelas maneiras e modos pelos quais sua Majestade se comunica conosco e nos mostra o amor que tem por nós..” (Cap.8,1)
            Teresa dá uma aula de teologia mística, não o faz a partir de teorias e sistemas, e sim a partir do que vivenciou (n.3). Neste capítulo, a essa experiência profunda, não codificável em linguagem profana, deu-lhe nome técnico, provavelmente escutado da boca de seus assessores, os teólogos de Salamanca: “chamam a isso visão intelectual, não sei por que” (n.2). Para nós é muito esclarecedora essa redução de sua inefável experiência de Cristo ao denominador escolástico de “visão intelectual”, que na pureza equivaleria a “visão ou percepção com o intelecto”.
Capítulo 9
Cristofanias
Como o Senhor se comunica à alma por visão imaginária. Recomenda muito não desejar tal caminho e dá razões para isso. È de muito proveito.
Nº 1 a 7 – Descreve como são as visões imaginárias;
Nº 08 e 9 – As falsas visões;
Nº 10 – Cristofania – verdadeiras visões;
Nº 11 a 13 – A necessidade de apresentar aos confessores e teólogos o conteúdo das visões;
Nº 14 a 18 – Descreve o porquê não se deve pedir a Deus a concessão de tais visões, evitar a vanglória.
            Após o capítulo insuperável da Humanidade de Cristo na vida do cristão: capítulo 7. E depois do capítulo 8, em que regressou ao fato decisivo de sua vida, a cristofania acontecida em puro mistério de fé, sem conotação alguma de ordem sensível, isto é, a experiência refinadamente espiritual da presença de Cristo na vida dela e do cristão. A essa experiência central Teresa chamou-a, com palavra tirada do linguajar teológico, “visão intelectual”.
            Neste capítulo, Teresa passa da “visão intelectual” as “visões imaginárias” do Senhor. Isto é, a uma nova e prolongada cristofania dentro da experiência do místico. Anuncia-o na epigrafe do capítulo, que “trata de como o Senhor se comunica com a alma por visão imaginária”.
            “Cristofania” é termo culto, desconhecido e jamais empregado por Teresa. Utilizam-no teólogos e biblistas de hoje, para indicar, especialmente, as manifestações do Cristo Ressuscitado e glorioso no âmbito de nosso mundo e nossas experiências sensíveis. E consequentemente, para que o crente místico possa indicar a percepção dessa realidade do Senhor glorioso e transmundano. Afirmação do poder que tem o “Senhor da glória” de irromper ou fazer-se presente na história dos homens.
O ponto de referência de Teresa é a cristofania de Paulo no caminho de Damasco, referida por Lucas no Livro dos Atos, e por Paulo, por palavras algumas vezes, por escrito outras. O relato bíblico do acontecido com Paulo consagrou os termos clássicos: aparição/aparições (apareceu-me) e visão/visões (foi-me dado ver).
No proêmio do capítulo, Teresa surpreende pela multidão de referências que contêm. A primeira e mais relevante é a convicção reiterada de que, ao lado das “visões místicas” autênticas, há outras anômalas, “que não são de nosso Senhor”. Por isso, uma constante ao longo do capítulo será o empenho de Teresa em distingui-las e etiquetá-las, com uma espécie de dublagem de pena, que alterna a exposição mística com o enfoque do psicólogo, para discernir visões e alucinações.·.
No proêmio conta ainda com a junção da cultura teológica vigente, leitura de livros e práticas de teólogos. São esses que dirão que estas visões imaginárias são suscetíveis de anomalias e truques diabólicos.·.
Por fim o proêmio, Teresa faz a avaliação das visões místicas que tratará neste capítulo. Estas visões “quando são de nosso Senhor” – isto é -, quando realmente contêm experiências místicas -, são mais proveitosas do que as experiências meramente espirituais, ”porque são mais conformes à nossa natureza”...
Capítulo 10
A verdade libertar-vos-á
“Outras graças que Deus faz à alma de diversas maneiras. O grande proveito que nela deixam”.
            Teresa se aproxima-nos da morada central, a mais profunda, a dos grandes segredos. Chama de antessala do “palácio grande e belo”(n.3), marco terminal do processo. Antes de chegar ao marco terminal, o morador tem que passar por duas zonas: uma de LUZ e outra de FOGO. Inicialmente pela LUZ DA VERDADE (cap.10) e pela tensão DOS DESEJOS, inconteníveis (cap.11). Assim, verdade e desejo são as duas asas com que empreender o voo à região misteriosa da última morada do castelo, onde acontecem as coisas MAIS SECRETAS entre Deus e a alma.
            A conexão entre VERDADE e LIBERDADE é um a tônica do Evangelho de São João (18,38), o que chama a atenção de Teresa (n.5). Teresa na sua vivência de Deus (experiência teofanica) entende que para adentrar nas sétimas moradas tem de se libertar da mentira, porque no amago de todo homem aninha-se a mentira: “todo o homem é mentiroso” (Sl 115,11).
            Teresa desenvolve uma visão cósmica da Verdade de Deus, na qual “se veem verdades”, manancial de liberdade e de felicidade profunda. Confirma a eficácia libertadora dessa chegada à Verdade. (ver n.2).
            Desde as primeiras moradas, no ingresso do castelo interior coloca em marcha a imperiosa tarefa do próprio conhecimento, conhecer a própria dignidade, a formosura da alma, na contraluz das próprias misérias e diante das zonas sombrias do pecado.
            Essa espécie de “socratismo teresiano” acrescentava à clássica recomendação do “conhece-te a ti mesmo”, uma nota especial, tipicamente cristã: conhece-te a ti mesmo, porém à luz de Deus, que te conhece mais e melhor do que tu mesmo e te ama. Isso impele o cristão a uma atitude que remodele sua condição de criatura diante da Verdade e Majestade do Criador. Essa atitude tem para Teresa um nome elementar, comum e corrente: É A HUMILDADE. (ver o n.7)
            Deus não nega a liberdade da pessoa, pois é Ele que concede como dom a ser plenamente assumido pela responsabilidade humana.
            Da experiência radical que torna o ser humano livre, culmina numa derivação modesta da humildade, porém Teresa a vê através de sua experiência mística, não é um gesto degradante ou de enfraquecimento do espírito, um retirar-se no apoucamento, refletindo na imagem corporal de quem abaixa a cabeça e se retira da convivência social, para Teresa, esta concretude da “HUMILDADE EVANGÉLICA” produz no axioma de “andar na verdade”, articula-se em duas ou três componentes:
- Antes de tudo, a humildade é a profissão da verdade, não em palavras mas em atitudes de vida. É o gesto existencial de “caminhar” na verdade, diante de Deus e diante dos outros, não querendo que nos tenham pelo que não somos.
    - O andar em verdade requer em primeiro lugar o conhecimento e o reconhecimento dos próprios valores. Mas bem examinados: valores que “possuímos”, mas que em geral recebemos de mão alheia. Por isso a consigna de atribuir a Deus o que dele recebemos, e a nós o que de nós nasceu...
    - E por fim no tecido de nossa verdade há uma franja negativa: são os contra valores. Temos de reconhecê-los. Teresa designa-os com termos fortes: “nossa miséria e ser nada”. Miséria é a presença do pecaminoso em nós. Ser nada é a nossa radical condição de origem: não somos obra de nossas mãos. Nosso ser é pura dívida: nós o recebemos. Disso a consignação forte: “em nossas obras, dar (=atribuir) a Deus o que é de dEle e a nos o que é nosso” (n. 6).

Capítulo 11
A chama do amor e dos desejos
Trata de uns desejos grandes e impetuosos de ir regozijar-se com Deus, que põem a alma em perigo de perder a vida. Refere-se ao proveito que resulta dessa mercê do Senhor.
            Amor edesejos não são vinho novo. Ao contrário, previamente foram cumulando tudo nesta região do castelo. Porém as “ânsias e grandes ímpetos” experimentados até aqui eram “nada em comparação com o que vou tratar agora” (n.2)
            Para leitura deste capítulo é preciso propor três chaves de leitura:
1ª chave: a autobiografia: a experiência mística vivida por Teresa      :
Duas ou três coisas resultam constantes e evidentes nesta passagem de Teresa: que testifica com absoluto rigor algo que ela vive não faz muito tempo; e que está convencida de que essa vivência surpreendente não é exclusiva sua; há outros que passaram por esse tipo de fogo; e finalmente que Teresa faz esse relato a certa distância, como da outra margem, já do cume das moradas finais, que lhe permitem compreender o sentido e o “para que” dessa passagem pela região ardente dos desejos. Pois houve um tempo em que esteve convencida de que esses desejos de vida eterna eram em si mesmos o desenlace..., mas estava equivocada.
Teresa foi, desde sempre, “mulher de desejos”, como o bíblico Daniel: “sempre tive grandes desejos” (Vida 13,6). No final de sua autobiografia, todavia, vai escrever: “sou a própria imperfeição, exceto nos desejos” (30,17). “Sempre tive grandíssimos desejos” (Rel. 4,3).
Na história íntima de Teresa houve, não faz muito tempo, um acontecimento incisivo que ela recorda sempre como marco referencial no aumento dos desejos. É o episódio que aconteceu na Páscoa de 1571, em Salamanca, durante o recreio comunitário desse dia festivo. (n.8)
2ª chave: atenção às imagens: Teresa recorre a simbologia elementar para expressar o que resulta indizível com palavras:
Como explicar ao leitor esta marulhada dos desejos sem recorrer às imagens? Na literatura de Teresa, o normal consiste em que cada experiência misteriosa, quanto mais inefável, tanto mais necessite do suporte expressivo de um novo símbolo ou, a nível inferior, de novas imagens plásticas.
Em primeiro lugar, o da “mariposa ou borboletinha”, que já deixou para trás sua vida de lagarta. E também de passagem, o símbolo da água: os desejos chegarão ao ponto de manter a alma “abrasada de sede” e necessitada da água prometida por Jesus à Samaritana (n.5; com novos matizes em n. 6).
Em troco, ao longo de todo o trecho sobressai a imagem do fogo. Alguém disse, confrontando a simbologia de Teresa com a de Frei João da Cruz, que ela é “filha da água”, e ele é “do fogo”. Pois bem, aqui neste contexto dos desejos, Teresa passa da água ao fogo. Pouco a pouco desenvolve a nova imagem da seguinte maneira. (n.2)
3ª chave: a doutrinal: que efeito produz nela e no místico.
              Ao leitor dos escritos teresianos é provável que lhe pareça o mais importante e impressionante nestas páginas da Santa esse alto diapasão dos desejos. Desejos quase transumamos. Que parecem escapar a qualquer parâmetro psicológico.
No fundo, a autora está respondendo, como muitas outras vezes, a duas perguntas. Por que esse furacão de desejos? E desejos de quê?
À primeira pergunta o porquê desses surgir violento, a resposta é complexa. Faz parte da peculiar situação humana do místico. Chega para o místico o momento em que percebe, com a mais aguda ponta de seu espírito, “a ausência de Deus” na própria vida. Ausência e transcendência de Alguém absolutamente necessário e indispensável para viver, para amar e possuir. E ao mesmo tempo inalcançável, por causa da condição terrestre de nosso viver, inserido e ancorado num mundo sensível que pouco a pouco se vai esgotando e resultando insuficiente para quem vive. Como se todo o criado se deslocasse para uma região de vacuidade e insuficiência. É assim como se produz no místico a sensação da solidão total. (n.5)
                   Em segundo lugar, o místico é introduzido em outra zona de experiência: uma nova e estranha experiência da vida, desta nossa vida em sua dimensão puramente biológica. Recordemos que ao verter essa experiência em poesia, tanto Teresa como frei João da Cruz começam por dirigir-se à própria vida e interpretando-a: “Vivo sem viver em mim...” Frei João terminará uma de suas estrofes com o grito: “que esta vida não a quero”. E Teresa abrirá o primeiro solilóquio de suas Exclamações com este outro grito: Oh! Vida, vida, como podes sustentar-te estando ausente de tua Vida...!” 



Bibliografia
ÁLVARES, TOMÁS, OCD,Introdução à Leitura do Castelo Interior ou Moradas,1976
COSTA, JOSE DE ANCHIETA LIMA COSTA, Conhecer Jesus, A Cristologia a Alcance de todos,São Paulo, Loyola, 2009.
Livro Castelo Interior ou Moradas, São Paulo, Paullus, 2012, 17ª edição
Obras Completas de Teresa de Jesus, Texto estabelecido por Fr. Tomas Alvares, OCD, Edições Carmelitanas, Edições Loyola, 4ª edição, 2009.
Revista do Instituto Humanitas Unisinos, pag. 18-24, dezembro de 2011, edição nº 385.
VATICANO II, mensagens, discursos e documentos/tradução Francisco Catão – 2ª Ed – São Paulo : Paulinas, 2007




Elaborado por :
Carlos Alberto de Almeida





[1]Juan Martín Velasco é professor emérito de Fenomenologia da Religião da Universidade Pontifícia de Sa­lamanca, em Madri e da Faculdade de Teologia San Dámaso, especialista em temas relacionados à mística. É doutor em filosofia pela Universidad Católica de Louvain, na Bélgica. Foi reitor do Seminário de Madri (1977-1987) e diretor do Instituto Superior de Pastoral da Universidade Pontifícia de Salamanca durante 16 anos. Em português, publicou Doze místicos cristãos (Ed. Vozes, 2003) e A experiência cristã de Deus (Ed. Paulinas, 1994). Dentre suas outras obras, destaca-se El fenómeno místico (Ed. Trotta, 1999) e Introducci­ón a la fenomenología de la religión (Ed. Trotta, 200
[2] Extravia e “traição” (Vida 22,3), embora inconsciente. Constituem que, ao ser introduzida nas novidades da experiência mística, alguém a tenha aconselhado a deixar de lado o recurso à Humanidade de Jesus, para vogar mar adentro no mistério da divindade. E ela se ateve a esse conselho, mesmo que por brevíssimo tempo. Até que percebeu o seu erro, com uma sensação de vazio e de vertigem, e retornou sobre seus passos. Neste erro fora induzida por um livro que ensinava “conformar a inteligência” e submergir-se na contemplação da divindade (IB.22,1), tendo por base uma curiosa técnica de yoga cristão capaz de subjugar.
[3] Ao revelar o mistério do Pai e de seu amor, Jesus Cristo, o último Adão, manifesta plenamente aos seres humanos o que é o ser humano e a sublimidade da vocação humana...(GS 22)

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...