sexta-feira, 3 de outubro de 2008

OBRA RECRIADA PELO DIVINO OLEIRO



Graça a pedi:
Deixar-se recriar pelo divino Oleiro.

"O objeto que ele estava fazendo se deformou,
mas ele aproveitou o barro e fez outro objeto,
conforme lhe pareceu melhor" (Jr 18,4).

A experiência de ser contemplado pelo divino Oleiro faz com que nos reconheçamos como a obra mais querida de Suas mãos. Ele investe nesta obra toda a Sua afeição. Precisamos estar dispostos para descer à casa do Oleiro e ouvir o que Ele nos quer comunicar. Como Jeremias, necessitamos entrar para ver o oleiro trabalhando o barro, remodelando, refazendo, reconstruindo... Não era uma experiência nova para Jeremias, pois conhecia inúmeros oleiros que sabiam fazer vasos. Deus serve-se dos elementos do cotidiano, das coisas simples para mostrar nossa verdade e confrontá-Ia com a Sua verdade.
Deus nos quer pessoas refeitas n'Ele, para que nossa vida seja uma resposta ao Seu amor e em sintonia com o Seu Reino. Refaz Sua aliança, aproximando-se de cada um de nós para curar nossas feridas e re-configurar­nos. Não somos criaturas descartáveis e sem valor ou sem significado para Deus. O vaso estragado nunca é sucatado e, sim, remodelado. "Vaso estragado" pode significar: decepções, desilusões, tristezas, perdas, frustrações... Nas mãos do divino Oleiro estas situações podem ser oportunidades de um re-começo.
Jeremias ouve e obedece. Pela sua obediência, o Senhor o faz um vaso novo, o precursor, a porta de entrada, referência para toda a nação. É preciso ser moldado pela mão do divino Oleiro para ter critérios de vida, para sinalizar o projeto do Reino e para ter poder de influência sobre a nação para que ela se deixe modelar.
Para ser oleiro com poder de influência, conforme o projeto do divino Oleiro é necessário cultivar a disposição para ouvir, ir e olhar para onde Ele nos deseja enviar. Jeremias obedece prontamente e vai: "desci até a casa do oleiro e o encontrei fazendo um objeto no torno" (Jr 18,3). Ele olha como o barro desliza livremente pelos dedos do oleiro e como o vaso vai sendo modelado. Ao contemplar a ação do oleiro, ele intui uma mensagem vital: como o oleiro está para o barro, assim Deus está para a pessoa; e como o barro está para o oleiro, assim a pessoa está para Deus. Para que o divino Oleiro possa modelar a Sua obra, é necessário entregar-se incondicionalmente às Suas mãos ágeis e misericordiosas. É preciso ouvir e obedecer à Palavra do Senhor, vivê-Ia e transformá-La em testemunho de vida. Assim, a vida será um vaso novo que aloja o Espírito do Senhor e poderá ser referência para os outros viverem e seguirem o ensinamento do Senhor da Vida. Ele tem poder para remodelar nossas vidas quando não estamos de acordo com a Sua vontade. Ele molda continuamente nossas vidas. Como na época de Jeremias, Deus continua trabalhando em seus vasos: o seu povo.
A pessoa que está nas mãos do divino Oleiro vive em comunhão com as outras pessoas e se compromete com o projeto do Reino. O pecado quebra ou danifica o vaso. Provoca a divisão e fragmenta a comunhão. É a ruptura da amizade e familiaridade com Deus e da fraternidade entre as pessoas. É a negação prática da natureza humana criada para a comunhão. Nesse sentido, o pecado é uma alienação fundamental que se reproduz em alienações particulares, ali onde povos, raças, classes sociais são explorados e oprimidos.
Gutiérrez assim expressa essa realidade: "Pecar é, com efeito, negar se a amar os demais, por conseguinte, ao próprio Senhor. O pecado, ruptura da amizade com Deus e com os outros, é, para a Bíblia, a causa última da miséria, da injustiça, da opressão em que vivem os homens" (Gutiérrez, 1995, p. 27). Por isso dizemos que, pelo pecado, a pessoa rompe com a comunhão e assume um caráter social e histórico de contínua fragmentação, onde todos, de alguma forma, somos cúmplices.
As mãos do divino Oleiro, que vieram para resgatar e remodelar o nosso ser decaído, nos fazem entrar em comunhão com Deus e com toda a humanidade. Viver o dom do Espírito é viver uma eterna páscoa, uma passagem do pecado à graça, da morte à vida, do desumano ao humano, da cisão à integração. Deus deseja que busquemos e vivamos Sua plenitude que vence toda negação do amor e suas conseqüências.
O estado de fragmentação em que podemos nos encontrar depois de um fracasso, de uma desilusão, de uma incompreensão... Grande ou pequena, não é necessariamente seu destino, mas ocasião de deixar-se recriar pelo Oleiro divino. Deus deixa essa certeza impressa nos olhos e na memória do profeta Jeremias, ao conduzi-Ia à casa do oleiro, em cujas mãos havia um vaso que se estragou. Em vez de jogar fora o vaso estragado, o oleiro o refez, moldando outra peça com o mesmo barro. Em seguida, o Senhor perguntou ao profeta: "Por acaso será que não posso fazer com vocês, ó casa de Israel, da mesma forma como agiu este oleiro?" (Jr 18,6).
São os "vasos quebrados" que precisam retomar às mãos do divino Oleiro para serem remodelados. A pessoa que se encontra no fundo do poço, que perdeu o sentido e o encanto pela vida, rompeu a aliança com o divino Oleiro. Desconectou-se da Fonte, perdeu a força e o dinamismo da esperança cristã. Perdeu a capacidade de crer e fragilizou o poder da fé. Perdeu a vibração e o encanto pelo primeiro amor. Tornou-se fria, insensível, incrédula e apática. É nestes momentos e situações existenciais que é necessário intensificar sua confiança e abandono nas mãos do divino Oleiro.
O divino Oleiro restaura a saúde do enfermo (d. Is 38,16), a vista do cego (cf. Lc 18,42), a fala do mudo (cf. Mc 7,35) e o juízo do endemoniado (cf. Mc 5,15). Devolve a posição ereta à mulher encurvada (cf. Lc 13,13). Restaura a mão ressequida (cf. Lc 6,10). Deus restaura a pessoa da queda e do pecado, justificando-a, santificando-a e glorificando­a. Ressuscita-a de entre os mortos. Dá-lhe um novo corpo, revestido de incorruptibilidade e de imortalidade (d. 1Cor 15,53). Torna-a igual a Jesus Cristo (cf. Rm 8,29-30).
Podemos encontrar-nos no fundo do poço devido à nossa auto-suficiência que aos poucos dispensa a presença, a graça, o poder e a ação da sabedoria do divino Oleiro. Podemos julgar-nos poderosos, vivendo na ilusão de que estamos na verdade e que a última palavra é sempre a nossa. Nesta situação, não nos consideramos ramos, mas a própria videira (d. Jo 15,5). Tiramos Deus do centro e nos colocamos no lugar d'Ele. O nosso "eu" torna-se deus. Vivemos a egolatria. Trocamos a plenitude de Deus pela plenitude do nosso eu. Perdemos a relação filial de dependência com o divino Oleiro que, numa fidelidade indestrutível, mantém o olhar enternecido fixo em cada um de nós, obra de Suas mãos.
O divino Oleiro, em Cristo, tira o pecado do mundo, refaz o que a pessoa fez de errado. A história não termina com a notícia de que "o pecado entrou no mundo através de um só homem" (Rm 5,12), mas com a notícia de que Jesus é "o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

A misericórdia do divino Oleiro suscita o desejo de suplicar "Restaura-nos, Senhor". O que Jesus quer fazer de nós é maior do que Ele quer fazer através de nós. Comprometidos com o projeto do divinO' Oleiro, devemos assumir a "prática da restauração". Esta prática é a arte de nos colocarmos, humildemente, nas mãos do divino Oleiro, para que Ele nos refaça continuamente e possamos manter a forma e a beleza arquitetada por Ele.
Como barro nas mãos do oleiro, deixemos o divino Oleiro recriar, refazer, remodelar e restaurar a nossa vida e missão. Deus, o divino Construtor, mantém nossa vida e missão "sempre em obras". Como obra de Suas mãos, permaneçamos em sintonia com o Seu projeto.

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