CASTELO INTERIOR
PRIMEIRA MORADA
(Evangelho Jo 4,6-25)
“Pedindo hoje a Nosso
Senhor que falasse por mim, pois não achava assunto, nem sabia por onde
começar, a fim de cumprir essa obediência, veio-me à mente o que
agora vou explicar. Servirá para tudo o que eu disser.” (Castelo Interior-1M
1,1)
Comparar a alma a um Castelo. Comparar o amadurecimento
espiritual/humano a uma metamorfose como a do bicho da seda. Eis Teresa com sua
pedagogia das comparações.
Falar sobre a obra: Castelo Interior, mais especificamente
sobre a primeira morada, não é uma tarefa das mais fáceis. Porém, essa
dificuldade se torna insignificante comparada à luta, quando nos propomos e,
principalmente, nos comprometemos a viver essa experiência que nos leva a
vida interior, responsável pela nossa vida como um todo.
Santa Teresa nos apresenta um guia para um encontro/RE-encontro
com Deus da maneira mais plena a que se pode alcançar nesta vida.
Ela, que pela sua profunda e rica experiência de vida de oração provada
sobreduto, na vida comunitária, nos leva para “dentro” apresentando as
riquezas desse Castelo, mas também os perigos que podemos encontrar ao longo do
caminho.
“Nada posso imaginar
comparável à beleza de uma alma e a sua imensa capacidade. Por agudas
que sejam, as nossas inteligências não chegam a compreendê-la
verdadeiramente, assim como não compreendem a Deus. É Ele o próprio quem
diz nos ter criado à sua imagem e semelhança.” (Castelo Interior- 1M 1,1)
O principal ponto abordado na primeira morada do Castelo é o autoconhecimento.
A importância de irmos descobrindo quem realmente somos através da oração
“Pelo que entendo, a porta para entrar
neste castelo é a oração, meditação.” (Castelo Interior- 1M 1,7) e o que
isso representa é fundamental para alcançarmos o essencial, a união com Deus. É
importante ressaltar a atenção para a negligência ou preguiça na vida
espiritual e transcendermos, irmos além do ensinamento da fé e, também,
com relação ao que ouvimos falar sobre a alma e suas riquezas.
“Não é pequena lástima e confusão não nos
entendermos a nós mesmos, por nossa culpa, nem sabermos quem somos.”... “Bem
maior, sem comparação, é a nossa insensatez, desconhecendo nosso valor e
concentrando toda atenção ao corpo. Sabemos muito por alto que nossa alma
existe, porque assim ouvimos dizer e a fé nos ensina. Mas as riquezas que há
nesta alma, seu grande valor, quem nela habita__ eis o que raras vezes
consideramos.” (Castelo Interior- 1M 1,2)
Outro ponto abordado por Teresa é a humildade. A humildade
que nos faz íntimos de Deus e nos permite trata-lo como amigo, sabendo quem Ele
é. Quanto mais próximos de Deus, mais vamos deixando de lado os
condicionamentos, as ideias, adquiridos através das formações equivocadas sobre
religiosidade/espiritualidade, e somos devolvidos à Verdade.
“O que muito importa
para qualquer alma que tenha oração, pouca ou muita, é não haver
constrangimento, não se sentir obrigada a fixar-se num único lugar.”...
“Quero que me entendam
bem: mesmo aquelas que o Senhor tiver atraído ao aposento íntimo em que ele se
encontra, por elevadas que aí estejam, não se descuidem do conhecimento
próprio. Nem poderão descuidar, ainda querendo, porque a humildade é como
abelha, não fica ociosa, está sempre lavrando o mel na colmeia. Sem isso, vai
tudo perdido. Por outro lado, consideremos que a abelha não deixa de sair e
voar para sugar as flores. A alma ocupada em conhecer-se, alce voo algumas
vezes.” (Castelo Interior-1M 2,8)
“Não sei se falei bem
claro. É tão importante esse conhecimento de nós mesmas, que não quisera jamais
descuido nesse ponto, por elevadas que estejais nos céus. Enquanto vivemos
nesta terra, não há coisa que mais importe para nós do que a humildade.” ...”Se
não procurarmos conhecer a Deus, jamais acabaremos de nos conhecer a nós mesmas.
Olhando-lhe a grandeza, percebemos nossa objeção.” (Castelo Interior- 1M 2,9)
“Se ficarmos sempre
metidos na miséria de nosso barro, nunca dele brotarão arroios limpos, sem a
lama dos temores, da pusilaminidade, da covardia,... Por isso vos digo, filhas:
ponhamos os olhos em Cristo, nosso bem. Dele e de seus santos aprendamos
a verdadeira humildade. Nosso intelecto se enobrece e nosso conhecimento
próprio não nos deixa rasteiros e covardes.” (Castelo Interior-1M 2,10-11)
(AUTOCONHECIMENTO/HUMILDADE)
Como agradecer uma graça sem conhecer as virtudes que
nos foram dadas?
Como pedir uma graça sem conhecer os nossos limites?
Como conviver sem se autoconhecer?
“Quem se escandalizar
de saber que Deus faz grandes graças, já neste exílio, tenho por certo que está
muito desprovido de humildade e de amor ao próximo.” (Castelo Interior- 1M 1,3)
Graça Mística não é sinônimo de santidade. (Se você quer ver como anda sua
relação com Deus, veja sua relação com o próximo) “...Com efeito, não temos certeza do nosso amor a Deus, conquanto haja
indícios por onde se entende que o amamos. O amor ao próximo, por outro lado,
logo se conhece.” (Castelo Interior-5M, 3-8), porém por meio das graças
místicas (sinais) pode se tirar grande proveito, como ocorreu com Teresa quando
teve a visão de como seria uma alma em pecado mortal. Ela nos relata dois. O
primeiro é um temor grandíssimo de ofendê-lo e o segundo, é um espelho para a
humildade (tudo que é bom procede de Deus)
“O Senhor faz estes
favores a certas almas, não por serem mais santas que as outras, mas para dar a
conhecer as grandezas divinas__ como, por exemplo, a São Paulo e a Madalena __e
para que o louvemos em suas criaturas.” (Castelo Interior- 1M 1,3)
“De fato, sempre ouvimos falar da excelência
da oração. Pelas nossas constituições estamos obrigadas a ela durante várias
horas por dia. Mas as constituições só nos exortam sobre aquilo que podemos
fazer por nós mesmas. Pouco se fala dos prodígios que Deus realiza nas
almas__quero dizer, por via sobrenatural.” (Castelo Interior- 1M 2,7)
Quanto mais próximos de
Deus, mais somos devolvidos a nós mesmos e ao que realmente somos (imagem e
semelhança de Deus) e na individualidade de cada um, Deus vai
construindo o seu reino que começa aqui e a sua face se torna visível pelas
obras que vamos deixando.
O principal legado de Teresa de Jesus é a sua experiência de
Deus refletida nas suas obras, nas suas realizações, na sua vida. Com ela
aprendemos que Deus esta perto, junto e que deseja que estejamos com Ele. O
Deus apresentado por Teresa só pode ser encontrado dentro de nós e, mover-se
para dentro é um ato de coragem e amor. É nessa aventura humana-espiritual que
nos aperfeiçoamos encontrando a humildade, a obediência, a pobreza, as bem
aventuranças, mas sobretudo o amor a Deus, no próximo.
“Voltemos agora ao
nosso castelo de muitos aposentos. Não haveis de imaginá-lo uns depois de
outros, enfileirados. Não! Ponde os olhos no centro: aí está o salão
principal, onde se encontra o Rei.”... .” (Castelo
Interior- 1M 2,8)
Paulo Henrique Martins - ORDEM DO CARMELO DESCALÇO SECULAR
__COMUNIDADE SANTA FACE - TREMEMBÉ-SP
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