terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Noite e Aurora de São João da Cruz


Transfiguração em Toledo – Narração biográfica de Federico Ruiz



Frei João da Cruz chega a Toledo nos primeiros dias de dezembro de 1577. Desde Ávila percorreu um caminho longo e tortuoso pela serra, com frio e neve. Ignora o destino e o desenlace deste penoso seqüestro. Se perguntassem a ele o que vinha fazer em Toledo nos responderia sem titubeios: não sei nada, me trouxeram. Concretamente, não tem nada programado nem previsto quanto à vida, tarefa, residência e tratamento que receberá. Inaugura este novo período de sua existência interiormente às escuras e também com os olhos vendados.
Neste momento a única coisa que adverte com clareza é o corte brusco que se produziu em seu ritmo de vida e atividades. De formador dinâmico e bem-sucedido passa à inatividade forçada. Sua paralisia durará nove meses, perdendo tempo e energias no melhor momento de sua vida, aos 35 anos de idade. Tiram-lhe toda possibilidade de trabalho físico, intelectual, pastoral: nem os enfermos de Medina, nem os livros de Salamanca, nem os religiosos e religiosas de Duruelo e de Ávila. Não é este o recolhimento contemplativo que tinha buscado no Carmelo, nem a solidão que desejava na Cartuxa. Não é  recolhimento, mas prisão obrigatória num quarto escuro e estreito do convento de Toledo, com caráter de castigo.
Momento delicado e difícil na vida de frei João. De improviso se encontra envolvido numa trama de fatos ilógico, injustos, incompreensíveis e infrutuosos, pelo menos à primeira vista. E terá que improvisar uma resposta psicológica e teológica adequadas a esta situação desconcertante. Necessita, por isso, de muita lucidez e fortaleza. Caso não acerte na atitude correta, coloca em risco seu equilíbrio psicológico e espiritual pelo resto da vida.
A fase toledana nos exige também uma leitura apropriada em dois planos. Por um lado está a crônica dos acontecimentos, realista e crua, quase dramática. Relata com toda classe de dados e detalhes o tratamento desumano, a dureza das penas e castigos que o jovem Descalço sofre no cárcere com incrível fortaleza. Esquematiza conforme o binômio: vítimas e verdugos, torturas e paciência. Essa perspectiva reflete um aspecto real e interessante, mas não é o único nem o mais importante.
No plano da história íntima, essa realidade penosa transfigura-se em experiência religiosa e humana de primeira qualidade, que se irradia a todas as dimensões de sua vida: religiosa, psíquica, mística, estética. O cárcere lhe provocou uma criatividade exacerbada. “Toledo é o Tabor da Espanha”, alguém escreveu; afirmação que recolhe fielmente a experiência de João da Cruz: uma presença-relâmpago de Deus em meio às trevas. Diante desta realidade espiritual, as durezas da crônica se reduzem a um simples marco e detalhes.
Seguiremos de perto o desenvolvimento dos acontecimentos, atentos sempre aos fatos e atitudes das pessoas, sobretudo a essa passagem oculta de Deus, que converte o período mais inativo da vida de frei João da Cruz na fase mais intensa e no momento cume de sua criação mística e poética original. A noite escura converteu-se em mensagem de audiência universal.

Destino: Toledo
À noite, com os olhos vendados, o prisioneiro percorre as ruelas estreitas e íngremes da cidade. É todo um símbolo e presságio do que vai acontecer nos próximos meses. Esta medida preventiva tem como finalidade dissuadi-lo ou desorientá-lo numa eventual intenção de fuga. Sente a cidade, a dureza do solo, os desníveis do caminho, a estreiteza, no movimento e no ruído dos cavalos.
Depois de algumas voltas, param. Chegaram ao destino. Descem frei João do cavalo já dentro de um recinto, tiram-lhe as vendas e este encontra-se num edifício bem construído e de proporções imensas; maiores ainda parecem para alguém que vivia até bem pouco tempo na torrezinha da Encarnação e antes dela, na casinha de Duruelo.
Intui imediatamente sua situação: encontra-se em Toledo, no Carmelo de Toledo. Nunca esteve aqui antes, mas conhece o convento por ter ouvido falar dele. Encontra-se também com alguns rostos conhecidos entre os religiosos desta comunidade, numerosa com quase 80 frades: alguns conventuais foram seus companheiros de estudos em Salamanca. É o melhor convento que a província de Castilla possui.
Impressiona por sua estrutura e pela localização: sobre a muralha e os penhascos que se precipitam no rio Tajo, próximo à ponte de Alcántara. (...)
Vamos antecipando notícias para ambientar a história, pois frei João vai descobrindo Toledo de forma bem lenta e gradual. Primeiro conhece apenas seu calabouço estreito, alguns claustros e dependências do convento. Em seguida lhe permitem aproximar-se a uma janela que dá ao poente, diante do castelo de São Servando. Em sua fuga, percorrerá de noite a encosta do Carmelo, pelo lado contrário, que sobe desde a entrada principal do convento até a Praça Zocodover; ali o fugitivo caminha em siguezague procurando um refúgio. Finalmente, recobrada sua liberdade, pode conhecer a cidade de dia e contemplar do hospital de Santa Cruz cúpulas e torres, arcos e fachadas, amplos horizontes. Esta descoberta é de ordem visual e geográfica. (...)

Chamado a juízo
Ainda não refeito da dolorosa viagem, tem que apresentar-se imediatamente para o julgamento. Foi para isso que o trouxeram a Toledo. Deve prestar contas de suas atividades fora do convento, em Ávila, e de suas responsabilidades coletivas nos passos de autonomia que a incipiente Reforma está dando. Encontra-se aqui o Pe. Jeronimo Tostado, a quem o Pe. Rubeo nomeou visitador geral de todos os carmelitas da Espanha e Portugal. Chegou à Espanha no verão de 1576 com o encargo de aplicar as medidas severas do Capítulo geral de Piacenza (1575) contra os descalços.
Antes de começar sua visita às províncias da Espanha, apresenta suas patentes ao Conselho Real de Felipe II para reconhecimento. O Conselho não reconhece as patentes, por julgá-las contrárias aos poderes que o Núncio recebeu do Papa. O visitador, desautorizado na Espanha, translada-se para Portugal, para realizar ali sua visita. A Madre Teresa, que conhece as intenções do Tostado, escreve aliviada, ao conhecer a decisão do Conselho Real: “Deus nos livrou do Tostado” (carta de 7 de setembro de 1576).
Era ainda muito cedo para cantar vitória. Até o dia 22 de junho de 1580, quando o Papa outorga o Breve de separação de descalços e calçados, restam quatro anos completos de tensões, angústias, conflitos exacerbados, predomínio alternativo de uma e outra parte. A situação se agrava com a mudança ocorrida no verão de 1577: no dia 18 de junho morre o núncio Ormaneto, favorável aos Descalços e já no dia 29 de agosto chega o novo núncio, Felipe Sega, totalmente indisposto contra eles.
Respaldado pelo clima favorável reaparece na contenda o Tostado, atuando com decisão, pois tem o Núncio a seu lado, porém às escondidas, já que o Conselho Real não confirma suas patentes. Quando frei João da Cruz apresenta-se na sala de julgamento, encontra ali o Pe. Tostado presidindo o tribunal. Acompanham-no como juízes o prior Pe. Maldonado e outros religiosos graves da comunidade.
O essencial da questão e o objetivo final de toda a operação é conseguir que frei João abandone a reforma teresiana, arrependa-se do que fez e volte a vestir o hábito de Calçado (já lhe tinham colocado um, por cima daquele que vestia). Por ter sido o primeiro descalço e por sua capacidade espiritual, acreditam que sua renúncia, poderia acarretar a reabsorção da reforma. Ao longo destes meses, não o recriminam por abuso de poder ou por ter feito coisas sem autorização. As pressões são feitas com o objetivo de fazê-lo voltar atrás. Para este fim, utilizam três meios de persuasão: a obediência, as bajulações e os castigos.
Para um religioso com o espírito e o caráter de frei João é, sem dúvida, o argumento da obediência aquele que tem maior peso. É também o primeiro argumento que lhe apresentam com moderação e solenidade: há mandato explícito do Papa, do superior geral e do Capítulo Geral de Piacenza, para que os Descalços se submetam inteiramente à obediência da Ordem. A norma vale para todos, ainda que as maiores responsabilidades correspondam a alguns descalços, que sem permissão do Geral fundaram conventos em Andalucía. É lido na sala o documento solene e ameaçador, que o descalço já conhecia de antemão: “E porque há alguns desobedientes, rebeldes e contumazes, chamados vulgarmente Descalços..., se intimará aos ditos Carmelitas Descalços, sob penas e censuras apostólicas, inclusive, se for preciso, invocando a ajuda do braço secular, para que ao final de três dias se submetam; e se resistem, os castiguem gravemente”.
Estes são os critérios que os membros do tribunal, com consciência de seu pleno direito, julgam ao Descalço. Em Ávila, para o seqüestro, pediram ajuda ao braço secular. O julgamento e o castigo aplicarão diretamente, para não dar publicidade ao assunto e evitar que intervenha o braço secular de Felipe II, que seguramente desbarataria o projeto.
Agora se oferece ao réu a possibilidade de motivar sua atitude e conduta passada, sempre com a intenção de chegar ao ponto final: aceitar o documento, submetendo-se publicamente. Este último ponto João não cede. Talvez não tenha sido favorável a fundar em Andalucía. Ele mesmo tinha pedido repetidamente para deixar o ofício de confessor da Encarnação para aliviar tensões e evitar problemas.
Porém, quando se toca o ponto da legitimidade da reforma em suas atuações centrais e em certos passos de autonomia que se deram, não cede nada. Não se impressiona com os argumentos bem documentados que lhe foram apresentados. É obediente incondicional à Igreja, porém não se sente atingido pelas normas do Pe. Rubeo ou do Capítulo Geral. Ele e outros Descalços agiram por disposição expressa do núncio Ormaneto e do Visitador Apostólico, que podiam dispor dos religiosos de sua jurisdição, com uma autoridade maior que a dos superiores da Ordem. Nesta obediência superior se encastela o réu e assim lhe resvalam as normas particulares que apontam em contrário.
Sentença provisória: condenado como rebelde e contumaz. Revela-se aí um paradoxo. O homem mais submisso e obediente que se pode imaginar foi transformado em rebelde por decisão alheia. Como sempre acontece, o dócil de um partido é o rebelde de outro. Neste sentido, recentemente o qualificaram de “O rebelde submisso”. Os frades Calçados que o julgam advertem a anomalia de sua atitude firme e branda, qualificando-o de “lima surda”.
Da boca do mesmo Santo conheceram anos depois algumas testemunhas outro sistema de persuasão que lhe aplicam: promessas e bajulações. Oferecem a ele, entre outras coisas: um priorado, uma boa cela com bons livros, uma cruz de ouro de grande valor. Procuram subornar frei João com coisas que espiritualmente lhe repugnam. Responde a eles: “O que busca a Cristo desnudo, não há mister jóias de ouro”. Basta recordar a cela, a biblioteca e as cruzes de Duruelo.

O cárcere conventual
Não aceitando as disposições do Superior, frei João já sabe o castigo que lhe está reservado: a prisão. Isto é determinado pela lei para este tipo de transgressão. Dava-se o nome de cárcere conventual a uma habitação estreita e incomunicável, na qual era recluso o religioso castigado. Era nomeado um religioso carcereiro, encarregado de vigiar, trazer a comida e acompanhar o preso quando este tinha que sair da habitação ou aparecer em público. O preso não tinha nenhum outro contato com o mundo exterior.
Aqueles religiosos não eram insensíveis. O “cárcere conventual” era uma instituição herdada, que tinha entrado na mentalidade comum. Mas cuidavam bem para que cumprisse suas funções disciplinares, sem prejudicar a saúde. Entre tantos fatos similares, convém recordar um, que aconteceu 15 anos depois da experiência de João da Cruz, e dentro do mesmo Carmelo da Observância.
Em 1594, o religioso frei Alonso da Mãe de Deus é fechado no cárcere do convento de Valencia. A habitação estava situada num lugar úmido e insalubre, junto a um poço. Intervém o Capítulo provincial de 1597 e determina que este cárcere seja destruído totalmente: porque é indigno da caridade cristã e da vida religiosa que se prenda os irmãos, ainda que sejam culpados, naquele lugar. E ordena que se construa o cárcere em lugar apropriado.
Nos primeiros dias, o Descalço esteve preso no cárcere “oficial” do convento. Aquilo era um palácio, comparado com o que lhe tocou depois. Pouco durou o privilégio. Ao chegar a notícia de que tinha fugido seu companheiro fr. Germán, preso no convento de São Paulo de La Moraleja, transladam fr. João para um lugar mais seguro e protegido. Este espaço não era uma cela, nem um cárcere, nem estava previsto para que alguém fosse colocado para viver nele.
Podemos reconstruir a cantoneira com suficiente detalhes, graças às descrições de numerosos testemunhos oculares que o visitaram pessoalmente até meados do século XVIII. Trata-se de um espaço vazio, como um armário embutido, feito para ser usado como banheiro, no fundo de uma sala que era destinada aos hóspedes de maior consideração. O espaço não tinha janela, mas somente uma abertura de três dedos de largura na parte mais alta de sua parede. Por esta fresta entrava uma luz escassa e indireta vinda da janela que a sala tinha para o exterior. As dimensões do calabouço são aproximadamente: 2,70 metros de comprimento, por 1,60 de largura.
Com pouco trabalho e gasto mobíliaram o calabouço. Retiram dali a privada, colocam no chão uma tábua e sobre ela duas mantas velhas. Acrescentam um banquinho para apoiar o breviário, único livro que lhe deixam usar. Quanto à roupa: o que veste. Nem uma peça a mais contra o frio ou para a troca de roupa interior. Inclusive lhe tiram parte do hábito, isto é, o capuz e o escapulário, como sinal de castigo por sua atitude rebelde.

O regime alimentar tão pouco era para engordar. De Ávila escreve a madre Teresa que o viu sair magro e com mau aspecto. Podemos imaginar como ficou com a dieta carcerária: água, pão e sardinhas, duas, uma, às vezes meia. E três dias por semana jejum, isto é, sobreayuno, como ordenam as constituições de 1462: “O encarcerado jejue as segundas, quartas e sextas a pão e água; a não ser que, com permissão do prior e por pura misericórdia, se queira oferecer alguma coisa a mais”, ou seja, a sardinha dos dias em que não jejuava.
Para não atrofiar os músculos, são previstas algumas saídas ao corredor e ao refeitório da comunidade. São dias de jejum intensivo e o levam para jantar com a comunidade. De joelhos no centro do refeitório, enquanto os religiosos sentam-se nas mesas, toma diante de todos a sua porção de pão e água. Ao final do jantar, abaixa um pouco o hábito expondo ombros e costas, e passam em roda todos os religiosos golpeando-o com um maço de varetas, o que se chamava a “disciplina circular”.
Aquilo que já era um panorama deprimente recrudesce com a passagem dos dias. Frios insuportáveis e calores extenuantes que duram vários meses sem alívio algum. Enfermidades de garganta, dor de barriga, ar irrespirável, maus odores. A roupa interior cai em pedaços, já que em mais de meio ano não lhe deram outras para trocar.
Para completar o quadro, inventaram um sistema de pressão moral. Algumas vezes os religiosos falam entre si, para que o preso os ouça, na sala ao lado: “foram suprimidos os conventos descalços; que o núncio Sega vai suprimir de um momento para outro a Reforma; os Descalços estão se incorporando à Ordem; o único que falta é frei João, o qual podia ser enterrado vivo.
Estes comentários afetam profundamente o espírito do Descalço, debilitado pelos jejuns, isolamento, os medos indeterminados que rondam pela sua cabeça noite e dia: O que pensarão dele os Descalços? Principalmente, o que pensará a madre Teresa? Acreditarão que ele abandonou a Reforma... vive 24 horas de ócio por dia, tem espaço para pensar, imaginar e suspeitar as hipóteses mais ameaçadoras.
Hoje estes fatos nos produzem uma impressão de crueldade injustificada. Necessitamos fazer um grande esforço para reler a história no contexto real em que se produziu. Indubitavelmente a história de frei João reveste especial dureza, mesmo para seus contemporâneos; dureza que eles agravam ulteriormente, ao relatar os fatos pelo motivo da canonização. Porém, como marco geral, se enquadra nos costumes da época. Tomou maior relevo por tratar-se de quem hoje chamamos são João da Cruz.
Os erros, mais ou menos voluntários, daqueles que o prenderam estava em dois pontos. Primeiramente, em qualificar de rebelde e contumaz ao Descalço por um comportamento que obedecia a uma autoridade superior; neste ponto, não conseguiram ver claramente, e ainda hoje os historiadores andam ás voltas com problemas de jurisdição. O segundo erro estava em pensar que, por via de maus tratos, podiam debilitar a fortaleza daquele “meio frade” e fazê-lo retratar-se de sua decisão; previsão totalmente equivocada, o que se viu pelos resultados.

A comunidade de Toledo
Na experiência toledana de frei João intervém vários personagens, cada um com seu estilo, responsabilidade e consciência. Ao recordar mais tarde os sofrimentos do cárcere, o santo dava a seus ouvintes uma norma de interpretação que ele mesmo utilizava e ainda hoje continua válida: aqueles que o maltrataram agiram assim “porque pensavam que acertavam”. Cumpriam as normas dadas pela autoridade da Ordem contra os Descalços rebeldes.
Simplificou-se e generalizou-se demais os fatos ao se falar da atitude e trato que seus irmãos da Observancia dedicaram ao prisioneiro. Nas narrações, parece que todos são inimigos e carcereiros. Olhando mais de perto, notamos que há na comunidade numerosas posturas e bem diferentes umas das outras. Podemos distinguir três planos: os superiores, a comunidade em geral e os carcereiros.
Dos superiores já falamos ao tratarmos do julgamento. São severos. Substancialmente apóiam-se no mandato que receberam. Vão acrescentar de sua parte astúcias, como o fazer tudo às escondidas, sem que nenhuma autoridade pudesse acompanhar e controlar os procedimentos, o estilo das bajulações e as pressões. Eles também, sem má intenção, decidiram a mudança que converterá o cárcere numa verdadeira tortura: a mudança de frei João para o quartinho escuro, por razões de segurança.
Externamente, a comunidade tem que mostrar-se homogênea e solidária com o castigo, pela presença do Pe. Tostado e pelas normas das constituições que proíbem severamente prestar ao réu qualquer gênero de apoio ou favor. Em troca, na vida interna da comunidade, os ânimos aparecem em atitudes mais diferenciadas. Há fundamentalmente dois grupos.
Um grupo de religiosos, certamente o mais numeroso e de mais velhos, conhece o prisioneiro somente de referencia. Têm dele a imagem que deram os superiores neste último período de reprovações e conflitos. Os fatos de sua vida passada e suas atitudes presentes são interpretados em termos de rebeldia, desobediência, afã de protagonismo e desejo de ser considerado santo; é visto como incorrigível, hipócrita e agitador. A esta imagem, recebida do ambiente, correspondem suas reações. Não têm obrigação nem possibilidade de saber mais, dado que as notícias chegam diretamente do visitador Pe. Tostado e de religiosos sérios, que para eles oferecem toda garantia. Este grupo de religiosos vê com bons olhos o trato duro que se dá ao réu: jejuns, disciplinas, inclusive fazer com que desapareça de qualquer modo.
Porém, há também na mesma comunidade de Toledo um bom grupo de religiosos que não partilha o tratamento oficial. Alguns deles foram companheiros de frei João a dez anos atrás em Salamanca. Eles o conhecem a fundo, apreciam-no e o amam. Recordemos as palavras de santa Teresa referentes àquele período: “Não há frade que não fale bem dele”. Não confiam nos informes e notícias tendenciosas que o Visitador difundiu à respeito do preso. Toda aquela dureza lhes parece desumana e injusta. Na comunidade se comentava: “Os religiosos jovens choram e se enternecem por ele e diziam entre si: este é santo, digam o que quiserem”.
Enquanto os da linha dura podem manifestar-se livremente na comunidade, os que simpatizam com o réu têm que vigiar-se bastante para não manifestar por gestos ou palavras o que pensam e sentem. Frei João não tem nenhuma possibilidade de contato com eles, nem de saber seu estado de animo: nem uma saudação, nem uma palavra de explicação, nem um gesto de simpatia. Apenas se encontram à distancia, quando o prisioneiro desce ao refeitório para jejuar de joelhos e esses mesmos amigos terão também que golpeá-lo na disciplina circular. Continuam estimando-o, o odeiam ou desconfiam dele? Nesses meses de confinamento, o preso nunca chegará a sabê-lo. Nós ficamos sabendo depois.
Quando por fim escapa no mês de agosto, este segundo grupo de religiosos “se alegraram que tivesse ido, porque tinham compaixão de vê-lo padecer”, isto nos diz o carcereiro, que partilhava com este grupo os mesmos sentimentos.

Os dois carcereiros
Na prisão toledana de João da Cruz gozam de certo protagonismo os dois “carcereiros” que sucessivamente ocupam-se em vigiá-lo ao longo dos nove meses. Protagonismo razoável, já que são eles que tratam o preso continuamente e de perto, aqueles que lhe prestam serviços e aplicam os castigos. Na realidade, talvez, sejam os menos responsáveis, pois recebem ordens e normas dos superiores e são influenciados pelos sentimentos e a pressão moral da comunidade.
O primeiro, cujo nome desconhecemos, cuida de frei João até maio, durante os seis primeiros meses. Quase todas as durezas que recordamos antes pertencem a este primeiro período. Mostra-se severíssimo com o preso, sem conceder-lhe alívio algum como: troca de roupa, algum livro, papel e tinta para escrever, uma saída até a janela da sala para tomar um ar, pular algum jejum ou disciplina circular. Leva o castigo ao extremo com todo escrúpulo e rigor.
Diante do contraste dessa atitude com a do segundo carcereiro nos surgem algumas perguntas: Por que se mostra tão duro? Talvez porque a condenação é recente e as coisas se levam com maior rigor. Talvez porque é membro da comunidade do convento e sofre mais diretamente a pressão da comunidade. Não há motivos para pensar que agisse por vingança pessoal.
O segundo carcereiro chama-se Pe. João de santa Maria. Vem de Valladolid. Tem ao redor de 27 anos, oito menos que o prisioneiro. Como o carcereiro anterior teve que ausentar-se foi encarregado de cuidar de fr. João. O novo carcereiro vem sem nenhuma prevenção contra o réu. Formará seu julgamento conforme vá conhecendo-o mais de perto e vendo como se comporta. Partilha os sentimentos que temos observado entre os religiosos jovens.
Este jovem religioso será carcereiro durante três meses. Talvez seja de temperamento mais afável e aberto ou agora os superiores já não vigiam tanto o cumprimento do castigo com tanto rigor, ou que estão cansados de tê-lo ali como prisioneiro sem saber qual destino dar a ele. O fato é que o Pe João de santa Maria encontra muito espaço para aliviar as durezas da prisão: lhe dá roupa interior limpa, tinta e papel, deixa-o sair para a sala em alguns momentos, economiza descidas ao refeitório... Ao fim, a relação entre os dois tem mais de amigos e xarás do que de carcereiro e castigado.
Este religioso, por ser bem jovem, chegou a dar testemunho nos Processos de beatificação em 1616. Pudemos extrair alguns gestos e atitudes que mais vivamente lhe impressionaram em João da Cruz: bondade, fortaleza e gratidão.
A fortaleza deste homem, fisicamente destruído, impressiona o carcereiro. Não o ouve jamais queixar-se de nada, nem culpar a ninguém, nem chorar sua sorte. Demonstra uma serenidade de animo que parece de outro mundo. E mais ainda, quando procura dar-lhe algum alívio pulando de vez em quando as descidas ao refeitório dos dias de jejum e disciplina, o preso lhe pede contas; “Padre, que aconteceu hoje? Por que não me desceu ao refeitório para receber meu merecido?”. É uma linguagem para desconcertar qualquer um.
Outra atitude que impressiona o carcereiro é a gratidão. Pede perdão e desculpas pelas moléstias que ocasiona e agradece até as mínimas atenções que tem com ele. Quando os religiosos vão para a sesta, deixa-o sair um pouco para a sala e tomar um pouco de ar. Antes que eles se levantem, vem para avisá-lo que se recolha em sua prisão e assim poder fechá-la. O prisioneiro faz imediatamente o que lhe foi dito, unindo as mãos em sinal de agradecimento pela caridade que recebeu dele.
As palavras lhe parecem pouco para expressar sua gratidão. Gostaria de oferecer algum presente sensível. Naquela pobreza, não tem como comprar ou escolher para dar de presente. Não tem despensa, nem adornos nas paredes e do dinheiro nem sabe mais a cor. Suas roupas, nada mais além do que vestia, serviria mais para relíquia do que presente. Aqui nos encontramos com a viúva do Evangelho que possuía apenas duas moedinhas que a todo custo queria ofertar. Depois de revisar a cela e sua pessoa, frei João da Cruz reconhece que tem apenas dois objetos que poderia presentear: o breviário e um crucifixo que trazia junto ao seu hábito do lado esquerdo.
Poucos dias antes de fugir, chama o carcereiro, pede-lhe novamente perdão pelas moléstias e trabalhos e lhe oferece o crucifixo. Encarece o valor da prenda: recebeu de uma pessoa tal e que por isso aumenta seu valor e estima. Provavelmente o tinha recebido em Ávila de santa Teresa. O Cristo era de bronze, cravado numa cruz de madeira refinada e nela estavam gravados os instrumentos da Paixão. Este gesto parece ser uma despedida antecipada e dissimulada.
Quando faz sua declaração em 1616, a testemunha “ainda o tem e conserva” (o crucifixo). Morto o carcereiro, “veio para o convento de sua Ordem (o Carmelo Calçado) de Medina Del Campo, onde, pela memória de nosso santo Padre, que é filho daquele convento, é considerado com muita veneração” (P. Alonso). Ali continuou por algumas décadas até que se perdeu a noticia de seu paradeiro.

 História íntima
Para o cronista dos acontecimentos, a descrição anterior do cárcere pode bastar. Para nós, não. Deixaríamos escapar o mais interessante e valioso da vida e da alma de João da Cruz. Ficaríamos sem compreender como pôde brotar ali poemas de tão rara intensidade. O cárcere de Toledo não é o calabouço estreito, nem o que outras pessoas pensam, sentem ou fazem ao redor. O cárcere de Toledo é, em definitivo, o que o protagonista João fez dele com sua fé, amor e esperança.
É uma história íntima da qual nunca conheceremos os detalhes. Meio obrigado pela amizade, pelas circunstancias, pelos rogos, algumas vezes o Santo falou desta experiência. Sempre que contava sobre sua prisão em Toledo o fazia com grande respeito para com as pessoas e os fatos. Às vezes relata fatos externos em tom de aventura engraçada ou como um “causo”: “Anos depois dizia o Santo, por graça, que o haviam açoitado mais que a são Paulo”.
Menos concretas costumam ser suas confissões no que se refere às experiências interiores. Sem necessidade de partilhar todos os detalhes que referem os biógrafos e as testemunhas a este respeito, podemos conhecer a dupla orientação dessa experiência interior: abandono total e generosidade divina.
A julgar por suas confissões, provou a maior desolação imaginável: solidão total, espiritual e humana; medo de ser envenenado, pensando que a cada bocado de comida tragava a morte; angústias indefinidas; críticas insistentes feitas a ele de hipocrisia e obstinação, que o afetaram. No cárcere viveu como se estive enterrado, alma e corpo, “como numa tumba”.
Porém, também saboreou a generosidade ilimitada de Deus: Deus é tudo, seu amor não tem limites, liberdade e desnudez luminosas, experiência de Cristo crucificado de forma direta. Para uma de suas confidentes confiará depois: “Filha Ana, uma só das mercês que Deus me fez ali não se pode pagar nem com muitos anos de cárcere”.
O mistério do cárcere toledano se revela de muitas maneiras, mesmo sem conhecer as graças místicas em particular. Aqui há mais que conjecturas. Por seus frutos o conhecereis. Além dos fatos, frei João da Cruz tem palavras não intencionais que o retratam de corpo inteiro. Dos poemas falaremos em seguida.
Frei João dispõe de uma chave teologal que o ajuda a fazer a leitura dos fatos e lhe permite olhar a realidade mais contrária e negativa como dotada de especial beleza e transcendência. Diante de uma experiência dolorosa, bem semelhante à que viveu em Toledo, escreverá ao final de sua vida: “Do que toca a mim, filha, não lhe dê pena, que nenhuma me dá. A pena que me dá e bem grande: é que se coloque culpa em quem não a tem; porque estas coisas não as fazem os homens, mas Deus, que sabe o que nos convém e as ordena para nosso bem. Não pense outra coisa senão que tudo Deus ordena; e onde não há amor, coloca amor e colherá amor” (carta de 6 de julho de 1591).

Vivência mística e poética
Por uma estranha reação, as privações do calabouço provocam em frei João uma exuberância mística e poética. Talvez isso tenha ocorrido por uma lei de compensação ou porque a desnudez de espírito deixou descobertos os mananciais mais profundos de energia interior. O certo é que frei João da Cruz, nas circunstancias mais desfavoráveis, desenvolve uma criatividade que não poderíamos ter imaginado, nem esperado.
Frei João tem um gosto particular em celebrar algumas festas do calendário litúrgico: Natal e Corpus Christi. Nessas ocasiões, ele mesmo decora a Igreja, organiza procissões, compõe cantos e versos, para viver esses mistérios em comunidade com alegria. Este ano tem que celebrar só e na prisão as festas do Senhor. Natal sem Menino nem presépio, sem luzes nem cânticos de natal, sem família. E em seguida o Corpus Christi sem missa nem comunhão.
Como reagiu este contemplativo imprevisível diante dessa situação deprimente? Ele responde a ela com a vivência mística e o canto lírico, isto é, com o cântico místico. Uma síntese, que possivelmente precisou de muitos anos de germinação oculta, mas que nós conhecemos em sua manifestação repentina. Parece inverossímil que tal perfeição de conteúdos e de formas seja fruto de um poeta novato que nada tinha escrito até essa ocasião.
Celebra o Natal no cárcere compondo mentalmente uns Romances. Recolhe neles a pré-história e a longa história da salvação. Toma como princípio o eterno desígnio divino de manifestar-se pela encarnação de seu Filho, a criação do homem e do mundo, os gritos de esperança da humanidade, os profetas até Simeão, a encarnação que se realiza, o nascimento de Jesus. Em formas simples e teologicamente densas dedica-se de corpo e alma a uma experiência religiosa intensa.
O fato vai se repetir por ocasião da festa de Corpus Christi. Não pode celebrar missa, nem sequer comungar, tanto menos fazer procissões como costumava fazer. E, então, repete-se igualmente a vingança do místico poeta: vive e compõe o poema a Fonte: A fonte é a bondade do Deus infinito que se difunde e manifesta ao homem por tantas vias; e o fiel a recebe e a percebe na penumbra da fé: “mesmo de noite”.
Ainda resta uma terceira compensação, a mais memorável: o poema Cântico espiritual. Em condições de estreiteza, escuridão, paralisação, maus odores, “numa tumba”, compôs o poema com maior sensação de amplidão, paisagem, movimento e perfume, da poesia espanhola. Tudo isso é mais que uma evasão poética. Trata-se de uma oração, um canto místico; “Onde te escondeste, Amado...?
Aqui cobrimos o rosto como o profeta Elias, pois roçamos o mistério, que nem o teólogo e nem o artista conseguem explicar. “O cume mais alto da poesia espanhola não foi atingido por um artista, mas por um santo e pelo mais rigoroso caminho de sua perfeição” (Jorge guillén).

Fuga na noite
As coisas não caminham para consertar-se por si mesmas. Os carmelitas dão o processo por concluído. Só esperam que o preso retrate-se ou se consuma de anemia e podridão. A bondade do segundo carcereiro não mudam substancialmente o ritmo crescente do deterioro que está sofrendo o organismo deste Descalço raquítico. Sente-se morrer. Cada dia que passa é um golpe duro para sua frágil sobrevivência.
É verdade que leva tudo com paciência e que estes meses de ócio se tornaram fecundos em mística e poesia. Porém, não tem a intenção de terminar ali seus dias. Durante o mês de agosto, a idéia de fuga lhe vem insistentemente mente. Primeiro rejeita o projeto como impossível: está feito um cadáver e quase não consegue ficar em pé; não está preparado para lançar-se a uma aventura de fugir pela janela, telhados e muralhas e também não sabe para onde ir. Rejeita a idéia de fugir principalmente por que lhe parece tentação: parece covardia fugir da cruz. Porém, a inspiração ou o pensamento de fuga se torna insistente. Não pode consultar ninguém, nem pedir conselho e menos ainda ajuda para a realização da fuga. Assim terá que projetar e realizar tudo sozinho com seus próprios meios. Conhecemos os detalhes pelos múltiplos testemunhos.
Começam os preparativos. Não há muito para escolher. Só tem uma saída possível: a janela da sala, que dá sobre a borda da muralha e o penhasco do Tajo. E somente um espaço de tempo: a noite. O projeto encontra duas dificuldades: forçar a porta do cárcere à noite de dentro da cela e pular da janela para a muralha de uma altura que dá vertigem. A primeira dificuldade tem uma solução relativamente fácil: basta afrouxar a fechadura do cadeado antes, durante a hora de livre acesso a sala permitida pelo carcereiro, de maneira que logo ceda ou caia quando forçar a porta de dentro da cela.
Mais complicado e árduo se apresenta a saída pela janela. Porém, também esta dificuldade tem sua solução. Durante vários dias, calcula distancias, resistência de materiais e meios a disposição. A distância de onde está até o chão pode percorrer unindo as duas mantas com nós, somando o comprimento de seu próprio corpo e quase dois metros que ainda faltam soltando-se nesse espaço vazio. Resolvidas as questões anteriores, deixa pra depois o que fará quando estiver fora do convento.
Na segunda metade de agosto, durante a oitava da assunção, decide realizar o projeto. Tem tanto azar que, depois que afrouxou a fechadura ao meio-dia, pela noite chegaram alguns hospedes para dormir na sala. Não retrocede na operação. Depois da meia noite arranca o cadeado com um empurrão dado na porta. Os hóspedes despertam, silencio, e voltam a dormir. O fugitivo já tem as mantas amarradas, vai à janela, joga as cordas de pano e desce por elas.


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