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domingo, 2 de novembro de 2008

FAMÍLIA SECULAR: torna-te aquilo que és...

Frei Antonio Júnior Gualberto,OCD
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(Palestra proferida no XXV Congresso Provincial da OCDS, em São Roque-SP, no dia 17/10/2008)

Frei Júnior, entre Paulo e Ana Maria Scarabelli

I – A coragem de SER

Para essa reflexão tomaremos o conceito de coragem para nos ajudar a entender o processo do ser humano como nômade de Deus, ser a procura de..., aberto às realidades que o rodeia e que lhe espreita como MISTÉRIO.

Coragem é uma realidade ética, mas se encaixa em toda a extensão da existência humana e basicamente na estrutura do próprio ser. A coragem de ser é o ato ético no qual o ser humano afirma seu próprio ser a despeito daqueles elementos de sua existência que entram em conflito com a sua auto-afirmação essencial. O homem corajoso age em prol do que é nobre, salutar e o impulsiona ao BEM maior.

Coragem também é a afirmação da natureza essencial de uma pessoa. Inclui também o sacrifício possível e, em certos casos, inevitável, de elementos que também pertencem a nosso ser, mas que, se não sacrificados, impedir-nos-iam de atingir nossa realização. No ato de coragem a parte mais essencial do nosso ser prevalece sobre a menos essencial.

Na vida a suprema prova de coragem é o estar pronto para fazer o supremo sacrifício, o sacrifício da própria vida, em favor dos outros, uma atitude de profunda doação de si. Daí a etimologia da palavra CORAGEM vir do latim COR, CORDIS=coração, ela brota do profundo do ser humano, e é um ato de decidir-se em ser aquilo para o qual foi criado. Tomás de Aquino afirma que coragem é força de ânimo, capaz de dominar o que quer que ameace a obtenção do mais elevado bem: ser de Deus e estar para Ele. A coragem perfeita é dom de Deus, que nos capacita atos heróicos de virtudes.

A coragem dá consolação, paciência e experiência, torna-se indistinguível da fé e da esperança. Segundo Sêneca, a coragem de ser é a coragem de afirmar a nossa própria natureza por sobre o que é acidental em nós. Os desejos incontroláveis e medos (medo da vida e da morte) conflitam com a coragem. Causam em nós ansiedade que coloca máscaras assustadoras sobre todos os homens e coisas, fazendo-nos viver numa realidade fictícia e doentia. Tempos que aprender a despir-nos de nossas máscaras, mostrar o que é real, nossa fisionomia, nossa verdade.

A afirmação do ser essencial de alguém, a despeito de desejos e ansiedades, cria a alegria (aprender a ser alegre), é a felicidade de uma alma que é elevada acima de todas as circunstâncias. A alegria é expressão emocional do corajoso SIM ao verdadeiro ser próprio de uma pessoa. A maior parte das pessoas estão em conflito com seus desejos incontroláveis e medos e, portanto, incapazes de afirmar seu ser essencial corajosamente.

Spinoza descrevendo sobre a virtude diz que a virtude é o poder de agir, exclusivamente de acordo com nossa verdadeira natureza. E o grau de virtude é o grau em que alguém está se empenhando e é capaz de afirmar seu próprio ser. Uma vez que a virtude e a auto-afirmação são idênticas, e uma vez que generosidade é o ato de sair de si mesmo para os outros num afeto benevolente, não se pode pensar em conflito entre auto-afirmação e amor (oposto do egoísmo).

A auto-afirmação (o mais alto bem – ser) é o oposto ontológico da “redução do ser” pelo fato que esta afeta e contradiz a natureza essencial de uma pessoa. Na sua reflexão Spinosa nos diz que se a alma reconhece a si própria, reconhece seu ser em Deus. E Este conhecimento de Deus e de seu ser em Deus é a causa da beatitude perfeita (amor perfeito), amor espiritual porque é eterno e, portanto, um afeto não sujeito às paixões. Ele é a participação no amor espiritual infinito com o qual Deus contempla ama a si mesmo, e ama também o que pertence a ele, os seres humanos, você.

Erich Fromm expressou que a idéia de que o auto-amor correto e o amor correto pelos outros são independentes, e que o egoísmo e o abuso dos outros também são independentes.

II – Realização pessoal

A consagração na OCDS deve oferecer a todos a chance de poderem realizar-se humana e espiritualmente (inseparáveis).

Uma religião mal entendida e mal vivida é fator de desumanização, infantilismo, ingenuidade e servilismo.

O que significa REALIZAÇÃO PESSOAL? Ela está intrinsecamente voltada para a busca de nossa identidade.

A tarefa da existência é desenvolver o que Deus semeou na vida de cada um (Mt 25,14-30 - talentos). Cobrado em dobro seremos daquilo que nos foi dado. Cada um deve realizar as potencialidades que foram depositadas no mistério da existência humana. Aqui, não podemos nos mover pelo caminho da representação do rendimento que transforma o ser humano e máquina.

Cada um é e se faz imagem e semelhança de Deus, na medida em que realiza na sua caminhada pessoal a sua humanidade. Dentro do meu cotidiano como realizo a meu ser religioso? Na profissão, em casa, na vocação, etc. Qual o espírito e as motivações minhas? O meu ser religioso aparece? Até que ponto a minha pertença a essa religião, a OCDS me ajuda a humanizar-me?

Que sentido tem as negatividades (fracassos, desapontamentos, decepções, etc.), a dimensão de cruz, em minha caminhada?

O Espírito e a liberdade podem operar transformando as negatividades também em caminho de realização e de acesso a mais profunda humanidade.

Leonardo Boff assim reflete: “as negatividades podem significar o húmus rico na qual medra a humanidade e corre a seiva generosa. A liberdade pode tudo transformar e o espírito tudo vivificar. O mal é oportunidade para eu acolher o diferente de mim, o outro, e transformá-lo em próximo. É ocasião de perdão. A pedra no caminho não precisa ser obstáculo, mas pode servir de fundamento para a construção de minha casa”.

O que você busca na OCDS? Você sabe o que está buscando?

O caminho para a realização pessoal é o que estamos fazendo agora, num processo de caminho e caminhada (fazendo e percorrendo o Caminho). Nesse caminho está tudo e nos confrontamos com tudo. Caminhar é batalha, tomar a cruz do dia a dia e seguir-Lo.

O caminho da auto-realização está em sabermos acolher todos os desafios que a vida se encarrega de apresentar. A indiferença, a mediocridade, a ausência de paixão na busca é que nos distanciam do centro de todos, e assim, nos isolamos uns dos outros. Ninguém entra no Carmelo de Deus para não sofrer. Que sentido eu dou às crises?

III – Cruzes da vida e auto-realização

A realização pessoal nos remete à qualidade com que realizamos aquilo que somos e como fazemos bem aquilo que a vida situada nos apronta. É ser todo em tudo o que se faz. Qual a qualidade de minha vida espiritual? Qual importância eu dou à OCDS?

Quais são as minhas fugas de mim mesmo? Fuga de afrontar e se medir consigo mesmo, com seus desejos, com suas limitações, com seus problemas, positividades e negatividades. Nessa fuga aparece o afã de EU FAZER, EU SABER, EU PROMOVER, eu sou o importante, a minha realização pessoal é que se torna imprescindível.

Estamos no mundo como nômades de Deus, num eterno ‘ir para...’, lugares e horizontes são convites para ser mais. A vida e sempre uma despedida, estamos nos despedindo a cada momento, pois nosso destino último é Deus. As crises e negatividades pelas quais passamos possuem esta lição, nos despojar e preparar para o total convívio com Deus.


Bibliografia

TILLICH, Paul. Coragem de Ser. Tradução Eglê Malheiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967, pp.1-22.

BOFF, Leonardo. CRISE: oportunidade de crescimento. Campinas: Verus, 2002, pp. 134-153.

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TESTEMUNHO
Aos cinco minutos de palestra do Frei Júnior (Família Secular, torna-te aquilo que és), quase arrumo meus trecos e vou embora. Ao meio de gargalhadas e tapas na cara, ficou-me: “Você está aqui porque quer. Todo carmelita tem que ter coragem e ser louco. Coragem e louco para dar uma resposta concreta ao mundo de hoje. Tudo a partir do oferecimento de minha humanidade a Deus”.

Venho do meu trabalho árduo, sou diretora geral de um presídio em Fortaleza que custodia 600 vidas. Fora, é claro, da condução de minha casa e minha família (cinco filhos) em amor com meu esposo.

O desejo imediato é de fugir, mas quando penso em Teresa, fujo da covardia para me entregar a Deus, buscando ser aquilo que Ele tem preparado para mim.


Ruth Leite Vieira

Comunidade Rainha do Carmelo – Fortaleza-CE

Um comentário:

  1. Parabéns, Dra. Ruth, por seu belo exemplo e testemunho de vida cristã-carmelitana e profissional. Que Deus abençoe também ao Luciano que tanto apoio tem lhe dado. Os dois nos dão esse belíssimo exemplo de vida. Que possamos um dia imitar-lhes as virtudes.
    Um abraço.
    Giovani

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