segunda-feira, 6 de abril de 2015

ORIGEM DA "SALVE REGINA" (Salve Rainha)

       
     É o dia 15 de novembro de 1049. Densas brumas pesam sobre o lago de Constança, na Suíça. O sol parece haver perdido a força. Gotas de neblina caem por terra, como se o céu estivesse dormindo. A curta distância logra-se a vislumbrar o contorno do imponente mosteiro, a “Augia Dives”.
Dentro do mesmo, em estreita cela, encontra-se o monge Germano, sentado em uma velha cadeira de braços. Tem o corpo paralítico, a cabeça curvada sobre o peito. A custo sustenta com as mãos deformadas o livro, que está lendo. Durante horas permanece na mesma posição; sem auxílio alheio não pode se mover. Sobre a mesa encontram-se numerosos pergaminhos escritos, quase todos, por ele. Germano, conhecido pelo nome de “Germanus Contractus”, é um dos maiores sábios de seu tempo; tem fama no terreno da Astronomia, Física, Matemática, Teologia, Poesia e Música.
De vez em quando o monge procura erguer-se um pouco; mas logo recai, com leve gemido; a palidez de seu rosto é indício de dores indizíveis.
Hoje o “mais piedoso entre os monges” tem que passar por uma difícil hora de Getsêmani. O seu olhar procura na parede da cela. Sempre professou terna devoção a Maria Santíssima. Agora, de seu coração torturado, se eleva ardente prece: “Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.
Germano perde-se em reminiscências. Contempla-se, pequenino ainda, no castelo materno, nos braços de sua governanta: é paralítico. O dia 18 de julho de 1013, data de seu nascimento, marcou o início de suas dores. Recorda sua despedida do castelo: tinha sete anos quando seu pai, o conde Wolverade, e sua mãe Hiltrudes o confiaram aos monges do mosteiro de São Galo para que o instruíssem nas ciências e artes. Mais tarde obteve a admissão na “Augia Dives” e ali emitiu, sentado em uma cadeira de braços, a profissão religiosa. Desde então vive preso à cela, solitário, torturado e martirizado por seu mal, enterrado vivo. Somente a pujança de seu espírito e o amor a Maria Santíssima fizeram-no triunfar, até o presente, de todas as dificuldades. Hoje, porém, parece que o inferno todo se desencadeou sobre ele. Em sua alma é noite fechada. Quase que desfalece. Com mão trêmula escreve num pergaminho o que acaba de meditar: “De três modos pode-se sofrer: estando-se inocente, como Nosso Senhor na cruz; estando-se culpado, como o bom ladrão; e para fazer penitência. Eu quero carregar minha cruz para satisfazer por meus pecados e pelos pecados dos outros. É este o meio mais seguro de se chegar à glória do Céu. Mas sinto-me tão fraco... O demônio quer fazer-me vacilar. Mãe do Céu, ajudai-me, para que, como vós, eu não murmure e não me queixe, mas reconheça no sofrimento uma prova de amor de Deus”.
Entra na pobre cela o irmão enfermeiro. Germano pede-lhe que o leve à capela de Nossa Senhora. O recinto sagrado acha-se envolvido em semi-escuridão. A lâmpada do Santíssimo, iluminando frouxamente o sacrário, projeta também um raio de luz e envolve a imagem de Maria. O monge paralítico estende penosamente os braços. Seus olhos mergulham no olhar da Mãe de Deus e nele descansa. Germano cuida sentir a presença de Nossa Senhora; parece-lhe que sua mão maternal lhe pousa suavemente sobre a cabeça e derrama doce bálsamo nas chagas de sua alma. De seu lábios contorcidos pela dor brota espontaneamente: “Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei; e, depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto de vosso ventre; ó clemente, ó piedosa, ó doce Maria!” (a palavra Virgem foi acrescentada mais tarde).
Como o pôr-do-sol suave e calmo baixa sobre a terra, assim a paz indizível, partindo da imagem de Maria Santíssima, inunda o coração de Germano. Parece-lhe estar longe da terra, crê-se perto do Céu; sente novo ânimo e redobrada coragem para carregar sua cruz não só com paciência, senão com alegria, até que Deus mesmo lha queira tirar.


Germanus Contractus, nesta hora e de graças, presenteou a humanidade com uma prece que, desde então, tem sido enviada ao trono da Santíssima Virgem por milhões e milhões de devotos: a “Salve-Rainha”.










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