quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Podemos ou não nos divertir no Carnaval?




Qual é o gordinho que nunca passou o final de semana se fartando com comidas gostosas como despedida para a dieta que iria começar na segunda-feira? Da mesma forma o Carnaval, que significa "festa da carne" tem sua origem como festa religiosa onde os cristãos se fartavam de carnes, assados e frituras, entre o domingo e a “terça-feira gorda” diante da perspectiva de passar quarenta dias em abstinência de carne no período da Quaresma, que é um tempo penitencial em preparação a Páscoa do Senhor.

Atualmente, a Igreja só determina a abstinência de carne e o jejum na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme Can. 1251 do Código de Direito Canônico. Porém, a tradição do Carnaval continua até os dias de hoje.

Muita gente acredita que a Igreja é contra o Carnaval e o condena, mas isso não é a verdade. A Igreja Católica não é contra o Carnaval, mas contra os excessos cometidos durante o Carnaval. Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira (PB) aborda o tema[i]: “Há, porém, o Carnaval verdadeiro, marcado por uma alegria verdadeira. Nesse Carnaval é dispensado o prazer irresponsável, a bebida, as drogas, para se celebrar a vida. O católico pode comemorar o carnaval, desde que respeite os princípios cristãos, sem se entregar aos excessos permissivos tão difundidos em nossos dias. Quem não participa das festividades públicas, procure se alegrar junto a sua família e amigos. Isso precisa ser resgatado. As Dioceses, as Paróquias e as Comunidades deste país promovem um carnaval diferente, repleto de alegria, a qual Deus quer para todos os seus filhos. Em todo caso, é carnaval. Quem vai fazer festa que faça com respeito ao próximo e aos valores. Muitos decidem passar o Carnaval na tranquilidade do campo, da praia. Outros em retiro espiritual, numa experiência de Deus, profunda e transformadora. Outros ainda vão ficar em casa e assistir ao espetáculo de criatividade, de luz e de cores, promovido pelas escolas de samba.”



Dessa forma, vemos que há formas nobres, simples e sadias de lazer. Elas irradiam a alegria autêntica que revigora o corpo e o espírito. A alegria é uma necessidade básica do ser humano. Povos, raças e culturas das mais remotas origens encontraram formas para exteriorizar esse desejo. Cada país, de acordo com sua cultura e costume, possui suas datas festivas. No Brasil, o Carnaval é uma delas.

Fé e consciência limpa são inseparáveis na vida do cristão, inclusive durante essas festividades. “Tudo o que não procede da fé é pecado”, ensina São Paulo (cf. Rm 14,23). A fé é a luz que ilumina a consciência e a confirma nas convicções morais. Quem se guia pela consciência do que é bom, digno e justo, possui um “faro moral”. Sabe posicionar-se, escolher e decidir onde, como e com quem se divertir ou não. E equivocada a ideia de achar que a religião é contrária à alegria, levando os fiéis à tristeza. O Evangelho é uma mensagem alegre e feliz! Dele nos vêm as festas religiosas, as celebrações e solenidades festivas, as comemorações de datas e fatos históricos. A alegria cristã é autêntica, simples e espontânea!



O cristão deve sempre ser alegre, conforme nos ensina Dom Eurico dos Santos Veloso, Arcebispo Emérito de Juiz de Forma-MG[ii]:" O cristão que vive na esperança não pode ser triste. Já assim falava São Francisco de Sales: “Um santo triste é um triste santo” condenando aqueles que não se rejubilavam com a graça. São Paulo, igualmente, concitava os evangelizados à alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor, de novo vos digo alegrai-vos” (Cf. Fl. 4,4). Os dias de Carnaval deveriam nos conduzir à alegria do corpo e do espírito, pois se fomos criados do limo da terra,  temos também em nós insuflado o Espírito de Deus e recebemos este mesmo Espírito pelo qual podemos chamar a Deus de Pai. Quando o povo hebreu foi reconduzido do cativeiro de Babilônia, o sacerdote Esdras depois de lhe ter exposto a lei, convida-o à festa: “Hoje é dia consagrado a Javé vosso Deus... Não vos entristeçais nem choreis... Ide e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e mandai porções a quem não a preparou, porque hoje é um dia consagrado a nosso Senhor”. (Cf. Neem.8,10). Esse é o espírito que nos deveria animar nos dias de Carnaval: a alegria que se traduz nas festas e danças a que todos são convidados, ricos e pobres, porque nossa salvação está próxima, como confirma São Paulo na complementação do texto acima."




Portanto, como carmelitas seculares, responsáveis e conscientes do nosso papel como cristãos, podemos nos divertir ou nos recolher nesses dias de Carnaval, conforme discernirmos. O que não podemos é cair no farisaísmo, como nos admoestou Dom Hélder Câmera: "Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que aconteceu... Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu... Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!” (Dom Helder Câmara, 01 de fevereiro de 1975, durante sua crônica radiofônica "Um olhar sobre a cidade" da Rádio Olinda AM).

Desejo a todos, portanto, um excelente Carnaval!
Luciano Dídimo

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