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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

FREI, SERÁ QUE AINDA SOU CATÓLICO?

Frei Patrício Sciadini, ocd.

Não faz muito tempo uma pessoa mais ou menos amiga me procurou para conversar um pouco. Fazia tempo que se dizia estranha a si mesma e aos outros, desencontrada com a própria consciência e tomada de medo que lhe pareciam escrúpulos. Na verdade desde criança tinha sido educada na fé, os pais lhe tinham ensinado a viver os mandamentos da Igreja, tinham insistido para que se casasse na igreja, batizasse os filhos, e antes de morrerem, tanto o pai quanto a mãe lhe tinham pedido que não fizesse a besteira de se separar de sua esposa, de abandonar os filhos e ser uma “desonra” na família, fora da Igreja.
Ele me dizia que se perguntava se podia considerar-se ainda católico ou devia se considerar fora da igreja e sem espaço nenhum dentro da mesma igreja que, na sua maneira, tinha amado. Preferi não dar-lhe resposta pronta, mas usar o método de Jesus; deixar falar, como ele fez com o samaritano, contar-lhe uma pequena parábola, ou dar-lhe o espaço necessário para que pudesse transbordar tudo o que se passava no seu coração agitado como o oceano em dia de grande tempestade. Preferi deixá-lo falar somente, lhe fiz uma pergunta: por que você acha que não é mais católico e se considera fora da igreja que você diz a ter amado e procurado seguir?
“- Veja, Frei Patrício, eu era católico de missa diária, depois passei a missa dominical, depois a missa pascal e depois a missa nenhuma. Os problemas foram aparecendo na minha vida. Casei-me com alguém que eu achei que amava apaixonadamente, tivemos dois filhos, mas lentamente começou a entrar em nós uma antipatia cordial e não conseguimos mais ter um diálogo, éramos em casa dois estranhos e os filhos percebiam que não havia nenhum clima a não ser “briga sobre briga”; nos separamos. E depois de uma pouco de tempo os dois estávamos já com outra pessoa. Achávamos que tínhamos encontrado a árvore e fonte da felicidade, os filhos eram como mercadoria que nos fins de semana eram “descarregados” na porta da casa de um e da outra. Não havia mais interesse a não ser o dever judicial de pagar a pensão e nada mais. Também a segunda união foi passageira e assim foi.
O trabalho começou a ser pouco e o dinheiro sempre mais curto. Enveredei pelo caminho da desonestidade e muitas vezes fui à beira do desespero pelas atitudes incorretas econômica e socialmente. Percorri caminhos tortuosos, criei ao meu redor inimigos enganosos e sobre enganos tentei construir o futuro que se revelou cada vez mais frágil e sem sentido.
Bebida, drogas, más companhias que me levaram longe de todos os princípios morais da vida. A Igreja, o evangelho para mim não valem mais nada. O que tem valor é a aparência, a projeção e o status que não posso perder. Tudo isto se leva para frente quando se está junto dos outros, mas no silêncio da noite, quando sou obrigado a me confrontar comigo mesmo, a descer no âmago do meu ser, as coisas se fazem inferno. Sinto uma mordida violenta na minha consciência, um desejo de voltar atrás, de recomeçar, mas como?
Vejo que algumas pessoas que se tinham afastado da Igreja voltaram. Tinham tomado caminhos errados e retornaram e reassumiram a vida. Sinto-me torturado por dentro.”
A conversa foi longe difícil, dura. Aí perguntei para ele: “- você, assim como vive, se sente ainda católico?” “- Não”, foi a sua resposta. Eu fui obrigado a dizer-lhe assim: “- na verdade você não é nem católico e daqui a pouco nem gente?” “- O que devo fazer?” “- Vai e faça a mesma coisa daqueles teus amigos que se converteram e voltaram a ser católicos.”
Hoje este meu amigo voltou a ser católico, recomeçou o caminho. Está só, a mulher não quis acolhê-lo de novo, mas vive com os filhos, feliz, continua a ser pobre, mas feliz por ter reencontrado Deus no seu caminho e a Igreja como lugar de encontro e de amor.

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