sábado, 20 de junho de 2015

DE SANTOS "ENCAPOTADOS RELIGIOSOS MELANCÓLICOS " zLIVRE-NOS DEUS

DE SANTOS "ENCAPOTADOS" E RELIGIOSOS MELANCÓLICOS


Tradução de frei Francisco Yudego Xavier, Ocds 

De Teresa de Jesus sabemos de seu bom sentido do humor. Assim nos confirma sua enfermeira Ana de S. Bartolomeu, falando da santa: "Não era amiga de gente triste, e nem gostava dos que iam com ela fossem tristes". Dizia: "Livre-me Deus de santos "encapotados" (tristes)".
Em 1582, Jerônimo Gracian escreveu uma pequena obra titulada " O Cerro: tratado da melancolia em chave de humor". É uma sátira contra os religiosos melancólicos ou falsamente observantes. Teresa de Jesus escreve uma vez a Gracian: "Melhor seria não fundar que levar melancólicas que estraguem a casa". Tanto é assim, que alguns autores mantém a hipóteses de que esta seja uma obra escrita com a colaboração de Teresa de Jesus:
"As reminiscências teresianas são tão abundantes e fieis que não é difícil ver nelas, além do fruto da boa memória do Pe. Jerônimo Gracian, a presença da mesma Madre Teresa de Jesus, que comenta, corrige e completa sorrindo as ocorrências do seu discípulo, talvez no locutório improvisado de uma casa de Burgos " (Ildefonso Moriones).
Estas constituições cumprem uma dupla função: advertir do perigo da melancolia, dando recreação aos sadios e oferecer um remédio para aqueles que padecem essa melancolia, se fazem o contrário daquilo que é recomendado. Assim é indicado no começo:
"Estão em estilo de constituições, mandando-se tudo o contrário do que é certo, para que juntamente sirva de recreação dos irmãos e de exame de consciência"
O termo "cerro" é encontrado no epistolário teresiano,no sentido de desabrimento, melancolia e pessimismo. Poderia tratar-se de uma palavra do léxico familiar cifrado entre Teresa e Gracian: "aquela carta que me escreveu cheia de cerro e melancolia [...]. Se com tão boa vida tem esse cerro, que teria feito com a que teve frei João?" (carta a Jerônimo Gracian, de finais de agosto de 1578).
Os temas que trata são próprios da vida dos religiosos de ambos sexos, pois a obra está dirigida por igual aos dois ramos da Ordem.
(Pode ler-se a obra completa neste enlace...). Recolhemos, a continuação, alguns fragmentos de cada um dos apartados, como exemplo, atualizando a ortografia:
I. A obediência
"Sejam muito amigos de não dar ao prelado nem a outro conta de seu interior, nem comunicar seus pensamentos, desejando que se apodreçam no seu peito (...) Ordenamos que se alguma vez o prelado lhe mortificar ou repreender, o dizer algum desgosto, se aflijam muito e se coloquem uma capa, e fiquem com cara de poucos amigos, para que o prelado fique desconsolado e outros irmãos se sentiam e escandalizem. E logo     tenham dor de cabeça ou outras doenças, para que fiquem queixando-se sempre".
II. Da castidade e a clausura
"Sejam em tudo e sobre tudo os nossos súbditos tão castos, que se por a caso alçar um pouco os olhos ou cumprimentar algum secular, pense que já está perdido tudo, julgando tudo como coisa má; e assim o digam, grunhem e murmurem (...) Acrescentaram os padres capitulares, que em todas as maneiras se guarda-se nos pensamentos desonestos um grande cerro, pensando que todos são consentidos, julgando-o pecado e afligindo-se muitíssimo. E como a alma não pode impedir que não venham, percam a oração e o espírito e deixem prostrar a virtude, para que o que não era pecado, senão guerra, se venha depois a se fazer pecado".
III. Da Pobreza
"Tenha o coração apegado às pequenas coisas, como um cordãozinho, uma cruzinha, um santinho, uma disciplina, ou coisas semelhantes, e se o tirarem, fiquem bravos. E mandamos que se forem repreendidos por isso, declarem que não é imperfeição apegar-se a uma imagem, porque lhes move o espírito, ou a um rosário ou contas de perdões; e que a levem onde não seja vista pelo prelado, pelo amor de nossa adversária a mortificação".
IV Em relação ao ofício divino e ao espiritual
"Estatuímos e expressamente mandamos, que todas as vezes que nossos súbditos forem a oração mental, o fim será para alcançar gostos e regalos e para que os irmãos os tenham por espirituais. E entrando na oração, procurem com grande força, fechando os olhos e apertando os dentes, fazer força com a cabeça até conseguir as lágrimas. E não tenham paciência na consideração daquilo que meditam, se estiverem em sequidade.E se logo em chegando Deus não der gostos, motivo pelo que foram a oração, se inquietem e se aflijam, começando a ficar tristes e mudem o pensamento em coisas de suas terras.
V. Em relação ao jejum, comida e penitência
"Sempre as comidas sejam contrárias à saúde: no verão repolhos mal cozinhados e no inverno saladas, azeitonas; bebam muita água para que sempre estejam cheios. Comam sempre muita vinagre em tempo que lhes faça mal. E finalmente, que a panela venha sem gosto, sem sal e sem temperos, para que a comida seja aborrecida(...) Os despenseiros e provedoras seja de grande cerro,insensíveis, duros e desgraçados, e não possam dar temperos para colocar na panela; e deem as fatias de queijo transparentes".  
VI. Em relação ao capítulo, visita confissão e comunhão
"Primeiramente, ordenamos que cada um de nossos conventos tenha um de nossos súbditos mais avantajados, seja o fel do convento; o qual, sob a cor de zelo daquela casa, de qualquer coisa que veja, por pequena que seja, se escandalize, e murmurem e exagerem na visita, de tal maneira que facilmente façam desatinar ao visitador ou prelado que faz o capítulo (...) Nossos súbditos e súbditas tenham um engenho muito vivo e agudo para ver as faltas e imperfeições alheias, que não percam nada. E nunca acabem de entender as suas nem caiam nelas, mesmo que sejam vigas de lagar. E sempre que forem advertidos, pensem que é por renhir e por má vontade que tem com vocês".
VII. Em relação ao trabalho manual e exterior
"Primeiramente, ordenamos que andem sempre atarefadas,sem resfolegar um ponto no espírito, e com uma cobiça e eficácia no mesmo trabalho, que se cansem muito, para que de nenhuma maneira possam ter oração, nem exercitar exercício espiritual, por fácil que seja".
VIII. Em relação ao silêncio e recreações    
"Instituímos e ordenamos primeiramente, e necessário for, expressamente mandamos, que todos nossos súditos sejam inimigos de recreação. E se os prelados derem licença para falar com seus irmãos para lhes consolar, não o queiram fazer, pensando que são palavras ociosas. Ou,já que falam, sejam coisas do mundo".
IX. Da humildade e da paz
"Quando os nossos súbditos forem prelados, queiram com tanta insistência fazer perfeitos aos que governam, que se em quatro horas lhes virem com imperfeições, se aflijam e angustiem muito e os desanimem, repreendendo-lhes sem paciência, parecendo-lhes que, sendo seus súbditos, se amem tanto e tenham tanta paz, que se juntem a murmurar, julgar e queixar-se e fazer bandos e coligações e panelas contra os demais".
X. Do que cada um e cada uma de nossos súbditos está obrigado a fazer em seus ofícios
"O ofício de prior é: afligir muito aos súbditos e falar palavras que magoem e firam; nunca mostrar-lhes bom rosto; mostrar mais amor a uns que a outros; andar sempre afligido e perturbado e mostrá-lo aos súditos; não compadecer-se deles e nem dos doentes e fracos".

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