"MÃE DA MISERICÓRDIA, VIDA,
DOÇURA, ESPERANÇA NOSSA"
A solenidade da
Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo ocupa um lugar especialíssimo na
vida dos carmelitas, por ser Ela a estrela fulgurante na subida ao Monte que é Cristo.
É sabido por todos os carmelitas que a Sagrada Escritura exalta a beleza do
Carmelo, onde o profeta Elias defendeu a pureza da fé de Israel em Deus vivo.
Aí junto à fonte que tomou o nome do profeta, estabeleceram-se, pelos fins do
século XII, alguns eremitas que construíram um oratório em honra da Mãe de
Deus, escolhendo-a como sua padroeira e titular. Consideram-na como mãe e
modelo e disto tiveram comprovada experiência: primeiro, na prática da vida
contemplativa e, depois, no dom aos irmãos das riquezas hauridas na comunhão
com Deus. A história do Carmelo Descalço retrata para nós que esta comemoração
solene é celebrada em diversos lugares, já no século XIV, propagou-se pouco a
pouco, por toda a Ordem como sinal de gratidão dos ''Irmãos'' pelos inumeráveis
benefícios concedidos pela Santíssima Mãe de Deus a "sua família".
Portanto, ao longo da história do Carmelo, homens e mulheres se voltaram para
seu exemplo de entrega e abandono, de fidelidade e obediência a Deus. As
distintas gerações do Carmelo, desde as origens até hoje, em seu itinerário
trataram de plasmar a própria vida sobre o exemplo de Maria. Basta olhar a vida
dos santos do Carmelo, e perceberemos nitidamente as feições de sua maternal
proteção e cuidado. (LG 58) Como Mãe da Igreja, a Virgem Santa está unida aos
discípulos “em contínua oração” (At 1,14) e, como Mulher nova, antecipa em si o
que realizará um dia em todos nós, com a plena fruição da vida trinitária é
elevada ao Céu, de onde estende o manto de proteção de sua misericórdia sobre
os filhos que peregrinam até o monte santo da glória. Entre as inúmeras
virtudes da Virgem Maria, que é Mãe, Irmã e Rainha do Carmelo, torna-se
necessário redescobrimos o seu olhar e seu cuidado como: “Mãe da misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa”, rezada por todo cristão, e comumente, cantada
em todos os momentos da vida do carmelita através da Salve Regina. Fazemos um
parêntese para dizer que, historicamente existem duas versões para a origem
desta nobre oração surgida no século XI, no entanto, uma e outra revelam um
tempo em que a Europa enfrentava calamidades naturais, epidemias, miséria,
fome, etc. Bem próprio para os nossos dias deste ano de 2020, meditaremos à luz
dos documentos da Igreja e do Carmelo, com a experiência dos nossos santos, um
pouco das riquezas maternais desta Boa Mãe.
Mãe da misericórdia. Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi
preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre
Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita
sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar da casa de
Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende « de geração em geração » (Lc
1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem
Maria. (Papa Francisco) Esta maternidade de Maria perdura sem
interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que
manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos.
De fato, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas,
com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação
eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e
angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por
isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora,
socorro, medianeira. (LG 62). A oração de santa Teresa de Los Andes explica,
com clareza, esta experiência com a misericórdia maternal da Virgem Maria: “Sim.
Tu és, Mãe… Tu deixaste cair de tuas mãos maternais raios de céu. Minha alma,
extasiada a teus pés virginais, te escutava. Eras tu que falavas e tua
linguagem de Mãe era tão terna. Era de céu, quase divino. Quem não se anima ao
ver-te tão pura, tão terna, tão compassiva, a revelar seus íntimos tormentos?
Quem não te pede que sejas estrela nesse tormentoso mar? Quem que não chora em
teus braços sem que no mesmo instante receba teus beijos imaculados de amor e
de consolo? Se é pecador, tuas carícias o enternecem. Se é teu fiel devoto,
somente tua presença acende a chama viva do amor divino. Se é pobre, Tu com tua
mão poderosa o socorres e lhe mostras a pátria verdadeira. Se é rico, o
sustentas com teu alento contra os perigos de sua vida agitadíssima. Se é
aflito, Tu, com teus olhares lacrimosos, lhe mostra a Cruz e, nela, teu divino
Filho. E quem não encontra o bálsamo de seus sofrimentos ao considerar os
tormentos de Jesus e de Maria? O doente, por fim, acha em teu seio maternal a
água da saúde que deixas brotar com teu sorriso encantador, que o faz sorrir de
amor e de felicidade. Sim, Maria, és a Mãe do universo inteiro. Teu coração
está cheio de doçura. A teus pés se prostram com a mesma confiança o sacerdote
e a virgem, para achar entre teus braços o Amor de tuas entranhas. O rico e o
pobre, para encontrar em teu coração seu céu. O aflito e o venturoso, para
encontrar em tuas mãos doces carícias. E, por fim, o pecador, como eu, encontra
em Ti a Mãe protetora que sob os pés imaculados tem esmagada a cabeça do
dragão: enquanto em teus olhos descobre a misericórdia, o perdão e o farol
luminoso para não cair nas águas lamacentas do pecado.” (Santa Teresa dos
Andes. Diário 19)
Vida. O Pai das misericórdias quis que
a aceitação, por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a
encarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra
mulher contribuísse para a vida. É o que se verifica de modo sublime na Mãe de
Jesus, dando à luz do mundo a própria Vida, que tudo renova. A Virgem
Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultaneamente
com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência foi na terra a
nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava
humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O
ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo
singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para
restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da
graça. (LG 56; 61) Vemos na adolescência de Santa Teresa, um despertar filial pela Virgem Maria: “Recordo-me de que, quando minha mãe morreu,
eu tinha doze anos, ou um pouco menos. Quando comecei a perceber o que havia
perdido, fui aflita a uma imagem de Nossa Senhora e suplicava-lhe, com muitas
lágrimas, que fosse ela a minha mãe.” (V 1,7) Teresa pede a Nossa Senhora que fosse sua mãe,
é o que vemos acima. Aprofunda-se aqui uma relação filial, que se desenvolve ao longo de toda a vida da
Santa. Quando ela, aos cinqüenta anos, olha para a sua adolescência, constata
como este pedido foi atendido: “Parece-me
que, embora o fizesse com simplicidade, isso me tem valido; porque
reconhecidamente tenho encontrado essa Virgem soberana sempre que me encomendo
a ela e, enfim, voltou a atrair-me a si.” (V 1,7)
Doçura. Na vida pública de Jesus, Sua
mãe aparece duma maneira bem marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná,
movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres.
Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino
acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os
que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (cf. Mc 3,35; Lc 11, 27-28);
coisa que ela fazia fielmente (cf. Lc 2, 19.51). Assim avançou a Virgem pelo
caminho da fé, mantendo fielmente a. união com seu Filho até à cruz. Junto
desta esteve, não sem desígnio de Deus (cf. Jo 19,25), padecendo acerbamente
com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício,
consentindo com amor na imolação da vítima que d’Ela nascera; finalmente, Jesus
Cristo, agonizante na cruz, deu-a por mãe ao discípulo, com estas palavras:
mulher, eis aí o teu filho (cf. Jo 19, 26-27) (LG 58). Escreve santa Elisabeth
da Trindade: “Esta Rainha das virgens
é também Rainha dos mártires; mas é ainda em seu coração que a espada a
trespassou (cf. Lc 2, 35), porque nela tudo se passa no interior!… Oh! como é
bela de contemplar durante o seu longo martírio, tão serena, envolvida numa
espécie de majestade que inspira, ao mesmo tempo, força e doçura… É que
aprendeu com o próprio Verbo como devem sofrer aqueles que o Pai escolheu como
vítimas, esses que resolveu associar à grande obra da redenção, os que
“conheceu e predestinou para serem conformes ao seu Cristo” (Rm 8, 29),
crucificado por amor”. (Último retiro)
Esperança. Na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela
perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria (cf. Ef 5,27), os fiéis ainda
têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso
levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a
família dos eleitos. A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e
contemplando-a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de
respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o
seu Esposo (...) E também ela é virgem, pois guarda fidelidade total e pura ao
seu Esposo e conserva virginalmente, à imitação da Mãe do seu Senhor e por
virtude do Espírito Santo, uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma
verdadeira caridade. (LG 65; 64) Concluímos com Santa Teresinha no seu poema “Porque eu te amo, oh, Maria”, algo que nos ajuda a
compreender o mistério da esperança vivido plenamente pela virgem Maria, e
desejado por nós.
Tu me fazes sentir
que não é impossível
Os teus passos seguir, Rainha dos eleitos,
Pois o trilho do céu nos tornaste visível,
Vivendo cada dia as mais simples virtudes.
Quero ficar pequena ao teu lado, Maria,
Por ver como são vãs as grandezas do mundo.
Ao ver-te visitar a casa de Isabel,
Aprendo a praticar a caridade ardente.
Os teus passos seguir, Rainha dos eleitos,
Pois o trilho do céu nos tornaste visível,
Vivendo cada dia as mais simples virtudes.
Quero ficar pequena ao teu lado, Maria,
Por ver como são vãs as grandezas do mundo.
Ao ver-te visitar a casa de Isabel,
Aprendo a praticar a caridade ardente.
Aí escuto absorta, ó
Rainha dos anjos,
O canto celestial que jorrou de teu peito;
Ensinas-me a cantar os divinos louvores
E a só me gloriarem
Jesus Salvador.
Tua s frases de amor caíram como rosas
Que iriam perfumar os séculos futuros.
O Todo-Poderoso em ti fez maravilhas,
Cujas bênçãos, na prece, quero usufruir.
O canto celestial que jorrou de teu peito;
Ensinas-me a cantar os divinos louvores
E a só me gloriar
Tua
Que iriam perfumar os séculos futuros.
O Todo-Poderoso em ti fez maravilhas,
Cujas bênçãos, na prece, quero usufruir.
(Santa Teresinha – Poesia
54, 6-7; 1897)
SALVE RAINHA...
NOSSA SENHORA DO CARMO,
ESPLENDOR E FORMOSURA DO CARMELO,
Rogai por nós!
Estela da Paz, OCDS.
Comissão de Espiritualidade

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