sexta-feira, 18 de março de 2016

JOSÉ DE NAZARÉ, HOMEM DA FORÇA DA TERNURA



Resumo e tradução:   Fr . Alzinir. Março 2016

“E ao lado de Maria, na sagrada família de Nazaré, destaca-se a figura de São José. Com o seu trabalho e presença generosa, cuidou e defendeu Maria e Jesus e livrou-os da violência dos injustos, levando-os para o Egito. No Evangelho, aparece descrito como um homem justo, trabalhador, forte; mas, da sua figura, emana também uma grande ternura, própria não de quem é fraco mas de quem é verdadeiramente forte, atento à realidade para amar e servir humildemente. Por isso, foi declarado protetor da Igreja universal. Também Ele nos pode ensinar a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ternura para proteger este mundo que Deus nos confiou”. (Francisco, Laudato sii, 242)
Chamou-me atenção a expressão do papa Francisco na Laudato sii que recorda S. José como o que nos ensina o cuidado para com mundo criado que Deus nos confiou, vivido com a ternura, virtude dos fortes. Li estes dias uma outra reflexão bonita sobre s. José, juntamente com uma oração que poderia ter sido de José e que já apareceu há alguns dias neste Blog. Desta reflexão faço uma síntese, partilhando com vocês, nesta festa de S. José. Ao lado de Maria ele interceda pelo nosso país, assim necessitado de paz e de justiça.
José é um homem de fé que percorre a estrada da vida em subida... e  percorre-a atento aos planos de Deus e aos outros que lhe foram confiados. Assim no-lo apresentam os Evangelhos da infância de Jesus em Mateus e em Lucas. Conduz Maria e o Menino Jesus ao Egito e  mais tarde de volta a Nazaré, a Jerusalém.
Em Mt ele é apresentado como um homem justo (Mt 1,19). Trata-se daquela justiça que pediu Jesus a seus discípulos: a justiça do Reino procurado em primeiro lugar; justiça que deve superar a dos escribas e fariseus para poder entrar no Reino dos céus (Mt 5,20). Por isso a justiça de José vai além das normas externas, colhe o espírito delas para aderir aos planos de Deus com liberdade, sem medos. É a justiça da pessoa livre, disposta  apagar o preço da fidelidade a si mesmo, a Deus aos outros, aos seus afetos. É a justiça que vem da fé (Rm 4,13).
Por outro lado, José é um homem de ação, concreto, que age eficazmente. Antes de tudo aceita a fadiga de subir a Jerusalém com Maria, grávida e prestes a Dara à luz, a fim de cumprir com a normativa do recenseamento. Um subir que comporta o cansaço físico, a incerteza do que virá com este gesto inútil imposto pelos poderosos deste mundo. Mas é uma fadiga também pela responsabilidade para com Maria e o Menino; fadiga gerada pela insegurança dos caminhos tortuosos e íngremes; fadiga pelo tempo e o trabalho perdidos, os quais José leva às ultimas consequências, sem resignação, mas com concretude de ação.
José um homem de ação porque também revela prontidão e prudência ao executar as ordens recebidas por meio do anjo: levanta-te, toma a Mãe e o Menino, parte... retorna;  com poucos gestos se põe a caminho ou mesmo espera com paciência no exílio que os tempos melhorem para retornar à pátria. Age com prudência e discernimento quando volta a Israel pois sabe que na Judeia reina Arquelau, irmão de Herodes; advertido em sonho retira-se para a Galileia. É a sua capacidade de discernimento sábio e prudente diante da realidade. Tudo pelo bem dos seres que lhe foram confiados.  Enfim José é homem de ação, mesmo em Nazaré, nas circunstâncias corriqueiras da vida em família. Aqui possibilita a Maria e a Jesus uma vida simples, normal, de crescer, estudar, aprender uma profissão, a de carpinteiro. Vive o trabalho na companhia de Maria e de Jesus.
Mas José é um homem contemplativo. Os evangelhos nos permitem entrever sua atitude de silêncio; ele não diz uma palavra. Seu calar é colocar-se confiadamente nas mãos de Deus e esperar Nele. É incapaz de dizer palavras ofensivas a quem quer que seja, mesmo quando lhe batem a porta na cara nas pousadas de Belém. José nos ensina um silêncio paciente;  podemos supor que ele, diante de tudo abençoe àqueles que o ofendem ... O seu silêncio é um silêncio adorante do Mistério escondido por séculos, mas que ele vê presente em Jesus e custodia no silêncio do coração.
Outro traço da contemplação de José é sua capacidade de sonhar. O sonho, a poesia faz parte da vida dos místicos. E sabemos que o sonho aflora quando dormimos;  na bíblia revela ser uma forma de comunicação com Deus. Deus fala a José em sonhos, como ao patriarca Jacó;  José escuta, está aberto ao divino e faz o que ele lhe pede; confia Naquele que conduz a história e pode tudo. Mas ainda temos uma outra característica do ser contemplativo de José: ele demonstra uma tranquilidade e serenidade fora do comum diante de tudo o que vive. Em seu lugar, quantas noites passaríamos sem dormir... José sabe repousar, dormir e estar atento ao que fazer. Talvez Jesus tenha aprendido dele a dormir em meio às tempestades, mesmo estando em um barco em alto mar...
José é um homem de síntese, do essencial. Ele toma consigo o Menino e sua Mãe. Aqui está toda experiência espiritual de um cristão: tomar Maria e Jesus como companhia. Viajar com eles, caminhar com eles, trabalhar para eles; confiar neles e com eles em Deus o Pai bondoso que é fiel e em tudo é presente.
Mas para José, o que conta é estar com Jesus, mesmo quando sua presença se torna incômoda e nos faz empreender viagens imprevistas, mudanças de vida imprevisíveis. A doçura da Mãe ao seu lado torna  a vida menos amarga, doa ternura, conforto, consolação, paz. A vida assim vivida sintetiza toda experiência cristã, até mesmo os momentos finais do caminho. Não por acaso José é na tradição da igreja patrono dos moribundos: nos momentos finais de sua vida foi assistido por Jesus e Maria e partiu de seus braços aos braços misericordiosos do Pai.
S. José não disse palavra nenhuma nos Evangelhos. Mas podemos imaginar que ele rezava assim:
Chegará uma outra noite, ó meu Deus
e talvez um outro sonho ou visão.
Pedir-me-ás de ir para longe,
Ou para voltar para casa
Ou ainda, para permanecer onde estou,
Porque assim tu queres.

Levantar-me-ei cedo como sempre
E farei como dizes, Tu o sabes.
O doce peso da Mãe e do Menino
Carregarei no meu coração enamorado
E será de novo como tu queres.
Amanhã, e um outro dia ainda;
Ou mesmo um ano depois de outro...

Até a última curva de estrada.
Dir-te-ei sim,
sem palavra,
apenas com um olhar.
E cantarei feliz, sem voz
Com o coração que explode de alegria”.

(P. Davide Caldirola, Tempo di partire; itinerário spirituale col Vangelo di Matteo. Ancora. Milano 2016. ­).



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