Em meio aos
preparativos para a celebração do “V Centenário do nascimento de Santa Madre
Teresa de Jesus”, somos chamados a nos debruçarmos sobre seus escritos. Tarefa
nada fácil para nós leigos, mas que deve ser cumprida com zelo, com um forte
sentimento de obediência aos nossos superiores e, sobretudo, de um amor filial
à Teresa. Este “kairós” - momento oportuno - que vivemos leva-nos a rever,
refletir e questionar a nossa trajetória vocacional no Carmelo Descalço e, ao
mesmo tempo, nos perguntar como “anda” o nosso comprometimento com a vivência
da espiritualidade, assumida livremente por meio das promessas.
Neste ano, a Ordem
nos propõe para o estudo e reflexão o livro das “Fundações”. Nele podemos
contemplar as motivações de santa madre para a reforma que empreendeu no
Carmelo e os sofrimentos que suportou para por em prática tal empresa, bem como
na fundação dos “seus” mosteiros. Desde o princípio, Teresa desejou viver com
toda fidelidade a regra de vida que assumiu[1],
o que fez com perfeição durante o tempo em que esteve no mosteiro da
Encarnação. Mas o desejo de servir mais perfeitamente o Senhor, a fez fundar o
mosteiro de São José de Ávila e ali buscar viver com toda a fidelidade a regra primitiva do Carmo.
Como sabemos o
conhecimento, a fidelidade e o comprometimento de Teresa e dessas primeiras
irmãs à regra primitiva, foram de tal
forma que, o padre geral ao visitar o pequeno mosteiro de São José se encantou com
o que viu, e concedeu a Teresa “amplas patentes[2]”
para fundar outros mosteiros. A fidelidade com que seguiam os conselhos
evangélicos e a regra primitiva da Ordem teve consequências imediatas: a
fundação de novos mosteiros, a fundação dos frades “descalços” e o nascimento
de uma nova ordem religiosa na Igreja, ou seja, o Carmelo Descalço.
É interessante notar
que um dos desejos de santa madre Teresa de Jesus foi que as irmãs [os
carmelitas descalços] nunca perdessem de vista a “história” da fundação do primeiro
mosteiro da reforma, porque, para ela “isso muito animará as monjas [frades e
leigos também] vindouras a servir a Deus e a procurar que a perfeição inicial
não só não decaia como avance, ao verem o muito que Sua Majestade se empenhou
em estabelecer a casa […][3].
Para isso, santa
madre nos lembra de que é necessário a fidelidade e o comprometimento, ou seja,
“devemos sempre nos considerar alicerces dos que vierem mais tarde. Porque, se
agora os que vivemos não tivéssemos perdido o fervor dos antepassados e se os
que viessem depois de nós fizessem outro tanto, a edificação sempre estaria
firme”[4].
Este é o ponto, o segredo para que o Carmelo
Descalço esteja sempre firme e
atuante no mundo, e do qual nós temos grande responsabilidade! Considerar-se
alicerce é ter em mente quem nós somos e o que temos por fazer, e para isto é
preciso o conhecimento, “que é muito importante para tudo esclarecer”[5].
Conhecimento da identidade que caracteriza a vocação que abraçamos.
Ao fundar outros
mosteiros, não tardou para Teresa se ver obrigada a colocar no papel as
constituições, ou seja, os preceitos que caracterizariam a nova forma de vida
que nascia. O “COMO” viver, por em prática a regra primitiva. Configurava-se
assim, definitivamente, o “espírito” do Carmelo Descalço, sem o perigo “de
alguma priora, que pensando nada fazer, tira[va] e põe [punha] o que lhe
dá[dava] na veneta [...]”[6].
Para assumir um
“estilo” de vida é preciso conhecê-lo. Ninguém casa, vira frade ou monja da
noite para o dia. Antes, porém, precede o tempo do enamoramento, do conhecer,
do apaixonar-se... E quanto mais intenso, mais profundo, mais bem preparado for
este período, melhor se viverá depois. Da mesma forma quando se abraça uma
vocação numa determinada Ordem da Igreja. No Carmelo Descalço – nos três
estados de vida -, o período de formação é crucial. Deste deriva-se mais tarde
a intensidade e o comprometimento com o qual se viverá a espiritualidade, ou
seja, a própria vocação.
Por isso, Teresa
deseja que suas irmãs e mais tarde seus irmãos vivam com todo ardor e perfeição
a regra e as constituições, e para isso focará priorizará a formação no
espírito do Carmelo. Para nós não deve ser diferente. Ter um conhecimento pleno
e profundo das constituições OCDS e do Estatuto particular da Província São
José, além de outros documentos que a Ordem publicar, é de suma importância.
Como poderá uma pessoa querer ser carmelita descalço se não conhecer aquilo que
“dá forma” à vida no estilo do carisma teresiano? É inaceitável e
incompreensível que isto aconteça, mas infelizmente acontece!
Muitos de nós
esquecemos que as Constituições e todos os documentos da OCDS, são de extrema
importância para TODA a vida e não só no momento em que se está se preparando
para as promessas. Inclusive, acontece que, às vezes, os documentos só são
estudados no período inicial da formação ou no momento que surge alguma dúvida
na comunidade. Por mais que conhecemos esses documentos, especialmente, as
constituições, não podemos cair na tentação de deixá-los esquecidos na gaveta.
É preciso utilizá-los constantemente nas formações. De transformá-los em
matéria de oração, de reflexão e meditação na comunidade e na vida pessoal.
Pode acontecer que
muitos conheçam de cor e salteado as obras de santa madre Teresa, do santo
padre João da Cruz e enfim, de muitos santos carmelitas, o que louvável, mas
sequer conhece aquilo que deve reger o seu estado de vida enquanto carmelita
descalço secular. Conhecer, rezar, praticar aquilo que as nossas constituições
e documentos dizem é penetrar no “espírito” de Teresa e ali encontrar Aquele
que sabemos que nos ama[7].
Seguindo as
constituições e documentos da OCDS, temos a segurança de estarmos no caminho
certo. Eles nos revelam, em
nome da Igreja e da Ordem, quem somos, o que e o
quanto devemos fazer. Ou seja, qual a identidade da vocação que abracei e qual
as implicações intrínsecas a ela. Ao mesmo tempo, afasta o perigo de querer
acrescentar algo que foge à “regra” e ao espírito teresiano, pois, muitas
vezes, acrescentam-se tantos costumes, “cerimônias”, enfeites, palavras e até
“documentos” que acaba descaracterizando-os, se afastando daquilo que é o
cerne, o princípio, ou seja, do carisma de Teresa.
Ser carmelita
descalço não é conhecer profundamente as obras dos santos - isso faz parte -,
mas é, sobretudo, configurar-se ao espírito do Carmelo Descalço e para isto, é
necessário conhecer e aderir às constituições e às orientações expressas nos
documentos da Ordem. Somente assim poderemos nos considera alicerces para
aqueles que virão.
Entretanto, Teresa
deixa um recado: “Quem considerar áspero o nosso modo de vida deve culpar a sua
falta de espírito, e não o que se observa aqui (porque pessoas delicadas e não
saudáveis, tendo o espírito, podem suportá-lo com muita suavidade), devendo ir
para outro convento [outra Ordem], onde se salvará de acordo com o espírito que
o anima”[8].
Conhecer e viver as constituições OCDS é valorizar, reconhecer e dar
continuidade à obra iniciada por Teresa de Jesus e João da Cruz.
Abraço fraterno a
todos!
Comissão de Formação, OCDS