quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Homilia da missa de Aparecida do dia 06 de setembro de 2015 - Dom Fr. Rubens Sevilha, ocd

Homilia em Aparecida – 6/9/2015

Dom Frei Rubens Sevilha, ocd. 
Estamos comemorando os 500 anos do nascimento de S. Teresa de Ávila, grande mística e doutora da Igreja, fundadora e reformadora do Carmelo Descalço. Mulher extraordinária e agraciada por Deus, tanto na sua humanidade como, sobretudo, na sua vida espiritual.

Quanto à sua riqueza humana basta citar que Teresa De Cepeda y Ahumada (esse foi seu nome de batismo) tornou-se uma grande escritora da Igreja e da literatura espanhola, numa época em que poucas mulheres mal sabiam ler, muito menos escrever. Seus livros: Castelo Interior, Caminho de Perfeição e a sua autobiografia (intitulada Livro da Vida), entre outros seus escritos, são até hoje lidos e estudados como obras prima da literatura espiritual.

Quanto à sua riqueza espiritual basta citar as palavras que Jesus lhe disse em uma das suas muitas visões: «Teresa, se não tivesse criado o Céu, para você e por sua causa eu o criaria agora». Deus estava enamorado de Teresa e vice-versa, afinal, para ela a oração significa relacionamento amoroso com o Senhor, como ela escreveu: estar muitas vezes e a sós, com quem sabemos que nos ama.

Quero recordar sua mensagem mais tradicionalmente conhecida: Nada te perturbe, quanto ao teu mundo interior e nada te espante, quanto ao exterior. O que perturba a alma do homem atual? O vazio. O homem moderno, como o filho pródigo, rejeitou o Pai, para sentir-se livre e feliz, fazendo o que o seu coração mandar. O pobre homem moderno terminou não livre, mas, órfão, filho sem pai, abandonado a si mesmo e comendo a comida dos porcos. Nada te perturbe, pois quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.

Nada te espante. O que espanta o homem de hoje? Espanta-nos a fragilidade e a insegurança da vida. Ao nosso redor tudo parece tão frágil, tão sem sentido, tudo tão imperfeito e inacabado, tudo tão grosseiro e primitivo... Espanta-nos a violência humana, espanta-nos as organizações humanas, econômicas, sociais e políticas, tão absurdamente desumanas. Espanta-nos nas religiões o fanatismo, a perseguição dos cristãos, a malandragem das seitas explorando o pouco dinheiro dos pobres desesperados por milagres, os escândalos da nossa mãe Igreja Católica, santa e pecadora. Se tudo nos espanta, Teresa, mulher de fé, nos contrapõe o: “nada te espante”, pois tudo muda, tudo evolui, tudo se transforma, tudo desaba um dia, tudo se evapora, tudo passa! Deus não muda. As circunstâncias ao nosso redor mudam, Deus não muda. A realidade humana transforma-se constantemente, Deus não muda. Nos sucessos e fracassos da história, Deus não muda. Como afirmou outra grande carmelita S. Edith Stein: “Eu não sei para onde a minha vida está indo, mas, sei que Deus a está conduzindo...”. Deus é o Senhor da história, Ele é o princípio e fim de todas as coisas. Nada e nenhum ser humano apareceram nesse mundo por acaso ou acidente, todos fomos planejados por Deus, queridos, amados e criados por Ele.

Não fomos jogados na vida por um pai indiferente, mas, aqui colocados para uma missão. Alguns, como S. Teresa, tem uma missão mais extraordinária, outros, mais discreta, mas, todos sem exceção têm o seu papel nesse mundo. Nós carmelitas, filhos de S. Teresa e João da Cruz temos nossa missão na Igreja: sermos testemunhas de que Deus é o tudo da nossa vida. Que a vida de um carmelita demonstre claramente que só Deus basta, que só Deus basta para que enfrentemos qualquer situação, pois, a alma apaixonada vai sempre dizer, diante do olhar amoroso de Deus: Amado meu, eu prometo te amar e te respeitar (obedecer, na linguagem dos consagrados!) na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da minha vida.

Somente abandonando-se nos braços fortes e amorosos do Pai, sentindo seu beijo no pescoço, o frescor da roupa nova, o anel no dedo da alma, mostrando a altíssima dignidade do filho de tal Pai, a suave sandália nos pés, revigorando seus passos na longa e difícil subida do monte, onde se encontra com o Amado.

Quem a Deus tem nada lhe falta. Nós já temos Deus, já temos tudo, como cantou S. João da Cruz, amigo e talvez discípulo de Teresa: “Os céus são meus e minha a terra, os justos são meus e meu são os pecadores; os anjos são meus e a Mãe de Deus e todas as coisas são minhas; e o próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Que queres, pois, e buscas, alma minha? Tudo isto é teu e para ti. Não te rebaixes, nem se contente com as migalhas caídas da mesa de teu Pai. Sai de ti e gloria-te da tua glória.”

Só Deus basta. Queridos irmãos e irmãs, queridos carmelitas, o que mais queremos fora de Deus? O que encontraremos fora de Deus? Sem Ele encontramos o vazio da alma. Com Ele a nossa alma será saciada e transbordante de vida. Podemos aplicar a S. Teresa, as bonitas palavras do grande poeta, místico e bispo brasileiro D. Helder Câmara: As pessoas, por que não sei, me lembram sempre um pedaço do dia: amanhecer, pôr-do-sol, noite serena... Mas, há pessoas que, independente da idade, pelo que são, pelo que dizem, pelo que fazem, são sempre meio dia!

Numa outra visão, Teresa viu a alma humana como um diamante, cujo esplendoroso brilho provinha de uma luz do centro do diamante. Em seguida ela viu a mesma alma em pecado mortal: o diamante já não brilhava porque estava coberto de lama e lodo.

Mas, queridos irmãos e irmãs, que visão maravilhosa e verdadeira: o diamante jogado no lixo não se tornou lixo, mas, eternamente será diamante e a luz interior, isto é, a presença de Deus no mais profundo da alma humana, nunca se apagará, pois Deus é luz eterna. Nenhum ser humano jogado e coberto de lixo, jamais será lixo, será sempre diamante e bastará polir, limpar, para que o fulgurante brilho volte a refulgir. Mais do que deixar a luz de Deus entrar, trata-se de deixar a luz de Deus sair, refulgir, brilhar, de dentro para fora. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Não lhe falta luz, não lhe falta a água da misericórdia de Deus que perdoa, lava, purifica, restaura, enfim, faz a alma voltar ao seu brilho original.

Queridos irmãos e irmãs, nos momentos difíceis de dor e escuridão, ressoem na nossa alma as luminosas e sábias palavras de nossa S. Madre Teresa: Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta! Amém.

                                                                           

Dom Fr. Rubens Sevilha, ocd

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