PREFACIO DO LIVRO O SEGREDO DE UM SORRISO DE PIERRE DESCOUVEMONT
Teresa de Lisieux dizia, alguns
meses antes de morrer: “Não vejo o que terei a mais, depois da morte, que já
não tenha nesta vida. Verei a Deus, é verdade! Mas estar com ele, já estou aqui
na terra” (1)
Esta impressão de já viver na terra
algo da alegria do céu faz parte de toda experiência cristã autêntica. Para os
cristãos a vida eterna começa aqui, segundo a promessa de Cristo: “Aquele que
crê em mim possui a vida eterna”. (2)
Não se trata de viver na ilusão.
Igual a nós, os santos não viveram numa nuvenzinha de felicidade, entre o céu e
a terra. Todos nos lembramos da célebre frase da Virgem a Bernadete: “Não lhe
prometo torná-la feliz neste mundo, mas sim no outro”. E sabe-se toda a espécie
de sofrimentos que Teresa experimentou antes e depois de sua entrada no
Carmelo.
Ela própria pressentia, aliás, pelo
fim da vida, que os homens se enganariam mais tarde a respeito do que se
escondia atrás de seu sorriso. A 30 de agosto de 1897, dizia à Madre Inês, sua
irmã, mostrando um remédio parecido com xarope de groselha: “Este copinho é a
imagem de minha vida. Eis o que apareceu aos olhos das criaturas. Sempre
pensaram que eu bebia licores finos, mas eram amargos. Aliás, amargos não!
Minha vida não foi amarga porque eu soube transformar a amargura em alegria e
doçura”. (3) No dia seguinte, fazia uma reflexão do mesmo gênero: “Encontrei a
felicidade e a alegria na terra, mas unicamente no sofrimento, pois aqui sofri
muito; é preciso que as almas o saibam”. (4)
Entretanto, seria um grande erro
reduzir a alegria dos santos à esperança do céu. Infelizmente, com freqüência,
se faz essa idéia da vida cristã.
Os cristãos levariam exatamente a
mesma vida que os outros — com sua sucessão de alegrias e dificuldades.
Viveriam no mesmo túnel que seus irmãos não crentes. Com a única diferença de
caminharem na certeza de desembocar um dia na luz eterna. Algumas clareiras
viriam lembrar, de vez em quando, o fim magnífico da virgem, enquanto que a
sinalização indicaria as velocidades e prioridades a se respeitar.
O medo da “policia divina”
associado a uma pacífica espera da recompensa prometida aos “bons motoristas”,
tais são ainda, geralmente, os dois elementos aos quais foi reduzida a vida cristã.
Então passa-se ao largo do
essencial: a presença do sol que brilha para o cristão, mesmo dentro dessa
espécie de túnel, e que realmente trans figura toda sua existência: “Meu sol é
o Senhor, então eu canto”.
Não me esqueço de que, nos dezoito
últimos meses da vida, Teresa mergulhou na noite e, um mês antes da morte,
confiava à Madre Inês achar-se como dentro de um buraco negro. (5) Mas Teresa
sabia que “acima das nuvens, o sol brilhava sempre” (6)
Desejo exatamente demonstrar, ao
longo desse modesto ensaio, como os raios desse sol divino podem trazer alegria
e luz àqueles e àquelas que, como Teresa de Lisieux, receberam a graça de uma
fé viva na ternura de Deus. Paulo já dizia aos cristãos de Éfeso que, se
compreendessem todas as dimensões do amor de Cristo por eles, ficariam cheios
da plenitude de Deus. E Jesus poderia dizer a muitos dentre nós: “Se você
conhecesse realmente o dom de Deus, não faria essa cara”.
Muitas vezes nos arriscamos, na
apresentação da vida cristã, a opor levianamente afirmações que, na realidade.
são complementares. O ideal evangélico consiste com efeito, em efetuar um
maravilhoso equilíbrio entre atividades aparentemente contraditórias. Trata-se,
por exemplo, de viver plenamente o momento presente, ao mesmo tempo prevendo o
mais possível o futuro próprio e o dos irmãos. Trata-se de apresentar-se diante
de Deus com as “mãos vazias”, levando a sério não deixar escapar nenhuma
ocasião de enriquecer o patrimônio espiritual da Igreja.
Em resumo, a vida espiritual é
simples, mas não simplista. E isto deriva do Mistério de Deus, que é a própria
simplicidade, mas cuja riqueza só pode ser expressa em linguagem humana por
meio de proposições complementares: Deus é o mais próximo e ao mesmo tempo o
mais Outro; aquele que faz tudo por nós e também aquele que quer nossa total
autonomia.
Nada se lucra, em simplificar
excessivamente a Boa Nova, reduzindo-a a um só de seus aspectos. Se o cristão
pode ser feliz em todas as circunstâncias, é exatamente porque o sol do
Evangelho se refrata em múltiplos raios, capazes de iluminar todos os setores
da vida e todas as situações da existência.
Tal foi, em todo caso, a maneira de
agir de Teresa de Lisieux. Claro, sua maneira de viver, de amar e de rezar foi
muito simples. Ela teria gostado da divisa de João XXIII: “Não complicar as
coisas simples e simplificar as coisas complicadas”. Mas essa simplicidade e
essa naturalidade evangélicas vinham exatamente de que Deus a tinha feito
descobrir, muito jovem, “todas as riquezas contidas no Evangelho”, como gostava
de dizer. Toda vida procurou compreender as palavras do Senhor e, na
autobiografia, está sempre agradecendo a Deus pelo que a fez «compreender»:
emprega noventa e quatro vezes o verbo nesse sentido. Teresa não escolhe um dos
diferentes aspectos do Evangelho, antes, segundo sua célebre frase da infância,
ela “escolhe tudo”.
Colocando-nos em sua escola,
perscrutando com ela as riquezas do Evangelho, temos todas as chances de
aprofundar um pouco mais o segredo de sua alegria e de nos deixarmos conquistar
por seu sorriso.
Então acontecerá um pouco mais em
nossa vida o que ousamos dizer cada dia:
Pai, na terra como no céu,
santificado seja o vosso Nome venha a nós o vosso Reino seja feita a vossa
Vontade!
Compreenderemos um pouco melhor que
o céu do cristão começa na terra, pois aqui podemos já, com toda verdade
-
dar a Deus o nome de Pai e saborear o seu Amor;
-
trabalhar eficazmente pela vinda de seu Reino;
-
dar-lhe prazer fazendo sua Vontade.

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