domingo, 30 de novembro de 2014

ADVENTO, VIGIAR NA ESPERANÇA - Frei Alzinir Debastiani


Uma das frases breves e intensas do Papa Francisco na Evangelii gaudium diz: "Não deixemos que nos roubem a esperança!"

E desta frase começamos esta breve mensagem de início do tempo litúrgico do Advento. Tempo forte de esperança e de vigilância sobre nós mesmos, a fim de não sermos privados  desta virtude tão importante na vida humana e cristã. Ela nos dá forças para enfrentar as crises e as dificuldades pessoais e do nosso tempo.

Vivemos em uma cultura "desertificada" que esconde o verdadeiro rosto de Deus e explora, com o objetivo de lucro, tantos símbolos cristãos, o deus mercado onipresente em tantos lugares. Ele nos impulsiona ao egoísmo, ao hedonismo e ao consumismo, fazendo esfriar o amor ao próximo.

Deste perigo já Santa Teresa de Jesus advertia em um poema que tem como pano de fundo o capítulo 25 do Evangelho de Mateus. A Santa Madre recomenda "ficar acordado, para estar em sentinela, até que o Noivo venha", não deixando que o ladrão venha de surpresa e nos roube (Poesia 25). E no Caminho de Perfeição escreve: "Devemos ser sempre cautelosos e vigilantes ... as almas que aspiram a uma maior perfeição ... devem sempre vigiar e orar ..." (Caminho,  7,6).


É evidente que para o Carmelo Teresiano, a oração é essencial. Mas no Advento, sob a orientação dos Profetas, de São João Batista e da Virgem Maria, a oração se torna um dos lugares para se aprender a viver na esperança. Ela nos diz que nunca estamos sozinhos, mesmo quando parece o contrário. Se Deus demora a atender as nossas orações, Ele faz com que o desejo dilate o nosso coração e o purifique em nossa busca Dele, para levar-nos à verdade mais profunda de nós mesmos, e assim chegar ao objeto da esperança, que é Ele próprio. Então, livres de todas as falsas esperanças, tornamo-nos sinais de esperança para os outros: uma esperança ativa, que nos leva a lutar contra o mal em nós mesmos e ao nosso redor, e, ao mesmo tempo, a transformá-lo e com isso permitir que   brilhe a verdadeira esperança que o Natal significa: Deus veio morar conosco e fazer-nos todos os irmãos, cidadãos do seu Reino de paz e justiça (cf. Spe salvi, 32-34).

Por isso a importância deste tempo de espera vigilante, de fortalecimento da fé e da esperança pela intensificação da oração pessoal, em nossas famílias e comunidades. E para esta atitude orante, um papel fundamental no sustento mutuo da fé, é o “descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada” (EG 87), com quem vive a "verdadeira esperança cristã que gera história", como Deus fez em Cristo. Nele o Reino entrou a nossa história, onde o trigo e o joio crescem juntos, mas que no final serão separados e o bem vencerá o mal.

Caríssimos, que vivamos então este tempo com intensidade e com o olhar voltado para a Mãe da Esperança. A Virgem Maria de Nazaré nos foi dada como Mãe em um momento em que tudo parecia perdido. E como diz São João da Cruz a "Mãe de Deus é minha", confiemo-nos à Estrela da esperança que nos conduz em meio às tempestades da vida. Com Ela aprendamos a escrutar Escrituras, fonte privilegiada da oração e do sentido da história e permaneçamos "firmes na esperança do Evangelho que ouvimos" (Cl 1,23) e que não desilude.

Com votos de um santo Advento e festa de São João da Cruz,

Fr. Alzinir F. Debastiani OCD

Roma, 30 de novembro de 2014

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...