quinta-feira, 28 de março de 2019


NASCIMENTO DE SANTA TERESA DE JESUS - Doutora da Igreja e nossa Mãe no Carmelo Descalço.
(28/03/1515 - 04/10/1582)





Marcos biográficos de Santa Teresa de Jesus, três grandes jornadas.

Seu nome de família foi Teresa de Ahumada. Filha de Alonso Sánchez de Cepeda e Beatriz de Ahumada. Ele era de Toledo, ela de Olmedo. Instalados em Ávila, onde Teresa nasceu em 28 de março de 1515. Família numerosa: “Éramos três irmãs e nove irmãos”, lembra ela (Vida 1, 3). Ambiente familiar sensível às letras e à cultura, Teresa aprende a ler e escrever em idade muito precoce, talvez em torno dos “seis ou sete anos” (V. 1, 1). Vivaz e com olhos espreitadores, é impossível que ela não observasse por essa mesma época o nervosismo provocado em casa pelo pleito de fidalguia iniciado por seu pai e tios na chancelaria de Valladolid, e que certo dia se muda para Ávila, quase às portas da casa, com o inevitável acossamento de escrivães, juízes e testemunhas. Na vida de Teresa se sucedem três grandes jornadas. Vive na casa paterna até os 20 anos: Teresa menina, adolescente e jovem assiste sucessivamente à morte de sua mãe, à partida de vários irmãos rumo às Índias e ao processo de lenta dissolução do lar. Aos 20 anos opta pela vida religiosa, muito a contragosto de seu pai. Foge de casa numa manhã de outono – 1.11.1535 – e entra no mosteiro das carmelitas da Encarnação, fora dos muros da cidade. Viverá nele 27 anos, numa comunidade monástica numerosa – cerca de 180 monjas –, suportando e superando o trauma de uma enfermidade grave, que marca seu físico para toda a vida e, sobretudo, entrando no alto-mar da vida espiritual. Em torno dos 40 anos de idade, Teresa sente que é introduzida numa zona de experiência mística, que não só muda o rumo de sua vida, mas também a define e dá espessura humana e cristã à sua pessoa. Aos 47 anos de idade, Teresa inicia sua terceira jornada: sai da Encarnação, funda o Carmelo de São José e, pouco depois, empreende sua tarefa de fundadora andarilha. Viaja de carroça ou em lombo de mula até Medina e Valladolid, até Alba de Tormes e Salamanca, até Beas e Sevilha em Andaluzia, até Soria e Burgos... Para descansar finalmente em seu leito de morte em Alba de Tormes (4 de outubro de 1582). É nestes últimos anos que se dilata seu horizonte visual e espiritual. Não só graças ao emaranhado geográfico de suas correrias de fundadora, mas também por sua renascida sensibilidade para com os problemas da Europa e das Índias Ocidentais, seu vivo interesse pelas coisas da cristandade e da Igreja, seu conhecimento dos estratos sociais daquela Espanha, mistura de glória e de misérias. São os anos em que Teresa estabelece inúmeras amizades e relações humanas em todos os níveis e estamentos da sociedade. Para sua obra de reforma e para seu magistério espiritual, Teresa tem a sorte de associar-se à pessoa e à sabedoria de frei João da Cruz, ao mesmo tempo “filho e pai de sua alma”. 

A escritora singular 

Se não é excepcional, é absolutamente singular em sua época a entrada de Teresa na constelação de grandes mestres da escrita. Leitora apaixonada desde seus anos juvenis, Teresa é um bom exemplar de escritora autodidata. Desde as leituras edificantes do Flos sanctorum, passa para as fantasiosas novelas de cavalaria e destas para os “bons livros” – como ela diz. “Bons livros” eram as obras de escritores espirituais, felizmente bons mestres da pluma, cinzeladores do bom romance na nascente literatura castelhana. Teresa lê traduções da patrística: Cartas de São Jerônimo, Morais de São Gregório, Confissões de Santo Agostinho. Lê livros da última época medieval: A imitação de Cristo de Tomás de Kempis e as Meditações da vida de Cristo do cartuxo Landulfo de Saxônia. Lê também obras dos melhores escritores do seu tempo: Luís de Granada, Pedro de Alcântara, Juan de Ávila, Francisco de Osuna, Bernardino de Laredo, Bernabé de Palma... Apartada da Universidade, será esse florão de bons mestres que se converterá em claustro universitário da futura doutora. A eles Teresa deverá a sua preparação remota para a tarefa literária e doutrinal que enfrentará na última terça parte de sua vida, a partir de 1560, quando já está com 45 anos. Ao mesmo tempo em que escreve, contará neste mesmo período com o assessoramento imediato de letrados, teólogos e mestres espirituais, entre os mais representativos de seu tempo. Teresa é escritora desde os 45 anos até os 67. As últimas páginas, transbordantes de frescor e elegância de estilo juvenil, ela escreve alguns meses antes de morrer: capítulo 31 do Livro das fundações, no qual conta a acidentada fundação do Carmelo de Burgos.

Seus escritos, suas experiências

Cronologicamente, não é fácil fixar o ponto de partida da produção literária de Teresa. Sabemos que, muito jovem ainda, pelos seus 14-15 anos, estreou com uma precoce pequena novela de cavalaria, que, obviamente, teve de terminar no fogo para evitar a reação de Dom Alonso. Mais tarde, nos albores de sua vida mística, Teresa redigiu uma ou várias “confissões gerais” de sua vida para os primeiros exigentes assessores de seu espírito. Páginas escritas por volta dos seus 40-43 anos de idade. Também perdidas. Seu primeiro escrito consistente que chegou até nós é, provavelmente, um poema, que começa: “Ó formosura que excedeis / a todas as formosuras...”, escrito por volta de 1560. Ou talvez antes. Mais ou menos coetâneo dele é o primeiro escrito introspectivo de Teresa: sua Relação 1a., datada de 1560. 

Grande mulher, grandes obras

Na primavera de 1562, nasce sua obra mestra, o livro da Vida, que será reelaborado em forma definitiva três anos mais tarde, em 1565. Com ele, a escritora chegava ao pleno domínio da escrita, tocando inesperadamente o zênite de sua inspiração literária. No ano seguinte, 1566, escreve o Caminho de Perfeição e, sucessivamente, as outras obras maiores: as Fundações, a partir de 1573; o Castelo interior, em 1577; e várias peças menores das quais ignoramos a data de composições: Exclamações, Conceitos e muitos de seus poemas. Só pelo fim de sua vida, Teresa pensou em “publicar”. Até esse momento, seus escritos eram divulgados no abrigo da intimidade, copiados pelas monjas de seus Carmelos, com uma tênue onda de expansão entre leitores e teólogos amigos. Inclusive entre leitoras amigas e inimigas, como Dona Maria de Mendoza e a princesa de Eboli. Entre os senhores da Inquisição, como Dom Gaspar de Quiroga. Em 1579 Teresa envia uma cópia do Caminho ao seu amigo Dom Teutônio de Bragança para que o publique nas prensas de Évora (Portugal). A impressão se chocará com numerosas dificuldades e só verá a luz em 1583, alguns meses após a morte da autora. A grande fortuna editorial chegou para seus escritos em 1588, quando o mestre agostiniano frei Luís de León preparou a sua edição; ele fez a sua apresentação à sociedade com uma maravilhosa carta-prólogo. Com a edição de frei Luís, feita em Salamanca, na tipografia de G. Fóquel, Madre Teresa e suas obras ingressavam definitivamente no patrimônio cultural do Ocidente.

(Adaptação)
#ComissãoDeMemória 
#AlmaCarmelita 

Estela Márcia da Paz Moreira de Araújo. 
Estela Maria Teresa de Jesus, OCDS.

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