segunda-feira, 5 de maio de 2008

QUANDO NINGUÉM ESCUTA, DEUS ESCUTA


QUANDO NINGUÉM ESCUTA, DEUS ESCUTA

Frei Patrício Sciadini, ocd.

Prometi, não cumpri. Fui cobrado de escrever ainda sobre a Encíclica do Papa Bento XVI “Spe Salvi”. Na verdade não tinha esquecido da minha promessa, mas é uma Encíclica que é bonita demais, precisa ser meditada para poder oferecer aos meus quatro leitores o néctar da flor. Já disse que os primeiros números são um pouco difíceis para a minha pobre cabeça. Se conta que Santo Tomás de Aquino, diante das dificuldades que encontrava para aprofundar temas teológicos, se aproximava do sacrário e colocava a sua cabeça perto da porta e dizia: “caput magnum retundum ilumina domine”, “Senhor, ilumina esta grande cabeça redonda!”

O Papa nos fala com muito amor e empatia dos lugares onde surge a esperança, aquela autêntica que ninguém pode defraudar e que nunca nos engana. Ele diz que o lugar fértil para possuir uma esperança viva é a oração. O n. 32 é de uma riqueza muito grande e sua linguagem toca o nosso coração que anda agitado, vulnerável, preocupado, angustiado. Hoje o menos que se encontra são pessoas que tenham o dom da escuta.

É diferente a escuta psicológica e a escuta de amor. A escuta do psicólogo é procurar alguém que você paga e aluga por uma ou duas horas para que ele lhe escute. A escuta amorosa de quem eu falo e o Papa fala é a escuta de Deus, que só e sempre nos escuta por amor e por pura gratuidade. Dizem por aí que eu sou contrário à psicologia, é verdade, não nutro lá uma idolatria, mas vejo nela um caminho necessário em muitas circunstâncias. Uma ciência necessária para restabelecer o nosso equilíbrio emocional ou acalmar as tempestades que se agitam dentro de nós. A oração não é tratamento psicológico ou terapia de grupo, é amor salvador e libertador pelo encontro de Deus amor.

Gostaria que você e eu não esquecêssemos das palavras do Papa Bento, por isso quero colocá-las em negrito para que elas fiquem como farol nas noites em que passamos de abandonos e de marginalizações inevitáveis na vida. O mesmo Cristo foi marginalizados pelos homens e pelos que ele mais amava. Mas nunca foi marginalizado por Deus-Pai. Mesmo que percebesse na noite mais dura da agonia até uma terrível sensação de abandono do Pai, reafirma o seu amor ao Pai: “Em tuas mãos ó Pai entrego meu espírito!”

Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão...o orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: Orações de esperança. Durante 13 anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão.(32)

O exemplo do Cardeal Van Thuan, citado ao longo da Carta comprova isto. Ele nos seus três anos de isolamento total dos outros estava bem enraizado em Deus e pleno de confiança.

Sem a oração não há esperança. Enquanto os psicólogos nos dizem que devemos cortar o “cordão umbilical” e sermos livres de tudo e de todos, os místicos e o mesmo Jesus nos recorda que jamais devemos cortar o cordão umbilical que nos une a Deus e a cada instante devemos ser mais doentes dele, para que entre nós e a vontade de Deus não haja mais nenhuma diferença. Eu quero só o que Deus quer. Amém!

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