quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Pe Tomás Álvarez Fernández, estudioso do teresianismo, falece em Burgos, na Espanha


Na madrugada de 27 de julho, após alguns dias de hospitalização, faleceu em Burgos o Padre Tomás Álvarez Fernández (Tomás da Cruz). Nascido em 17 de maio de 1923, em Acebedo (León), era carmelita descalço desde o dia 6 de agosto de 1939, dia de sua primeira profissão. Foi ordenado sacerdote de Cristo em 23 de junho de 1946. Era um dos maiores especialistas do teresianismo das últimas décadas.

Sua vida foi muito fecunda, de intenso estudo, de ensino e investigação, mas sobretudo de uma vivência profunda do carisma e da fraternidade teresiana como melhor serviço à Ordem e à Igreja.

Sua vida cobre um amplo espaço de tempo e de áreas geográficas – Europa, América e, mais concretamente, Itália, França, Alemanha, Reino Unido –, graças à participação em congressos e à tradução de seus escritos nas principais línguas modernas. Entre essas traduções, destacam-se a edição crítica das obras de Santa Teresa de Jesus ao francês e ao italiano, bem como a tradução ainda recente do Dicionário de Santa Teresa, publicado pela editora Monte Carmelo de Burgos e traduzido por Éditions du Cerf e Edizioni OCD.

Esse imenso trabalho foi levado a cabo principalmente em Roma (1948-1978) e em Burgos (1979-2018). Seus estudos no Angelicum levaram-no a entrar em contato com Karol Wojtila, cuja tese doutoral sobre São João da Cruz foi publicada pela primeira vez em 1948 na revista Monte Carmelo de Burgos.

Mas durante longos anos seus estudos concentraram-se na Pontifícia Faculdade de Teologia dos Carmelitas de Roma (Teresianum). Foi a grande plataforma de seu magistério. Aí dirigiu a Positio do doutorado de Santa Teresa, proclamado por Paulo VI em 1970, e empreendeu uma leitura teológica do teresianismo à luz do Concílio Vaticano II, da qual serviram-se as gerações posteriores.

Outra de suas grandes contribuições no Teresianum de Roma foi a restauração e edição crítica dos manuscritos de Santa Teresa: Caminho de perfeição e Castelo interior. Seguiu-se depois, em Burgos, a edição facsímile do resto das obras teresianas, com um minucioso aparato histórico e crítico.

No ano do V centenário do nascimento da Santa (2015), publicou o comentário a cada uma das obras teresianas e empreendeu uma investigação exaustiva das cartas e de todos os seus manuscritos autógrafos, conservados no Escorial (mais de 1000 páginas).

* Transcrito parcialmente do Boletim da Casa Geral nº 335, 08.2018


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

V RETIRO DO SILÊNCIO



Neste domingo vocacional, dia 26 de Agosto de 2018, com um olhar voltado à Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face - Padroeira das Missões", e, dedicado ao leigo - com olhar especial para o "Ano do Laicato", o Grupo São José de Petrópolis realizou o seu V RETIRO DO SILÊNCIO. Com centralidade na espiritualidade Teresina, desenvolvemos o Tema: "O Amor de Santa Teresinha, expressão do Amor de Deus", sob o Lema: “Perseverai no meu amor.” (Jo 15,9b).


As contextualizações propostas foram:

Contextualização Carmelitana:
Santa Teresinha e sua experiência com o amor de Deus – Manuscrito B.

Contextualização Bíblica: São João, 15

Contextualização da Doutrina Católica:
• EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL - CHRISTIFIDELES LAICI, DE SUA SANTIDADE O PAPA JOÃO PAULO II
(SOBRE VOCAÇÃO E MISSÃO DOS LEIGOS NA IGREJA E NO MUNDO, 30.12.1988).
(Aos Bispos; Aos Sacerdotes e aos diáconos; Aos religiosos e às religiosas; A todos os fiéis leigos)

• EXORTAÇÃO APOSTÓLICA GAUDETE ET EXSULTATE, DO SANTO PADRE FRANCISCO
(SOBRE A CHAMADA À SANTIDADE NO MUNDO ATUAL, 19.03.2018)

As abordagens dos temas foram desenvolvidas por membros do próprio Grupo São José (Estela, Ísis, Jullia e Raiane), e, Padre Marquinhos da Paróquia N.Sra Aparecida. Culminando com a Adoração ao Santíssimo Sacramento.

1ª Meditação: “CHAMADO E VOCAÇÃO PARA SER DE DEUS”
"O Amor escolheu-me para holocausto."




2ª Meditação: “AMOR À IGREJA”
"A Igreja é Rainha, pois é tua esposa, ó divino Rei dos Reis..."


3ª Meditação: “INTERCESSÃO É MISSÃO”
"Recolherá minhas flores desfolhadas por amor."


4ª Meditação: “MISSÃO E RECONCILIAÇÃO”
"Após todas essas indelicadezas... o passarinho volta-se para seu bem-amado Sol..."


5ª Meditação: (ADORAÇÃO AO SANTÍSSIMO) “SER ALMA MISSIONÁRIA”
"(...) comunicar teus segredos de amor, ó Jesus. Não foste tu quem os ensinaste a mim e não podes revelá-los aos outros?"


Muito nos ajudou a rezar os variados momentos de meditações, orações pessoais e silenciosas, os desertos e os Teatros, desenvolvidos sob dois temas distintos:
1° Teatro - "O SONHO DE TERESINHA"
2° Teatro - "VOCAÇÃO DE TERESINHA"

A partir das experiências vividas pela própria Teresinha, os Teatros contaram com a participação dos membros do Grupo (Roteirista: Malú; Mariana Morais como Teresinha; Gisele, Madre Ana de Jesus, fundadora do Carmelo na França; Giovana e Nilda, carmelitas; Eduardo, sacerdote; Michele, Madre Maria de Gonzaga)








Estela Maria Teresa de Jesus, OCDS
Formadora do Grupo São José 




domingo, 26 de agosto de 2018

Transverberação do coração de Santa Teresa



Um “fogo” e uma ferida

Maria del Rosário Diez Rodriguez 
Na Igreja, são poucos os santos com duas celebrações litúrgicas. Santa Teresa foge à regra porque, além da sua festa própria que se celebra a 15 de Outubro – data que mais se aproxima ao dia da sua morte – tem, a partir do século XIII, outra celebração litúrgica, a da Transverberação do seu coração, um fenómeno ou graça mística que recebeu pela primeira vez em 1560. 

Actualmente esta segunda ocorrência litúrgica da Transverberação só se celebra no Carmelo Teresiano e nas dioceses de Ávila e de Salamanca. Mas com uma particularidade: a data oficial é o dia 26 de Agosto e nas dioceses referidas celebra-se a 27 do mesmo mês. A história desta segunda e tardia festa carmelitana está ligada a uma mentalidade peculiar em que se tem em conta o peso da arte e da iconografia, tal como a presença da relíquia do coração incorrupto da Santa em Alba de Tormes, que é uma testemunha silenciosa, mas eficaz, daquela graça mística. É no século XVIII, ao pedir-se a Roma esta nova celebração, quando se exige, como prova, uma inspeção, ou exame médico ao coração, para ver se se podia demonstrar a existência dalgum sinal ou ferida do fenómeno místico. Tal exame ou processo aconteceu em 1726 e, abertamente se diz, que se tratava de examinar a chaga da Transverberação. Sentia-se, portanto, a falta duma leitura física e natural do fenómeno que ia ter ainda repercussão nos textos litúrgicos que se elaborariam para a mesma celebração. Essa mentalidade teve tal peso, que o Papa Bento XIII decretou a festa em 25-07-1726. 

A descrição teresiana (V 29, 29, 13-14), bem como a explicação que S. João da Cruz dá (Chama 2, 6-12) do mesmo fenómeno não conduzem às pretensas explicações daqueles médicos. Tratou-se apenas dum fenómeno puramente espiritual, ainda que, como afirma a própria Santa, vai influenciar também o aspecto físico, causando uma alguma dor. Mas nunca se dá a entender que se trata de ferida natural e física. Na reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, a liturgia da Transverberação (textos e leituras bíblicas) foi renovada e corrigida na linguagem, atendendo-se mais a uma expressão de carácter simbólico que a uma afirmação rotunda da fisiologia do caso. 

Todos os anos a 26 de Agosto, no mosteiro de São José e de Nossa Senhora (de la Calle), as filhas de Santa Teresa celebram a Transverberação do Coração de Santa Teresa, essa experiência mística da proximidade com Deus e da ferida que sentiu no coração, em que via um anjo introduzir uma lança no seu peito que, segundo as suas palavras, “me deixava totalmente abrasada no amor do grande Deus”. 

Neste IV centenário da Beatificação da Santa Reformadora, as comemorações Tiveram início na Eucaristia das 8,30 horas com uma missa votiva em que esta experiência mística coincide com a Revelação divina, consignada na Bíblia através de S. Paulo e do Evangelho de S. João, recordando Teresa de Jesus, neste dia, como uma mulher especialmente plena do amor de Deus (abrasada ou ferida simbolicamente no seu coração), na qual foi derramado de maneira singular o fogo do Espírito Santo, que a conduziu ao serviço dos outros e da Igreja, por meio da oração e da revitalização da vida carmelitana, começado a Reforma da Ordem no dia 24 de Agosto de 1562. Às 12 horas, exposição de duas obras iconográficas do século XVIII, expostas para esta celebração, sob o título “A Transverberação de Santa Teresa com as duas Trindades”, uma mostra do importante tema iconográfico no âmbito carmelitano da Transverberação, incidindo na dupla natureza de Cristo, assim como a representação da sagrada família onde aparecem as figuras de Deus Pai e do Espírito formando a Trindade com a figura de Jesus Menino. A pintura que esteve escondida nas paredes do claustro do mosteiro de finais do século XVI na rua Eduardo Dato, na atualidade guardada na clausura, dispõe os personagens seguindo um eixo central, pondo em destaque Jesus sobre uma rocha como membro da Trindade Celeste, mesmo acompanhado pela Virgem Maria e São José. 

O Amor Divino que dispara para o coração da Santa indicado por São José e a Virgem Maria leva um dardo para o oferecer ao Filho. 

Esta imagem com a obra de Corneille Galle, guardada no relicário conventual, completa uma iconografia trinitária que sublinha as duas naturezas – a divina e a humana – de Cristo. Por um lado, Jesus Menino aparece acompanhado pela Virgem e São José, adoptando o patriarca como padroeiro da Ordem dedicada à Virgem Maria em que a Santa recebe o dardo de amor divino de Jesus Menino e a Coroa de glória bem como a Palma do Martírio Místico das mãos dos anjos e, por outro, a presença da Santíssima Trindade. 

Duas mostras iconográficas do século XVII da Experiência Mística de Santa Teresa, sem dúvida, que englobam a Graça Mítica da Transverberação recebida, pela primeira vez, em 1560 e que, a partir de 1571, dá início a um período de comunhão com a Santíssima Trindade que culminou no Matrimónio Espiritual em 1572. 

Membro da Comissão Cultural 
Huellas Teresa de Jesus do 
Município de Palencia 


Fonte: http://delaruecaalapluma.wordpress.com/2014/08/28/un-fuego-y-una-herida/

sábado, 25 de agosto de 2018

Formação da OCDS Camaragibe trata do sacrifício de Cristo, através do Catecismo da Igreja Católica - CIC

Neste sábado, 25, seguindo o Calendário-Programa de Formação, continuou-se o estudo do Catecismo da Igreja Católica - CIC, com Mozeiner, Serafim e Lourdinha, falando sobre os tópicos de nº 612 a 627. O YouCat também é sempre utilizado para complementar o estudo.

Além da formação, que é fundamental na vida do Carmelita Descalço, os assuntos relacionados à recepção de postulantes e a criação de uma nova Província norteou os trabalhos da Comunidade, cujo texto, desse último assunto, será analisado e respostas apresentadas a partir do próximo encontro, marcado para o dia 1º de setembro.


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

"As Chaves do Reino". Tema do Catecismo da Igreja Católica é estudado pela OCDS Camaragibe

No último sábado 11 de agosto de 2018, a Comunidade Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face - OCDS Camaragibe, cumprindo mais uma etapa na Formação da Comunidade e seguindo seu Calendário-Programa, estudou os tópicos do CIC nº 551 a 556, 567 e 568, que tratam "das Chaves do Reino". Martha e Fred conduziram a formação. Efetuaram a leitura do CIC e do YouCat e expuseram seus entendimentos acerca do assunto, com participação dos demais membros presentes. O formador Gustavo acompanhou a explanação.

É importante ressaltar que o estudo do Catecismo da Igreja Católica - CIC pelas Comunidades e Grupos é recurso básico para um programa de formação. (Ratio Institutiones da Ordem Secular, nº 37)

"...Por meio do Catecismo da Igreja Católica e dos documentos eclesiais, os leigos carmelitas recebem os fundamentos teológicos necessários". (Constituições da Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares, nº 33)










domingo, 12 de agosto de 2018

A Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares da Província São José - Brasil deseja a todos um feliz dia dos pais repleto de bençãos com a intercessão de São José!


Senhor, pela intercessão de São José, pai adotivo do teu filho Jesus,
venho hoje te pedir que estendas Tuas Mãos Divinas sobre todos os pais,
abençoando-os.
Abençoa, Senhor, o pai amigo e companheiro,
o pai sempre presente, que oferece o colo e estende a mão,
mas também o pai ausente, colocando em seu coração todo o Teu Amor.
Abençoa, Senhor, o pai que hoje recebe o abraço de seus filhos,
e o pai que chora a ausência do filho que partiu para Teus braços.
Dá a este o consolo da mansa saudade e enxuga,
com Teu Divino Manto, as lágrimas que vertem de seus olhos.
Estende, Senhor, Tuas mãos de Amor sobre todos os pais,
concedendo-lhes os dons da paciência,
compreensão, tranquilidade, ternura, justiça,
fé em Deus e esperança quanto à vida e aos seus filhos.
Concede-lhes Amor, muito Amor,
para que cada filho seja, para seu pai, um pai.
E para que cada pai seja, para seu filho, um filho.
E aos filhos cujos pais estão junto a Ti,
dá a fé e o entendimento de que os pais nunca vão embora.
Eles apenas mudam de lugar.

São José, rogai por nós.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II NA CERIMÔNIA DE CANONIZAÇÃO DE EDITH STEIN


11 de Outubro de 1998

1. Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl 6, 14).
As palavras de São Paulo aos Gálatas, que acabámos de escutar, adaptam-se bem à experiência humana e espiritual de Teresa Benedita da Cruz, que hoje é solenemente inscrita no álbum dos santos. Também ela pode repetir com o Apóstolo: Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.
A cruz de Cristo! No seu constante florescimento, a árvore da Cruz dá sempre renovados frutos de salvação. Por isso, os fiéis olham com confiança para a Cruz, haurindo do seu mistério de amor a coragem e o vigor para caminhar com fidelidade nas pegadas de Cristo crucificado e ressuscitado. Assim, a mensagem da Cruz entrou no coração de muitos homens e mulheres, transformando a sua existência.
Um exemplo eloquente desta extraordinária renovação interior é a vicissitude espiritual de Edith Stein. Uma jovem em busca da verdade, graças ao trabalho silencioso da graça divina, tornou-se santa e mártir: é Teresa Benedita da Cruz, que hoje repete do céu a todos nós as palavras que caracterizaram a sua existência: «Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de Jesus Cristo».

2. No dia 1 de Maio de 1987, durante a minha visita pastoral na Alemanha, tive a alegria de proclamar Beata, na cidade de Colónia, esta generosa testemunha da fé. Hoje, a onze anos de distância aqui em Roma, na Praça de São Pedro, é-me dado apresentar solenemente esta eminente filha de Israel e filha fiel da Igreja como Santa perante o mundo inteiro.
Assim como nessa data, também hoje nos inclinamos diante da memória de Edith Stein, proclamando o testemunho invicto que ela deu durante a vida e sobretudo com a morte. Ao lado de Teresa de Ávila e de Teresa de Lisieux, esta outra Teresa vai colocar-se no meio da plêiade de santos e santas que honram a Ordem carmelitana.
Caríssimos Irmãos e Irmãs, que vos congregastes para esta solene celebração, dêmos glória a Deus pela obra que realizou em Edith Stein.

3. Saúdo os numerosos peregrinos vindos a Roma, com um particular pensamento para os membros da família Stein, que quiseram estar connosco nesta feliz circunstância. Uma cordial saudação dirige-se também à representação da Comunidade carmelitana, que se tornou a «segunda família» para Teresa Benedita de Cruz.
Depois, dou as minhas boas-vindas à delegação oficial da República Federal da Alemanha, chefiada pelo Chanceler Federal resignatário, Helmut Kohl, a quem saúdo com deferente cordialidade. Além disso, cumprimento os representantes das regiões de Nordrhein-Westfalen e Rheinland-Pfalz, bem como o Primeiro Presidente da Câmara Municipal de Colónia. Inclusivamente da minha Pátria veio uma delegação oficial, guiada pelo Primeiro-Ministro Jerzy Buzek.
Dirijo-lhe uma cordial saudação. Depois, quero reservar uma especial menção aos peregrinos das dioceses de Vratislávia, Colónia, Monastério, Espira, Cracóvia e Bielsko-Žywiec, presentes com os seus Bispos e sacerdotes. Eles unem-se ao numeroso grupo de fiéis vindos da Alemanha, dos Estados Unidos da América e da minha Pátria, a Polónia.

4. Dilectos Irmãos e Irmãs! Porque era judia, Edith Stein foi deportada juntamente com a irmã Rosa e muitos outros judeus dos Países Baixos para o campo de concentração de Auschwitz, onde com eles encontrou a morte nas câmaras de gás. Hoje recordamo-nos de todos com profundo respeito. Poucos dias antes da sua deportação, a quem lhe oferecia uma possibilidade de salvar a vida, a religiosa respondera: «Não o façais! Por que deveria eu ser excluída? A justiça não consiste acaso no facto de eu não obter vantagem do meu baptismo? Se não posso compartilhar a sorte dos meus irmãos e irmãs, num certo sentido a minha vida é destruída».
Doravante, ao celebrarmos a memória da nova Santa, não poderemos deixar de recordar todos os anos também o Shoah, aquele atroz plano de eliminação de um povo, que custou a vida a milhões de irmãos e irmãs judeus. O Senhor faça brilhar o seu rosto sobre eles, concedendo-lhes a paz (cf. Nm 6, 25s.).
Por amor de Deus e do homem, lanço de novo um premente brado: nunca mais se repita uma semelhante iniciativa criminosa para nenhum grupo étnico, povo e raça, em qualquer recanto da terra! É um brado que dirijo a todos os homens e mulheres de boa vontade; a todos aqueles que crêem no Deus eterno e justo; a todos aqueles que se sentem unidos em Cristo, Verbo de Deus encarnado. Aqui, todos nós devemos ser solidários: é a dignidade humana que está em jogo. Só existe uma única família humana. É isto que a nova Santa afirmou com grande insistência: «O nosso amor pelo próximo - escrevia - é a medida do nosso amor a Deus. Para os cristãos - e não só para eles - ninguém é "estrangeiro". O amor de Cristo não conhece fronteiras».

5. Estimados Irmãos e Irmãs! O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: «Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus».
Embora sua mãe a tenha educado na religião hebraica, aos 14 anos de idade Edith Stein, «consciente e propositadamente desacostumou-se da oração». Só queria contar consigo mesma, preocupada em afirmar a própria liberdade nas opções de vida. No fim do longo caminho, foi-lhe dado chegar a uma surpreendente conclusão: só quem se une ao amor de Cristo se torna verdadeiramente livre.
A experiência desta mulher, que enfrentou os desafios de um século atormentado como o nosso, é para nós exemplar: o mundo moderno ostenta a porta atraente do permissivismo, ignorando a porta estreita do discernimento e da renúncia. Dirijo-me especialmente a vós, jovens cristãos, em particular aos numerosos ministrantes reunidos em Roma nestes dias: evitai conceber a vossa vida como uma porta aberta a todas as opções! Escutai a voz do vosso coração! Não permaneçais na superfície, mas ide até ao fundo das coisas! E quando chegar o momento, tende a coragem de vos decidirdes! O Senhor espera que coloqueis a vossa liberdade nas suas mãos misericordiosas.

6. Santa Teresa Benedita da Cruz conseguiu compreender que o amor de Cristo e a liberdade do homem se entretecem, porque o amor e a verdade têm uma relação intrínseca. A busca da verdade e a sua tradução no amor não lhe pareciam ser contrastantes entre si; pelo contrário, compreendeu que estas se interpelam reciprocamente. No nosso tempo, a verdade é com frequência interpretada como a opinião da maioria. Além disso, é difundida a convicção de que se deve usar a verdade também contra o amor, ou vice-versa. Todavia, a verdade e o amor têm necessidade uma do outro. A Irmã Teresa Benedita é testemunha disto. «Mártir por amor», ela deu a vida pelos seus amigos e no amor não se fez superar por ninguém. Ao mesmo tempo, procurou com todo o seu ser a verdade, da qual escrevia: «Nenhuma obra espiritual vem ao mundo sem grandes sofrimentos. Ela desafia sempre o homem inteiro». A Irmã Teresa Benedita da Cruz diz a todos nós: Não aceiteis como verdade nada que seja isento de amor. E não aceiteis como amor nada que seja isento de verdade!

7. Enfim, a nova Santa ensina-nos que o amor a Cristo passa através da dor. Quem ama verdadeiramente, não se detém diante da perspectiva do sofrimento: aceita a comunhão na dor com a pessoa amada. Consciente do que comportava a sua origem judaica, Edith Stein pronunciou palavras eloquentes a este respeito: «Debaixo da cruz, compreendi a sorte do povo de Deus... Efectivamente, hoje conheço muito melhor o que significa ser a esposa do Senhor no sinal da Cruz. Mas dado que se trata de um mistério, isto jamais poderá ser compreendido somente com a razão». Pouco a pouco, o mistério da Cruz impregnou toda a sua vida, até a impelir rumo à oferta suprema. Como esposa na Cruz, a Irmã Teresa Benedita não escreveu apenas páginas profundas sobre a «ciência da cruz», mas percorreu até ao fim o caminho da escola da Cruz. Muitos dos nossos contemporâneos quereriam fazer com que a Cruz se calasse. Mas nada é mais eloquente que a Cruz que se quer silenciar! A verdadeira mensagem da dor é uma lição de amor. O amor torna o sofrimento fecundo e este aprofunda aquele. Através da experiência da Cruz, Edith Stein pôde abrir um caminho rumo a um novo encontro com o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. A fé e a cruz revelaram-se-lhe inseparáveis. Amadurecida na escola da Cruz, ela descobriu as raízes às quais estava ligada a árvore da própria vida. Compreendeu que lhe era muito importante «ser filha do povo eleito e pertencer a Cristo não só espiritualmente, mas inclusive mediante um vínculo sanguíneo».

8. «Deus é espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade» (Jo 4, 24). Caríssimos Irmãos e Irmãs, com estas palavras o divino Mestre entretém-se com a Samaritana junto do poço de Jacob. Quanto Ele deu à sua ocasional mas atenta interlocutora, encontramo-lo presente também na vida de Edith Stein, na sua «subida ao Monte Carmelo ». A profundidade do mistério divino tornou-se-lhe perceptível no silêncio da contemplação. Ao longo da sua existência, enquanto amadurecia no conhecimento de Deus adorando-O em espírito e verdade, ela experimentava cada vez mais claramente a sua específica vocação de subir à cruz juntamente com Cristo, de abraçá-la com serenidade e confiança, de amá-la seguindo as pegadas do seu dilecto Esposo: hoje, Santa Teresa Benedita da Cruz é-nos indicada como modelo em que nos devemos inspirar e como protectora à qual havemos de recorrer. Dêmos graças a Deus por este dom. A nova Santa seja para nós um exemplo do nosso compromisso no serviço da liberdade e na nossa busca da verdade. O seu testemunho sirva para tornar cada vez mais sólida a ponte da recíproca compreensão entre judeus e cristãos. Santa Teresa Benedita da Cruz, ora por nós! Amém.

Fonte:http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1998/documents/hf_jp-ii_hom_11101998_stein.html

09/08 - Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)


TRAJETÓRIA

Edith Stein, de família judia, nasce em 1891, em Breslau (Alemanha), hoje Wroclau (Polônia). Órfã de pai aos dois anos, Edith herda da mãe a austera formação judaica e a paixão pelos estudos. Cursa filosofia em Breslau e em Gottinga na Alemanha. Em 1915, integra a Cruz Vermelha para tratar de feridos da Primeira Guerra Mundial. Os campos de guerra da Moravia lançam-lhe a semente da cruz.

Ela escreverá: “Foi um momento em que minha incredulidade abalou-se. O judaísmo obscureceu-se e Cristo levantou-se luminoso diante de meus olhos: Cristo no mistério da Cruz”. No ano seguinte, passa a ser assistente de Edmund Husserl, cujo pensamento fenomenológico a influencia profundamente. Em 1921, a leitura da Autobiografia de Teresa D’Ávila é a água que lhe faz germinar na alma a semente cristã, semeada em Moravia. É batizada no início do ano seguinte, rompendo com a família, que passou a considerá-la infiel a seus irmãos perseguidos.

Para ela, porém, a perseguição aos judeus era a perseguição à humanidade de Jesus. Imitando-o, ela via a possibilidade de vencer o mal pelo bem. Tal vitória não seria a fuga do sofrimento, mas – aceitando-o na força da cruz – a solidariedade com os que sofrem. Leciona filosofia em Speyer e em Münster até 1933, quando Hitler proíbe os judeus de lecionar. No mesmo ano, ingressa no Carmelo, em Colônia. Em 1938, faz os votos perpétuos e transfere-se para Echt, na Holanda. Os alemães ocupam a Holanda em 1940 e, no dia 2 de agosto de 1942, os judeus católicos são de lá deportados.

Com eles, seguem Edith e sua irmã Rosa, da ordem terceira do Carmelo. Na rápida passagem pelo campo de concentração de Westerbork (norte da Holanda), Edith escreve à priora: “Estou feliz por tudo. Só podemos adquirir a ciência da cruz, experimentando a cruz até o fim… repito no meu coração: ave, ó cruz, única esperança”. De lá, as irmãs são levadas, em 7 de agosto, para Auschwitz, na Polônia. Dois ou três dias depois, morrem na câmara de gás, com outros prisioneiros, cujos corpos são cremados.

A CIÊNCIA DA CRUZ


Sempre mergulhada nos livros, Edith descobre, no Carmelo, que “não é a atividade humana que pode nos salvar, mas só a paixão de Cristo. Participar da paixão do Senhor: eis o desejo”. E escreve: “O caminho da fé nos dá mais que o caminho do pensamento filosófico: nos dá Deus, tão próximo como uma pessoa que nos ama e se compadece de nós, e nos dá esta segurança que não é própria de nenhum outro conhecimento natural. Porém, o caminho da fé é obscuro”.

Seu caminho espiritual é a mística de Teresa D’Ávila e João da Cruz, o pai espiritual das Carmelitas Descalças. Não à toa, ela recebe, no Carmelo de Colônia, o nome de Teresa Benedita da Cruz. E lá surge, entre outros escritos, o seu testamento espiritual: A Ciência da Cruz – Um estudo sobre São João da Cruz, no qual explora a essência da pessoa humana: o eu, a liberdade e a pessoa, de um lado; o espírito, a fé e a contemplação, do outro.

Valem para ela as palavras com que descreve seu guia espiritual: “para aquele místico… a alma está unida a Cristo, e viverá a vida de Cristo, ao conseguir entregar-se completamente a ele, seguindo-lhe inteiramente o caminho da cruz” (A Ciência da Cruz). “Também nós, somente com santa reverência poderemos nos aproximar dos segredos divinos que se passam no íntimo da alma recolhida. Uma vez levantado o véu, não é permitido continuar em silêncio; eis diante de nós… a união beatificante da alma que terminou a via crucis”. Os últimos capítulos do livro não são escritos; são vividos no calvário de Auschwitz.

Frei Romeu Leuven, OCD, é sucinto: “Sua obra, centro de sua vida e lugar de união mística, radica em Deus o princípio e a finalidade da vida de todas as pessoas”. Edith Stein é canonizada em 10 de outubro de 1998, pelo papa João Paulo II, no Vaticano.

Publicado em “Revista Mundo e Missão“.

ORAÇÃO

Senhor, Deus de nossos pais,/
Tu conduziste a Santa Teresa Benedita
à plenitude da ciência da Cruz
ao momento de seu martírio.
Enche-nos com o mesmo conhecimento;
e, por sua intercessão,
permite-nos sempre seguir em busca de ti, que és a suprema Verdade,
e permanecer fiéis até a morte
à aliança de amor ratificada pelo sangue de teu Filho
pela salvação de todos os homens e mulheres. 
Te pedimos por nosso Senhor, Amém!

Texto enviado pela Comissão de Espiritualidade da OCDS
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