terça-feira, 2 de julho de 2013

Uma imagem famosa

Texto de um estudo iconográfico inédito, por Gabriel Saggi e Emanuele Boaga


Em Corleone, na Igreja do Carmo, existe uma imagem  feita por Tomásio de Vigília em 1492, que é a mais famosa de todas sobre o tema de "Maria Carmelita, Virgem das Virgens". A obra tem um grande valor, porque toda a sua composição pictória é uma síntese da espiritualidade mariana da Ordem nos séculos XV e XVI.
Lançando um olhar a toda essa composição, no centro vemos Maria Santíssima representada como a "Mulher do Apocalipse", descrita pelo Apóstolo São João em Ap. 12,1. A Virgem aparece aqui suspensa no ar,tendo debaixo de seus pés a lua arqueada e sobre sua cabeça dois anjos sustentam uma coroa de doze estrelas. Uma aréola de raios dourados cinge toda a figura. Da cabeça desce um manto, ornamentado com motivos florais, que em dobras graciosas caem em redor de sua figura. No braço esquerdo segura o Menino Jesus e a mão direita mostra o seio, como a dizer que do seu leite virginal todos devem nutrir-se como de uma fonte de inocência e pureza. O Menino Jesus no braço e o gesto de aleitamento revelam ao mesmo tempo a divina maternidade de Maria. É profundo, portanto, o sentido teológico no que se refere a Maria: a sua maternidade divina, a sua virgindade, o fato de ser a nova "Eva", a mulher do Apocalipse, significando que todas as graças, todos os favores e toda a salação nos vem de Jesus, mas pelas mãos maternais de Maria.
À direita sob a imagem maior, aos pés de Maria, está presente a lembrança da visão de São Simão Stock - e talvez é esta a sua mais antiga representação em um quadro - como um pequeno particular isolado, e sem específicos desenvolvimentos da ideia da preservação do inferno. Próximo a S. Simão Stock está S. Brocardo, com o livro da Regra na mão e ao lado do primeiro convento ou oratório do Monte Carmelo. Ao lado esquerdo, da outra parte, estão as figuras dos "Padres da Ordem", ou seja, os Santos Ângelo de Sicília e Alberto de Trápani. Na parte superior da imagem maior, estão os santos profetas Elias e Eliseu, com inscrições que dizem: "Foi-lhe dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo" (Is 35, 2), "Maria Carmelita, Virgem das Virgens".
De ambos os lados da imagem maior, De Vigília pintou em oito quadrinhos as ilustrações do conteúdo da "Bula sabatina", e como Nossa Senhora protege sua Ordem e seus devotos, introduzindo-os no céu e apresentado-os à Santíssima trindade.
Acompanhemos o pintor nos diversos quadrinhos.
No quadrinho superior do lado direito vemos os frades carmelitas reunidos em capítulo.  Dois deles vão saindo, enviados como delegados ao Papa para obter uma nova confirmação da Ordem. O pintor, com liberdade toda própria da Idade Média retirou toda uma parede, para poder apresentar aos frades reunidos em capítulo.
No seguinte quadro encontramos o Papa João XXII sentado no trono e cercado do colégio dos cardeais. Os dois delegados se retiram sem ter conseguido a tão almejada proteção.
No quadro seguinte, Nossa Senhora, vestida com o hábito carmelitano, aparece ao mesmo Papa, respeitosamente ajoelhado, e apontando para os carmelitas, estranhamente presentes à visão, coloca nas suas mãos um longo pergaminho escrito, ordenando-lhe que confirme a Ordem do Carmo. É interessante notar, como o espírito medieval indicou que o fato ocorreu à noite, pois no mesmo quadro em miniatura o pintor representou o Papa na cama.
No último quadro deste lado direito, vemos de novo o Papa no seu trono cercado de cardeais. Ele entrega aos frades carmelitas o longo pergaminho (a "Bula Sabatina") recebido de Nossa Senhora. É interessante observar que o Papa, exceto na visão noturna, aparece sempre rodeado pelos cardeais; é um sinal de que neste fato está presente a Igreja, na sua hierarquia.
O fato de que estes quadrinhos do lado direito se referem à história da "Bula sabatina" é confirmado não somente pelas inscrições debaixo de cada um deles, mas também pela representação dos mesmos do lado esquerdo. A partir de baixo, no primeiro deles vemos um padre carmelita, diante de um altar de Nossa Senhora, com dois santos carmelitas (ou seja, os "Padres da Ordem"), no ato de admitir uma senhora na Confraria da Ordem, dando-lhe o manto branco, isto é, como sinal do hábito da Ordem. Por esta recepção fica cumprida a condição fundamental do privilégio sabatino, que foi dado a todos os membros da família carmelitana.
No segundo quadrinho ao lado esquerdo, vemos o purgatório, representado como um lago de foto, dentro de uma gruta. Dois anjos retiram daquele lugar as almas devotas de Nossa Senhora do Carmo. É curioso observar como as almas, fora do corpo, são representadas nuas, trazendo o Escapulário "noturno" dos religiosos. Pode-se explicar assim: o manto branco, na "Bula sabatina", é dado como "sinal do santo hábito", isto é, do hábito da Ordem, trazido pelos religiosos. Os leigos não poderiam, portanto, trazer o referido hábito, uma vez que o direito canônico da época prescrevia que, se alguém trouxesse o hábito de uma Ordem por um ano inteiro, tornava-se automaticamente religioso professo da mesma Ordem para todos os efeitos e com todas as consequências. Mas,como na vida além da morte, no céu, não vigora o direito canônico, válido somente na terra, eis que as almas aí trazem o mesmo hábito da Ordem, ainda que em forma reduzida: o Escapulário noturno.
No quadro seguinte, Nossa Senhora recebe as almas debaixo do seu manto protetor. Uma delas é de um religioso carmelita que traz também o escapulário pequeno. Neste quadro, Maria Santíssima está cercada de anjos tendo a seus pés dois deles com trombetas, como que chamando as almas: ou o pintor quer dizer que tais almas permanecerão sob o manto de Maria até a ressurreição final?
No último quadrinho, finalmente, vemos a Santíssima Trindade, as Três Pessoas num único contorno cercado de uma auréola de raios dourados. Dos lados aparecem os justos. Embaixo as almas são apresentadas a São Pedro por um anjo; e depois, Maria acolhe e apresenta à Santíssima Trindade as almas por Ela libertadas das chamas do purgatório. Assim, pela mão da Virgem do Carmelo e por meio da afiliação e participação aos benefícios espirituais de sua Ordem através do Hábito, conseguem a felicidade eterna junto ao trono do Altíssimo e em companhia da Mãe amável, da Rainha do céu e da terra, da Virgem Mão do Carmelo.
Terminando a descrição destes quadrinhos, não podemos deixar de admirar toda a representação e conteúdo desta imagem. Com uma simplicidade e uma minúcia verdadeiramente medievais, o pintor se expressou de tal maneira que o povo simples sem dificuldade, compreendia todo o conteúdo da devoção mariana dos carmelitas e de seus sublimes benefícios espirituais.
é de notar ainda que esta imagem foi reproduzida pelo próprio De Vigília ou por discípulos seus ao menos três vezes, mesmo estando ausente nestas cópias o detalhe de Simão Stock recebendo o Escapulário e o fundo do campo geral central seja diferente. Este fato de fazer cópias nos prova como a mesma imagem de "Maria Carmelita, Virgem das Virgens" aponta o período e o ambiente da manifestação da devoção do Carmelo siciliano à Senhora do Carmo nos séculos XV e XVI, interpretando toda a visão da Ordem sobre o mistério de Maria: a Mãe de Deus, a Virgem puríssima e a Irmã modelo da vida carmelitana, e a protetora de seus filhos e devotos.

(Livro: A Senhora do Lugar - Maria na História e na vida do Carmelo, Emanuele Boaga, Ocarm. Livraria e  Editora do Carmo, Curitiba/PR, 1994, pp. 197-1999)

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