sábado, 16 de maio de 2020

DIA 17 de maio - Aniversário da Província São José


O dia 17 de maio é o dia do aniversário de nossa Província São José. 

Há 17 anos fomos eretos canonicamente como Província, 

sob o patrocínio de São José. 

Toda a família carmelitana, frades, monjas e seculares, 

que somos, fazemos e amamos a Província São José 

estamos de parabéns! 



Direis que (...) desde que façamos o que pudermos,

Sua Majestade nos dará forças para fazê- lo cada dia mais e melhor.

Não nos cansemos logo.

No pouco que dura esta vida_ e talvez seja ainda menos do que pensamos _ ,

ofereçamos interior e exteriormente ao Senhor o sacrifício que pudermos.

Sua Majestade o unirá ao sacrifício que ofereceu ao Pai na cruz por todos nós.

Assim, conferirá a ele o valor merecido pelo nosso amor,

embora sejam pequenas as obras.”

Castelo Interior 4, 15 – Santa Teresa de Jesus.


Agradecemos a Deus, o aniversário da Província São José da Ordem dos Carmelitas Descalços, que nos acolhe propiciando a espiritualidade inerente, com seus santos pais, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, todos os nossos santos, comungando com a santa Igreja o amor à Trindade Santíssima. Com a intercessão de São José, rezamos juntos, cumprimentando e felicitando a Província nos seus “ramos”, OCD, OCDS, congregações e ramos afiliados. Sejamos plenamente os Irmãos da Bem - Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Um santo dia para todos nós! (Ereção Canônica: 17-05-2003).

Colaboradora: Liz Lelis Rocha

OCDS: Comissão de Espiritualidade – Província São José – Br.


SÃO SIMÃO STOCK, Presbítero Carmelita, a quem a Virgem do Carmo apareceu em 16 de julho de 1251





Numa hora de grandes perseguições contra sua Ordem, o Santo carmelita recebeu da Santíssima Virgem o Escapulário, como símbolo de proteção e eterna aliança.

Sua mãe consagrou-o, antes de nascer, à Santíssima Virgem. Em reconhecimento a Ela pelo feliz parto, e para pedir sua especial proteção em relação ao filhinho, a jovem mãe, antes de amamentá-lo, oferecia-o à Mãe de Deus, rezando de joelhos uma Ave-Maria. Se, por distração, esquecia-se disso, encontrava uma resistência da parte do pequenino Simão, que recusava alimentar-se até que ela rezasse essa oração. Quando o bebê, devido a algum mal-estar próprio à idade, começava a chorar, bastava que a mãe lhe mostrasse uma estampa da Virgem para que ele se acalmasse.
Simão nasceu em 1165, no castelo de Harford, condado de Kent, na Inglaterra, do qual seu pai era governador. Os pais do Santo uniam a virtude à mais alta nobreza. Alguns escritores julgam mesmo que tinham eles parentesco com a família real inglesa.
O menino aprendeu a ler com pouquíssima idade. A exemplo de seus pais, começou a rezar o Pequeno Ofício da Santíssima Virgem, e logo também o Saltério em latim. Embora não conhecesse ainda a língua latina, encontrava tanto prazer nisso, que ficava extasiado.
Essa precoce criança iniciou aos sete anos o estudo das Belas Artes no colégio de Oxford, com tanto sucesso que surpreendeu os professores. Isso fez com que fosse admitido à Mesa Eucarística, num tempo em que o costume era receber a Sagrada Hóstia muito mais tarde. Foi então que consagrou sua virgindade à Santíssima Virgem.


Eremita aos 12 anos de idade
Perseguido pela inveja do irmão mais velho, e atendendo a uma voz interior que lhe inspirava o desejo de abandonar o mundo, deixou o lar paterno na idade de 12 anos, encontrando refúgio numa floresta isolada. Preferiu seguir o chamado de Deus a permanecer no aconchego do lar.
Um enorme carvalho, cujo tronco (“stock” é “tronco” em inglês, daí o apelido do Santo) apodrecido formara uma cavidade suficiente para nela colocar uma cruz, uma imagem de Nossa Senhora e recostar-se, serviu-lhe de oratório e habitação. Empregava o tempo na contemplação das coisas divinas, oração e austeridades. Bebia água de uma fonte nas proximidades e alimentava-se de ervas, raízes e frutos silvestres. De vez em quando, porém, um misterioso cão levava-lhe um pedaço de pão. Evidentemente, como outrora aos solitários do deserto, o demônio não o deixava em paz. “Simão é entregue pelo inimigo da salvação a penas de espírito, a violentos escrúpulos, a cruéis remorsos sobre os perigos dessa via extraordinária que ele percorre, privado como estava da graça dos sacramentos, desprovido de todos os meios que a Igreja concede sem cessar aos fiéis, todos os dias exposto a morrer nessa terrível solidão, sem socorro nem consolações. O exemplo de tantos solitários que Deus conduziu na mesma via reanimava sua confiança; a lembrança das graças com as quais o Céu o tinha favorecido, para o confirmar em sua resolução, o reassegurava”.1
E, sobretudo a proteção de Nossa Senhora, a quem ele foi consagrado desde o ventre materno, vinha trazer-lhe a paz. Por outro lado, também os anjos vinham fazer-lhe companhia e o entretinham na solidão em que vivia. Assim viveu cerca de 20 anos.

Ordem para que se juntasse aos carmelitas
Nossa Senhora revelou-lhe então seu desejo de que ele se juntasse a certos monges que viriam à Inglaterra, provenientes do Monte Carmelo, na Palestina, “sobretudo, porque aqueles religiosos estavam consagrados de um modo especial à Mãe de Deus”. Apesar do grande atrativo que tinha pela solidão, Simão voltou para a casa de seus pais e retomou o curso de seus estudos. Formou-se em teologia e recebeu as sagradas ordens. Enquanto aguardava a chegada dos monges preditos, o Pe. Simão Stock dedicou-se à pregação.

Como Vigário Geral da Ordem, enfrenta perseguição
Finalmente chegaram dois frades carmelitas no ano de 1213, e ele pôde receber o hábito da Ordem em Aylesford.
Em 1215, tendo chegado aos ouvidos de São Brocardo, segundo Geral latino do Carmo, a fama das virtudes de Simão, quis tê-lo como coadjutor na direção da Ordem; em 1226, nomeou-o Vigário-Geral de todas as províncias europeias.
São Simão teve que fazer frente, nessa ocasião, a uma verdadeira tormenta contra os carmelitas, na Europa, suscitada pelo demônio através de homens ditos zelosos pelas leis da Igreja. Estes queriam, a todo custo, suprimir a Ordem, sob pretexto de ser ela nova, instituída sem aprovação da Igreja, contrariamente ao que dispunha o IV Concílio de Latrão.
Simão enviou delegados ao Papa Honório III, para informá-lo da perseguição de que estavam sendo vítimas os carmelitas e pedir sua proteção. O Soberano Pontífice delegou dois comissários para examinarem a questão. Estes, ganhos pelos adversários, opinaram pela supressão dos carmelitas. Mas a Santíssima Virgem apareceu a Honório III, ordenando-lhe que aprovasse as Regras do Carmo, confirmasse a Ordem e a protegesse contra seus adversários.(2) O Sumo Pontífice o fez mediante uma bula, na qual declarou legítima e conforme aos decretos de Latrão a existência legal da Ordem dos Carmelitas, e autorizou-a a continuar suas fundações na Europa.

Eremita no Oriente e Prior Geral
São Simão participou do Capítulo Geral da Ordem na Terra Santa, em 1237. Nesse Capítulo, tratava-se de decidir, devido às contínuas perseguições movidas pelos mouros, se era o caso de manterem ainda os conventos da Terra Santa. Uma ala pretendia permanecer, mesmo sob o risco de se enfrentar o martírio. Outros, alegando a frase de Nosso Senhor — “quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra” —eram partidários da trasladação total para a Europa. São Simão Stock era desta segunda opinião, alegando, ademais, que não se podia tentar a Deus nessa situação. Mas ele mesmo não pôde voltar imediatamente para a Europa, porque os sarracenos dominavam os mares. Com isso, prazerosamente isolou-se numa gruta do Monte Carmelo, onde passou mais seis anos de inteira solidão, até que, sabendo que alguns cruzados ingleses preparavam-se para voltar à sua terra, julgou seu dever partir com eles.
Num novo Capítulo, em 1245, foi eleito 6° Prior Geral da Ordem carmelita.
Se a bula papal aplacara momentaneamente o furor dos inimigos do Carmelo, não o fizera cessar de todo. Depois de um período de calmaria, as perseguições recomeçaram com mais intensidade.



Nossa Senhora concede-lhe o Escapulário da Ordem
Abandonado de auxílio humano, São Simão recorria à Virgem, com toda a amargura de seu coração, pedindo-Lhe que fosse propícia à sua Ordem, tão provada, e que desse um sinal de sua aliança com ela.
Na manhã do dia 16 de julho de 1251, suplicava com maior empenho à Mãe do Carmelo sua proteção, recitando a bela oração por ele composta, Flos Carmeli. Segundo ele próprio relatou ao Pe. Pedro Swayngton, seu secretário e confessor, de repente “a Virgem me apareceu em grande cortejo, e, tendo na mão o hábito da Ordem, disse-me: “‘Recebe, diletíssimo filho, este Escapulário de tua Ordem como sinal distintivo e a marca do privilégio que eu obtive para ti e para todos os filhos do Carmelo; é um sinal de salvação, uma salvaguarda nos perigos, aliança de paz e de uma proteção sempiterna. Quem morrer revestido com ele será preservado do fogo eterno’”.
“Disse-me Ela […] que bastava enviar uma delegação ao Papa Inocêncio, Vigário de seu Filho, que ele não deixaria de me mandar remédio para nossos males”.

A expansão da Ordem do Carmo
Essa graça especialíssima foi imediatamente difundida pelos lugares onde os carmelitas estavam estabelecidos, e autenticada por muitos milagres que, ocorrendo por toda parte, fizeram calar os adversários dos Irmãos da Santíssima Virgem do Monte Carmelo.
“A Ordem do Carmo multiplicou-se tão prodigiosamente, sob a direção do nosso Santo, que poucos anos depois de sua morte, cerca do fim do século XIII, segundo a observação de Guilherme, Arcebispo de Tiro, essa Ordem contava já com mais de 500 mosteiros ou eremitérios, povoados por um grande número de religiosos, que o mesmo autor eleva ao número de 120 mil”.5
Como Geral, São Simão procurou propagar de todas as formas a Ordem pela Europa, preferindo fundar casas em cidades onde havia universidades. Foi o que realizou em Cambridge (1249), Oxford (1253), Paris (1254) e Bolonha (1260).
São Simão atingiu extrema velhice e altíssima santidade, operando inúmeros milagres, tendo também obtido o dom das línguas.
Apesar da idade, viajou pela Europa erigindo inúmeros mosteiros, e atribui-se-lhe também a fundação das Confrarias do Santo Escapulário.
Enfim, já centenário, chegando a Bordeaux, na França, quando se dirigia a Toulouse para o Capítulo Geral da Ordem, entregou sua alma a Deus, a 16 de maio de 1265.
De sua tumba saíram raios de luz durante 15 dias depois de sepultado, o que levou os religiosos a comunicarem o portento ao Bispo. Este chegou ao túmulo, acompanhado do clero e de muito povo. Tendo constatado o fenômeno, mandou que se abrisse o sepulcro, aparecendo o corpo do santo emitindo raios de luz e exalando delicada fragrância.
Por volta do ano 1276, o culto a Simão Stock foi confirmado para o convento de Bordeaux, pela autoridade da Santa Sé, e mais tarde para os de toda a Ordem carmelitana.


* * *
Notas
1– Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo V, p.585.
2– Cfr. Les Petits Bollandistes, op.cit., p. 588.
3– Em latim, diz essa bela oração: “Flos Carmeli, Vitis florigera, Splendor Cœli, Virgo puerpera, Singularis; Mater mitis, sed viri nescia. Carmelitis da privilegia, Stella maris!”— “Flor do Carmelo, vide florífera, Esplendor do Céu, Virgem incomparável, Singular! Ó Mãe amável e sempre virgem, dai aos Carmelitas os privilégios de vossa proteção, Estrela do Mar!”.
4– Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 592.
5– Id. ib. p. 593.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

ESPAÇO LITERÁRIO CARMELITANO: Quisera subir muito alto: vida e escritos de irmã Letícia, OCD


Por Wallace Bertoli Moreira

O Espaço Literário Carmelitano desta edição apresenta a vida e os escritos de irmã Leticia, monja carmelita descalça. A breve biografia e os escritos aqui apresentados foram cedidos gentilmente por madre Adriana, OCD, do Carmelo de Nazaré, de Cariacica - ES.

Vamos conhecer um pouco de sua história: irmã Letícia da Mãe de Deus, batizada Nair Guimarães, nasceu em 8 de julho de 1931, na cidade de São Sebastião do Rio Verde, no Estado de Minas Gerais. Vocacionada à Ordem dos Carmelitas Descalços, entrou para o Carmelo de Petrópolis - RJ, no dia 6 de junho de 1954, na Solenidade de Corpus Christi, e viveu nesse Carmelo por 27 anos, cumprindo a missão de priora entre os anos de 1973 e 1976.

No ano de 1981, irmã Letícia da Mãe de Deus fez parte da fundação do Carmelo de Nazaré, em Cariacica, e, pondo-se a serviço da Ordem, abraçou por dois triênios, entre 1985 e 1991, o priorado. Depois, respondendo com generosidade à confiança das Irmãs, exerceu o cargo de primeira conselheira (subpriora) de agosto de 1994 até o dia de seu retorno à Casa do Pai, no dia 6 de junho de 2012.

Podemos perceber, de certa forma, que a vida e a espiritualidade carmelitanas nos convidam a colocar em folhas de papel ou nas telas de nossos computadores traços dessa experiência espiritual vivida no dia a dia. Muitos de nossos irmãos e irmãs da Ordem Carmelita Descalça (frades, monjas e leigos) se arriscam pelo campo da Literatura, fazendo alguns “rabiscos” de vários gêneros literários (poesias, crônicas e contos, entre outros), como também produzem escritos formativos que contribuem para o esclarecimento de pontos importantes para a vivência concreta desse belo carisma.

Basta olhar para nossos fundadores, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, e vermos a quantidade de obras literárias que produziram, como Caminho de Perfeição e Castelo Interior, de Santa Teresa, e Subida do Monte Carmelo, Noite Escura e Cântico Espiritual, de São João, e podemos ir seguindo pelos inúmeros santos da Ordem: Santa Teresinha, Santa Elisabeth da Trindade e tantos outros.

Tais escritos são reflexos da experiência de fé concreta que se apresentam em simples palavras, que se tornam vivas porque estão plenas de Deus. Portanto, apresentamos aqui alguns escritos da Irmã Letícia da Mãe de Deus, que não são apenas letras que formam as palavras, ou palavras compondo as frases, são poesias que nos conduzem a enxergar a simplicidade de ser de Deus. Na poesia Quisera subir muito alto, a alma deseja subir até a morada divina e olhar tudo o que existe com os olhos amorosos de Deus:


Eu quisera subir muito alto, Senhor.
Quisera purificar meu olhar.
E ver tudo com teus olhos:
Eu veria então o universo, a humanidade, a história, como o Pai a vê.
(Eu) veria a bela, e eterna ideia de amor de teu Pai [...]

Na poesia Diante de ti, Senhor, podemos encontrar uma expressão fundamental para a literatura carmelitana: o silêncio contemplativo para o encontro com Deus.

Estar [...] diante de ti Senhor, [...].
(Fechar) os olhos do corpo.
(Fechar) os olhos da alma,
e permanecer imóvel e silenciosa.

Expor-me a ti, que aí estás exposto a mim.
Estar presente (diante) de ti, ó Infinito Presente.
Aceito nada sentir, [...].
Nada ver.
Nada escutar.
Vazia de toda ideia e de toda imagem.
Dentro da noite,
eis-me aqui, simplesmente,
para te encontrar, sem obstáculos,
no silêncio da fé [...].


No caderno de escritos de Irmã Letícia, encontramos uma poesia chamada Hino a Santa Teresinha, que faz parte de algumas músicas e escritos em honra a Teresa de Lisieux, compilados pela religiosa, deixando por escrito a sua homenagem à santa. Esta poesia, porém, não é totalmente autoral, resultando da combinação de pequenos trechos de músicas, hinos, orações e escritos de autores não identificados, que a irmã adaptou em seu pequeno caderno.


Glória a Deus neste dia tão belo,
Honra e glória a Jesus salvador.
E à florzinha gentil do Carmelo,
revestida de novo esplendor.

Derramai vossas chuvas de rosas,
Teresinha, da pátria do amor:
Sobre a Igreja e sobre as almas ansiosas, 
que a vós clamam com todo fervor.

Rosa de Deus querida, 
és Santa Teresinha, 
perfuma a nossa vida, 
para o Céu nos encaminha.

Ensina teu caminho, 
de amor e confiança, 
em meio ao duro espinho, 
sorrir (como uma) criança.

À tua escola, ó Teresinha, 
(nós) queremos todos nos alistar,
és pequenina e meninazinha, 
(nós) queremos todos te imitar [...].

Mimosa flor do Carmelo:
Que de esplendor, vivo e belo,
cresceste ao pé da Cruz.
Pede por nós, Teresinha.
Ó Virgem, meiga e esposinha
do Deus menino Jesus.

Como filha da Ordem Carmelita, reza, em forma de poesia, à Santa Madre Teresa de Jesus, e pede, por sua intercessão, aos homens, a luz, a paz e a união na divina caridade. Vejamos a poesia Prece a Santa Teresa:

Mestra do amor e mestra da humildade.
Vem, Teresa de Jesus, 
vem ao mundo sem paz, 
unir todos os homens, 
na suave e santa lei 
da divina caridade

Vem ao mundo sem luz, 
guiar todos os homens, 
para a pátria feliz da eternidade.
Pois és mestra do amor e da humildade.

Mestra és do amor e da humildade, 
vem ao mundo sem paz, 
vem ao mundo sem luz, 
vem nos revelar Jesus.

Muitos já devem ter experimentado colocar uma concha próxima ao ouvido para ouvir o som que dela vem, semelhante ao do mar. Para Irmã Letícia, na poesia Marulho Divino, em nós, no interior de nossa alma, um som ressoa: o som do amor.


Põe bem atento o ouvido
Na concha e fica a escutar:
Vê como a concha lá dentro
Guarda o marulho do mar.

Guarda o soluço das ondas,
Sua perene canção;
A concha guarda contente
Do mar a bela oração.

Deus também quer (escutar)
Teu coração pequenino
Ouvir lá dentro o amor,
Que é o seu marulho divino.

Quer tua alma escutando,
Como a concha do mar,
Sentir que guardas lá dentro

Um só desejo: amar...

segunda-feira, 11 de maio de 2020

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Você sabia que a Província São José OCDS tem seu próprio canal no YouTube? E você, já está inscrito?


Vamos atingir juntos a marca de pelo menos 1000 inscritos! Assim, poderemos promover conteúdos ao vivo (lives), unindo toda nossa Província!

Inscreva-se, aumente o número de participantes e ajude a OCDS a promover conteúdo santo para um mundo que precisa e espera a santidade!

segunda-feira, 4 de maio de 2020

BEATA MARIA DA ENCARNAÇÃO – MEMÓRIA A 18 DE ABRIL




A Beata Maria da Encarnação é considerada a “mãe e fundadora do Carmelo na França”, porque ajudou a espalhar por toda a França a reforma carmelita de Santa Teresa de Ávila.

Nasceu em Paris, em 1º de fevereiro de 1566 e recebeu o nome de Bárbara Avrillot, sendo filha do senhor de Champlatreux, Nicolau Avrillot. Era costume para a nobreza de sua época confiar a educação de meninas ou adolescentes a congregações religiosas femininas. Nossa beata foi confiada, na adolescência, às Irmãs Menores de Nossa Senhora da Humildade, residentes de Longchamp, retornando à família aos 14 anos. O desejo de fazer-se religiosa não foi autorizado pelos pais e, aos 16 anos, foi desposada pelo visconde Villemor, Pedro Acarie, homem de moral irrepreensível. Começou sua vida de casada e mãe, tendo seis filhos.

Deu singular exemplo de virtude cristã, de vida de oração e de contemplação, cumprindo fielmente os mandamentos e a vontade de Deus em seu lar, como mãe e esposa, desempenhando todos os deveres cristãos e religiosos, vivendo santamente em sua própria casa, tratando com respeito e caridade seus funcionários, dando provas de como os casais cristãos podem santificar sua vida doméstica. Soube galgar as alturas místicas, embora vivendo em meio aos cuidados e afazeres domésticos.

Trabalhou ativamente para ajudar os necessitados, especialmente no cerco de Paris, em 1590, com a intervenção militar dos espanhóis, no reinado de Henrique IV. Foi dedicada filha da Igreja e participou da ação de oposição contra a heresia protestante que procurava se estender na França. Por essa época, Deus a favoreceu com extraordinárias graças místicas.

O rei Henrique IV baniu seu marido de Paris, após a derrota da Liga à qual pertencia. Essa ingratidão do rei lhe feriu o coração, mas ela lutou para assegurar que o seu marido fosse reabilitado. A luta durou quatro anos, porém, no final desse período, sua família recuperou sua honra e as propriedades foram devolvidas. 

Barbara “Madame” Acarie conheceu São Francisco de Sales, que a apreciava muito, tinha-a em grande conta e atuou como seu confessor e diretor espiritual. Em 1601, leu os escritos de Santa Teresa de Jesus e passou a desejar, determinadamente, a fazer todo o possível para apresentar a reforma do Carmelo à França. Em 1602, surgiram as primeiras vocações. Ela obteve permissão do rei e, em 1603, o papa Clemente VIII autorizou a primeira fundação que rapidamente foi concretizada.

Da Espanha, em 29 de agosto de 1604, vieram seis carmelitas descalças, incluindo a futura Beata Ana de São Bartolomeu e a futura venerável Serva de Deus Ana de Jesus. Em 17 de outubro do mesmo ano, em Paris, deu-se início ao modo de vida teresiano no mosteiro recém-construído.

Madame Acarie teve a felicidade de ver entrar no Carmelo todas as três filhas e viu a Ordem expandir-se também para Pontoise, Dijon e Amiens, entre 1605 e 1606. Em 1613, seu marido Pedro ficou gravemente doente e morreu depois de nove dias, na paz dos homens justos, assistido pela santa esposa e confortado por uma confirmação celeste de sua salvação eterna.

Em 7 de abril de 1614, agora livre de qualquer obrigação do mundo, entrou no Carmelo de Amiens como uma simples “irmã conversa” (equivalente quase a uma “serva das irmãs”), de véu branco, com o nome de Maria da Encarnação. Ela viveu sua vida de reclusão, com humildade, trabalhando na cozinha e auxiliando as irmãs doentes. Sofreu especialmente pelo modo áspero com o qual era tratada por uma nova priora advinda de outro Carmelo. Tinha muitos êxtases e visões que a confortaram em sua longa doença. Sofrendo más condições de saúde, foi transferida para o Carmelo de Pontoise, em 7 de dezembro de 1616. Após longa e dolorosa doença, entregou sua bela alma a Deus, no dia 18 de abril de 1618, aos 52 anos. Seu corpo repousa na capela do mesmo convento.

Algumas vicissitudes ligadas ao decreto do Papa Urbano VIII atrasaram seu processo de beatificação, retomado somente em 1782 e finalizado com a cerimônia celebrada pelo Papa Pio VI, em 1791. 


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Segundo texto biográfico: 


Mãe de seis filhos, que alcançou a graça de levar para seu país três novas comunidades religiosas, chegou a ter três filhas religiosas e um filho sacerdote, além de dois filhos muito católicos e bons pais de família. Bárbara Acarie nasceu em Paris, no ano de 1565, de família nobre. Seu marido, Pedro Acarie, um jovem advogado que ocupava um alto posto no Ministério da Fazenda, era muito piedoso e caridoso. Ajudava com grande generosidade os católicos que precisavam fugir da Inglaterra devido à perseguição da Rainha Elisabeth.

Monsieur Acarie pertencia à Liga Católica, partido que foi derrotado por Henrique IV, rei de França, que baniu os líderes da Liga, confiscando todos os seus bens. De uma hora para outra, madame Acarie viu-se sem o marido e sem os bens, com seis filhos pequenos para sustentar. Mas ela não era uma mulher fraca. Não se deixava derrotar pelas dificuldades, chegando mesmo a conquistar a admiração do rei Henrique IV. Desde os primeiros anos de seu casamento, decidiu levar uma vida de muita piedade em seu lar. Aos empregados, fazia rezar determinadas orações pela manhã e à noite. Sempre lhes oferecia toda sorte de ajuda material, e cuidava para que cada um cumprisse bem seus deveres para com Deus.

Bárbara Acarie reunia-se com algumas empregadas suas para rezarem juntas, corrigirem-se mutuamente, ler livros piedosos e ajudarem-se em tudo que dissesse respeito à vida espiritual. A bondade de seu coração alcançava todos: alimentava os famintos, visitava os enfermos, ajudava aos que passavam por situações econômicas difíceis, assistia os agonizantes, instruía os que não conheciam bem o Catecismo, evangelizava os hereges e os que haviam passado para outras religiões e ajudava todas as comunidades religiosas, conforme lhe era possível. Após a morte de seu marido, pôde dedicar-se exclusivamente aos serviços religiosos.

Um dia, enquanto orava após ter lido algumas páginas da autobiografia de Santa Teresa de Ávila, Bárbara teve uma visão mística da santa, que lhe disse: “Você precisa se esforçar para que a minha comunidade das carmelitas consiga chegar à França”. Foi, então, falar com o arcebispo, mas quando tudo parecia já estar encaminhado, novamente lhes foi negada a entrada naquele país. Em nova aparição, Santa Teresa recomendou-lhe que não se cansasse de fazer todos os esforços possíveis para levar ao território francês as carmelitas reformadas. Por causa dos pedidos insistentes de madame Acarie, padre Bérulle (futuro cardeal) viajou à Espanha, onde conseguiu que se preparasse um grupo de carmelitas para serem enviadas a Paris.

Nossa beata não era dessas pessoas que ficam paradas, de braços cruzados. Sabia que havia chegado a Paris o famoso (depois santo) bispo Francisco de Sales, que pregaria uma importante série de sermões. Convidou-o a ir a sua casa e o santo apóstolo de Cristo tornou-se seu melhor e maior aliado. Francisco de Sales falou com as mais altas personalidades da época e ajudou madame Acarie a conseguir a permissão de que as carmelitas necessitavam. O papa Clemente VIII firmou um decreto permitindo a entrada das Irmãs na França. Uma importante conquista! 

Em 1604, chegaram a Paris as primeiras irmãs carmelitas. À frente do grupo estavam duas religiosas que, mais tarde, tornar-se-iam beatas: a irmã Ana de Jesus e a madre Ana de São Bartolomeu. Pouco depois, as três filhas de madame Acarie tornaram-se monjas carmelitas, sendo logo seguidas pela mãe.

A comunidade das carmelitas estava destinada a fazer um bem enorme à França, durante muitos séculos, e a gerar irmãs que seriam santas muito conhecidas, como Teresa do Menino Jesus (Teresa de Lisieux). Bárbara Acarie, mãe de seis filhos (três religiosas, um sacerdote e dois casados), viúva, dama da alta sociedade, tornara-se uma humilde monja num convento onde uma de suas filhas era a madre superiora. Os últimos anos da irmã Maria da Encarnação (nome que adotou na comunidade) foram de uma profunda vida mística, com frequentes êxtases. Em abril de 1618, caiu gravemente doente, ficando semiparalisada. Não se cansava de bendizer a Deus por todas as misericórdias que lhe havia concedido ao longo de sua vida. Em 16 de abril daquele ano, teve um êxtase e, quando terminou, uma monja lhe perguntou: “Irmã, o que fazia durante esse tempo”? Ela respondeu: “Estava falando com meu Bom Pai, Deus”. Deu um leve sorriso e morreu.


Oremos

Senhor Deus, Todo-Poderoso, que concedeste à Beata Maria da Encarnação o dom de imitar fielmente o Cristo pobre e humilde, concede-nos também, pela intercessão desta santa, a graça de que, vivendo fielmente nossa vocação, caminhemos rumo à perfeição que Tu nos propões na pessoa de Teu Filho. Que vive e reina Contigo. Amém.


(Matéria integrante da Revista Virtual Monte Carmelo - Nº 167)

Revista Virtual Monte Carmelo nº 167 (março-abril/2020)


(Clique na imagem acima e acesse a revista)



Caros leitores,

Nestes tempos de pandemia e isolamento social é uma oportunidade para nos dedicarmos mais à oração, à leitura e à formação. Um tempo em que podemos aprofundar nossos estudos na espiritualidade carmelitana. 

No primeiro artigo da revista, nosso Padre Geral, Frei Sáverio Canistrà, em mensagem dirigida para toda a família carmelitana, nos nos mostra de uma maneira muita iluminada o valor da espera, da espera paciente e amorosa. Ao final, temos ainda uma carta sua dirigida especialmente à OCDS, por ocasião do aniversário de Santa Teresa, em 28 de março.

Nesta edição também o nosso Provincial Frei Emerson nos prestigia com uma mensagem exclusiva, dirigida ao carmelo secular.

No Santo do Mês, Giovani Carvalho Mendes nos faz conhecer a Beata Maria da Encarnação, considerada a “mãe e fundadora do Carmelo na França”, porque ajudou a espalhar por toda a França a reforma carmelita de Santa Teresa.

No Espaço Literário Carmelitano desta edição, Wallace Bertoli Moreira nos apresenta a vida e os escritos de irmã Leticia, monja Carmelo de Nazaré, de Cariacica - ES.

Outros excelentes artigos estão compondo nossa revista, como “Santa Teresa: apóstola da Humanidade de Cristo”, de  Artur Viana, e “O percurso humano e de fé de uma jovem santa carmelita”, de Ana Cláudia Meneguci Silva.

Confira ainda as notícias das comunidades, da Província e da Ordem.

Uma boa leitura a todos!


Luciano Dídimo

Coordenador da Comissão de Comunicação da OCDS


terça-feira, 21 de abril de 2020

Fique em casa!


(imposição salutar do vírus COVID -19)

Frei Pierino Orlandini, OCD 

Ficamos, obedientes, em casa.
E sairemos de nossas casas e recintos.
Sairemos cansados e vitoriosos,
com mãos limpas e coração purificado,
livres do medo e com vontade de tudo.

E voltaremos em nossa casa,
diferentes,
com prazer,
 não mais isolados, mas como família, em comunhão.
Aprendemos a entrar e a estar em nossa casa.

Achamos, finalmente,
a chave perdida da porta.
Entramos em casa! Nossa casa, nossa vida!
Encontramos a meta e sentido
em nosso precioso “Castelo,
de Deus morada
e nossa morada!”.

E saímos de casa contentes,
saindo de nós,
diferentes.
Sem medos de correr pelos campos
e brincar livremente
e orar novamente
e anunciar abertamente o que vale,
definitivamente.

E voltamos ao encontrar-nos confiantemente.
E a conhecer-nos mutuamente.
E a valorizar-nos profundamente.
E verdadeiramente.

E saberemos dar valor à vida
e às suas sábias lições.
E sentiremos, finalmente,
que a vida é bela, se repartida, mesmo na dor,
gratuitamente.

E teremos aprendido,
finalmente,
que somos gotas de um único mar,
gotas pequenas e importantes,
flores do mesmo jardim.

E todos somos únicos,
formando comunhão.
“Que todos sejamos um!”,
é isto que Deus quer. E é isto que conta.
Usamos mais os verbos: viver, conviver, partilhar
na vida e de fato
e, acima de tudo, com conteúdo,
aprendemos a AMAR.

Tudo é possível!
Mudar é possível e melhorar!
Lição de vida,
que este tempo de pandemia
convida-nos a guardar definitivamente
e a concretiza-la com “determinada determinação”
constantemente.

Lição aprendida: ficar em casa, entrar em si mesmo,
sair renovados de casa, sair de si mesmos,
aprendemos tudo numa palavra: AMAR!

      Abril de 2020 ( em plena pandemia do Coronavirus).

quarta-feira, 15 de abril de 2020

ESCOLA DE FORMAÇÃO EDITH STEIN – OCDS – POLO FORTALEZA


Entre os dias 23 e 26 de janeiro de 2020, foi realizado o módulo 2 da Escola de Formação – Dimensão Doutrinal –, no Recanto Sagrado Coração, em Fortaleza - CE, e contou com a presença de alunos de Fortaleza e Quixadá - CE, Recife - PE, Natal - RN, Belém - PA e Ipatinga - MG.

Os formadores deste módulo foram os redentoristas padre Moésio, professor doutor da Faculdade Católica de Fortaleza, tratando de Eclesiologia, e padre Thyeres, psicólogo, abordando a Teologia do Laicato, e as irmãs da Comunidade Rainha do Carmelo, da OCDS de Fortaleza, Monica Dodt, médica, falando sobre Missão e apostolado dos leigos carmelitas OCDS, e Cláudia Maropi, enfatizando o Apostolado do leigo na OCDS.

Na oportunidade, celebramos a formatura de cinco alunos: João Paulo, da Comunidade Flor do Carmelo de Santa Teresinha (Fortaleza), Mônica Mota, da Comunidade Rainha do Carmelo (Fortaleza), Vanalúcia Dias, do Grupo Nossa Senhora do Sorriso (Natal), Bernadete Álvares, da Comunidade Santa Teresa dos Andes (Belém) e Sue Luzia, de Ipatinga.

Concluímos, com muito êxito, mais um módulo da EFES. Vamos, agora, nos preparar para o módulo 3 – Dimensão Carmelitana –, que, com a benção de Deus, será realizado nos dias 30 de julho a 2 de agosto deste ano.

Cláudia Maropi
Secretária da Escola de Formação Edith Stein – Polo Fortaleza

Escola de Formação Edith Stein - Polo Sudeste

Uma imagem contendo parede, interior  Descrição gerada automaticamente


Aconteceu, entre os dias 23 e 26 de janeiro de 2020, o 2º módulo da Escola de Formação Edith Stein, no Centro Teresiano de Espiritualidade, de São Roque - SP. Esse módulo trabalhou a formação doutrinal, abordando, principalmente, a Eclesiologia e a Teologia do Laicato. Estiveram presentes 27 alunos, das mais diversas comunidades e grupos de nossa província, vindos de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. Foram dias de muita formação, com aulas ministradas pelos diáconos Carlos e Talles e por frei Salinho, OCD. 

Tivemos, ainda, a formatura da aluna Luciane Amaral Rocha Fonseca, do Grupo A Bem Aventurada Virgem Maria, de Itaúna - MG. Ela concluiu, com êxito, os quatros módulos básicos, bem como o quinto módulo, “Formação na Doutrina Social da Igreja”, de aprofundamento. É enriquecedor notar os esforços de cada um para participar dos módulos, e o quanto têm sido importantes os conteúdos estudados.

É objetivo da Escola Edith Stein preparar os formadores OCDS e aqueles cristãos que desejam fazer com que o povo de Deus cresça na fé e no conhecimento. Desde o primeiro módulo, em julho de 2014, já participaram 147 alunos, sendo que, desses, 32 já se formaram nos quatros módulos sugeridos pela escola. Por isso, é oportuno que nossas comunidades e grupos de todo o país, na medida do possível, enfatizem a importância da escola no processo formativo de nossos membros. 

Diácono Carlos
Coordenador da Escola Edith Stein
Polo Sudeste

Participação da OCDS no VI Capítulo dos Frades OCD da Província São José


Marisa Ribeiro
Vice-presidente provincial da OCDS

São Roque, 10 e 11 de janeiro de 2020.

A OCDS foi representada por mim, Marisa Maria Ribeiro (vice-presidente provincial), e por Maria Aparecida de Paula Nascimento (secretária provincial).

Chegamos ao Centro Teresiano de Espiritualidade, em São Roque, na tarde do dia 10/01 e logo fomos recebidas pelos freis Afonso e Salinho, que, carinhosamente, nos acolheram. Frei Afonso pediu que adiantássemos a apresentação que estava marcada para o dia 11 para aquela tarde. Rapidamente, nos organizamos para que tal fato acontecesse.

Na sala de palestra, fomos recebidas calorosamente pelos frades que estavam participando do Capítulo da Província São José. Nosso provincial, frei Emerson Santos Oliveira, nos apresentou e informou aos frades o adiantamento da apresentação.

Comecei agradecendo a Deus a oportunidade de estar representando a OCDS no Capítulo e ao frei Afonso pelo convite, e parabenizei frei Emerson, o novo provincial, levando a ele um abraço e as orações de todos os membros da OCDS, colocando-nos à disposição para tudo o que precisasse.

Na apresentação, destaquei os pontos importantes do triênio passado, os congressos, os livros editados, os módulos da Escola de Formação, os fóruns, os simpósios e as participações no CICLA. Maria Aparecida (Cidinha) ofereceu um testemunho da vivência na Escola de Formação Santa Edith Stein, ressaltando o valoroso contributo da Escola na formação não só dos carmelitas seculares, mas, também, para outras pessoas que a frequentaram. 

Em seguida, apresentei os novos membros do conselho provincial e, por meio do novo organograma elaborado pelo atual conselho provincial, os coordenadores das comissões, o plano de ação do conselho e das comissões e as metas para serem atingidas no novo triênio. Expus, ainda, por gráficos, o crescimento da OCDS, o número de comunidades e de grupos.

Depois, li uma carta do frei Alzinir direcionada aos seculares por ocasião do último encontro em São Roque e o capítulo de nosso livro de documentos que trata da assistência pastoral dos frades à Ordem Secular.

Falei também da preocupação de nossa atual presidente, Rose Lemos, em relação à atual realidade da OCDS e que ela deseja, para este triênio, um olhar atencioso para todas as comunidades e grupos, no intuito de exercitar, com muito amor, seu lema “Testemunhas da experiência de Deus, na volta e na busca do essencial”. Encerrei, por fim, a apresentação no VI Capítulo da Província São José, agradecendo a todos pela atenção e fortalecendo nossa união na oração. 

Na sequência, Frei Emerson leu parte da carta de frei Alzinir sobre a OCDS, em que ele pede um olhar com atenção e carinho para esse momento delicado de nossa Ordem, no qual há risco de nos fragmentarmos e perdermos a identidade do carisma. A conclusão foi que precisamos de bons delegados que promovam a unidade, ajudando, orientando, conduzindo e fortalecendo-nos como carmelitas.

O provincial anunciou, em seguida, os cincos delegados nomeados para a OCDS: frei Wilson, frei Gregório e frei Salinho para as regiões Sudeste e Centro-Oeste, frei Luciano Henrique e frei Hudson para as regiões Norte e Nordeste.

Terminamos a programação da tarde rezando as Vésperas junto aos frades e, à noite, fomos convidadas a participar de um delicioso rodízio de pizza, em que tivemos a chance de uma descontraída convivência fraterna e confraternização com eles.

No dia 11/01, pela manhã, participamos da celebração eucarística com Laudes presidida por frei Emerson, contando com a presença de algumas monjas, às quais foi reservado o restante da manhã para sua partilha no Capítulo.

Para nós, foi uma experiência enriquecedora, que permite à OCDS firmar-se, cada vez mais, como ramo significativo de nossa família teresiana, contribuindo com a Ordem pela riqueza própria de sua secularidade.

DIÁRIO DE UM CARMELITA SECULAR EM ÁVILA

Artur Viana, OCDS (Fortaleza-CE)


“Os carmelitas seculares, junto com os frades e as monjas, são filhos e filhas da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo e de Santa Teresa de Jesus. Portanto, compartilham com os religiosos o mesmo carisma, vivendo-o cada um segundo seu estado de vida. É uma só família, com os mesmos bens espirituais, a mesma vocação à santidade e a mesma missão apostólica. Os seculares trazem à Ordem a riqueza própria da sua secularidade” (Constituições OCDS 1).

Esse pequeno, e já primeiro, parágrafo das nossas Constituições nos define objetivamente, e, em meio a tantas outras definições possíveis, essa foi a mais acertada. Acertada, porém, infelizmente, não assimilada por muitos dos que por ela são definidos.

Encontramos beleza nessas palavras, encontramos uma verdade, por isso automaticamente concordamos com elas, porém, tão logo fechamos nosso livro de documentos, desconsideramos a ressonância que essa definição deveria provocar em nossa visão de leigo sujeito eclesial e membro integrante do carisma carmelitano. Qual é nossa “função” na Igreja? Sermos igreja. Qual é nossa “função” no Carmelo? Sermos carmelitas. Isso basta, essa resposta já é suficiente e já está completa. O modo de ser igreja na Igreja e de ser carmelita no Carmelo em nada altera aquilo que somos essencialmente; dizendo em outras palavras, não somos menos igreja porque não somos clérigos, nem menos carmelitas (ou carmelitas de “terceira ordem”) porque não somos religiosos. Trazemos à Igreja e à Ordem a riqueza da nossa secularidade, e as integramos com a mesma dignidade e lucrando os mesmos bem daqueles que nelas estão e que não são seculares. Que beleza! Que riqueza! É isso que São Paulo quer dizer ao apresentar a imagem da Igreja Corpo Místico de Cristo, na qual todos os membros têm sua importância e são essenciais justamente pela diversidade de suas funções.

Mas por que escrevo isso? Em primeiro lugar porque nunca é demasiado repeti-lo e fazer essas sempre necessárias considerações. Em segundo lugar porque sou um dos poucos leigos que estamos em Ávila cursando um Master em Mística e Ciências Humanas, no Centro Internacional Teresiano-Sanjuanista (CITeS), e embora não seja o único leigo, nem mesmo o único brasileiro, há algo que me confere uma unicidade: sou o único aluno carmelita secular e estou aqui pela OCDS do Brasil.

A trajetória para chegar até aqui muitos a conhecem, e digo, sem acanhamento, que os que me ajudaram na realização deste sonho, em muitos momentos, tiveram mais fé do que eu. Obviamente, se eu estivesse sozinho, esse desejo seria um projeto irrealizável. E quando digo que fui ajudado, não me refiro apenas aos irmãos da Ordem Secular de toda a província, aos amigos próximos e não próximos, mas, sobretudo, à comunidade do CITeS, em sua administração, que me favoreceu e segue me ajudando aqui em muitos aspectos. 

Estar em Ávila diz muito para quem encontrou sua vocação no Carmelo Teresiano, e estar no CITeS, enquanto carmelita secular, diz mais ainda. Evidentemente, a participação dos cursos e eventos desse Centro Teresiano-Sanjuanista nunca foi algo privado e exclusivo para clérigos, religiosos ou carmelitas, mas tampouco é de se ignorar o fato – aparentemente irrelevante – de haver um carmelita secular entre os que aqui estudarão por três trimestres. 

Os estudos compreendem três grandes blocos: um trimestre de introdução ao estudo da mística e o diálogo desta com outras disciplinas e expressões; um trimestre sobre santa Teresa de Jesus, no qual se aprofunda e se estuda sua doutrina a partir da leitura de suas obras; e um trimestre sobre são João da Cruz, com a mesma metodologia do trimestre teresiano. A jornada de estudo é matutina; as tardes temos reservadas para o estudo pessoal e pesquisa. Aqui vivemos como comunidade, temos momentos comuns de oração e de convivência e são essas as oportunidades para um intercâmbio cultural e espiritual, de mútuo conhecimento e mútua ajuda. Dessa forma, cada um, em seu estado de vida, e em sua vocação (pois não há apenas carmelitas), enriquece o outro. 

Em dois meses de Ávila, já tenho muitas boas impressões e recordações. A Universidade da Mística se distingue de tantas outras não apenas por ser um lugar especializado nos estudos de nossos santos pais, mas por ser, também, uma verdadeira comunidade teresiana, na qual a oração, o estudo e a fraternidade são promovidos e mantidos pelos que a compõem, ou seja, um ambiente propício para essas três dimensões. 

Queira o bom Deus que eu saiba corresponder a essa graça tão grande com que Ele me favoreceu e possa, mais tarde, ajudar e contribuir com meus irmãos da Ordem Secular com a formação e com a vivência carismática da nossa vocação. Amém.

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ENTREVISTA - FREI LUCIANO HENRIQUE


Nesta edição, a Revista Monte Carmelo entrevista frei Luciano Henrique, um dos cinco religiosos nomeados delegados provinciais para a OCDS em janeiro deste ano, durante do Capítulo dos frades da Província São José. Conheça, a seguir, a trajetória de frei Luciano, aspectos de sua espiritualidade carmelitana e suas expectativas para a nova missão.

1. Fale um pouco sobre você e sua família, para que possamos conhecê-lo melhor.

Irmãos e irmãs em Cristo e no Carmelo Descalço, graça e paz. Eu me chamo Luciano Henrique Veras Tito, e na Ordem Carmelitana Descalça sou frei Luciano Henrique da Eucaristia. Tenho 41 anos de idade. Natural de Teresina - PI, sou filho de Raimundo Nonato Ferreira Tito (in memoriam) e Maria Alice de Sampaio Veras. Tenho dois irmãos já casados. Atualmente, sou prior do Convento Sagrada Família, situado em Marechal Deodoro, não tão distante de Maceió, estado de Alagoas.

2. Conte-nos como foi seu chamado vocacional e fale um pouco de sua trajetória no Carmelo.

Falar do meu chamado vocacional é sempre fazer memória do amor de Deus, amor de um Pai que me cumulou do dom mais nobre que possa existir: o dom da vida! Sou grato a Deus pelo que sou e por tudo que recebi, especialmente minha vocação de religioso consagrado. Como São Paulo, posso dizer que “Deus me escolheu desde o seio materno e me chamou por sua graça.” Deus me escolheu para viver para Ele! Esse pensamento de grande profundidade revela a minha condição de agraciado e de peregrino em busca de luz, do mistério divino. Senti o primeiro chamado à vida religiosa quando participava da Renovação Carismática Católica. Minha dúvida era para qual comunidade religiosa Deus me chamava. Então, eu conheci as nossas monjas do Carmelo de Teresina. Foi amor à primeira vista! Fiquei encantado com o testemunho e partilha da madre Maria da Trindade, fundadora do mesmo Carmelo. Ela me falou sobre o carisma da Ordem, como, também, sobre os santos. Ainda me lembro de ela dizer que esses(as) eram “amigos(as) fortes de Deus”. Imediatamente, eu disse: eu também desejo ser um amigo forte de Deus. Ao final da visita, a madre me falou sobre os frades e me aconselhou procurá-los. Assim eu fiz. Comecei, então, a ser acompanhado “por carta”. Depois de muito tempo de acompanhamento, fui aceito como postulante em Caratinga - MG. Isso foi há 20 anos. No ano seguinte, fui admitido para o noviciado, e ao final dessa etapa, fiz a minha primeira profissão religiosa, a 22 de dezembro de 2001. Comecei a etapa do estudantado, tendo que cursar Filosofia e Teologia. Fiz a profissão solene em 28 de julho de 2007. Encerrada toda a etapa do estudantado, fui enviado em missão à Holanda. Lá, fui ordenado diácono a 26 de maio de 2012 e, no mesmo ano, vim ao Brasil para a ordenação sacerdotal, retornando à Holanda depois de um mês. Ao todo, servi naquelas terras oito anos e meio da minha vida. Voltei ao Brasil em julho de 2017, como conventual do convento Nossa Senhora do Carmo, em Caratinga. Das terras mineiras vim para as terras alagoanas, onde moro agora.

3. Qual santo carmelita te inspira mais devoção e por quê?

Como comentei anteriormente, meu primeiro contato com o Carmelo Descalço foi junto às monjas carmelitas em Teresina. No fim da visita, eu recebi um livro da biblioteca do mosteiro, que me foi cedido por algumas semanas. O título era “Itinerário espiritual de Santa Teresa de Ávila”, do autor Pedro Paulo Di Berardino. Começou, então, uma aproximação com a Santa Madre fundadora do Carmelo Descalço, e esse laço vem se estreitando cada vez mais. Hoje, somos muito próximos. Outra figura de santidade do Carmelo que muito estimo é Santa Miriam de Jesus Crucificado. Ela não é tão conhecida, por isso busco promovê-la em todos os lugares por onde passo. 

4. Deus já vinha lhe preparando para a função de delegado provincial para a OCDS ou você foi pego de surpresa com essa nomeação?

Como frade, tenho consciência que, dentro de nosso apostolado, a OCDS tem um lugar especial. Desde o início de nossa etapa formativa já nos preparamos para trabalhar com monjas, seculares, paróquias e pastoral da espiritualidade. Particularmente, eu sempre tive proximidade com o Carmelo Secular, mesmo quando morei na Holanda. Lá, eu era padre assistente de uma das comunidades. Ser, agora, delegado provincial para a OCDS Norte-Nordeste é, para mim, uma imensa alegria. Afinal de contas, somos irmãos! Sou muito grato por tudo. 

5. Qual será a sua linha de trabalho e quais objetivos deseja alcançar?

Creio que não posso traçar uma linha de trabalho sem antes conhecer a realidade de cada comunidade ou grupo. São doze ao todo e abrangem os estados de Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá. Certamente, poderei favorecer-me do método ver, julgar e agir e, em comunhão com os irmãos e irmãs, alcançar bons objetivos. Quais objetivos poderíamos acentuar? Mais crescimento humano, espiritual, relacional, carismático etc.

6. O que você acha lhe será mais exigente e desafiador nessa missão?

Deverei acompanhar várias comunidades e grupos, como já comentei. Também darei um suporte às monjas. Sei que será exigente conciliar com perfeição esse apostolado específico da Ordem e o apostolado paroquial. Contudo, vou me esforçar para fazer um trabalho de excelência. 

7. Qual é sua opinião sobre a OCDS na Província São José?

Louvo a Deus pela presença excepcional do Carmelo Secular na nossa Província São José. A organização, o crescimento (tanto numérico como de qualidade), o material formativo e as inúmeras iniciativas fazem da Província São José OCDS uma potência. Vocês têm tudo para se manterem como estão e para dar passos mais significativos. Eu desejo verdadeiramente caminhar neste triênio junto com vocês. Sei que o aprendizado será mutuo. 

8. Aos seculares, você poderia fazer

• Uma pergunta: A proposta da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços é oferecer ao leigo um ambiente em fraternidade, onde se viva o Evangelho e a espiritualidade carmelitana de buscar o Senhor em oração contemplativa, numa comunhão de fé, esperança e amor, e num espírito de serviço para Deus e à humanidade. A OCDS está abraçando, de fato, essa proposta? 

• Uma recomendação (conselho): Louvo e agradeço a Deus pelo dom da vida, da vocação e da graça de pertencer à grande família do Carmelo Descalço que enriquece e qualifica a minha vida, na busca da união e configuração com Cristo. A todos(as) vós do Carmelo Descalço Secular, deixo as seguintes palavras da Santa Madre Teresa de Jesus: “... Aproveita muito neste caminho, determinar-se a grandes coisas... ter confiança, e não pôr limites aos desejos, mas crer que, com a ajuda de Deus, se nos esforçarmos, poderemos chegar ao mesmo que muitos santos”. Ousemos arriscar..., pois vale a pena seguir Jesus nos passos da Santa Madre, Santo Padre, Santa Teresinha, Santa Miriam... 

• Um pedido de oração: Para que a OCDS caminhe sempre na unidade e na paz. 

Rogo para que Maria, Rainha e Formosura do Carmelo, nos abençoe sempre! 

Abraço fraterno, 

Frei Luciano Henrique da Eucaristia, OCD

Formação Humana: CARÊNCIA AFETIVA E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A VIDA FRATERNA



Jovita Cordeiro

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12) ou, ainda, “Amarás o próximo como a ti mesmo” (Mc 12,31) são as respostas que Jesus dá ao escriba quando questionado sobre o maior de todos os mandamentos ou no diálogo com os apóstolos. 

Na carta de São João, também podemos ler: “Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor” (I Jo 4,8). Portanto, o amor é o fundamento para nosso relacionamento com Deus e com os irmãos. O Senhor nos revela que o essencial é o amor. Entretanto, mesmo que não houvesse revelado, percebemos em nós uma profunda necessidade de amar e sermos amados, desde o nascimento até o último dia de vida. Esse desejo está inscrito, de forma indelével, no coração de cada ser humano que veio a este mundo. É através do amor que nos sentimos ligados uns aos outros e a Deus. 

Por meio da narrativa da criação, podemos compreender como Deus nos gerou necessitados do amor: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Então, qual palavra descreve melhor a imagem de Deus? São João, em sua primeira carta, acrescenta: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (I Jo 4,16). Portanto, nosso coração não encontrará descanso enquanto não corresponder à imagem amorosa do Criador inscrita em cada um de nós. 

Com o pecado original, entretanto, o ser humano rompeu a determinação divina, pretendendo a igualdade e não a imagem e semelhança. Como consequência, foi expulso do paraíso, não antes de ter se escondido da presença de Deus. Sem a presença divina, faltou-lhe a referência da imagem. Agora já não se reconhecia mais, nem sabia mais quem era nem com quem se identificar, embora, em seu coração, permanecesse sempre presente a necessidade de buscar o amor. 

Surpreendentemente, Santa Teresa compara a alma do justo ao paraíso, onde Deus diz ter suas delícias. Deus foi “esconder-se”, por assim dizer, na alma do homem – lugar insuspeito –, e fez aí seu paraíso na terra. Agora, para estar na presença de Deus, deve-se fazer o caminho para dentro de si e, assim, experimentar a plenitude do amor. Mas, para fazer essa viagem para nossa interioridade, é necessário saber quem somos, a nossa história e a nossa destinação; não somente na dimensão humana, mas na espiritual também. De certa forma, a história da criação se repete em cada um de nós nessas duas dimensões. 

O ser humano é gerado no ventre materno, tendo aí seu primeiro paraíso na terra. Ao ingressar no mundo, experimenta, de certa forma, a expulsão do paraíso. A partir desse momento, a criança começa a jornada em busca do amor e de uma identidade, que só poderá se concretizar plenamente quando descobrir-se como imagem de Deus, tomando Cristo como imagem e semelhança perfeita do Pai e, consequentemente, do amor. 

No início da vida, suas primeiras experiências amorosas se darão na relação com os pais, os irmãos e os familiares próximos. Entretanto, sua relação primordial é com a mãe. Seu desejo é experimentar, com ela, a plenitude do amor inscrito em sua alma, mas esse tipo de amor pai e mãe não podem dá-lo. O ser humano imperfeito só pode amar imperfeitamente, porém a criança ainda não compreende isso nem é capaz de conceber que Deus é a fonte do pleno amor. Buscará, então, saciar sua sede de amor com a imperfeição do amor humano, caminho certo para a frustração. Inaugura-se, assim, a carência afetiva, espaço vazio entre o que a criança deseja e o que recebe. 

Essa falta ou essa carência é própria da condição humana. Todos fazemos a experiência do vazio e do desejo de preenchimento, ao longo da vida. Na verdade, é este desejo de plenitude amorosa que impulsiona todos a se relacionarem uns com os outros e com o mundo, na tentativa de se preencherem. Nesta procura, encontram-se apenas amores substitutos e imperfeitos, que serão incapazes de suprir esta carência do divino amor. 

Além da carência habitual, há duas formas que são muito prejudiciais ao ser humano. A carência resultante do excesso de amor e outra, da falta. O estado fusional entre mãe e bebê, vivido a partir do período da gestação, é normal e faz parte de uma gravidez saudável. Ele vai diminuindo à medida que o bebê vai se desenvolvendo, podendo permanecer por volta de um ano e meio após o nascimento da criança. Neste período, a mãe e a criança formam uma unidade. A mãe esquece-se de si mesma e dedica seu tempo e seus pensamentos em cuidar de seu/sua filho(a). Por outro lado, o bebê necessita desses cuidados e carinhos para desenvolver a noção de uma identidade e personalidade diferenciada da mãe. 

Entretanto, pode acontecer de esse estado de fusão entre ambos durar ao longo de toda a vida. Nesse caso, mãe e filho(a) permanecem misturados em suas identidades. A criança fica impossibilitada de saber quem é, do que gosta etc. por si mesma e, muitas vezes, torna-se incapaz de construir, na vida adulta, seu próprio caminho e uma independência saudável. São adultos com grande dificuldade de se responsabilizarem por seus atos, e quando o fazem, buscam sempre a aprovação de outrem. 

Geralmente, esse tipo de relação é visto e vivido como algo positivo pelo par amoroso, afinal, amor nunca é demais. Contudo, esse tipo de “amor excessivo” não permite que a criança seja vista como um ser independente, o que traz uma individualidade e uma identidade próprias, mas como um prolongamento da identidade materna. A criança fica privada e carente de ser amada por aquilo que é. Por falta da diferenciação, nega-se a ela seu próprio ser, sua independência. Sem saber quem é, também não consegue reconhecer o outro em sua individualidade. No final, vive a falta do amor verdadeiro. 

Na maioria dos casos, o estado fusional resulta do encontro de duas condições básicas: primeira, da dificuldade do pai em proporcionar a separação simbólica entre mãe e filho(a), sem conseguir se interpor na relação entre ambos; segunda, da tentativa da mãe de preencher sua própria carência nessa relação com o filho. Sem a intervenção paterna, torna-se muito difícil realizar a “desfusão”.

Não é difícil identificar adultos que tentam permanecer nesse tipo de simbiose. Em suas relações pessoais ou quando inseridos nos grupos, buscam, com frequência, relacionamentos fusionais. São bastante sensíveis e se melindram por pequenas coisas. Desejam que o grupo se curve às suas vontades e sentem-se rejeitados caso sejam contrariados. Permanecem emocionalmente imaturos e dependentes. Pela imaturidade, têm dificuldade de assumir responsabilidades. Desejam fazer do grupo ou da relação, de certa forma, seu útero materno.

Sabe-se, atualmente, por meio da psicologia pré-natal, que a carência pode ser agravada por experiências traumáticas vividas antes mesmo do nascimento, na fase intrauterina. Essas feridas são as mais primitivas, portanto, as mais difíceis de ser superadas. Pela união física entre mãe e bebê é possível, para a criança, perceber o estado emocional da mãe. As alterações fisiológicas que o corpo da mãe apresenta são notadas pela criança como sinal de acolhimento ou rejeição, afinal, nessa fase, os dois são uma só carne. 

Crianças amadas e desejadas pelos pais tendem a ser mais seguras e alegres. Por outro lado, uma mãe sempre triste, preocupada ou que rejeita seu bebê pode afetar o/a filho(a) de forma negativa, resultando em sentimentos de inadequação, agressividade e insegurança, que, muitas vezes, acompanham a pessoa ao longo de toda a vida.

Por outro lado, temos a carência gerada pela falta de amor. Situações de abandono, gravidez indesejada, problemas conjugais ou o não acolhimento podem fazer com que a criança não receba o amor que é necessário para seu desenvolvimento saudável. A falta de experiências amorosas suficientemente boas nos primeiros anos de vida gera uma angústia de morte. Experiências assim causam uma enorme sensação de medo e insegurança na criança. Na maioria dos casos, buscará a autoproteção, fechando-se em si mesma.

Na esfera da falta de amor, é comum a pessoa ter uma percepção muito negativa de si. Talvez chegue à conclusão, muito prematuramente, de que se não é amada é porque algo lhe falta, algo está errado consigo: não é bonita, não é inteligente, só é capaz de trazer problemas e infelicidade. A falta inaugura a sensação de vazio, de incapacidade e de culpa, que pode levar a uma tentativa de preenchimento com uma doação excessiva aos outros; um desejo imenso de ajudar, mas uma incapacidade enorme de receber ajuda, amor, atenção e afeto de quem a rodeia. São pessoas preciosas nas comunidades pela capacidade de doação, mas, às vezes, com grandes dificuldades de relacionamento. Ao se verem ameaçadas por qualquer sensação de abandono, reagem com agressividade, expressa em gestos e palavras. Essas pessoas, pelo medo e por essa visão negativa de si, sentem-se incapazes de assumir responsabilidades por se verem sem talentos ou imaginar que tudo se lhes dará errado.

Em ambos os casos, para superar essa condição, é necessário que a pessoa possa experimentar o processo de cura de suas feridas. A cura da carência deve se dar tanto na esfera humana quanto na espiritual, pois essas feridas acabam alterando a relação do adulto tanto com os seus pares quanto com Deus. Ela pode projetar sobre Deus as mesmas relações que teve com seu pai ou sua mãe, pois para uma criança o seu Deus é, a princípio, seu pai e sua mãe. 

Não se pode correr o risco de querer suprir esse tipo de carência ou de atender às expectativas de amor dessas pessoas. Somente Deus pode fazê-lo, pois Ele é a fonte curativa do amor. Caso contrário, nos colocaremos no lugar de Deus. Por isso, deve-se conduzi-las à experiência de um novo nascimento, de uma nova filiação e, assim, encontrarão a liberdade de ter sua própria imagem diferenciada da de seus pais.

Como adulto, o indivíduo deverá abandonar suas defesas de criança e descobrir-se como filho de um Pai Divino, que traz em si a capacidade de dar e receber amor. Sem essa experiência amorosa não poderá dar amor, pois não se pode dar aquilo que não se tem. Somente nesta descoberta da plenitude do amor de Deus se verá capaz de amar ao próximo como a si mesmo. Descobrirá dentro de si a imagem de Deus, que o capacita a dar e receber amor.

Para São João da Cruz, é próprio do amor produzir a semelhança: “Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor fazer do que ama semelhante ao amado”.


REFERÊNCIAS:

CRUZ J. Obras completas. 3 ed. São Paulo: Editora Vozes, 1991.
JESUS T. Obras Completas. São Paulo: Edições Loyola, 1995.
LA BARBERA EMP. Um caminho de Descoberta de mim mesmo. Aparecida: Editora Santuário, 2012.
PACOT S. A Evangelização das Profundezas. Aparecida: Editora Santuário, 2001.
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