domingo, 2 de agosto de 2015

PAZ, FRUTO DA AMIZADE COM DEUS EM SANTA TERESA DE JESUS

Fr. Alzinir Francisco Debastiani OCD


A paz é um fruto do Espírito Santo (Gál 5, 22), característica essencial do Reino que Jesus veio ser e anunciar ao mundo, deixando-a como herança aos discípulos no dia de sua Ressurreição (Lc 10,5; Jo 14,27). Em seu sentido bíblico (shalom) significa a plenitude da vida e de bens materiais e espirituais que Deus quer para todos os seres humanos.  Jesus Cristo, vindo do seio da Trindade, personifica a paz salvífica (Ef 2,14), trazendo a reconciliação entre o ser humano e Deus e entre todas as pessoas humanas, independente de raça, da religião, da condição social ou de gênero. A paz definitiva e total acontecerá somente na eternidade (GS 39).

Nos escritos de Santa Teresa de Jesus a paz aparece como um dom interior à pessoa, fruto da amizade profunda com Jesus, que será plena nas sétimas moradas. Ao mesmo tempo a paz é exterior e fruto da prática das virtudes do amor, desapego e humildade, condições necessárias à oração.  Por isso “… importa mucho entendamos lo muy mucho que nos va en guardarlas para tener la paz que tanto nos encomendó el Señor, interior y exteriormente…” (C 4,4).

Teresa vê na prática do amor fraterno a fonte da paz entre os membros de uma comunidade. Dando orientações para viver o amor fraterno, retorna ao ensinamento de Jesus: o amor é uma virtude que não exclui ninguém, como o Pai celeste que faz o sol surgir sobre bons e maus e chover sobre o campo dos justos e injustos (Mt 5,45). Assim diz Teresa: “todas han de ser amigas, todas se han de amar, todas se han de querer, todas se han de ayudar” (C 4,7; cf. GS 78). O amor cristão, cuja fonte é o amor de Deus em Jesus e que habita em cada pessoa por meio do Espírito Santo, é vivido para com cada pessoa concreta em particular (cf. Mt 25, 31-46); ao mesmo tempo não exclui ninguém, é universal. A este propósito, escreve Bento XVI: “Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um ‘mandamento’ que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é ‘divino’, porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja « tudo em todos » (1 Cor 15, 28) (Deus caritas est, 18).

Daqui o alerta de Teresa para os fechamentos àqueles que não me agradam ou não me são simpáticos, ou mesmo contra a valorização do outro somente pelas suas qualidades humanas exteriores: “guárdense de estas particularidades, por amor del Señor, por santas que sean, que aún entre hermanos suele ser ponzoña y ningún provecho en ello veo” (C 4,7; cf.: 1 M 2,18).

Pelo contrário, a vivência do amor fraterno em Teresa se traduz em atitudes de serviço e na prática do bem para com os irmãos na fé (Gál 6,10), no alegrar-se com seu crescimento nas virtudes (cf.: C 7,9), bem como no promover o bem (cf. C 40,3), entre outras. Tudo isso leva ao crescimento da caridade e traz “gran paz” (C 4,7). Ao mesmo tempo é um dos sinais que acompanha a humildade autêntica (C 39, 2) e o verdadeiro temor de Deus (C 40,9). A paz será perpétua no Reino (C 30,5).

Na maturidade espiritual, a paz profunda é fruto da graça de união com Deus (6 M 8,3.7). Será constante na vida da pessoa, mesmo em meio às tribulações e trabalhos pelos quais passa (7 M 2, 6.7-11; 7 M 3,5.15). O beijo do Senhor é fonte de paz profunda e marca o estado de quietude e calma final das sétimas moradas: efeitos que “são concedidos por Deus quando aproxima a alma de Si, com o ósculo que Lhe rogava a Esposa. Aqui, a meu ver, se cumpre o pedido” (7 M 3,13).

Na Meditação sobre o Cântico dos Cânticos, Teresa explicitando o sentido de algumas frases do Cântico dos Cânticos, escreve sobre a verdadeira e a falsa paz (Cap. 2-3). Ao comentar a frase “beije-me com o beijo de sua boca”, diz que ele simboliza a amizade e a paz entre duas pessoas (Conc. 1,12). No cap. 2 “trata da falsa paz que oferece à alma o mundo, a carne e o demônio” (tit. E n. 14; cf V 5,9; 39). Aqui Teresa alerta para ser vigilante no caminho espiritual, tendo o cuidado de olhar “como andamos no interior e no exterior” (2,2), pois não há “segurança enquanto vivemos nesta carne” (V 39,20).

Existem várias formas de falsa paz.  Para Teresa elas são fruto da imersão em pecados e vícios mundanos, de maneira que nada mais causa remorso de consciência e que significa que a pessoa tornou-se amiga do mundo e do demônio (1,1). Da mesma forma, quando se relaxa em coisas pequenas na busca da perfeição da caridade, nelas perseverando e  não sentindo remorso na consciência, é má paz (1,2). A paz que vem do apego e uso egoísta das riquezas (2,8-10), das honras do mundo (2,11-13) o qual “exalta senão para rebaixar” (2,13), bem como a que vem do comodismo, pois quando “o corpo engorda, a alma enfraquece” (2,14-15), são dentre outras, formas da falsa paz, passageira e enganosa, contra as quais somos alertados por Teresa.

Possamos então seguir na busca de viver a bem-aventurança dos que trabalham para construir a verdadeira paz (Mt 5,9), cuja fonte é a união com Deus em amizade com Cristo e com os demais que nos rodeiam, através da prática das “virtudes necessárias para ter paz no interior e no exterior” (C 4,4). 

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...