terça-feira, 14 de dezembro de 2021

SOLENIDADE DE SÃO JOÃO DA CRUZ, DOUTOR DA IGREJA E NOSSO PAI - 14 de dezembro de 2021.

 


           MISTÉRIO, VIDA E POESIA 

“Dos Romances Trinitários e Cristológicos” 

Entre os místicos e encantadores poemas de São João da Cruz “Romances Trinitários e Cristológicos”, encontra sua profundidade no mistério central da fé e da vida cristã, o mistério da Santíssima Trindade. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na «hierarquia das verdades da fé» (cf. CEC 234). A respeito da Santíssima trindade, dirá, ainda, S. J. da Cruz em outros escritos: "Não seria verdadeira e total transformação se não se transformasse a alma nas três Pessoas em revelado e manifesto grau" (C 39,3). "Cristo disse que em quem amasse, viriam o Pai, o Filho e o Espírito Santo fazer sua morada" (Ch. Pról. 1,15. 2). "(A Santíssima Trindade) condições de uma alma examinada em afetos da inabitação" (Ch 1,15ss); e explica que a inabitação da Santíssima Trindade “significa para a alma ter o entendimento divinamente ilustrado na sabedoria do Filho, a vontade inebriada de deleite no Espírito Santo,  absorvendo-a o Pai, forte e poderosamente, no abraço e abismo de sua doçura" (Ch 1,15).

Meditados ao longo da novena deste ano de 2021, este poema nos permitiu ser conduzidos, além de adentrar no profundo Mistério do Deus Trindade, a também nos preparar para celebrar a Festa da Encarnação e do Nascimento do Verbo de Deus feito Homem, o Natal do Senhor. O cerne da espiritualidade Trinitária contida no início do Evangelho de São João: “In Principio Erat Verbum”, trazido a nós através deste poema de S. J. Cruz nos remete, como diz o santo em Cântico, à compreensão de que "o Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, essencial e presencialmente está escondido no íntimo ser da alma" (C 1,6); portanto, compreendemos que a Trindade encontra na doutrina são-joanista e teresiana o ponto central de sua mística, pois ao encontrar-se Nela, dirá S. João da Cruz: "A alma se faz deiforme e Deus por participação, e assim a alma tem obrada sua obra de entendimento, notícia e de amor na Trindade e como a Trindade" (C 4-6), pois, "A Santíssima Trindade é luz e fogo de amor na alma" (Ch 3,80 ss).

“Procedia tão silenciosamente” 

Frei João da Cruz na prisão (1577 - 1578) - Chegou frei João da Cruz, em meados de dezembro no convento do Carmelo de Toledo - de 1576, o melhor que a Ordem possui em Castela e habitado por quase oitenta religiosos. Trouxeram-no de noite e com os olhos vendados, para que não conhecesse o caminho nem o lugar. Apresenta-se ao visitador geral, frei Jerônimo Tostado que dera ordens ao prior de Toledo, padre Maldonado, para que o prendesse e trouxesse à sua presença. A notícia da chegada de frei João da Cruz corre veloz pelo convento e muitos frades acodem para o ver e recriminá-lo. O jovem descalço permanece mudo e imutável, «procedia tão silenciosamente que os Padres Mitigados lhe chamavam “lima surda”, cf, relatos de Irmã Maria do Sacramento, que cuidou do Santo em Caravaca. O seu aspecto é digno de lástima: pequeno, consumido já antes de ser preso, agora, após os açoites que recebeu em Ávila, os castigos e a longa e dolorosa viagem, parece perdido dentro do hábito de calçado que, violentamente, foi obrigado a vestir.

S. João da Cruz, porém, sabe o que deve fazer e permanece imutável. Em primeiro lugar, não podem recair sobre ele os castigos com que são ameaçados os Descalços de Granada, Sevilha e la Peñuela, conventos fundados sem a autorização do geral, os únicos que o capítulo declara em rebeldia, se os seus religiosos não abandonarem esses conventos e regressarem à Observância. Talvez seja acusado de incorrer no mesmo castigo por viver fora do convento, na pequena casa da Encarnação. Entra, então, frei João, sem capuz nem escapulário, em sinal de castigo pela sua rebeldia, em dia de pleno inverno. Consigo, leva apenas o breviário. Muito cedo começará a sentir os efeitos das duras geadas toledanas que, um ano atrás, tanto tinham impressionado a madre Teresa, e verá os dedos dos seus pés gretados pelo frio. Aqui permanecerá durante nove meses, incomunicável, faminto, num ambiente repugnante, consumindo-se cada vez mais na miséria, sem outro raio de luz senão a que penetra pela pequena abertura do teto do cárcere. 

Noites intermináveis 

Frei João passa os dias e as noites intermináveis, sozinho, na escuridão da sua pequena cela. Não tem roupa para mudar. Quando, quatro ou cinco meses depois, chegam os calores asfi­xiantes do verão toledano, a prisão torna-se insuportável; o pobre descalço é atormentado, ao mesmo tempo, pela fome, pelo calor e pelos insetos. A túnica interior que vestia no dia da entrada e que não lhe permitem lavar ou mudar, vai apodrecendo aos poucos no seu corpo. Uma terrível preocupação vem agravar a sua angústia.

Em meados de agosto; frei João deve sentir-se asfixiar naqueles calores tórridos toledanos. Ao meio dia, hora em que pode debruçar-se na janela que dá para o Tejo, os roche­dos da margem oposta do rio devem ressumbrar fogo, e o castelo de Servando parece, na cor ocarina dos seus muros e torreões, ficar incandescente. No dia 14, véspera da Assunção de Nossa Senhora, frei João, de joelhos e com o rosto por terra, reza de costas para a porta fechada da sua prisão. O padre prior, frei Maldonado, abre a porta e entra, mas frei João permanece imu­tável. «Por que não vos levantais vindo eu visitar-vos?», pergun­ta-lhe o prior. O prisioneiro faz um esforço, levanta-se e, humil­demente, desculpa-se: «Pensava que era o carcereiro»; por outro lado, o seu estado de fraqueza não lhe permite levantar-se imediatamente; além disso, estava distraído. «Em que estáveis pen­sando agora?», replica o prelado. «Em que amanhã é o dia de Nossa Senhora e eu gostava muito de celebrar a Missa», responde frei João. «Nunca, nos meus dias», responde bruscamente o padre Maldonado que sai, fechando a porta atrás de si. 

Insensibilidade e incompreensão dos seus irmãos 

Frei João não guarda o menor ressentimento no seu coração; sofre, com certeza, pela insensibilidade e incompreensão dos seus irmãos, mas desculpa-os. O carcereiro, testemunha das suas amar­guras de alma e de corpo, nunca o ouve queixar-se e, mais tarde, liberto já do seu terrível encerramento, quando frei João descreve todos os episódios dos nove meses de prisão, jamais alguém lhe ouviu uma palavra de queixa contra os seus perse­guidores; até os defende dizendo que «faziam aquilo por pensarem estar na verdade». Porém, está convencido de que tem de fugir, disposto a morrer na sua aventura, se for essa a vontade de Deus - «Entregou a Nosso Senhor este seu ne­gócio (da fuga) com todas as veras, tal como o fazia todos os dias e pedindo que, se era da sua vontade, que ali terminasse a sua vida, que ele abraçaria aquele cálice de boa vontade e que. se fosse servido noutra coisa, lho manifestasse», cf. declaração do frei Inocêncio de S. André.

Na oração, sente o impulso interior que o arrasta para a fuga, con­vencido que o Senhor e Nossa Senhora o vão ajudar e toma essa decisão. Estamos nos dias da oitava da festa da Assun­ção. Frei João tem tudo preparado: desfez as mantas em tiras, atou-as e coseu-as nas pontas umas às outras e 'tem em sua mão o gancho de ferro da candeia que lhe emprestou o car­cereiro num dos últimos dias. Já é de noite: uma noite de luar límpido. O carcereiro leva-lhe o jantar, mas esqueceu-se da água. Enquanto a vai buscar, frei João aproveita essa pequena ausência para, tendo a porta aberta, desapertar as armelas do cadeado; terminada a refeição, o guarda fecha a porta sem repa­rar em qualquer coisa de novo e vai-se embora. Não conhecia a cidade de Toledo, ignora-se o itinerário de frei João.

Após a fuga, frei João chega ao mosteiro de S. José, ao vê-lo, as monjas ficam assustadas. Frei João mani­festa à priora o seu medo de que os Calçados possam chegar de um momento para outro à sua procura, e ela toma as devidas precauções, de colocar outra irmã na roda que saiba guardar segredo da chegada do fugitivo, com maior sigilo do que Leonor de Jesus, jovem ingênua e inexperiente, e nomeia a irmã Isabel de S. Jerônimo. Pouco tempo depois, aparecem dois frades do Carmo per­guntando, muito discretamente, por um padre da Ordem, chamado frei João da Cruz. Isabel de S. Jerônimo evita uma resposta direta: “Maravilha será que possam encontrar algum reli­gioso”. Os frades pedem as chaves do locutório e da igreja, examinam tudo minuciosamente e vão-se embora sem dizer pala­vra. Entretanto, frei João, dentro da clausura e rodeado pelas monjas que o contemplam com assombro, vai contando, com voz muito sumida, os episódios do cárcere e da fuga que elas, por sua vez, contarão depois nos processos. Está lá até ao meio dia. 

“Falava coisas sublimes de Nosso Senhor” 

As monjas presenteiam-no quanto podem. Incapaz de suportar alimentos mais fortes, pelo estado de extrema fraqueza em que se encontra, após nove meses a pão, água e sardinhas, a irmã enfermeira, Teresa da Conceição, oferece-lhe umas peras assadas com canela. Outras limpam o hábito e, entretanto, ele veste uma batina velha do capelão do convento. Por volta do meio dia, terminada a hora das missas e fechada a porta da Igreja, frei João sai por uma pequena porta interior que dá para a Igreja, e ali passa a tarde. Ele, da parte de fora das grades do coro e as monjas da parte interior, vai recitando os poemas que escrevera na prisão. A voz quase imperceptível do santinho de frei João, como lhe chama a madre Teresa, ecoa no silêncio e na penumbra do recinto sagrado, como um murmúrio dos anjos. Declara Irmã Constança da Cruz: «O Santo estava conosco, atrás da grade da igreja e falava coisas sublimes de Nosso Senhor e de uma obra que tinha feito, na prisão, em honra da Santíssima Trindade; era um gozo do céu ouvi-lo». Eis o murmúrio dos anjos: 

No princípio morava

O Verbo e em Deus vivia

E naquele amor imenso

Que de ambos procedia,

Nele sua felicidade

Infinita possuía.

O mesmo Verbo Deus era,

E o princípio se dizia.

Ele morava no princípio

e princípio não havia.

 

Palavras de grande gozo

O Padre ao Filho dizia,

De tão profundo deleite,

Que ninguém as entendia;

Somente o Filho as gozava

Pois a Ele pertencia.

 

Enquanto frei João recita, lentamente, os versos, uma reli­giosa vai anotando-os. Declara a Irmã Isabel de Jesus Maria: «Lembro-me também que, aquele tempo que o tivemos escondido na igreja, recitou umas poesias que trazia de memória e uma religiosa as ia escrevendo... ele mesmo as tinha feito... São três e todas falam da Santíssima Trindade..., e começam: «No princípio morava — o Verbo, e em Deus vivia...» - « Isto aconteceu, quando eu era noviça em Toledo». Mais tarde, as monjas vão dizer que «era uma alegria do céu ouvi-lo» - declara Irmã Constança da Cruz.

 Peçamos ao Santo Padre João da Cruz, que neste dia solene, alcance de Deus para o Carmelo, para a Igreja e para cada um de nós, a perfeita comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a fim de nos permitir adentrar no profundo deleite da alma.

 Oração: Ó Deus, que inspirastes ao presbítero são João da Cruz, nosso pai, extraordinário amor pelo Cristo e total desapego de si mesmo, fazei que, imitando sempre seu exemplo, cheguemos à contemplação da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!

 

SANTO PADRE JOÃO DA CRUZ,

intercedei por nós!

 

Estela da Paz.

(Estela Maria Teresa de Jesus, OCDS)

Comissão de História

Comissão de Espiritualidade

 

 Ref.:

JESUS SACRAMENTADO, CRISÓGONO DE. Carmelita Descalço. EDIÇÕES CARMELO. OEIRAS, Angola, 6.

Obras Completas de São João da Cruz, Editora vozes. Petrópolis/RJ.

Catecismo da Igreja Católica.

 

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