sexta-feira, 31 de julho de 2015

Teresa diz aos Carmelitas “É tempo de caminhar”


Partilha sobre encontro em Ávila por ocasião do Capítulo Geral que reuniu 120 frades de 91 países do mundo para refletir sobre o futuro do Carmelo na Igreja e no mundo de hoje
Por Frei Patrício Sciadini

Cairo, 30 de Julho de 2015 (ZENIT.org)



Estou atrasado com o meu compromisso com os “cinco” amigos de Zenit aos quais não comuniquei as últimas novas do Carmelo Descalço que esteve reunido em Ávila, terra das pedras e dos santos para o Capitulo Geral. Foram dias intensos de oração, de trabalho, de estudo onde mais de 120 frades de 91 países do mundo refletiram sobre o futuro do Carmelo na Igreja e no mundo de hoje. Antes de mais nada tivemos com alegria a reeleição do Padre Geral na pessoa de Frei Saverio Cannistra, italiano. Uma pessoa que ama Deus, o Carmelo e que nos impulsiona a despertarmos do nosso comodissimo letargio e sono para olhar com esperança o futuro, perscrutando os novos horizontes.
Vimos com tristeza que em algumas partes da Velha Europa, nossa mãe e um pouco avó do Carmelo, as vocações estão em crise e não há esperança a médio prazo  para uma revitalização por quanto concerne aos frades e monjas de clausura. Vimos porém com uma imensa alegria que a Africa é o país da esperança onde as vocações aumentam e com entusiasmo nos ajudam a ver que o futuro do Carmelo nasce nos lugares de missão.  Uma constatação que os países do Ocidente possuem meios econômicos e não tem vocações e os países como se diz, “emergentes”, tem vocações e não dinheiro. Aí surgiu uma partilha e participação maravilhosa, é necessário partilhar o que temos e o que somos.
 O Carmelo é uma ordem de longa historia, suas raízes se fundam na tradição bíblica do Monte Carmelo. A sua vitalidade recomeçou no sex XVI com Santa Teresa de Ávila que cansada da “mediocridade” tomou a decisão de renovar a sua ordem dando vida a um pequeno grupo de mulheres e de homens que quisessem servir a Deus com fidelidade. Assim nasceu o Carmelo de Teresa de Ávila de quem neste ano celebramos os V anos de nascimento.
Os frades se colocam na escuta desta santa profetisa de Deus, é “agitadora” da Igreja do seu tempo, não com passeatas e nem com gestos clamorosos que chamassem a atenção dos indignados e revoltados mas ela encontrou uma maneira sua para apresentar uma nova missão da vida religiosa na Igreja  e sintetizou o seu pensamento em três realidades: amor a Deus, amor aos outros e amor a Igreja.
Nestes três amores soube colocar todo o seu entusiasmo. Fez nascer a vida no mistério do amor de Deus que transborda sempre na caridade fraterna e na missão. Ontem, hoje e sempre não haverá outro caminho a não ser este, não se pode ser missionário se nos falta no coração a força da oração e a força da fraternidade. Para Santa Teresa, a nômade de Deus, isto era claro.
Nem sempre pareceu claro aos participantes do Capitulo Geral. Houve discussões fraternas; antes de mais nada tomamos consciência que é necessário “atualizar, reler, meditar” o carisma `a luz dos tempos modernos. Vimos que os jovens não entendem uma linguagem que ontem era bonita e fascinante mas que hoje “não diz nada ou quase nada”. Os jovens esperam muito de nós e nós devemos ser profetas para anunciar tudo isso. Não é uma “roupagem” que deve nos preocupar mas o conteúdo, a roupagem muda e vai mudar ainda muito. Eu, em uma minha intervenção, aliás devo dizer que falei demais, dizia: “os jovens esperam muito de nós e que não devemos nos preocupar de conservar o passado mas de transmitir o passado com amor, entusiasmo e fidelidade criativa no hoje da História”. Foi muito interessante que o lema que guiou todo o nosso Capitulo foi uma frase que Teresa de Ávila teria pronunciado nos últimos dias - e quem sabe últimas horas- de sua vida: “é tempo de caminhar”. Que belo, ela estava morrendo em Alba de Torms, naquele longínquo 4 de outubro de 1582 e deixava para os frades e irmãs de sua Ordem uma consigna, um testamento que tem uma força vital  como a de Jesus no Calvário, “é tempo de caminhar” quer dizer, é tempo de ressurreição, de vida, de presença e de amor.
Agora temos a nossa frente 6 anos para mergulhar nas constituições, nas normas não como num “museu de arqueologia” para contemplar e que tem odor de mofo mas sim num oceano de vida pura, de ar novo. Um trabalho que não pode ser feito sozinho mas junto com todos. Tivemos no Capitulo uma coisa nova mas lindíssima: a participação de 18 monjas que vieram do mundo inteiro. O Carmelo é uma única Ordem, um único carisma que é vivido em três modalidades: frades, monjas e leigos. Todos empenhados em viver a mensagem teresiana. As monjas nos fizeram sentir que nós, homens, devemos ser místicos, profetas e santos e que juntos é necessário caminhar para Deus ao ritmo da Igreja como o fez Teresa de Ávila.
É tempo de caminhar mas para onde? Para Deus. Com quem? Com os irmãos e irmãs que Deus coloca no nosso caminho? Como? Na fidelidade do Evangelho e a Igreja. Na mensagem do Capitulo lembramos de toda a humanidade e dos cristãos perseguidos em tantas partes do mundo somente por serem cristãos. A missão do Carmelo não vai mudar, todos os carmelitas, filhos e filhas de Teresa de Ávila e de João da Crus, temos dentro de nós  a certeza da nossa missão: sermos orantes e ensinar ao mundo os caminhos da oração que é a única força que não permite ao ser humano desanimar diante das dificuldades e da cruz.
Na vigília de Pentecostes, na missa de encerramento, fomos todos nós reenviados as nossas casas mas com uma força nova e falando em línguas que todos entendem: a língua do amor. Não é possível visitar os lugares teresianos e voltar para casa iguais. Para nós, carmelitas, Ávila é o nosso cenáculo carmelitano onde reunidos se espera sempre receber a força  do Espirito Santo e partir para novas missões que nos esperam.
É tempo de caminhar e não de ficar parados pensando em coisas sem valor. E Teresa dizia e o papa tem pedido, “o mundo pega fogo e não é  podemos perder tempo com coisinhas sem valor”. É tempo de caminhar para os carmelitas, para todos nós. Caminhemos juntos e chegaremos ao céu juntos e se alguém parar não o deixemos sozinho mas o “puxemos” para que retome o caminho com esperança e amor.



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