quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Solenidade de São João da Cruz

Mensagem de Frei Alzinir F. Debastiani, ocd. 



Olvido do que é criado,
memória do Criador,
atenção ao interior
e estar amando o Amado.

Estes 4 versos da Suma de perfeição de S. João da Cruz contém 4 conselhos que, além de formar um conjunto harmonioso, anunciam o programa de vida espiritual. Cada verso supõe o anterior, que o complementa e leva a entender o seu sentido. No final, culminando assim com o objetivo dos seus demais escritos, João quer levar à união com Deus pelo amor, o exercício constante de amar ao Amado.

Olvido do que é criado

O esquecimento das criaturas que pede aqui o Santo é aquele afetivo, desapegar-se das criaturas segundo o afeto, de forma que o apego às criaturas, às recordações, etc., deixem na alma o vazio, a fim de que Deus possa preenchê-la com sua Presença. Assim o havia recomendado: “para viver em inteira e pura esperança de Deus, é mister, todas as vezes que ocorrerem notícias, formas ou imagens distintas, não se deter nelas, mas elevar-se a Deus no vazio de todas essas lembranças, com afeto amoroso, sem reparar em tais coisas senão para entender e cumprir o que é de obrigação, no caso de serem relativas a seus deveres. Mesmo assim é necessário não pôr o afeto e gosto naquilo que lhe vem à memória, para não ficar efeito na alma. Deste modo, não deve deixar de ocupar o pensamento em lembrar-se do que é obrigada a saber e a fazer, pois não tendo nisso propriedades em apego, não lhe será prejudicial. As sentenças encontradas no fim do capítulo 13 do primeiro Livro, e escritas no "Monte", poderão ser-lhe úteis nesse trabalho de despojamento” (3 Subida 15,1).

Memória do Criador

Servir-se das criaturas para ir ao Criador delas, significa ter presente que Deus as transcende, é muito superior a elas. Este cuidado, sustentado pela virtude da esperança faz com que a alma “não se engolfe em coisa alguma deste mundo, e não haja lugar por onde os possa ferir alguma seta deste século. Só deixa à alma uma viseira, a fim de poder levantar os olhos para cima, e nada mais. Tal é, ordinariamente, o ofício da esperança dentro da alma, — levantar os seus olhos para olhar somente a Deus, como diz Davi: "Meus olhos estão sempre voltados para o Senhor" (Sl 24,15). Não esperava bem algum de outra parte, conforme ele mesmo diz em outro Salmo: "Assim como os olhos da escrava estão postos nas mãos da sua senhora, assim os nossos estão fixados sobre o Senhor, nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós" (Sl 122,2). Assim, quando a alma se reveste da verde libré da esperança, — sempre olhando para Deus, sem ver outra coisa nem querer outra paga para o seu amor a não ser unicamente ele, — o Amado, de tal forma nela se compraz, que, na verdade, pode-se dizer que a alma dele alcança tanto quanto espera” (2 Noite 21,7).

Atenção ao interior

O Santo quer levar as pessoas ao centro, ao interior, onde mora a SS. Trindade, onde o Amado está escondido: “Que mais queres, ó alma, e que mais buscas fora de ti se tens dentro de ti tuas riquezas, teus deleites, tua satisfação, tua fartura e teu reino, que é teu Amado a quem procuras e desejas? Goza-te e alegra-te em teu interior recolhimento com ele, pois o tens tão próximo. Ai o deseja aí o adora, e não vás buscá-lo fora de ti, porque te distrairás e cansarás; não o acharás nem gozarás com maior segurança, nem mais depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti” (Cântico 1,6-8). Normalmente ele recomenda unir à atenção uma atitude de advertência amorosa (cf. 2 Subida 12,8; 13, 4; 15,5) para poder encontrar o Amado, escondido no mais profundo de si. “No entanto, dizes - Se está em mim aquele a quem minha alma ama, como não o acho nem o sinto? A causa é estar ele escondido, e não te esconderes também para achá-lo e senti-lo. Quando alguém quer achar um objeto escondido, há de penetrar ocultamente até o fundo do esconderijo onde ele está; e quando o encontra, fica também escondido com o objeto oculto. Teu amado Esposo é esse tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante deu todas as suas riquezas (Mt 13,44); convém, pois, para o achares que, esquecendo todas as tuas coisas e alheando-te a todas as criaturas, te escondas em teu aposento interior do espírito; e, fechando a porta sobre ti (isto é, tua vontade a todas as coisas), ores a teu Pai no segredo. E assim, permanecendo escondida com o Amado, então o perceberás às escondidas, e te deleitarás com ele às ocultas, isto é, acima de tudo o que pode alcançar a língua e o sentido” (Cântico 1,9).

e estar amando o Amado

A atenção ao interior leva à descoberta do Amor primeiro do esposo Cristo (Cântico 31,2), a quem a pessoa responde com o exercício do amor a Deus e ao próximo. “Com efeito, a saúde da alma é o amor de Deus; ora, quando a alma não tem perfeito amor de Deus, não tem perfeita saúde; ... Por consequência, é necessário saber que o amor jamais chegará à perfeição até que se juntem os amantes em unidade, transfigurando-se um no outro; só então estará o amor totalmente perfeito. A alma, nesta canção, sente em si mesma certo debuxo de amor, e deseja que ele se acabe de pintar, com essa figura apenas debuxada que é seu Esposo, o Verbo Filho de Deus... Esta é a figura que aqui compreende a alma, e nela deseja transfigurar-se por amor; e, por isto, exclama: "Olha que esta doença de amor jamais se cura, a não ser com a presença e com a figura” (Cântico 11,11-12). Faz parte do amor ser dinâmico, sair de si, pois “o amor nunca está ocioso, mas em contínuo movimento, e, como fogo em chamas, está sempre levantando labaredas aqui e ali; e sendo o ofício do amor ferir para enamorar e deleitar, como nessa alma ele se acha em viva chama, está sempre lhe causando suas feridas, quais labaredas terníssimas de delicado amor” (Chama 1,8). Ao Amor, responde-se com amor.

A este fim da união de amor com Deus quer levar-nos S. João da Cruz (Cântico 39,4); é o fim para o qual fomos criados. Por isso viver a Suma de perfeição implica em exercitar-se esta virtude, tão central na vida, a fim de viver no seu constante exercício (cf. Cântico 28).

Boa festa do Santo Padre João da Cruz!

Fr Alzinir F Debastiani OCD

Roma, dezembro 2017

(Cf.: José Vicente Rodriguez, El mirar de Dios es amar. Burgos, Monte Carmelo 2007, p. 115-128).

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