“Não tive o prazer de conhecer Teresa de
Jesus, mas pelas filhas e obras literárias vejo a grandeza da mãe.”
Frei Luís de
León (1527-1591)
Em cada ser
humano, Deus coloca sua identidade e sua espiritualidade de forma
personalizada, única, sem repetição, mesmo entre os gêmeos uni ou bivitelinos.
No arco-íris da família teresiana, encontra-se diferentes nuances e tonalidades,
refletidas pelos seus diferentes chamados e vocações, seja refletido nos
seculares, seja refletido nos religiosos (monjas e frades).
Neste amplo
espectro de riqueza e diversidade, a história nos foi apresentando alguns
modelos, sejam explícitos, sejam mais ocultos, no silêncio e na discrição, como
é próprio do Carmelo teresiano. Neste cenário espiritual, a Igreja nos
apresenta homens e mulheres que foram outorgados com o título de Veneráveis,
Beatos e Santos.
No último dia 28
de abril, o Carmelo do Paraguai se lembrou de modo especial, os 56 anos de
falecimento de uma filha querida e especial, que encerrou sua missão terrena
aos 34 anos, exatamente na madrugada de 28 de abril. Estamos fazendo menção, a Irmã Maria Felícia de Jesus Sacramentado,
carinhosamente chamada de Chiquitunga
(o correspondente para o nosso“pequerrucha”).
Exemplo de
filha, modelo de jovem e doação ao projeto de Deus no serviço aos irmãos foram
características desta jovem leiga e carmelita paraguaia.
Desta breve, mas
fecunda e ativa vida, Chiquitunga exerceu diversas missões na Ação Católica do
Paraguai, entre os 16 e 30 anos, quando Deus a conduziu aos umbrais do recém-fundado,
Carmelo de Assunção. Como é habitual e corrente no Carmelo em Assunção, celebram-se
todos os dias 28 de cada mês, uma Eucaristia solene e em memória desta jovem. E
no dia 28 de abril de cada ano uma solenidade especial em recordação desta
filha do Carmelo teresiano.
Neste dia 28 de
abril, o Carmelo de Assunção presenteou a Igreja e todos os fiéis com a
inauguração do espaço da nova Tumba de Chiquitunga, adjacente a lateral da
Capela das Carmelitas Descalças, onde os fiéis poderão estar mais “próximos” e
em oração, com a presença da urna
contendo os restos mortais e o relicário com o cérebro incorrupto da
Venerável Serva de Deus.
Faremos um breve
relato desta experiência vivenciada recentemente. Não faremos menção neste espaço
à biografia ou literatura desta jovem que nasceu em Villa Rica, no interior do
Paraguai e que merece ter sua vida e trajetória conhecida e admirada.
A Celebração
Eucarística estava marcada para as 18h30minh na Capela do Carmelo e na
sequência a benção do novo espaço mencionado. Porém, bem antes das 14h já se
observava a presença de um expressivo número de fiéis nos arredores do Mosteiro
e no interior da Capela. Assim, ao som da harpa paraguaia e com canções
baseadas nos escritos de Chiquitunga, as pessoas iam chegando.
De forma
cuidadosa, observava-se no exterior do Mosteiro, pelo menos em duas quadras
anexas, a presença de um número amplo de cadeiras e de telões dispostos para
todos poderem acompanhar a Celebração da Santa Missa. Um pouco antes das 18h e
30 min com mais de mil pessoas presentes, destacando-se a presenças dos
Seculares do Carmelo paraguaio e familiares de Chiquitunga, foi recitado o
rosário permeado com pensamentos e lembranças da vida da Serva de Deus.
A Celebração foi
presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Assunção, Edmundo Valenzuela Mellid,
tendo a presença de diversos padres concelebrantes. Estava também presente à celebração,
Pastor Cuquejo, Arcebispo Emérito de Assunção. Aqui, cabe abrir um parêntese.
Este mesmo religioso, quando tinha por volta de 10 anos de idade, aluno da
Escola Paroquial do Perpétuo Socorro, em Assunção, pode cruzar diversas vezes
nos corredores como uma professora sorridente e amigável que o saudava de forma
bastante cordial. Esta professora era Maria Felícia. Os planos de Deus
permitiram que aquele menino, torne-se um missionário Redentorista e, anos
depois, como Arcebispo de Assunção, participasse do Processo para Canonização
da jovem Chiquitunga.
Voltando a
Celebração, particularmente a homília, o celebrante discorreu sobre as funções
de um Santo ou uma Santa. O que fizeram enquanto seres humanos para merecerem
tal nomenclatura? Que ações sobrenaturais ou místicas realizaram? Talvez
tenhamos que entender tais perguntas com um olhar simples e singelo. E o Arcebispo
comentou sobre três parâmetros comuns a todos estes bem aventurados. O
primeiro, a graça de serem modelos pelo
que fizeram e plantaram e cultivaram durante suas vidas e não de uma hora para
outra e nem num único momento. Também se lembrou da ação intercessora que os mesmos devem ter para conosco. E
finalmente recordou da missão protetora
que estes amigos de Deus devem ter para com os fiéis.
Assim, cabe-nos
destacar que a Ir. Maria Felícia não somente durante sua vida, mas nestas mais
de cinco décadas pós-morte enquadra-se inteiramente nestas narrativas. Esta
jovem que imolou sua vida pelos pobres, pelos jovens e anciãos, pelos
sacerdotes e acima de tudo em servir ao semelhante deve ser lembrada e
venerada.
Após a celebração,
foi realizada a benção do espaço inaugurado, contendo, além da urna com os
restos mortais e o relicário com o tecido cerebral da Ir. Maria Felícia,
conhecida também como o jasmim paraguaio.
Se buscarmos a
etimologia do nome da planta jasmim, encontraremos que são folhas simples, com
pétalas patentes, raramente excedendo dois centímetros de diâmetro e quase
sempre perfumadas. A grande maioria possui flores brancas. Nesta definição, uma
vez mais se encontram aspectos comuns à Chiquitunga, ou seja: a simplicidade, o
perfume religioso e a discrição.
Após a
Celebração, os mais de mil fiéis de forma ordenada, visitaram o espaço
inaugurado e conheceram este presente de Deus à Igreja paraguaia.
Se ao final de
sua vida terrena, Chiquitunga já no seu leito de morte, misticamente recebe a
visita da Santa Madre Teresa e de Teresa do Menino Jesus, faz-nos pedir,
sobretudo neste ano dedicado a Vida Consagrada, que esta jovem seja mais um
modelo para a Igreja paraguaia e universal e intercessora de todos os jovens e
daquelas comunidades seculares e de religiosos.
O Papa Francisco
em sua Carta Apostólica para Proclamação do Ano da Vida Consagrada nos diz: Juntos, damos graças ao Pai, que nos
chamou para seguir Jesus na plena adesão ao seu Evangelho e no serviço da
Igreja e derramou nos nossos corações o Espírito Santo que nos dá alegria e nos
faz dar testemunho ao mundo inteiro do seu amor e da sua misericórdia. Este breve trecho da Carta Apostólica nos
possibilita ainda mais a aproximarmos da Serva
de Deus, sobretudo pelo amor e a alegria que consumiram sua vida pelo semelhante. E como profetizou seu
querido amigo, Sauá, todo bem que ela
fez na terra será pouco perante o que
fará no céu.
Ao encerrar este
breve relato, faz-nos justiça mencionar, além da presença de inúmeros seculares
e religiosos que se esforçam por levar o perfume do jasmim paraguaio para além-fronteiras,
a perseverança das Carmelitas Descalças de Assunção e do Irmão Restituto
Palmero Rodrígues,
também se destaca a incansável busca e esforços para tornar Chiquitunga mais
conhecida, realizadas durante anos pelo Padre Julio Félix Barco. (in memorian)
A Beata
Elisabete da Trindade escreveu: “Ó Astro
Amado, fascinai-me a fim de que não me seja mais possível sair de vossa
irradiação”. E de fato, isto foi feito em toda vida da Ir. Maria Felícia de
Jesus Sacramentado.
E suas últimas
palavras foram: “Jesus, te amo! Que doce
encontro! Virgem Maria!.
Que a Serva de
Deus Chiquitunga, continue sendo este modelo para os leigo e para os
consagrados em suas caminhadas.
Professor
Hercílio Martelli Júnior
(Comunidade
Beata Elisabete da Trindade, OCDS
Montes Claros,
Minas Gerais)
| Presbitério da capela do mosteiro. |
| Visão externa da tumba inaugurada |
| Visão externa do Carmelo. Local preparado para acolher os fiéis participantes da celebração Eucarística. |
| Relicário que contém a precioso cérebro incorrupto de Chiquitunga. |
| Imagens da Venerável Serva de Deus Maria Felícia de Jesus Sacramentado. |
| Uma das máximas vividas por Chiquitunga. |
Irmão Restituto Palmero
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