sábado, 7 de março de 2015

RECORDAR É VIVER... UM POUCO DE NOSSA HISTÓRIA: FUNDAÇÃO DO CARMELO DESCALÇO FEMININO NO BRASIL.



Na América, o aparecimento e desenvolvimento do Carmelo Descalço feminino deu-se, em certa medida, de forma semelhante ao caso francês e belga. Sem poder contar com a iniciativa direta da Ordem, muitos colonos que alimentavam o desejo de que se fundassem conventos carmelitas em suas terras, tiveram que constituí-los por conta própria, recebendo quando muito um apoio indireto por parte da Ordem.
Foi o que ocorreu no caso do Brasil. Aqui, o primeiro Convento de Carmelitas Descalças surgiu do empenho pessoal de uma leiga, Jacinta Pereira Aires, filha de importante família de Colônia, que com o apoio do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, Carmelita Descalço e do Governador da Província, Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela o fundou, em 1750, nas encostas do morro do Desterro, nas imediações do atual Bairro da Lapa.




Madre Jacinta de São José
Madre Jacinta – como ficou conhecida por todos, apesar de nunca haver professado canonicamente – nasceu no Rio de Janeiro, a 15 de outubro de 1715, de pais profundamente cristãos. Crescendo nesse ambiente de profunda religiosidade, desde pequena foi favorecida de graças extraordinárias e tornou-se admirável por suas virtudes e pela vida perfeita que levava na casa paterna. Jacinta sentiu-se naturalmente inclinada a abraçar a vida religiosa. Revelou o seu desejo à sua irmã Francisca, e ambas resolveram entrar num Convento. Não havendo, porém, convento de religiosas, naquele tempo, no Rio de Janeiro, o padrasto - pois seu pai já havia morrido - requereu a licença de Sua Majestade D. João V, Rei de Portugal, que benignamente deferiu, a fim de que Jacinta e sua irmã Francisca fossem para Lisboa e aí escolhessem o Convento e a Ordem que mais lhes agradasse.
É interessante a observação da historiadora Leila Mezan Algranti: “Numa colônia de população tão rala, não havia espaço para a vida contemplativa feminina. Embora a presença de religiosos homens tenha marcado a colonização desde o início, o estabelecimento de congregações de mulheres é bem posterior. Mesmo quando a colonização já ia avançada, nos séculos XVII e XVIII, a Coroa procurou manter-se fiel à política de incentivo ao casamento, proibindo, sempre que possível, o surgimento de mosteiros para mulheres, principalmente nas zonas menos povoadas e pouco desenvolvidas”.

Faltando, contudo, pouco tempo para seu embarque a Lisboa, um acidente impediu Jacinta de deixar o Rio de Janeiro. Presa à cama com o quadril fraturado, sem poder andar ou ficar de pé, Jacinta se viu obrigada então a abandonar seu projeto.

Mais tarde, já se convalescendo da fratura, Jacinta “um dia, ao descer a ladeira do Desterro, depois de assistir à Missa que ali era celebrada, teve a FELIZ INSPIRAÇÃO de escolher naqueles arredores um lugar solitário para aí, com sua irmã e outras piedosas donzelas, que a quisessem acompanhar, viver debaixo de uma Regra”.
Encontrando uma chácara abandonada, conhecida como chácara da Bica, Jacinta, com o apoio de um tio conseguiu adquiri-la por preço moderado e, no dia 27 de março de 1742, acompanhada por seu irmão por parte de pai, que era sacerdote, e uma criada, deixou a casa paterna e, “depois de se ter confessado e comungado ouvido Missa na ermida do Desterro, foi encerrar-se naquela chácara isolada, com a firme intenção de nunca mais sair dali”. No dia seguinte, Francisca juntava-se a Jacinta. As duas, com a ajuda do irmão José, improvisaram então, em meio às ruínas da chácara, um insólito convento, estabelecendo inclusive clausura. Construíram uma capelinha em honra ao Menino Deus, que ainda hoje existe na Rua Riachuelo, restaurada pela Sociedade de São Vicente de Paulo.

Logo a notícia do aparecimento da nova casa se difundiu por toda a cidade, causando ótima impressão na opinião pública, e no poder civil e eclesiástico da Colônia. Assim, a partir de 1748, outras jovens foram se agregando a elas e, desde então, Madre Jacinta passou a contar com o apoio e a admiração do governador, o Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade e do Bispo, D. Frei João da Cruz. Aconselhada pelo confessor do bispo, Frei Manoel de Jesus, também Carmelita Descalço, Madre Jacinta resolveu adotar, para regular a vida de sua nascente comunidade, as Constituições da Reforma Teresiana, ainda que oficialmente as donzelas da Chácara da Bica continuassem a ser leigas.

Desejosa de transformar o recolhimento, em Convento Carmelita Descalço, Jacinta pede a autorização e o apoio do bispo D. Frei João da Cruz que, entusiasmado com a ideia, iniciou os procedimentos para obter as licenças que deveriam ser dadas por Roma e pela Coroa portuguesa. Entrementes, permitiu que se recebesse oficialmente postulantes em seu recolhimento, autorizando que vestissem o hábito carmelitano depois de cumprido o tempo regular da profissão religiosa. Ao mesmo tempo, Madre Jacinta, providenciava com o Governador o projeto do edifício que abrigaria a primeira comunidade carmelitana do Brasil, cuja pedra seria assentada pelo Bispo, às 15:00 hs do dia 24 de junho de 1750.

O Governador, Gomes Freire de Andrade, atraído pela fama das virtudes de Madre Jacinta e suas filhas, foi visitá-las com o Bispo D. Antônio do Desterro e adquiriu-lhes tão grande estima que, tendo alcançado do Bispo a doação da antiga ermida do Desterro (não se pode precisar o ano de sua fundação. Sabe-se que sua construção data de 1629, no dia 15 de agosto.), que há mais de um século se elevava no outeiro do mesmo nome (o atual Morro de Santa Teresa), um pouco acima da Chácara, onde muitas vezes ela tinha ido rezar, edificou ao lado o Convento de Santa Teresa, à sua custa, segundo o projeto do Brigadeiro José Fernandes Alpoim, indo muitas vezes inspecionar o andamento da construção.

Antes, porém, que pudesse encaminhar os pedidos de oficialização do Convento, D. João da Cruz viu-se obrigado a deixar a Diocese, passando o governo a D. Frei Antônio do Desterro, franciscano, que orientado por Madre Jacinta e pelo Conde de Bobadela, deu prosseguimento às gestões de seu antecessor. No momento de pedir autorização para a fundação de um Convento Carmelita, o fez para um de Clarissas. Ao saberem disso, quando chegou o Breve Pontifício, em janeiro de 1751, Madre Jacinta e suas companheiras não o aceitaram, recusando-se a professarem numa Regra que não condizia com as suas reivindicações. Sentindo-se traídas, pediram a intervenção do conde de Bobadela para que convencesse o Bispo a mudar de ideia e lhes permitissem professar na Regra que haviam escolhido. Como ele se mantinha inflexível, Madre Jacinta decidiu resolver pessoalmente a questão, indo a Lisboa em busca de um novo breve e da licença real.

“Uma teia de intrigas desencadeou-se a partir da viagem de Madre Jacinta...” Mas depois de examinar os documentos referentes ao caso e investigar pessoalmente a Madre, o Padre Col manifestou-se favorável ao seu pedido, julgando-a capaz e bem intencionada.
Entretanto, buscando testar a humildade e obediência da brasileira, sugeriu ao monarca, em seu parecer, “que lhe fosse vedada a condição de Fundadora e Priora e que, para o estabelecimento do convento, fossem enviadas de Portugal carmelitas experientes”. Assim instruído e tendo entrevistado pessoalmente Madre Jacinta, o rei, D. José I, não apenas expediu o lavará favorável, como ainda providenciou para que seu representante em Roma, Antônio Freire de Andrade Encerrabodes, obtivesse a fundação de um convento segundo a Regra e as Constituições da Reforma Carmelitana de Santa Teresa. Este foi expedido no dia 22 de dezembro de 1755.





Munida das devidas licenças, Madre Jacinta retornou ao Brasil, aportando no Rio de Janeiro a 17 de abril de 1756.

Apesar das autorizações, o bispo D. Antônio não quis professar canonicamente Madre Jacinta e suas filhas, indo de encontro às disposições oficiais de Roma e Portugal. Porém, em vista desta divergência irreconciliável, o conde de Bobadela achou prudente não insistir mais, esperando que com o tempo, havia afinal de desaparecer todos os embaraços.

Madre Jacinta que podia apelar à Corte e à Sé apostólica, resolveu aceitar o conselho do conde e não insistiu mais no assunto. Em 1757, concluídas as obras do edifício do convento, Madre Jacinta e suas filhas ali se recolheram definitivamente, “vivendo em observância religiosa, seguindo em tudo a Regra e Constituições da reforma carmelitana”...  Em 1767 (dez anos após a fundação), o Recolhimento de Santa Teresa contava já com 21 mulheres, número máximo definido pelas Constituições.

Madre Jacinta findou seus dias na prática constante das virtudes e no dia 02 de outubro de 1768 morre aos 52 anos de idade, sem ter podido receber a profissão canônica. Seus restos mortais são conservados no Convento de Santa Teresa, assim como os do fundador, Gomes Freire de Andrade, falecido em 1º de janeiro de 1763.

As filhas de Madre Jacinta continuaram recolhidas em seu Convento, imitando os exemplos de sua admirável Fundadora, até que após a morte de D. Frei Antônio do Desterro, ocorrida em 1773, o seu sucessor, D. Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco em 1780, reconheceu oficialmente a clausura e vestiu canonicamente as recolhidas com o hábito carmelitano. Em seguida, no dia 23 de janeiro de 1781, finalmente, as filhas de Madre Jacinta professaram os votos religiosos solenes.



Segundo texto biográfico, com menção maior à história de Francisca, irmã de Jacinta, também vocacionada ao Carmelo Teresiano como ela:

Em 15 de outubro de 1715, festa de Santa Teresa, nasceu no Rio de Janeiro a fundadora do Convento de Santa Teresa. Eram seus pais José Rodrigues Aires e Dona Maria de Lemos Pereira, pessoas nobres e abastadas. Morrendo o pai, a mãe contraiu segundas núpcias com o comissário-geral de Artilharia, André Gonçalves dos Santos, também viúvo, que levava consigo três filhos do primeiro matrimônio. Foi em 07 de outubro de 1730. Só se conserva o nome do mais velho, José Gonçalves, futuro biógrafo e cooperador da madre Jacinta. Esta, logo à primeira vez que o recebeu em casa, tomou-o nos braços dizendo: “Este é meu: quero cuidar dele”. Tornou-se o “filho de sua escolha”.
    
Desde pequenina, Jacinta desejava a vida do claustro. Em seu padrasto encontrou apoio, e, finalmente, conseguiu licença da mãe – que sempre se opusera à sua vocação – para ir a Lisboa realizar seus desejos, por não haver então convento de freiras no Rio de Janeiro. O próprio André Gonçalves requereu a licença, e El Rei Dom João V a concedeu para Jacinta e sua irmã Francisca embarcarem numa frota que ia rumo a Lisboa, a fim de aí escolherem convento a seu gosto. Naquele tempo, era necessário permissão régia. Nas vésperas da partida, em consequência de uma queda, deslocou Jacinta um quadril e ficou de cama por muitos meses, sem poder executar seu intento.

Confessava-se nessa época a um capuchinho, frei Jacinto de Foligno, que viera em 1738 para o Rio, chefiando a primeira leva de missionários italianos, estabelecidos provisoriamente na Ermida do Desterro. Já convalescente, descendo um dia de caminho para casa, com Francisca e José Gonçalves, pôs-se Jacinta a considerar a chácara da Bica, em Matacavalos (hoje Rua do Riachuelo). À tarde, foi visitá-la. Era lindo o lugar: ermo, coberto de arvoredos, sem trato, parecia convidá-la a iniciar ali a vida de oração e retiro com que sonhara desde pequenina. Umas casas de taipa, arruinadas, sem portas, com paredes a cair; uma fonte, um pé de manjericão e nada mais.

Num relance formou seu plano: começaria naqueles casebres abandonados. Ao retirar-se, colheu uns raminhos de manjericão e plantou-os junto à fonte. Tratou logo de comprar a chácara, mas o negócio só se concluiu em princípio de março de 1742. Caiu a Páscoa nesse ano em 25 de março. Na terça-feira 27, Jacinta, acompanhada apenas de uma escrava e de seu “filho” dileto, José Gonçalves, partiu de madrugada, sem se despedir dos seus. Tomou a imagem do Menino Deus e meteu-a no seio. Foi à Ermida do Desterro, confessou-se, assistiu à Missa, comungou e depois se encerrou no retiro da chácara.

Apenas entrou, foi seu primeiro cuidado procurar acomodação para a imagem. Tudo encontrou arruinado, vazio. José Gonçalves, indo ao terreiro, trouxe dois paus, fincou-os paralelamente pelas fendas de uma parede, estendeu por cima o lenço e amarrou-o por baixo, de modo a formar uma superfície plana. Em seguida, colheu dos manjericões, plantados em redor da fonte, e algumas flores do mato, formando um arquinho ou nicho improvisado onde Jacinta, com devoção, entronizou a santa imagem.

Depois Jacinta mandou José Gonçalves comprar fechaduras e pregos, e ele, com ferramentas emprestadas por um escravo dos capuchinhos, colocou-as nas duas principais portas. Na mesma tarde, foram visitá-la seu padrasto e seu irmão Sebastião, e no dia seguinte, pela madrugada, chegou Francisca para encerrar-se com sua irmã na chácara.

Imagem do Menino
Jesus que pertenceu
à Madre Jacinta.
A capela do Menino-Deus

Determinou-se logo Jacinta a fazer na própria chácara uma capela ao seu Menino Jesus. Mandou José Gonçalves vender uns brincos e com o dinheiro comprar cal à Casa do Alcântara, e deu começo às obras. Rápida foi a construção, sob a direção pessoal de Jacinta. À tardinha e nas noites de luar trabalhavam os irmãos ativamente, carregando pedras. Jacinta as levava às costas num saco, Francisca à cabeça e o prestimoso José, ajudado por alguns escravos da família, as transportava num carrinho de mão.

Não tardou em chegar a notícia ao capitão-general Gomes Freire de Andrade, por meio do jesuíta padre Luís Tavares, e logo quis concorrer para as obras da capela. Em 31 de dezembro de 1743, foi benta, segundo o ritual romano, e no primeiro dia do ano de 1744 celebrou aí a primeira missa Frei Manuel de Jesus, secretário do bispo Dom João da Cruz, ambos carmelitas descalços. Ao regressar de uma viagem que fizera a Minas, quis o bispo presenciar o que lhe dizia Frei Manuel de Jesus. Foi celebrar Missa na capela, e estava como fora de si ao ver tão grande pobreza e recolhimento.

Em 1741, D. João da Cruz tentou adiantar as obras do futuro Convento da Ajuda, da Regra de Santa Clara, edificando-o mais perto do mar, e lançou a primeira pedra em 14 de maio de 1742. Convidou Jacinta para a fundação, mas ela já estava firme na sua vocação de seguir a Regra de Santa Teresa, o que o prelado louvou, e cedeu.


O valor da obediência: o “milagre do coentro”.

Tinha Jacinta vinte e seis anos de idade, e Francisca vinte e dois, quando se retiraram à chácara da Bica. Viviam as duas naquela austera solidão, observando a regra das carmelitas descalças. Estando Jacinta uma tarde fora da porta da casa com Francisca, apanhou do terreiro umas pedrinhas e disse à sua irmã que as semeasse porque havia de dar coentro. Francisca semeou as pedras e passado o tempo costumado colheu um molho de coentros e levou-o a Jacinta, que lhe perguntou se não tinha visto que eram pedras o que lhe dera. Ao que ela respondeu que sim, mas creu, que se Deus quisesse, as pedras dariam coentro. Assim conta com ingenuidade a madre Inácia Catarina.


A morte de Irmã Francisca

Em consequência talvez da vida de excessivo trabalho e das austeridades que abraçara, Francisca foi atacada de tuberculose pulmonar. Antes de morrer, teve a alegria de ver ordenados seu irmão Sebastião e José Gonçalves. Nos grandes sofrimentos da última doença, guardava sempre o mesmo semblante alegre e sereno. Disse-lhe o padre Nunes, seu confessor: “Minha filha, bem pode gemer para se desafogar um pouco: não é imperfeição”. E desde então ela dizia algumas vezes, em voz sumida e quase imperceptível: “Ai, meu Deus!” Na manhã de 13 de julho de 1748 expirou, tendo de idade cerca de trinta anos.

Dela disse o padre Antônio Nunes: “Sua vida era de muita pureza de consciência, de coração mui singelo, o espírito mui liberto e recatado, muito alegre e muito mortificada, sem afetações, sem fingimentos, nem beatices exteriores, muito sofredora, muito pacífica e muito humilde, sem apego, muito pronta à voz da obediência sem a menor dificuldade, muito compadecida, muito caritativa, muito dada à oração e com muita solidez nos exercícios dela, sendo igualmente muito trabalhadora, ainda que padecia algumas queixas temporais.”.


Extraído de "Notícia Histórica do Convento de Santa Teresa". Rio de Janeiro, Edições Cartas Marcos, s.d., excertos p.9-12. Adaptado e ilustrado para ser postado por Leopoldo Costa

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