segunda-feira, 30 de março de 2015

Carta do Papa Francisco pelo V Centenário de Santa Teresa de Jesus.






Ao Revdmo. P. Saverio Cannistrà
Prepósito geral da Ordem dos Irmãos Descalços da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

Querido irmão:
Ao se completar os 500 anos do nascimento de santa Teresa de Jesus, quero me unir, junto com toda a Igreja, à ação de graças da grande família do Carmelo descalço - religiosas, religiosos e seculares - pelo carisma desta mulher excepcional.
Considero uma graça providencial que este aniversário coincida com o ano dedicado à Vida Consagrada, na qual a Santa de Ávila resplandece como guia segura e modelo atraente de entrega total a Deus. Trata-se de um motivo a mais para olhar o passado com gratidão, e redescobrir “a centelha inspiradora” que impulsionou os fundadores e suas primeiras comunidades (cf. Carta aos Consagrados, 21 de novembro de 2014)
Quanto bem continua fazendo a todos nós o testemunho de sua consagração, nascido diretamente do encontro com Deus, e sua vivência comunitária, enraizada na maternidade da Igreja!
1. Santa Teresa é acima de tudo mestra de oração. Em sua experiência, foi central o descobrimento da humanidade de Cristo. Movida pelo desejo de compartilhar essa experiência pessoal com os demais, escreve sobre a mesma de uma forma viva e simples, ao alcance de todos, pois consiste simplesmente em “tratar de amizade com quem sabemos que nos ama” (Vida 8,5). Muitas vezes a própria narração se torna prece, como se quisesse introduzir o leitor em seu diálogo interior com Cristo. A oração de Teresa não foi uma oração reservada a um trecho ou hora do dia; surgia espontânea nas mais variadas ocasiões: “Terrível seria só se poder ter oração em lugares remotos!” (Fundações 5, 16). Estava convencida do valor da oração contínua, ainda que nem sempre perfeita. A Santa pede para que sejamos perseverantes, fiéis, inclusive em meio à aridez, às dificuldades pessoais ou de necessidades prementes que nos interpelam.
Para renovar hoje a vida consagrada, Teresa nos deixou um grande tesouro, cheio de propostas concretas, caminhos e formas para rezar, que, longe de nos fechar em nós mesmos ou de buscar um simples equilíbrio interior, fazem-nos recomeçar sempre a partir de Jesus e constituem uma autêntica escola de crescimento no amor a Deus e ao próximo.


2. A partir de seu encontro com Jesus Cristo, Santa Teresa viveu “outra vida”; transformou-se numa comunicadora incansável do Evangelho (cf. V 23,1). Desejosa de servir à Igreja, e tendo em vista os graves problemas de seu tempo, não se limitou a ser uma espectadora da realidade que a cercava. Na sua condição de mulher e com suas limitações de saúde, decidiu – diz ela – “fazer este pouquito que está em minha mão: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurar que estas poucas que aqui estão fizessem o mesmo” (Caminho 1,2). Por isso iniciou a reforma teresiana, na qual pedia a suas irmãs que não gastassem o tempo tratando “com Deus negócios de pouca importância” quando estava “ardendo o mundo” (C 1,5). Esta dimensão missionária e eclesial distinguiu desde sempre o Carmelo descalço.
Como fez outrora, também hoje a Santa nos abre novos horizontes, nos chama a uma grande empreitada, a ver o mundo com os olhos de Cristo, para buscar o que Ele busca e amar o que Ele ama.
3. Santa Teresa sabia que nem a oração nem a missão podiam subsistir sem uma autêntica vida comunitária. Por isso, o fundamento que pôs em seus mosteiros foi a fraternidade: “Aqui todas hão de se amar, todas hão de se querer, todas hão de se ajudar” (C 4,7). E foi muito atenta em admoestar suas religiosas sobre o perigo da autorreferencialidade na vida fraterna, que “consiste tudo, ou grande parte, em perder o cuidado de nós mesmos e das nossas comodidades” (C 12,2) e pôr o que somos ao serviço dos outros. Para evitar este risco, a Santa de Ávila recomenda a suas irmãs, sobretudo, a virtude da humildade, que não é apoucamento exterior nem tolhimento interior da alma, mas cada qual conhecer o que pode e o que Deus pode nele (cf. Relações 28). O oposto é o que ela denomina “negra honra” (V 31,23), fonte de fofocas, ciúmes e intrigas, que danificam seriamente a relação com os demais. A humildade teresiana é feita de aceitação de si mesmo, de consciência da própria dignidade, de audácia missionária, de agradecimento e de abandono em Deus.
Com estes nobres princípios, as comunidades teresianas são chamadas a se tornarem casas de comunhão, que deem testemunho do amor fraterno e da maternidade da Igreja, apresentando ao Senhor as necessidades do nosso mundo, lacerado por divisões e guerras.
Querido irmão, não quero terminar sem agradecer aos Carmelos teresianos que recomendam o Papa com especial ternura ao amparo da Virgem do Carmo, e acompanham com sua oração os grandes desafios da Igreja. Peço ao Senhor que seu testemunho de vida, como o de Santa Teresa, transpareça a alegria e a beleza de viver o Evangelho e atraiam a muitos jovens para seguir Cristo de perto.
A toda família teresiana concedo minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 28 de março de 2015







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