sábado, 22 de setembro de 2018

Teresinha: O rosto é o reflexo da alma






 
PREFACIO DO LIVRO   O SEGREDO DE UM SORRISO  DE   PIERRE DESCOUVEMONT




            Teresa de Lisieux dizia, alguns meses antes de morrer: “Não vejo o que terei a mais, depois da morte, que já não tenha nesta vida. Verei a Deus, é verdade! Mas estar com ele, já estou aqui na terra” (1)

            Esta impressão de já viver na terra algo da alegria do céu faz parte de toda experiência cristã autêntica. Para os cristãos a vida eterna começa aqui, segundo a promessa de Cristo: “Aquele que crê em mim possui a vida eterna”. (2)

            Não se trata de viver na ilusão. Igual a nós, os santos não viveram numa nuvenzinha de felicidade, entre o céu e a terra. Todos nos lembramos da célebre frase da Virgem a Bernadete: “Não lhe prometo torná-la feliz neste mundo, mas sim no outro”. E sabe-se toda a espécie de sofrimentos que Teresa experimentou antes e depois de sua entrada no Carmelo.

            Ela própria pressentia, aliás, pelo fim da vida, que os homens se enganariam mais tarde a respeito do que se escondia atrás de seu sorriso. A 30 de agosto de 1897, dizia à Madre Inês, sua irmã, mostrando um remédio parecido com xarope de groselha: “Este copinho é a imagem de minha vida. Eis o que apareceu aos olhos das criaturas. Sempre pensaram que eu bebia licores finos, mas eram amargos. Aliás, amargos não! Minha vida não foi amarga porque eu soube transformar a amargura em alegria e doçura”. (3) No dia seguinte, fazia uma reflexão do mesmo gênero: “Encontrei a felicidade e a alegria na terra, mas unicamente no sofrimento, pois aqui sofri muito; é preciso que as almas o saibam”. (4)

            Entretanto, seria um grande erro reduzir a alegria dos santos à esperança do céu. Infelizmente, com freqüência, se faz essa idéia da vida cristã.

            Os cristãos levariam exatamente a mesma vida que os outros — com sua sucessão de alegrias e dificuldades. Viveriam no mesmo túnel que seus irmãos não crentes. Com a única diferença de caminharem na certeza de desembocar um dia na luz eterna. Algumas clareiras viriam lembrar, de vez em quando, o fim magnífico da virgem, enquanto que a sinalização indicaria as velocidades e prioridades a se respeitar.

            O medo da “policia divina” associado a uma pacífica espera da recompensa prometida aos “bons motoristas”, tais são ainda, geralmente, os dois elementos aos quais foi reduzida a vida cristã.

            Então passa-se ao largo do essencial: a presença do sol que brilha para o cristão, mesmo dentro dessa espécie de túnel, e que realmente trans figura toda sua existência: “Meu sol é o Senhor, então eu canto”.

            Não me esqueço de que, nos dezoito últimos meses da vida, Teresa mergulhou na noite e, um mês antes da morte, confiava à Madre Inês achar-se como dentro de um buraco negro. (5) Mas Teresa sabia que “acima das nuvens, o sol brilhava sempre” (6)

            Desejo exatamente demonstrar, ao longo desse modesto ensaio, como os raios desse sol divino podem trazer alegria e luz àqueles e àquelas que, como Teresa de Lisieux, receberam a graça de uma fé viva na ternura de Deus. Paulo já dizia aos cristãos de Éfeso que, se compreendessem todas as dimensões do amor de Cristo por eles, ficariam cheios da plenitude de Deus. E Jesus poderia dizer a muitos dentre nós: “Se você conhecesse realmente o dom de Deus, não faria essa cara”.

            Muitas vezes nos arriscamos, na apresentação da vida cristã, a opor levianamente afirmações que, na realidade. são complementares. O ideal evangélico consiste com efeito, em efetuar um maravilhoso equilíbrio entre atividades aparentemente contraditórias. Trata-se, por exemplo, de viver plenamente o momento presente, ao mesmo tempo prevendo o mais possível o futuro próprio e o dos irmãos. Trata-se de apresentar-se diante de Deus com as “mãos vazias”, levando a sério não deixar escapar nenhuma ocasião de enriquecer o patrimônio espiritual da Igreja.

            Em resumo, a vida espiritual é simples, mas não simplista. E isto deriva do Mistério de Deus, que é a própria simplicidade, mas cuja riqueza só pode ser expressa em linguagem humana por meio de proposições complementares: Deus é o mais próximo e ao mesmo tempo o mais Outro; aquele que faz tudo por nós e também aquele que quer nossa total autonomia.

            Nada se lucra, em simplificar excessivamente a Boa Nova, reduzindo-a a um só de seus aspectos. Se o cristão pode ser feliz em todas as circunstâncias, é exatamente porque o sol do Evangelho se refrata em múltiplos raios, capazes de iluminar todos os setores da vida e todas as situações da existência.

            Tal foi, em todo caso, a maneira de agir de Teresa de Lisieux. Claro, sua maneira de viver, de amar e de rezar foi muito simples. Ela teria gostado da divisa de João XXIII: “Não complicar as coisas simples e simplificar as coisas complicadas”. Mas essa simplicidade e essa naturalidade evangélicas vinham exatamente de que Deus a tinha feito descobrir, muito jovem, “todas as riquezas contidas no Evangelho”, como gostava de dizer. Toda vida procurou compreender as palavras do Senhor e, na autobiografia, está sempre agradecendo a Deus pelo que a fez «compreender»: emprega noventa e quatro vezes o verbo nesse sentido. Teresa não escolhe um dos diferentes aspectos do Evangelho, antes, segundo sua célebre frase da infância, ela “escolhe tudo”.

            Colocando-nos em sua escola, perscrutando com ela as riquezas do Evangelho, temos todas as chances de aprofundar um pouco mais o segredo de sua alegria e de nos deixarmos conquistar por seu sorriso.

            Então acontecerá um pouco mais em nossa vida o que ousamos dizer cada dia:

            Pai, na terra como no céu, santificado seja o vosso Nome venha a nós o vosso Reino seja feita a vossa Vontade!

            Compreenderemos um pouco melhor que o céu do cristão começa na terra, pois aqui podemos já, com toda verdade

- dar a Deus o nome de Pai e saborear o seu Amor;

- trabalhar eficazmente pela vinda de seu Reino;

- dar-lhe prazer fazendo sua Vontade.

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