segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Entrevista de Danielle Cabral, ocds, com Frei Pierino Orlandini, ocd, delegado provincial para as comunidades e grupos OCDS do Sudeste e Centro Oeste do Brasil.



Frei Pierino Orlandini, ocd
Em primeiro lugar, quero agradecer a oportunidade que você, Danielle, me oferece para eu poder apresentar-me aos que não me conhecem e, no mesmo tempo, responder às suas perguntas que, certamente, irão elucidar melhor tanto  o papel do Delegado, quanto - o que é mais importante - as propostas de vida do Carmelita Descalço Secular na atualidade.

1.    Gostaria que nos falasse um pouco sobre a sua historia de vida. Sua família, seu país de origem e como se tornou Frade Carmelita.  Quais funções ocupou na Ordem? De qual gostou mais?
Apresento-me: meu nome é Pierino Orlandini, sou frade Carmelita Descalço. Atualmente resido em Belo Horizonte na Casa “São João da cruz” e exerço a função de Delegado Provincial da OCDS no sudeste e Centro Oeste do Brasil.
Nasci na Itália, num povoado de mais ou menos 3.000 habitantes, na Província de Viterbo, chamado CANEPINA, em 23 de outubro de 1944. Canepina é uma cidadezinha bem perto de Roma, em montanha, cercada toda ela do verde das castanheiras, oliveiras e aveleiras. Meus Pais, Maria e Felice, deram vida a seis filhos: três mulheres e três homens, todos vivos, graças a Deus. Eu sou o último dos irmãos. Uma família simples e modesta, de princípios cristãos profundamente enraizados.
Entrei no Seminário dos Carmelitas Descalços da Província Romana na Itália, em Anzio, nas cercanias  de Roma, com apenas 12 anos, atraído pelo exemplo e pela alegria  de vários Padres  e estudantes de filosofia Carmelitas, presentes frequentemente na minha cidade, pois o convento deles distava apenas 15 quilômetros de minha cidade natal. Deus se serve de tudo para fazer sentir seu chamado! É claro que, sendo ainda criança, não tinha bem claras as motivações do meu “querer ser Padre” e, tanto menos, “ser Padre Carmelita”. Motivações que foram-se esclarecendo, purificando e firmando durante o longo tempo de formação: seminário menor, seminário maior, Colégio de filosofia e Faculdade de teologia.
Lembro ainda que, quando entrei para o Seminário de Anzio, acompanhado por meu pai, era a primeira vez que eu usava calça cumprida, a primeira vez que eu viajava de trem, a primeira vez que eu vi o mar (e fiquei deslumbrado!), a primeira vez que eu saia de casa e a primeira vez que me vi sozinho (depois da partida de meu pai) mesmo estando em companhia de uns 50 outros seminaristas! Mas tudo era novo,  diferente demais, em comparação com meus costumes familiares! Não faltaram lágrimas na hora da despedida do meu pai!
Mas Deus, em seu projeto misterioso e amoroso – agora eu vejo claro isso – soube sustentar minha fraqueza e me segurou, fazendo-me vencer os momentos difíceis de minha formação, até chegar- por causa de Deus e por sua graça – à Profissão solene ( 08 de dezembro de 1965) e à Ordenação Sacerdotal (17 de maio de 1970).
Meus estudos e etapas formativas  fiz nos conventos da Província Romana. Teologia fiz na Faculdade Teológica dos Carmelitas Descalços – Teresianum -  de Roma.
 Terminada a teologia, fui ordenado sacerdote por Paulo VI em 1970 e, um ano depois, exatamente o dia 14 de agosto de 1971, cheguei ao Brasil. E aqui estou – já se foram 43 anos – feliz e trabalhando neste campo do Senhor. E, olhando para trás, posso concluir, hoje com a intuição e o entendimento da fé, que Deus fez tudo bem, que em tudo Ele teve razão, embora meus planos fossem diferentes.
Meu projeto pessoal era partir em missão à África, na atual República do Congo, projeto que alimentava correspondendo-me com um dos missionários da Província Romana que lá estava feliz e na espera de outros missionários. Mas Deus, que tem seus projetos, que nem sempre coincidem com os nossos, me surpreendeu com uma nova, inesperada proposta do Provincial da Província Romana, Frei Eduardo Raspini: BRASIL! Proposta que eu aceitei com tranquilidade e alegria. E aqui estou ainda, feliz.
Funções exercidas: sinto-me feliz, não pelas funções jurídicas de responsabilidade exercidas na Província – na formação, como Mestre de noviços, na direção de casas, como superior, no governo da Província, como Provincial e na administração, como Ecônomo Provincial – mas pelo fato de poder ajudar a construir, como religioso simplesmente nossa  “Província São José” do sudeste do Brasil. Sinto-me feliz sendo Carmelita (ainda aprendendo a sê-lo de modo autêntico e coerente) e poder fazer parte desta grande Família, fundada por Santa Teresa,  por aquilo que ela representa na Igreja de Cristo, pelo seu carisma contemplativo-apostólico, tão atual em nossos dias. E não me canso de agradecer o nosso Deus pelo dom da vocação.
Quanto a gostar ou não gostar de funções exercidas, penso que tudo o que a gente faz com amor para o crescimento da própria família, mesmo contrariando as próprias tendências naturais, faz com que a gente se sinta bem, em qualquer função, pois está fazendo a vontade de Deus, que é o melhor que a gente pode fazer. Mas, posso confessar, com simplicidade, que  o que mais me custou, por ser contrário à minha índole, ao meu jeito de ser ( eu dizia: é contrário de mim!) foi o exercício da função de Ecônomo da Província. Mas tentei exercê-la com responsabilidade e como um serviço à Província,  embora não me trouxesse nenhuma gratificação humana.

2.    Como se sente sendo designado para ser Delegado provincial do Sudeste e de que forma poderá ajudar as Comunidades Seculares?
É com muita alegria que aceitei a designação como Delegado Provincial da OCDS, Os Carmelitas Descalços Seculares  são irmãos e irmãs que amo muito, pois são membros da mesma Família a qual  eu pertenço, que vivem com seriedade e alegria o carisma teresiano, que é meu também. Irmãos e irmãs que eu quero ajudar a crescer, a se tornarem fermento bom no ambiente em que vivem, trabalham e são presença ativa do Reino. O carisma do Carmelo ele deve aparecer mais pelo testemunho de vida, do que propriamente pelas palavras. Deve-se expandir “por contágio”, como diz o Papa Francisco.
 Desejo visitar as comunidades a mim confiadas, não tanto para ensinar, mas para partilhar e aprofundar com alegria o carisma carmelitano, por reciprocidade. E, confesso, em minhas visitas – já fui Delegado Provincial durante um triênio alguns anos atrás - sou eu que mais aprendo nesta partilha de vida. Partilhamos doutrina e vivência. Sei que, juntos, nos animamos a viver com coerência e alegria nossa vocação carmelitana, cada qual conforme o próprio estado de vida.

3.    Como é ser um frade carmelita no Brasil ? Qual o desafio maior?
Não penso que haja muita diferença em ser frade carmelita aqui no Brasil ou em qualquer parte do mundo, se formos conscientes da especificidade do nosso carisma e de nossa missão. O carisma é o mesmo aqui ou na Indonésia, ou no Japão ou na Itália. Digo, carisma, valores teresianos, como sejam a união com Deus, como meta de um “caminho de perfeição” que devemos percorrer com determinação e confiança, a insistência na oração como “diálogo com Quem nos ama e de Quem nos sentimos amados”, o amor de Deus que se manifesta na “humanidade de Cristo” e o nosso amor para com Ele, que se manifesta em sermos “amigos fortes de Cristo”, a vida de fraternidade na simplicidade e na amizade, o amor pela Igreja, que devemos amar como filhos e filhas, a prática das virtudes humanas e teologais, não perdendo de vista nunca o objetivo de nossa vocação ao Carmelo.
Este é o essencial, que não pode ser deixado nunca; o resto é tentar viver estes valores revestidos da cultura própria de cada Pais, na qual o Evangelho de Jesus e os carismas da Igreja se encarnam.
O desafio principal consiste exatamente em ser fiel ao mandato de S. Teresa, sem confundir o que é valor passageiro do que é valor permanente, ou como disse uma vez com bom humor um Frade Carmelita espanhol : distinguir  o “continente” do “conteúdo”, pois o conteúdo teresiano não muda; o que muda são as formas e os tempos, o exterior que, sem o interior, é vazio de tudo.  

4.Por qual Santo ou Santa tem uma devoção em especial e por quê?
Com certeza, ocupa um lugar importante em minha vida Santa Teresinha, pois ela me acompanhou sempre, desde o noviciado – todos os dias eu lia a “História de uma alma”- quando ainda não entendia muito a fundo o “Carmelo” e tinha uma noção bastante errada de Deus. Ela me ensinou a confiar em “Deus Misericordioso” e, na sua simplicidade, foi me explicando o caminho da santidade, que é caminho do amor. Até hoje, que entendo um pouco mais de Carisma Carmelitano, (mas não cheguei à meta, estou em caminho) ela me acompanha, pois preciso constantemente voltar às fontes de minha vocação, para não perder o rumo certo.

5.Gostaria que deixasse uma mensagem especial para todos os Carmelitas Descalços Seculares que estão lendo essa entrevista.
Queridos irmãos e irmãs no Carmelo, que é de Teresa de Jesus, de João da cruz, de S. Teresinha, de muitos outros santos e santas e, hoje, nosso também.
 Sintamos verdadeiramente o Carmelo como nosso, mas aberto a todos; como fonte de água cristalina, de onde todos podem saciar sua sede de Infinito, que é a vocação de todo ser humano.
 Bebamos abundantemente desta fonte, que é a união com Cristo, e levemos generosamente esta água benfazeja – água regeneradora da contemplação – a todos os que a buscam. Seja esta nossa ação missionária: levar Jesus a todos, como Maria, Mãe do Carmelo. Porque somente Ele é o bastante, o suficiente para a felicidade do ser humano: “Só Ele basta!”. Sem Ele, é noite funda. “Nós somos filhos da luz, filhos do dia. Não somos da noite, nem das trevas” (1Ts 5,5).

Peçamos ao Senhor a graça de tornar-nos corajosos exploradores dos caminhos do Espírito, “certos que o Espírito que habita em nós e que recebemos no Batismo, nos impulsiona a anunciar Jesus Cristo com nossa vida, com nosso testemunho e também com as palavras” (Papa Francisco). Que a Virgem Santíssima, nossa Mãe e Irmã, nos guie nessa caminhada de conhecimento e de anúncio de Jesus. 


Entrevistadora Danielle Cabral,
ocds, da Comunidade
Rainha do Carmelo 


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