terça-feira, 21 de abril de 2020

Fique em casa!


(imposição salutar do vírus COVID -19)

Frei Pierino Orlandini, OCD 

Ficamos, obedientes, em casa.
E sairemos de nossas casas e recintos.
Sairemos cansados e vitoriosos,
com mãos limpas e coração purificado,
livres do medo e com vontade de tudo.

E voltaremos em nossa casa,
diferentes,
com prazer,
 não mais isolados, mas como família, em comunhão.
Aprendemos a entrar e a estar em nossa casa.

Achamos, finalmente,
a chave perdida da porta.
Entramos em casa! Nossa casa, nossa vida!
Encontramos a meta e sentido
em nosso precioso “Castelo,
de Deus morada
e nossa morada!”.

E saímos de casa contentes,
saindo de nós,
diferentes.
Sem medos de correr pelos campos
e brincar livremente
e orar novamente
e anunciar abertamente o que vale,
definitivamente.

E voltamos ao encontrar-nos confiantemente.
E a conhecer-nos mutuamente.
E a valorizar-nos profundamente.
E verdadeiramente.

E saberemos dar valor à vida
e às suas sábias lições.
E sentiremos, finalmente,
que a vida é bela, se repartida, mesmo na dor,
gratuitamente.

E teremos aprendido,
finalmente,
que somos gotas de um único mar,
gotas pequenas e importantes,
flores do mesmo jardim.

E todos somos únicos,
formando comunhão.
“Que todos sejamos um!”,
é isto que Deus quer. E é isto que conta.
Usamos mais os verbos: viver, conviver, partilhar
na vida e de fato
e, acima de tudo, com conteúdo,
aprendemos a AMAR.

Tudo é possível!
Mudar é possível e melhorar!
Lição de vida,
que este tempo de pandemia
convida-nos a guardar definitivamente
e a concretiza-la com “determinada determinação”
constantemente.

Lição aprendida: ficar em casa, entrar em si mesmo,
sair renovados de casa, sair de si mesmos,
aprendemos tudo numa palavra: AMAR!

      Abril de 2020 ( em plena pandemia do Coronavirus).

quarta-feira, 15 de abril de 2020

ESCOLA DE FORMAÇÃO EDITH STEIN – OCDS – POLO FORTALEZA


Entre os dias 23 e 26 de janeiro de 2020, foi realizado o módulo 2 da Escola de Formação – Dimensão Doutrinal –, no Recanto Sagrado Coração, em Fortaleza - CE, e contou com a presença de alunos de Fortaleza e Quixadá - CE, Recife - PE, Natal - RN, Belém - PA e Ipatinga - MG.

Os formadores deste módulo foram os redentoristas padre Moésio, professor doutor da Faculdade Católica de Fortaleza, tratando de Eclesiologia, e padre Thyeres, psicólogo, abordando a Teologia do Laicato, e as irmãs da Comunidade Rainha do Carmelo, da OCDS de Fortaleza, Monica Dodt, médica, falando sobre Missão e apostolado dos leigos carmelitas OCDS, e Cláudia Maropi, enfatizando o Apostolado do leigo na OCDS.

Na oportunidade, celebramos a formatura de cinco alunos: João Paulo, da Comunidade Flor do Carmelo de Santa Teresinha (Fortaleza), Mônica Mota, da Comunidade Rainha do Carmelo (Fortaleza), Vanalúcia Dias, do Grupo Nossa Senhora do Sorriso (Natal), Bernadete Álvares, da Comunidade Santa Teresa dos Andes (Belém) e Sue Luzia, de Ipatinga.

Concluímos, com muito êxito, mais um módulo da EFES. Vamos, agora, nos preparar para o módulo 3 – Dimensão Carmelitana –, que, com a benção de Deus, será realizado nos dias 30 de julho a 2 de agosto deste ano.

Cláudia Maropi
Secretária da Escola de Formação Edith Stein – Polo Fortaleza

Escola de Formação Edith Stein - Polo Sudeste

Uma imagem contendo parede, interior  Descrição gerada automaticamente


Aconteceu, entre os dias 23 e 26 de janeiro de 2020, o 2º módulo da Escola de Formação Edith Stein, no Centro Teresiano de Espiritualidade, de São Roque - SP. Esse módulo trabalhou a formação doutrinal, abordando, principalmente, a Eclesiologia e a Teologia do Laicato. Estiveram presentes 27 alunos, das mais diversas comunidades e grupos de nossa província, vindos de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. Foram dias de muita formação, com aulas ministradas pelos diáconos Carlos e Talles e por frei Salinho, OCD. 

Tivemos, ainda, a formatura da aluna Luciane Amaral Rocha Fonseca, do Grupo A Bem Aventurada Virgem Maria, de Itaúna - MG. Ela concluiu, com êxito, os quatros módulos básicos, bem como o quinto módulo, “Formação na Doutrina Social da Igreja”, de aprofundamento. É enriquecedor notar os esforços de cada um para participar dos módulos, e o quanto têm sido importantes os conteúdos estudados.

É objetivo da Escola Edith Stein preparar os formadores OCDS e aqueles cristãos que desejam fazer com que o povo de Deus cresça na fé e no conhecimento. Desde o primeiro módulo, em julho de 2014, já participaram 147 alunos, sendo que, desses, 32 já se formaram nos quatros módulos sugeridos pela escola. Por isso, é oportuno que nossas comunidades e grupos de todo o país, na medida do possível, enfatizem a importância da escola no processo formativo de nossos membros. 

Diácono Carlos
Coordenador da Escola Edith Stein
Polo Sudeste

Participação da OCDS no VI Capítulo dos Frades OCD da Província São José


Marisa Ribeiro
Vice-presidente provincial da OCDS

São Roque, 10 e 11 de janeiro de 2020.

A OCDS foi representada por mim, Marisa Maria Ribeiro (vice-presidente provincial), e por Maria Aparecida de Paula Nascimento (secretária provincial).

Chegamos ao Centro Teresiano de Espiritualidade, em São Roque, na tarde do dia 10/01 e logo fomos recebidas pelos freis Afonso e Salinho, que, carinhosamente, nos acolheram. Frei Afonso pediu que adiantássemos a apresentação que estava marcada para o dia 11 para aquela tarde. Rapidamente, nos organizamos para que tal fato acontecesse.

Na sala de palestra, fomos recebidas calorosamente pelos frades que estavam participando do Capítulo da Província São José. Nosso provincial, frei Emerson Santos Oliveira, nos apresentou e informou aos frades o adiantamento da apresentação.

Comecei agradecendo a Deus a oportunidade de estar representando a OCDS no Capítulo e ao frei Afonso pelo convite, e parabenizei frei Emerson, o novo provincial, levando a ele um abraço e as orações de todos os membros da OCDS, colocando-nos à disposição para tudo o que precisasse.

Na apresentação, destaquei os pontos importantes do triênio passado, os congressos, os livros editados, os módulos da Escola de Formação, os fóruns, os simpósios e as participações no CICLA. Maria Aparecida (Cidinha) ofereceu um testemunho da vivência na Escola de Formação Santa Edith Stein, ressaltando o valoroso contributo da Escola na formação não só dos carmelitas seculares, mas, também, para outras pessoas que a frequentaram. 

Em seguida, apresentei os novos membros do conselho provincial e, por meio do novo organograma elaborado pelo atual conselho provincial, os coordenadores das comissões, o plano de ação do conselho e das comissões e as metas para serem atingidas no novo triênio. Expus, ainda, por gráficos, o crescimento da OCDS, o número de comunidades e de grupos.

Depois, li uma carta do frei Alzinir direcionada aos seculares por ocasião do último encontro em São Roque e o capítulo de nosso livro de documentos que trata da assistência pastoral dos frades à Ordem Secular.

Falei também da preocupação de nossa atual presidente, Rose Lemos, em relação à atual realidade da OCDS e que ela deseja, para este triênio, um olhar atencioso para todas as comunidades e grupos, no intuito de exercitar, com muito amor, seu lema “Testemunhas da experiência de Deus, na volta e na busca do essencial”. Encerrei, por fim, a apresentação no VI Capítulo da Província São José, agradecendo a todos pela atenção e fortalecendo nossa união na oração. 

Na sequência, Frei Emerson leu parte da carta de frei Alzinir sobre a OCDS, em que ele pede um olhar com atenção e carinho para esse momento delicado de nossa Ordem, no qual há risco de nos fragmentarmos e perdermos a identidade do carisma. A conclusão foi que precisamos de bons delegados que promovam a unidade, ajudando, orientando, conduzindo e fortalecendo-nos como carmelitas.

O provincial anunciou, em seguida, os cincos delegados nomeados para a OCDS: frei Wilson, frei Gregório e frei Salinho para as regiões Sudeste e Centro-Oeste, frei Luciano Henrique e frei Hudson para as regiões Norte e Nordeste.

Terminamos a programação da tarde rezando as Vésperas junto aos frades e, à noite, fomos convidadas a participar de um delicioso rodízio de pizza, em que tivemos a chance de uma descontraída convivência fraterna e confraternização com eles.

No dia 11/01, pela manhã, participamos da celebração eucarística com Laudes presidida por frei Emerson, contando com a presença de algumas monjas, às quais foi reservado o restante da manhã para sua partilha no Capítulo.

Para nós, foi uma experiência enriquecedora, que permite à OCDS firmar-se, cada vez mais, como ramo significativo de nossa família teresiana, contribuindo com a Ordem pela riqueza própria de sua secularidade.

DIÁRIO DE UM CARMELITA SECULAR EM ÁVILA

Artur Viana, OCDS (Fortaleza-CE)


“Os carmelitas seculares, junto com os frades e as monjas, são filhos e filhas da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo e de Santa Teresa de Jesus. Portanto, compartilham com os religiosos o mesmo carisma, vivendo-o cada um segundo seu estado de vida. É uma só família, com os mesmos bens espirituais, a mesma vocação à santidade e a mesma missão apostólica. Os seculares trazem à Ordem a riqueza própria da sua secularidade” (Constituições OCDS 1).

Esse pequeno, e já primeiro, parágrafo das nossas Constituições nos define objetivamente, e, em meio a tantas outras definições possíveis, essa foi a mais acertada. Acertada, porém, infelizmente, não assimilada por muitos dos que por ela são definidos.

Encontramos beleza nessas palavras, encontramos uma verdade, por isso automaticamente concordamos com elas, porém, tão logo fechamos nosso livro de documentos, desconsideramos a ressonância que essa definição deveria provocar em nossa visão de leigo sujeito eclesial e membro integrante do carisma carmelitano. Qual é nossa “função” na Igreja? Sermos igreja. Qual é nossa “função” no Carmelo? Sermos carmelitas. Isso basta, essa resposta já é suficiente e já está completa. O modo de ser igreja na Igreja e de ser carmelita no Carmelo em nada altera aquilo que somos essencialmente; dizendo em outras palavras, não somos menos igreja porque não somos clérigos, nem menos carmelitas (ou carmelitas de “terceira ordem”) porque não somos religiosos. Trazemos à Igreja e à Ordem a riqueza da nossa secularidade, e as integramos com a mesma dignidade e lucrando os mesmos bem daqueles que nelas estão e que não são seculares. Que beleza! Que riqueza! É isso que São Paulo quer dizer ao apresentar a imagem da Igreja Corpo Místico de Cristo, na qual todos os membros têm sua importância e são essenciais justamente pela diversidade de suas funções.

Mas por que escrevo isso? Em primeiro lugar porque nunca é demasiado repeti-lo e fazer essas sempre necessárias considerações. Em segundo lugar porque sou um dos poucos leigos que estamos em Ávila cursando um Master em Mística e Ciências Humanas, no Centro Internacional Teresiano-Sanjuanista (CITeS), e embora não seja o único leigo, nem mesmo o único brasileiro, há algo que me confere uma unicidade: sou o único aluno carmelita secular e estou aqui pela OCDS do Brasil.

A trajetória para chegar até aqui muitos a conhecem, e digo, sem acanhamento, que os que me ajudaram na realização deste sonho, em muitos momentos, tiveram mais fé do que eu. Obviamente, se eu estivesse sozinho, esse desejo seria um projeto irrealizável. E quando digo que fui ajudado, não me refiro apenas aos irmãos da Ordem Secular de toda a província, aos amigos próximos e não próximos, mas, sobretudo, à comunidade do CITeS, em sua administração, que me favoreceu e segue me ajudando aqui em muitos aspectos. 

Estar em Ávila diz muito para quem encontrou sua vocação no Carmelo Teresiano, e estar no CITeS, enquanto carmelita secular, diz mais ainda. Evidentemente, a participação dos cursos e eventos desse Centro Teresiano-Sanjuanista nunca foi algo privado e exclusivo para clérigos, religiosos ou carmelitas, mas tampouco é de se ignorar o fato – aparentemente irrelevante – de haver um carmelita secular entre os que aqui estudarão por três trimestres. 

Os estudos compreendem três grandes blocos: um trimestre de introdução ao estudo da mística e o diálogo desta com outras disciplinas e expressões; um trimestre sobre santa Teresa de Jesus, no qual se aprofunda e se estuda sua doutrina a partir da leitura de suas obras; e um trimestre sobre são João da Cruz, com a mesma metodologia do trimestre teresiano. A jornada de estudo é matutina; as tardes temos reservadas para o estudo pessoal e pesquisa. Aqui vivemos como comunidade, temos momentos comuns de oração e de convivência e são essas as oportunidades para um intercâmbio cultural e espiritual, de mútuo conhecimento e mútua ajuda. Dessa forma, cada um, em seu estado de vida, e em sua vocação (pois não há apenas carmelitas), enriquece o outro. 

Em dois meses de Ávila, já tenho muitas boas impressões e recordações. A Universidade da Mística se distingue de tantas outras não apenas por ser um lugar especializado nos estudos de nossos santos pais, mas por ser, também, uma verdadeira comunidade teresiana, na qual a oração, o estudo e a fraternidade são promovidos e mantidos pelos que a compõem, ou seja, um ambiente propício para essas três dimensões. 

Queira o bom Deus que eu saiba corresponder a essa graça tão grande com que Ele me favoreceu e possa, mais tarde, ajudar e contribuir com meus irmãos da Ordem Secular com a formação e com a vivência carismática da nossa vocação. Amém.

C:\Users\Arthu\Desktop\CITeS\Arquivos fotos e vídeos\Ávila\20191210_182450.jpg

ENTREVISTA - FREI LUCIANO HENRIQUE


Nesta edição, a Revista Monte Carmelo entrevista frei Luciano Henrique, um dos cinco religiosos nomeados delegados provinciais para a OCDS em janeiro deste ano, durante do Capítulo dos frades da Província São José. Conheça, a seguir, a trajetória de frei Luciano, aspectos de sua espiritualidade carmelitana e suas expectativas para a nova missão.

1. Fale um pouco sobre você e sua família, para que possamos conhecê-lo melhor.

Irmãos e irmãs em Cristo e no Carmelo Descalço, graça e paz. Eu me chamo Luciano Henrique Veras Tito, e na Ordem Carmelitana Descalça sou frei Luciano Henrique da Eucaristia. Tenho 41 anos de idade. Natural de Teresina - PI, sou filho de Raimundo Nonato Ferreira Tito (in memoriam) e Maria Alice de Sampaio Veras. Tenho dois irmãos já casados. Atualmente, sou prior do Convento Sagrada Família, situado em Marechal Deodoro, não tão distante de Maceió, estado de Alagoas.

2. Conte-nos como foi seu chamado vocacional e fale um pouco de sua trajetória no Carmelo.

Falar do meu chamado vocacional é sempre fazer memória do amor de Deus, amor de um Pai que me cumulou do dom mais nobre que possa existir: o dom da vida! Sou grato a Deus pelo que sou e por tudo que recebi, especialmente minha vocação de religioso consagrado. Como São Paulo, posso dizer que “Deus me escolheu desde o seio materno e me chamou por sua graça.” Deus me escolheu para viver para Ele! Esse pensamento de grande profundidade revela a minha condição de agraciado e de peregrino em busca de luz, do mistério divino. Senti o primeiro chamado à vida religiosa quando participava da Renovação Carismática Católica. Minha dúvida era para qual comunidade religiosa Deus me chamava. Então, eu conheci as nossas monjas do Carmelo de Teresina. Foi amor à primeira vista! Fiquei encantado com o testemunho e partilha da madre Maria da Trindade, fundadora do mesmo Carmelo. Ela me falou sobre o carisma da Ordem, como, também, sobre os santos. Ainda me lembro de ela dizer que esses(as) eram “amigos(as) fortes de Deus”. Imediatamente, eu disse: eu também desejo ser um amigo forte de Deus. Ao final da visita, a madre me falou sobre os frades e me aconselhou procurá-los. Assim eu fiz. Comecei, então, a ser acompanhado “por carta”. Depois de muito tempo de acompanhamento, fui aceito como postulante em Caratinga - MG. Isso foi há 20 anos. No ano seguinte, fui admitido para o noviciado, e ao final dessa etapa, fiz a minha primeira profissão religiosa, a 22 de dezembro de 2001. Comecei a etapa do estudantado, tendo que cursar Filosofia e Teologia. Fiz a profissão solene em 28 de julho de 2007. Encerrada toda a etapa do estudantado, fui enviado em missão à Holanda. Lá, fui ordenado diácono a 26 de maio de 2012 e, no mesmo ano, vim ao Brasil para a ordenação sacerdotal, retornando à Holanda depois de um mês. Ao todo, servi naquelas terras oito anos e meio da minha vida. Voltei ao Brasil em julho de 2017, como conventual do convento Nossa Senhora do Carmo, em Caratinga. Das terras mineiras vim para as terras alagoanas, onde moro agora.

3. Qual santo carmelita te inspira mais devoção e por quê?

Como comentei anteriormente, meu primeiro contato com o Carmelo Descalço foi junto às monjas carmelitas em Teresina. No fim da visita, eu recebi um livro da biblioteca do mosteiro, que me foi cedido por algumas semanas. O título era “Itinerário espiritual de Santa Teresa de Ávila”, do autor Pedro Paulo Di Berardino. Começou, então, uma aproximação com a Santa Madre fundadora do Carmelo Descalço, e esse laço vem se estreitando cada vez mais. Hoje, somos muito próximos. Outra figura de santidade do Carmelo que muito estimo é Santa Miriam de Jesus Crucificado. Ela não é tão conhecida, por isso busco promovê-la em todos os lugares por onde passo. 

4. Deus já vinha lhe preparando para a função de delegado provincial para a OCDS ou você foi pego de surpresa com essa nomeação?

Como frade, tenho consciência que, dentro de nosso apostolado, a OCDS tem um lugar especial. Desde o início de nossa etapa formativa já nos preparamos para trabalhar com monjas, seculares, paróquias e pastoral da espiritualidade. Particularmente, eu sempre tive proximidade com o Carmelo Secular, mesmo quando morei na Holanda. Lá, eu era padre assistente de uma das comunidades. Ser, agora, delegado provincial para a OCDS Norte-Nordeste é, para mim, uma imensa alegria. Afinal de contas, somos irmãos! Sou muito grato por tudo. 

5. Qual será a sua linha de trabalho e quais objetivos deseja alcançar?

Creio que não posso traçar uma linha de trabalho sem antes conhecer a realidade de cada comunidade ou grupo. São doze ao todo e abrangem os estados de Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá. Certamente, poderei favorecer-me do método ver, julgar e agir e, em comunhão com os irmãos e irmãs, alcançar bons objetivos. Quais objetivos poderíamos acentuar? Mais crescimento humano, espiritual, relacional, carismático etc.

6. O que você acha lhe será mais exigente e desafiador nessa missão?

Deverei acompanhar várias comunidades e grupos, como já comentei. Também darei um suporte às monjas. Sei que será exigente conciliar com perfeição esse apostolado específico da Ordem e o apostolado paroquial. Contudo, vou me esforçar para fazer um trabalho de excelência. 

7. Qual é sua opinião sobre a OCDS na Província São José?

Louvo a Deus pela presença excepcional do Carmelo Secular na nossa Província São José. A organização, o crescimento (tanto numérico como de qualidade), o material formativo e as inúmeras iniciativas fazem da Província São José OCDS uma potência. Vocês têm tudo para se manterem como estão e para dar passos mais significativos. Eu desejo verdadeiramente caminhar neste triênio junto com vocês. Sei que o aprendizado será mutuo. 

8. Aos seculares, você poderia fazer

• Uma pergunta: A proposta da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços é oferecer ao leigo um ambiente em fraternidade, onde se viva o Evangelho e a espiritualidade carmelitana de buscar o Senhor em oração contemplativa, numa comunhão de fé, esperança e amor, e num espírito de serviço para Deus e à humanidade. A OCDS está abraçando, de fato, essa proposta? 

• Uma recomendação (conselho): Louvo e agradeço a Deus pelo dom da vida, da vocação e da graça de pertencer à grande família do Carmelo Descalço que enriquece e qualifica a minha vida, na busca da união e configuração com Cristo. A todos(as) vós do Carmelo Descalço Secular, deixo as seguintes palavras da Santa Madre Teresa de Jesus: “... Aproveita muito neste caminho, determinar-se a grandes coisas... ter confiança, e não pôr limites aos desejos, mas crer que, com a ajuda de Deus, se nos esforçarmos, poderemos chegar ao mesmo que muitos santos”. Ousemos arriscar..., pois vale a pena seguir Jesus nos passos da Santa Madre, Santo Padre, Santa Teresinha, Santa Miriam... 

• Um pedido de oração: Para que a OCDS caminhe sempre na unidade e na paz. 

Rogo para que Maria, Rainha e Formosura do Carmelo, nos abençoe sempre! 

Abraço fraterno, 

Frei Luciano Henrique da Eucaristia, OCD

Formação Humana: CARÊNCIA AFETIVA E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A VIDA FRATERNA



Jovita Cordeiro

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12) ou, ainda, “Amarás o próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31) são as respostas que Jesus dá ao escriba quando questionado sobre o maior de todos os mandamentos ou no diálogo com os apóstolos. 

Na carta de São João, também podemos ler: “Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor” (I Jo 4,8). Portanto, o amor é o fundamento para nosso relacionamento com Deus e com os irmãos. O Senhor nos revela que o essencial é o amor. Entretanto, mesmo que não houvesse revelado, percebemos em nós uma profunda necessidade de amar e sermos amados, desde o nascimento até o último dia de vida. Esse desejo está inscrito, de forma indelével, no coração de cada ser humano que veio a este mundo. É através do amor que nos sentimos ligados uns aos outros e a Deus. 

Por meio da narrativa da criação, podemos compreender como Deus nos gerou necessitados do amor: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Então, qual palavra descreve melhor a imagem de Deus? São João, em sua primeira carta, acrescenta: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (I Jo 4,16). Portanto, nosso coração não encontrará descanso enquanto não corresponder à imagem amorosa do Criador inscrita em cada um de nós. 

Com o pecado original, entretanto, o ser humano rompeu a determinação divina, pretendendo a igualdade e não a imagem e semelhança. Como consequência, foi expulso do paraíso, não antes de ter se escondido da presença de Deus. Sem a presença divina, faltou-lhe a referência da imagem. Agora já não se reconhecia mais, nem sabia mais quem era nem com quem se identificar, embora, em seu coração, permanecesse sempre presente a necessidade de buscar o amor. 

Surpreendentemente, Santa Teresa compara a alma do justo ao paraíso, onde Deus diz ter suas delícias. Deus foi “esconder-se”, por assim dizer, na alma do homem – lugar insuspeito –, e fez aí seu paraíso na terra. Agora, para estar na presença de Deus, deve-se fazer o caminho para dentro de si e, assim, experimentar a plenitude do amor. Mas, para fazer essa viagem para nossa interioridade, é necessário saber quem somos, a nossa história e a nossa destinação; não somente na dimensão humana, mas na espiritual também. De certa forma, a história da criação se repete em cada um de nós nessas duas dimensões. 

O ser humano é gerado no ventre materno, tendo aí seu primeiro paraíso na terra. Ao ingressar no mundo, experimenta, de certa forma, a expulsão do paraíso. A partir desse momento, a criança começa a jornada em busca do amor e de uma identidade, que só poderá se concretizar plenamente quando descobrir-se como imagem de Deus, tomando Cristo como imagem e semelhança perfeita do Pai e, consequentemente, do amor. 

No início da vida, suas primeiras experiências amorosas se darão na relação com os pais, os irmãos e os familiares próximos. Entretanto, sua relação primordial é com a mãe. Seu desejo é experimentar, com ela, a plenitude do amor inscrito em sua alma, mas esse tipo de amor pai e mãe não podem dá-lo. O ser humano imperfeito só pode amar imperfeitamente, porém a criança ainda não compreende isso nem é capaz de conceber que Deus é a fonte do pleno amor. Buscará, então, saciar sua sede de amor com a imperfeição do amor humano, caminho certo para a frustração. Inaugura-se, assim, a carência afetiva, espaço vazio entre o que a criança deseja e o que recebe. 

Essa falta ou essa carência é própria da condição humana. Todos fazemos a experiência do vazio e do desejo de preenchimento, ao longo da vida. Na verdade, é este desejo de plenitude amorosa que impulsiona todos a se relacionarem uns com os outros e com o mundo, na tentativa de se preencherem. Nesta procura, encontram-se apenas amores substitutos e imperfeitos, que serão incapazes de suprir esta carência do divino amor. 

Além da carência habitual, há duas formas que são muito prejudiciais ao ser humano. A carência resultante do excesso de amor e outra, da falta. O estado fusional entre mãe e bebê, vivido a partir do período da gestação, é normal e faz parte de uma gravidez saudável. Ele vai diminuindo à medida que o bebê vai se desenvolvendo, podendo permanecer por volta de um ano e meio após o nascimento da criança. Neste período, a mãe e a criança formam uma unidade. A mãe esquece-se de si mesma e dedica seu tempo e seus pensamentos em cuidar de seu/sua filho(a). Por outro lado, o bebê necessita desses cuidados e carinhos para desenvolver a noção de uma identidade e personalidade diferenciada da mãe. 

Entretanto, pode acontecer de esse estado de fusão entre ambos durar ao longo de toda a vida. Nesse caso, mãe e filho(a) permanecem misturados em suas identidades. A criança fica impossibilitada de saber quem é, do que gosta etc. por si mesma e, muitas vezes, torna-se incapaz de construir, na vida adulta, seu próprio caminho e uma independência saudável. São adultos com grande dificuldade de se responsabilizarem por seus atos, e quando o fazem, buscam sempre a aprovação de outrem. 

Geralmente, esse tipo de relação é visto e vivido como algo positivo pelo par amoroso, afinal, amor nunca é demais. Contudo, esse tipo de “amor excessivo” não permite que a criança seja vista como um ser independente, o que traz uma individualidade e uma identidade próprias, mas como um prolongamento da identidade materna. A criança fica privada e carente de ser amada por aquilo que é. Por falta da diferenciação, nega-se a ela seu próprio ser, sua independência. Sem saber quem é, também não consegue reconhecer o outro em sua individualidade. No final, vive a falta do amor verdadeiro. 

Na maioria dos casos, o estado fusional resulta do encontro de duas condições básicas: primeira, da dificuldade do pai em proporcionar a separação simbólica entre mãe e filho(a), sem conseguir se interpor na relação entre ambos; segunda, da tentativa da mãe de preencher sua própria carência nessa relação com o filho. Sem a intervenção paterna, torna-se muito difícil realizar a “desfusão”.

Não é difícil identificar adultos que tentam permanecer nesse tipo de simbiose. Em suas relações pessoais ou quando inseridos nos grupos, buscam, com frequência, relacionamentos fusionais. São bastante sensíveis e se melindram por pequenas coisas. Desejam que o grupo se curve às suas vontades e sentem-se rejeitados caso sejam contrariados. Permanecem emocionalmente imaturos e dependentes. Pela imaturidade, têm dificuldade de assumir responsabilidades. Desejam fazer do grupo ou da relação, de certa forma, seu útero materno.

Sabe-se, atualmente, por meio da psicologia pré-natal, que a carência pode ser agravada por experiências traumáticas vividas antes mesmo do nascimento, na fase intrauterina. Essas feridas são as mais primitivas, portanto, as mais difíceis de ser superadas. Pela união física entre mãe e bebê é possível, para a criança, perceber o estado emocional da mãe. As alterações fisiológicas que o corpo da mãe apresenta são notadas pela criança como sinal de acolhimento ou rejeição, afinal, nessa fase, os dois são uma só carne. 

Crianças amadas e desejadas pelos pais tendem a ser mais seguras e alegres. Por outro lado, uma mãe sempre triste, preocupada ou que rejeita seu bebê pode afetar o/a filho(a) de forma negativa, resultando em sentimentos de inadequação, agressividade e insegurança, que, muitas vezes, acompanham a pessoa ao longo de toda a vida.

Por outro lado, temos a carência gerada pela falta de amor. Situações de abandono, gravidez indesejada, problemas conjugais ou o não acolhimento podem fazer com que a criança não receba o amor que é necessário para seu desenvolvimento saudável. A falta de experiências amorosas suficientemente boas nos primeiros anos de vida gera uma angústia de morte. Experiências assim causam uma enorme sensação de medo e insegurança na criança. Na maioria dos casos, buscará a autoproteção, fechando-se em si mesma.

Na esfera da falta de amor, é comum a pessoa ter uma percepção muito negativa de si. Talvez chegue à conclusão, muito prematuramente, de que se não é amada é porque algo lhe falta, algo está errado consigo: não é bonita, não é inteligente, só é capaz de trazer problemas e infelicidade. A falta inaugura a sensação de vazio, de incapacidade e de culpa, que pode levar a uma tentativa de preenchimento com uma doação excessiva aos outros; um desejo imenso de ajudar, mas uma incapacidade enorme de receber ajuda, amor, atenção e afeto de quem a rodeia. São pessoas preciosas nas comunidades pela capacidade de doação, mas, às vezes, com grandes dificuldades de relacionamento. Ao se verem ameaçadas por qualquer sensação de abandono, reagem com agressividade, expressa em gestos e palavras. Essas pessoas, pelo medo e por essa visão negativa de si, sentem-se incapazes de assumir responsabilidades por se verem sem talentos ou imaginar que tudo se lhes dará errado.

Em ambos os casos, para superar essa condição, é necessário que a pessoa possa experimentar o processo de cura de suas feridas. A cura da carência deve se dar tanto na esfera humana quanto na espiritual, pois essas feridas acabam alterando a relação do adulto tanto com os seus pares quanto com Deus. Ela pode projetar sobre Deus as mesmas relações que teve com seu pai ou sua mãe, pois para uma criança o seu Deus é, a princípio, seu pai e sua mãe. 

Não se pode correr o risco de querer suprir esse tipo de carência ou de atender às expectativas de amor dessas pessoas. Somente Deus pode fazê-lo, pois Ele é a fonte curativa do amor. Caso contrário, nos colocaremos no lugar de Deus. Por isso, deve-se conduzi-las à experiência de um novo nascimento, de uma nova filiação e, assim, encontrarão a liberdade de ter sua própria imagem diferenciada da de seus pais.

Como adulto, o indivíduo deverá abandonar suas defesas de criança e descobrir-se como filho de um Pai Divino, que traz em si a capacidade de dar e receber amor. Sem essa experiência amorosa não poderá dar amor, pois não se pode dar aquilo que não se tem. Somente nesta descoberta da plenitude do amor de Deus se verá capaz de amar ao próximo como a si mesmo. Descobrirá dentro de si a imagem de Deus, que o capacita a dar e receber amor.

Para São João da Cruz, é próprio do amor produzir a semelhança: “Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor fazer do que ama semelhante ao amado”.


REFERÊNCIAS:

CRUZ J. Obras completas. 3 ed. São Paulo: Editora Vozes, 1991.
JESUS T. Obras Completas. São Paulo: Edições Loyola, 1995.
LA BARBERA EMP. Um caminho de Descoberta de mim mesmo. Aparecida: Editora Santuário, 2012.
PACOT S. A Evangelização das Profundezas. Aparecida: Editora Santuário, 2001.

Reunião do Colegiado Deliberativo – 07 a 09/02/2020 – São Paulo - SP

A reunião do Conselho Deliberativo do Conselho Nacional do Laicato do Brasil - CNLB contou com os membros da sua presidência (presidente, vice, secretário e tesoureiro), com os coordenadores das comissões de Assessoria Permanente, Comunicação, Formação, Fé e Política e Juventude, com os presidentes de diversas regionais do CNLB, com os dirigentes das associações filiadas e com D. Giovane Pereira de Melo, bispo de Tocantinópolis e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da CNBB. A OCDS da Província São José, como associação filiada ao CNLB, foi representada por Sebastião Silva, conselheiro provincial e membro da Comunidade Santa Teresa e Santa Miriam, da OCDS de Franca - SP.

D. Giovane fez uma excelente apresentação sobre o Sínodo da Amazônia, do qual foi participante. A espiritualidade vivenciada nos dias da reunião foi embasada no tema da CF 2020: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. Os momentos de espiritualidade, conduzidos por equipes previamente designadas, foram marcados por importantes reflexões, por muito fervor e dinâmicas de confraternização, a que o senhor bispo sempre dava “um toque especial”. Os trabalhos desenvolvidos no sábado e na manhã do domingo foram voltados para o planejamento das atividades do CNLB para o triênio 2020/2022, o qual será apresentado na Assembleia CNLB, a ser realizada em São Luís - MA (junho/2020, Solenidade de Corpus Christi). O planejamento foi conduzido por um membro da Comissão de Assessoria Permanente e baseou-se no mapeamento da pesquisa realizada nas regionais, dioceses e organizações filiadas.

Madre Carminha: a um passo da beatificação



No dia 23 de janeiro, o papa Francisco assinou o decreto em que Madre Carminha é elevada a “Venerável” pela Igreja.

Aberto há três anos, o processo de canonização de Madre Carminha ganhou, há pouco, novo fôlego, com sua elevação, pela Igreja, à condição de “Venerável”. Para nós, do Carmelo de Tremembé, é um momento muito importante, pois esse título confere a ela o reconhecimento da autenticidade de sua vida e virtudes. A partir dodecreto de “Venerável”, encerraram-se as análises sobre seus escritos, os depoimentos das testemunhas, as investigações sobre suas virtudes etc., já que, definitivamente, ela é considerada exemplo para os fiéis.

Ainda como leiga, Madre Carminha, por meio da leitura de História de uma alma, de Santa Teresa de Lisieux, e o contato tão próximo com os frades carmelitas, tomou a decisão de tornar-se filha de Santa Teresa.

Enquanto Madre Benedita, responsável pela fundação de um novo Carmelo no Rio de Janeiro, fazia os preparativos para a entrada da mais nova candidata, Carmem entrou na Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e Santa Teresa de Jesus [hojeComunidade Nossa Senhora do Carmo, da OCDS], instalada na Basílica de Santa Teresinha, na cidade do Rio de Janeiro, logo após a fundação da referida Ordem. Foi, portanto, uma das primeiras Irmãs Terceiras, tomando o nome de Irmã Maria Benigna Consolata do Coração Eucarístico de Jesus. Teve como priora a Irmã Teresa de Jesus, fundadora da Ordem Terceira, que muito trabalhou na organização da citada Ordem.

Durante os cinco anos em que permaneceu como Terceira, a todos edificou por suas virtudes. Chegou a ocupar o cargo de vice-priora, em fevereiro de 1925, enobrecendo a todas as irmãs por seu fino trato. Em 1926, entrou para o Carmelo São José, também no Rio, e, por isso, viu-se obrigada a deixar os seculares.

A cada dia, percebemos que sua fama de santidade toma dimensões gradativamente maiores, e são muitos os relatos de graças alcançadas. Não somente entre os religiosos cresce o amor a sua vida, mas muitos seculares têm se espelhado em suas virtudes, na busca de um ideal de santidade.

Futuramente, sua canonização contribuirá para manter vivo e espalhar seu ideal: adorar a Sagrada Face de Cristo e reparar os ultrajes contra ela cometidos. Além disso, Madre Carminha também desejou fortalecer no coração dos fiéis o Sensus Eclesiae, que a levava a uma imolação constante pelo pontífice reinante, por meio do exercício diário da Via Crucis e de uma vida totalmente doada, em simplicidade, humildade e caridade, que atinge seu ápice na unidade entre as pessoas – “O Amor de Cristo nos uniu” (esse era um dos seus lemas).

A fim de que Madre Carminha seja ainda mais conhecida, contamos com a ajuda de todos para propagar sua vida e santidade. Que Madre Carminha interceda por todos!

Carmelo Santa Face e Pio XII


domingo, 12 de abril de 2020

CENTENÁRIO DE SANTA TERESA DE LOS ANDES (1920-2020)




Santa Teresa de Los Andes, ou Santa Teresa de Jesus dos Andes, carinhosamente tratada pelos seu como "Juanita", e para o Carmelo de Los Andes, no Chile, como em toda a América, "Santa Teresinha da América". 
No ano 2000 foi celebrado o seu centenário de nascimento e hoje, neste domingo de Páscoa celebrado pela Igreja, 12 de abril de 2020, celebramos seu Centenário de morte, ou seja, sua Páscoa.

Prentendemos aqui celebrá-la revendo sua biografia, para os que a conhecem, e aos que não a conhecem, dar oportunidade de conhecê-la, esta "Jovem apaixonada por Deus". Durante sua vida no convento dedicou-se ao serviço de suas irmãs de comunidade, que afirmaram a seu respeito: “Teresinha sempre quis ser a última em tudo”.

Perpassando, brevemente, já desde então, destacamos que em sua vida, a centralidade de sua espiritualidade foram os quatro pilares fundamentais:
. O devoção ao Sagrado Coração de Jesus, onde ela mesma diz que Ele é seu centro e sua morada. 


. O amor da Eucaristia, onde o céu vive na terra, não está isento de dúvidas de fé que todos vivemos. 
. O amor da Santíssima Virgem, onde ela passa a fazer mãe, amiga e confidente, porque quanto mais ela se aproxima dela, mais ela se parece com Jesus,
. A Cruz que foi amor consumado.


Breve biografia


Teresa dos Andes nasceu em Santiago do Chile, aos 13 de julho de 1900. Seus pais batizaram-na na Paróquia de Sant’Ana, na véspera da festa de Nossa Senhora do Carmo, com o nome de Joana Henriqueta Josefina dos Sagrados Corações. 


Foi criada no seio de uma família cristã. Seus pais se chamavam: Miguel Fernández Jara e Lúcia Solar Armstrong. Eram ricos em bens materiais e virtudes, e tiveram sete filhos.  
Desde menina cultivou uma profunda fé na Eucaristia. Recebeu uma esmerada educação nos melhores colégios da capital chilena. Aos 11 de novembro de 1910 fez a sua primeira comunhão, com  9 anos de idade.  Mais tarde escreverá sobre este dia: “Nosso Senhor falava comigo depois que eu comungava. Mas minha devoção especial era a Virgem: eu lhe contava tudo”. 


Aos 15 anos fez um voto particular de virgindade. Durante sua adolescência padeceu de inúmeras enfermidades,  que a deixaram muito debilitada, mas a ajudaram a descobrir sua vocação religiosa. 
No dia 11 de janeiro de 1919, ingressou no Mosteiro Carmelita de Los Andes, no Chile, para um período de experiência.
No dia 3 de abril do mesmo ano escreveu a seu pai,  pedindo-lhe permissão para se tornar Carmelita. Vestiu o hábito no dia 14 de outubro, quando recebeu o nome de Teresa de Jesus. Desde então entregou-se intensamente à sua vocação.
Vive mergulhada em Deus, “seu centro e morada”, desejosa de ser “corredentora do mundo” através da “oração, trabalho e alegre vida fraterna”.  
Sua saúde foi pouco a pouco deteriorando-se e, sem que ninguém tomasse conhecimento, começou a sofrer uma estranha enfermidade, que hoje sabe-se ter sido tifo.

Nos começos de março de 1920, afirma que morrerá em breve. Escreve: “Para uma carmelita a morte nada tem de terrível, pois assim vai-se viver a verdadeira vida e cair-se nos braços daquilo que se amou aqui na terra sobre todas as coisas. Com a morte, mergulha-se eternamente no amor”.
No dia 2 de abril, quinta-feira santa, fica gravemente enferma. No dia 6 faz sua profissão religiosa. Falece santamente no dia 12 de abril, às 19h15', com apenas 19 anos e nove meses de vida e apenas onze meses como Carmelita

Seus escritos


No convento começa a escrever cartas cheias de amor a Deus e com o sincero desejo de fazer
bem aos seus destinatários, porém, seus diários revelam sua vida interior mesmo antes de seu ingresso no Carmelo 

Seus Diários

Os Diários de Nossa santa estampou sua experiência com Deus através das suas luzes e sombras, vividas e experimentadas. Encontramos na primeira parte de seu Diário, dedicada à Madre Ríos quando tinha 15 anos, Juanita conta sua infância. A partir de setembro de 1915, o Diário tem outra tonalidade, mais íntima, já que Juanita escreve sem pensar ser lida. Escreve então com liberdade e espontaneidade. Se pode ler em estas páginas suas conversas íntimas com Jesus e Maria, a descrição de seus esforços, de suas resoluções, de suas vitórias e derrotas no caminho da santidade. Aqui, são conservadas suas notas íntimas. Foi escrito entre 1915 e 1919, provavelmente ao pedido da Madre Ríos do colégio do Sagrado Coração de Santiago (onde Juanita fazia seus estudos). Do ponto de vista histórico e literário, o Diário deixa bastante a desejar, porque em sua simplicidade, Juanita escrevia em forma descontínua, e por vezes esquecia-se até durante meses inteiros de registrar suas experiências. Mas, o valor do Diário está em revelar-nos a vida interior de Juanita.

Interessante perceber que houve uma grande inspiração de Deus à sua mãe, para que seus escritos se conservassem. Pois, pouco antes de entrar no Carmelo, Juanita desejou queimar seu Diário, desejando esconder para sempre os segredos de sua vida interior escritos no Diário. Mas sua mãe lhe pediu insistentemente para não queimá-lo e entregá-lo a ela como lembrança e Juanita aceitou. Só depois da morte de Juanita a mãe abriu o Diário e descobriu maravilhada os tesouros que se encontravam nele. Foi assim que o Diário foi conservado, graças a Deus, e chegou a ser um meio pelo qual muitas pessoas são atraídas à vida de oração. Milhares de pessoas têm lido o Diário de Teresa de Los Andes e por ele têm aprendido a crescer no amor a Jesus, a Maria e à Igreja.

Suas Cartas

Na vida da imensa maioria dos santos encontramos o que se chama "suas obras" ou "seus escritos". No caso de Teresa de Los Andes, resulta quase pretensioso usar estes términos, já que ela nunca escreveu para ser lida por outros com o fim de ensinar ou dar-se a conhecer. Tampouco escreveu sua autobiografia nem se preocupou de ordenar de nenhum modo suas múltiplas reflexões, resoluções e experiências íntimas.
Os destinatários das 164 Cartas conservadas de Juanita são relativamente poucos: seus pais, seus irmãos, seus diretores espirituais, suas amigas e a Madre Angélica Teresa, priora do Carmelo de Los Andes. 
Desde a primeira que se conserva, escrita aos 10 anos, até a última, escrita na cama de morte, é impossível ignorar que a que escreve é uma pessoa cheia de Deus. 

Suas cartas deram ao Carmelo e à Igreja o projeto se sua vida vivida na intimidade com Deus com os irmãos num claro viés de santidade, permitindo que por tais meios que ela se tornasse conhecida. Nesta comunicação percebe-se as maneiras diversas em que se dirige aos seus destinatários: Juanita é carinhosa com seus padres, humilde e submissa com seus diretores espirituais; com suas amigas, aparece tal como é: uma amiga que deseja compartilhar o que tem de melhor no seu coração. Mas todas suas cartas refletem a transparência de sua alma, sua sinceridade e seu ardente amor a Deus. Se pode ver que no amor absoluto que tem a Cristo não a impede de modo nenhum amar a seu próximo.

O Pe. Julián Cea, C.F.M, que a conheceu, afirmou: “Não tardará a fazer milagres”. O religioso não se enganou. Desde então, muitas graças e favores tem-se obtido através de sua intercessão.
No dia 3 de abril de 1987, diante de uma multidão calculada em um milhão de fiéis, o papa João Paulo II a declara Beata. O mesmo Pontífice canonizou-a em 1993.  É a primeira santa chilena, conhecida como “Santa Teresinha da América Latina”. No ano 2000 foi celebrado o seu centenário de nascimento e hoje, 12 de abril de 2020, celebramos seu Centenário de morte, ou seja, sua Páscoa.

Principais dados cronológicos:
Nascimento: 13.07.1900.
Morte: 12.04.1920.
Batismo: 15.07.1900.
Crisma: 22.10.1909.
1a.Eucaristia: 11.09.1910.
Beatificada: 03.04.1987 
(S.J.Paulo II)
Canonizada: 21.03.1993.
(S.J.Paulo II)
Sua Festa: 13 de julho.


Santa Teresa de Los Andes, 
Roga por nós!

Fontes:
. Sciadini. Fr Patrício. Uma Jovem Apaoxonada por Deus. 2004.
. Sciadini. Frei Patrício. Diários e Cartas, Santa Teresa de Los Andes. Ano 2000. 
. REVISTA DO SANTUÁRIO DE SANTA TERESA DOS ANDES. ANO JUBILAR 2020.

#ComissãoDeHistória
#EstelaDaPaz 

Feliz Páscoa 2020 - Mensagem do Conselho Provincial



Passos, 10 de abril de 2020

Queridos irmãos no carmelo,

Nesta Páscoa tão singular em que fomos chamados e colocados em uma quaresma de esperançar o que a nós ainda é oculto, onde nosso futuro e nosso dia-a-dia foi transformado em um constante ato de oração, escondidos de um perigo invisível nas nossas casas, vamos olhar para Aquele que, na sua Cruz e ressurreição, nos amou sem condições. 
Olhemos juntos com nossos pais e mães do Carmelo que nesta hora vêm em nosso auxílio para que sejamos fortes e firmes na fé! Sejamos “Um louvor da glória”, que é uma alma que contempla Deus permanentemente em fé e simplicidade. Vamos ser um reflexo do Ser de Deus. É como um abismo sem fundo, onde Ele pode entrar e expandir.” (Santa Elisabete da Trindade) 
Olhemos com o olhar de fé em Deus, que se expressa em confiança. 
A fé nos dá (pés) para irmos a Deus. 
A fé nos mantém firmes diante de Deus. 
A fé nos faz reconhecer o grande amor que Deus tem por nós. "Tocar com o coração é acreditar" 
(Lumen Fidei, 31). O louvor se acende quando somos tocados no coração, quando damos as boas-vindas à presença interior do Bem-amado. Quando fazemos da vida uma maneira de olhar,
permitimos que Deus se comunique conosco e conte aos outros em nós. Então nesta boa hora deressurreição e de transformação, que nossa Província, nossas Comunidades, nossas famílias ocds, possam se unir para sermos um “louvor de glória” em oferecimento para toda a humanidade que sofre e tem medo. 
Que nesta Páscoa inesperada nós, Carmelo Secular, sejamos sinal, sejamos luz! Sejamos Coragem! Sejamos prudência! Sejamos amor! Sejamos louvor! 
Em ressurgimos com ELE, que possamos servir a tão bom Esposo e Senhor ! O Senhor nos mostre a sua face e nos conduza! 
Amém! 

Rose Lemos, ocds
Presidente Provincial 

Ó amor forte de Deus! E como quem ama tem a impressão de não haver coisa impossível! Ó ditosa alma que tiver chegado a alcançar essa paz do seu Deus, que estiver com o domínio sobre todos os sofrimentos e perigos do mundo, pois a nenhum teme. (C. do Amor de Deus,3-4)


Divinópolis, 10 de abril de 2020 


Juntos ao Ressuscitado

Nosso Amor 
Venceu o medo 
Venceu a morte 
 Nossa esperança 

Amado Jesus 
Vivo em nós 
Nosso olhar 
Fixo em Vós 

Ressuscitado 
Nosso Amado 
Nos abraça 
Nos dá a Paz 

Vem beijar-nos 
Com o beijo 
Dos Teus lábios 


Marisa Ribeiro,ocds 
Vice- Presidente Provincial

sábado, 11 de abril de 2020

A PAIXÃO - SONETOS EM SEQUÊNCIA de Frei César Cardoso, ocd

A PAIXÃO 

                   I     

O último suspiro na cruz destes,
A última gotícula gotejastes,
"Cristo crucificado entre dois ladrões", 
pintura de Peter Paul Rubens
A última palavra vós dissestes,
Por último, ao alto vós olhastes.

Na cruz tua dor última sentistes,
O último movimento operastes,
O último sentimento distinguistes,
O último diálogo vós travastes.

Aquele por quem tudo foi bem feito,
Fez tudo o que tinha que fazer,
Em nada do que fez deixou defeito.

É próprio do amor nada reter,
Dar tudo e do modo mais perfeito
E à última fibra se perder.

       
                         II

Na cruz tuas promessas realizas,
Antigas predições são acabadas,
Antigas profecias são cumpridas,
E todas as empresas praticadas.

As fases todas foram suplantadas,
Os passos todos foram executados,
As falas todas foram declaradas,
E todos os sinais efetivados.

O cálice inteiro foi bebido,
E todos os combates encarados.
O amor inteiramente foi vivido.

Pois todos os sermões foram pregados,
E todo o sofrimento padecido,
Ao fim esteve tudo consumado.

                         III

No lenho tudo foi finalizado,
As tuas sensações enfraquecidas,
Os sonhos foram todos realizados,
E todas as estradas percorridas.

Na cruz as trevas foram dissipadas,
E todos os demônios encolhidos,
As forças foram bem desafiadas,
E todos os poderes combalidos.

A espera não foi desiludida,
Os velhos sacrifícios são passados,
E toda, qualquer dúvida dirimida.

Foi todo imperfeito, aperfeiçoado,
Foi cada incompletude concluída,
Foi tudo feito, dito e consumado.


                        Frei César Cardoso, ocd

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Carta do Padre Geral - Frei Savério Cannistrà (05/04/20)



Um desejo em tempos de tribulação 

Caros irmãos e irmãs no Carmelo: 

O que temos experimentado mais ou menos no mundo há algumas semanas pode definitivamente ser definido como uma prova. No Novo Testamento, há uma palavra thlîpsis, geralmente é traduzida como “tribulação”, que talvez nos ajude a nomear ao que estamos experimentando. Não me refiro apenas a um nome científico (como a pandemia de COVID-19) ou a um nome que expressa nossa reação imediata (como emergência, guerra, calamidade), mas a um nome que nos devolve à história da salvação, à verdade de um Deus que falou aos homens, que se tornou homem e segue caminhando com os filhos dos homens. 

O risco, de fato, é enfrentar esse momento tão sério e importante, desconsiderando completamente a fé ou, pelo contrário, recorrendo a uma religiosidade que tem pouco a ver com o Deus revelado em Jesus Cristo. O Papa Francisco nos advertiu: "Não desperdice esses dias difíceis!" É normal que cada um de nós, como todo cidadão responsável, siga escrupulosamente as regras para evitar a propagação do contágio, aceite generosamente os pequenos sacrifícios que isso implica e faça o que estiver ao seu alcance para ajudar os outros e criar ao seu redor um clima de paz e humanidade. É igualmente normal que, como crentes, nos voltemos para Deus orando pelos enfermos, por aqueles que os ajudam, pelos muitos falecidos, por cientistas dedicados à busca de uma vacina, por todos aqueles que estão em condições de pobreza devido à crise econômica. No entanto, há um nível mais profundo, que tem a ver com uma leitura crente da história, com a presença de Deus no meio das tribulações e provações da humanidade. É um nível em que talvez preferimos não entrar e permanecer em silêncio. O silêncio é ouro quando é o espaço para a reflexão, a busca interior, a escuta em profundidade. No entanto, esse não é o caso quando é consequência de uma inércia do espírito e de um bloqueio de pensamento, quando nos limitamos a ingerir doses maciças de informações, sem assimilá-las, avaliá-las e processá-las. Informações que não nos formam, mas nos invadem e nos dominam.

Portanto, é justo nos perguntarmos: temos uma palavra que vem do silêncio da meditação e que nos ajuda para esse tempo? Uma palavra de crença e oração que pode nos guiar, que é "lâmpada para nossos passos e luz em nosso caminho"? Confesso que, diante de questões desse tipo, a resposta espontânea seria simplesmente: não, pelo menos por enquanto não a temos, e o reconhecimento dessa pobreza já seria mais verdadeiro e mais valioso do que muitos discursos fáceis e às vezes enganosos. No entanto, não podemos permanecer calmos e ociosos quando nos falta essa luz e é nosso dever caminhar e acompanhar outras pessoas ao longo do caminho. Se estamos preocupados apenas com a emergência de saúde e a consequente crise econômica, "o que estamos fazendo de extraordinário? Os pagãos também não fazem isso?" (Mt 5,47). Nos pedem algo mais: " buscar gemendo", como disse Pascal, implorar, bater na porta sem se cansar até que um raio de luz, um flash de ciclo se abra para nós e nos permita andar na verdade. 

Com este espírito, volto à palavra do Novo Testamento: thlîpsis, tribulação. Para começar, uma tribulação não é uma coisa boa, não é uma graça. Seus sinônimos são: angústia, 2 perseguição, fome, nudez, perigo (Rom 8.35). Existe uma força de morte que funciona em todas as formas de tribulação e essa força nos prova, empurra-nos à tentação, colocando-se entre nós e Cristo, entre nossa humanidade fraca e ferida e a força de sua vida ressuscitada. A sombra da morte que o poder da tribulação lança sobre cada um de nós é tal que obscurece a visão de quem está além. Nós nos manteríamos separados da luz e da vida se naquela mesma sombra, naquela mesma morte não houvesse vestígios, uma presença de vida. Tribulação, de fato, é sempre para o cristão o lugar pelo qual Cristo passou, ou melhor, pelo qual Cristo continua a passar e nos leva à luz da Páscoa. Quando dizemos que fomos salvos, que acreditamos na salvação, acreditamos concretamente nisso: que o mal, a morte, são definitivamente derrotados. Mas também dizemos algo mais difícil de aceitar e, acima de tudo, viver e testemunhar, a saber, que o encontro com a vida ressuscitada sempre envolve passar pelo mal e pela morte. Tribulação permanece o que é: experiência de dor e angústia, de perplexidade e aflição, mas a força que empurra, esmaga e oprime, é oposta por uma força que empurra para frente e para cima, atraindo e levantando. Toda a força negativa, humilhante e aniquiladora da tribulação consiste na tentação de nos separarmos de Cristo. E certamente cederíamos a essa tentação se a tribulação não fosse uma tribulação do corpo de Cristo. Se não fosse ferida de seu corpo crucificado e ressuscitado, não seríamos salvos nem poderíamos vencer a luta; mesmo que amanhã, como se por mágica, a pandemia parasse, mesmo que tudo magicamente recomeçasse como se nada tivesse acontecido, não seríamos salvos. 

Na thlîpsis, há um movimento para a frente, como se em um determinado momento a história estivesse dando um salto, uma aceleração em direção ao futuro. Creio que um dos elementos de consolação na tribulação (cf. 2 Cor 1, 4) é precisamente este: ser capaz de perceber a abreviação do tempo, a abordagem do Reino. Podemos ouvir, no silêncio deste tempo de emergência, aquele "apito do pastor" quase imperceptível que, no entanto, tem força para nos levar de volta a ele e a nós mesmos (cf. Las Moradas, 4M 3,, 2)? 

Neste momento, estamos confinados em casa, não temos liberdade de movimento. É particularmente difícil não poder celebrar a Eucaristia com os fiéis, ouvir confissões, transmitir a unção dos enfermos, celebrar o funeral dos muitos falecidos e acompanhar as famílias. Se nas epidemias do passado homens e mulheres religiosos, padres e bispos estavam na vanguarda, junto com os que sofreram, hoje isso não é possível. Somos chamados a dar um passo atrás e abrir espaço para médicos, enfermeiros e voluntários, que são os verdadeiros heróis desta pandemia do Terceiro Milênio. Eles recebem aplausos, gratidão e admiração das pessoas, como corresponde. Isso deveria nos preocupar? A Igreja perde visibilidade e talvez até credibilidade? Há quem pense sobre isso e fale de decadência e subordinação da Igreja às autoridades civis. Entendo a amargura, compreendo o desconforto, mas por que esquecemos constantemente que os caminhos do Senhor não são os nossos e que os pensamentos dele não são nossos? "Sem dúvida, é uma grande graça receber os sacramentos; mas quando o bom Deus não o permite, também é bom, tudo é graça" (Teresa del Niño Jesús, Caderno Amarelo, 5.6.4). Por que continuamos a pensar que a Igreja deve prevalecer no mundo com a força e a sabedoria do mundo? Se hoje nos é dada a oportunidade de viver um tempo de kenosis, um tempo de ocultação e perda, por que rejeitá-lo? Recordei as palavras proféticas que o teólogo Joseph Ratzinger disse cinquenta anos atrás pela rádio sobre o futuro da Igreja: 

Da crise de hoje, uma Igreja surgirá amanhã e terá perdido muito. Vai ficar menor, você terá que começar tudo desde o início. Já não poderá mais preencher muitos dos edifícios construídos em um momento mais favorável. Perderá adeptos e, com eles, muitos de seus privilégios na sociedade.[...] Mas nessas mudanças que podem ser assumidas, a Igreja encontrará novamente e com toda determinação o que é essencial para ela, o que sempre foi seu centro: fé no Deus trinitário, em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, a ajuda do Espírito que durará até o fim. A Igreja mais uma vez reconhecerá seu verdadeiro centro na fé e na oração e experimentará os sacramentos novamente como uma celebração e não como um problema de estrutura litúrgica. Será uma Igreja internalizada, que não anseia por um mandato político e não flerta com a esquerda ou a direita. Será muito dificil. De fato, o processo de cristalização e esclarecimento também lhe custará muitas forças preciosas. Se tornará pobrese converterá numa Igreja para os pequenos. O processo será ainda mais difícil, porque terão que ser eliminadas tanto a mente estreita sectária quanto a vontade encorajada.

Ratzinzer disse que essa transformação levará tempo, e eu acrescentaria: serão necessárias tribulações para ampliar nossos pontos de vista e dobrar nossa teimosia. Talvez a tribulação que hoje nos sitia e nos prenda, e na qual nos sentimos totalmente impotentes, também faça parte desse processo. 

Restrições à liberdade de movimento são os aspectos que mais nos impactam, porque nos obriga a mudar radicalmente nossos costumes. No entanto, pensando bem, não nos falta tanto espaço, especialmente nós, freis e monjas, que geralmente vivemos em grandes edifícios, talvez até com um grande jardim. O que nos falta é tempo. Agora percebemos precisamente porque temos demais. O tempo que temos nos faz descobrir que não sabemos viver com o tempo e o tempo, que perdemos e, portanto, devemos encontrar a dimensão do tempo novamente. Hoje, runners, joggers, hikers , e trekkers..., significativamente todos eles, termos de uma linguagem global, um koine, que provavelmente nem os anglófonos reconhecem como sua língua materna. Por outro lado, os viatores, os caminhantes e os peregrinos no tempo são escassos. Os olhos do peregrino não estão fixos no caminho, mas no objetivo; o peregrino não está interessado nos quilômetros percorridos, mas naqueles que faltam para chegar ao local em que todo o seu ser está orientado. Porque é por isso que ele está a caminho, porque ele é atraído por algo que não está aqui, mas além, algo que ele não vê, mas anseia. 

A limitação do deslocamento não impede em absoluto esse movimento em direção ao futuro; pelo contrário, poderia promovê-lo e estimulá-lo. Hoje percebemos que, para nós, não nos movermos significa estar sentado no presente como em uma caixa vazia e frágil, que para não ceder deve estar cheia de coisas, de objetos concretos, sólidos e apropriados. Esquecemos o significado da espera, não resistimos ao vazio e à tensão do desejo de onde surge a espera. De fato, esperar é típico daqueles que amam, e não saber esperar significa basicamente não saber amar. Esperando cheio não de objetos, mas do sujeito amado, nosso espaço vazio dele. Por essa razão, esperar também é o momento de lembrar, de rever a estrutura do tempo para reconhecer os traços, sinais e parábolas daqueles que já vieram e virão, ou melhor, já estão chegando "para garantir seu tesouro, meu tesouro. " Sem memória e sem espera, o que resta de nós, pequenos humanos? 

Esperando o Ressuscitado, Feliz Páscoa a todos!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...