
MISTÉRIO, VIDA E POESIA
“Dos Romances Trinitários e Cristológicos”
Entre os místicos e encantadores poemas de São
João da Cruz “Romances Trinitários e Cristológicos”, encontra sua profundidade no mistério central da fé e da vida cristã, o mistério
da Santíssima Trindade. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé
e a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na
«hierarquia das verdades da fé» (cf. CEC 234). A respeito da Santíssima
trindade, dirá, ainda, S. J. da Cruz em outros escritos: "Não seria verdadeira e total transformação se não se
transformasse a alma nas três Pessoas em revelado e manifesto grau" (C 39,3). "Cristo disse que em quem amasse, viriam o Pai, o Filho e o
Espírito Santo fazer sua morada" (Ch. Pról. 1,15. 2). "(A Santíssima Trindade) condições de uma alma examinada em afetos da
inabitação" (Ch 1,15ss); e explica que a inabitação
da Santíssima Trindade “significa para a alma ter o entendimento divinamente
ilustrado na sabedoria do Filho, a vontade inebriada de deleite no Espírito
Santo, absorvendo-a o Pai, forte e poderosamente, no abraço e abismo de
sua doçura" (Ch 1,15).
Meditados ao longo da novena deste ano de 2021,
este poema nos permitiu ser conduzidos, além de adentrar no profundo Mistério
do Deus Trindade, a também nos preparar para celebrar a Festa da Encarnação e
do Nascimento do Verbo de Deus feito Homem, o Natal do Senhor. O cerne da espiritualidade
Trinitária contida no início do Evangelho de São João: “In
Principio Erat Verbum”, trazido
a nós através deste poema de S. J. Cruz nos remete, como diz o santo em
Cântico, à compreensão de que "o Filho de Deus,
juntamente com o Pai e o Espírito Santo, essencial e presencialmente está
escondido no íntimo ser da alma" (C 1,6);
portanto, compreendemos que a Trindade encontra na doutrina são-joanista e
teresiana o ponto central de sua mística, pois ao encontrar-se Nela, dirá S.
João da Cruz: "A alma se faz deiforme e Deus por participação, e assim a alma tem
obrada sua obra de entendimento, notícia e de amor na Trindade e como a
Trindade" (C 4-6),
pois, "A Santíssima Trindade é luz e fogo de amor na alma" (Ch 3,80 ss).
“Procedia
tão silenciosamente”
Frei João da Cruz na prisão (1577
- 1578) - Chegou frei João da Cruz, em meados de dezembro no convento
do Carmelo de Toledo - de 1576, o melhor que a Ordem possui em Castela e
habitado por quase oitenta religiosos. Trouxeram-no de noite e com os olhos
vendados, para que não conhecesse o caminho nem o lugar. Apresenta-se ao
visitador geral, frei Jerônimo Tostado que dera ordens ao prior de Toledo,
padre Maldonado, para que o prendesse e trouxesse à sua presença. A notícia da
chegada de frei João da Cruz corre veloz pelo convento e muitos frades acodem
para o ver e recriminá-lo. O jovem descalço permanece mudo e imutável, «procedia
tão silenciosamente que os Padres Mitigados lhe chamavam “lima surda”, cf,
relatos de Irmã Maria do Sacramento, que cuidou do Santo em Caravaca. O seu
aspecto é digno de lástima: pequeno, consumido já antes de ser preso, agora,
após os açoites que recebeu em Ávila, os castigos e a longa e dolorosa viagem,
parece perdido dentro do hábito de calçado que, violentamente, foi obrigado a
vestir.
S.
João da Cruz, porém, sabe o que deve fazer e permanece imutável. Em primeiro
lugar, não podem recair sobre ele os castigos com que são ameaçados os
Descalços de Granada, Sevilha e la Peñuela, conventos fundados sem a
autorização do geral, os únicos que o capítulo declara em rebeldia, se os seus
religiosos não abandonarem esses conventos e regressarem à Observância. Talvez
seja acusado de incorrer no mesmo castigo por viver fora do convento, na
pequena casa da Encarnação. Entra, então, frei João, sem capuz nem escapulário,
em sinal de castigo pela sua rebeldia, em dia de pleno inverno. Consigo, leva
apenas o breviário. Muito cedo começará a sentir os efeitos das duras geadas
toledanas que, um ano atrás, tanto tinham impressionado a madre Teresa, e verá
os dedos dos seus pés gretados pelo frio. Aqui permanecerá durante nove meses,
incomunicável, faminto, num ambiente repugnante, consumindo-se cada vez mais na
miséria, sem outro raio de luz senão a que penetra pela pequena abertura do
teto do cárcere.
Noites
intermináveis
Frei
João passa os dias e as noites intermináveis, sozinho, na escuridão da sua
pequena cela. Não tem roupa para mudar. Quando, quatro ou cinco meses depois,
chegam os calores asfixiantes do verão toledano, a prisão torna-se
insuportável; o pobre descalço é atormentado, ao mesmo tempo, pela fome, pelo
calor e pelos insetos. A túnica interior que vestia no dia da entrada e que não
lhe permitem lavar ou mudar, vai apodrecendo aos poucos no seu corpo. Uma
terrível preocupação vem agravar a sua angústia.
Em
meados de agosto; frei João deve sentir-se asfixiar naqueles calores tórridos
toledanos. Ao meio dia, hora em que pode debruçar-se na janela que dá para o Tejo,
os rochedos da margem oposta do rio devem ressumbrar fogo, e o castelo de
Servando parece, na cor ocarina dos seus muros e torreões, ficar incandescente.
No dia 14, véspera da Assunção de Nossa Senhora, frei João, de joelhos e com o
rosto por terra, reza de costas para a porta fechada da sua prisão. O padre
prior, frei Maldonado, abre a porta e entra, mas frei João permanece imutável.
«Por que não vos levantais vindo eu visitar-vos?», pergunta-lhe o prior. O
prisioneiro faz um esforço, levanta-se e, humildemente, desculpa-se: «Pensava
que era o carcereiro»; por outro lado, o seu estado de fraqueza não lhe permite
levantar-se imediatamente; além disso, estava distraído. «Em que estáveis pensando
agora?», replica o prelado. «Em que amanhã é o dia de Nossa Senhora e eu
gostava muito de celebrar a Missa», responde frei João. «Nunca, nos meus dias»,
responde bruscamente o padre Maldonado que sai, fechando a porta atrás de si.
Insensibilidade
e incompreensão dos seus irmãos
Frei
João não guarda o menor ressentimento no seu coração; sofre, com certeza, pela
insensibilidade e incompreensão dos seus irmãos, mas desculpa-os. O carcereiro,
testemunha das suas amarguras de alma e de corpo, nunca o ouve queixar-se e,
mais tarde, liberto já do seu terrível encerramento, quando frei João descreve
todos os episódios dos nove meses de prisão, jamais alguém lhe ouviu uma
palavra de queixa contra os seus perseguidores; até os defende dizendo que
«faziam aquilo por pensarem estar na verdade». Porém, está convencido de que
tem de fugir, disposto a morrer na sua aventura, se for essa a vontade de Deus
- «Entregou a Nosso Senhor este seu negócio (da fuga) com todas as veras, tal
como o fazia todos os dias e pedindo que, se era da sua vontade, que ali
terminasse a sua vida, que ele abraçaria aquele cálice de boa vontade e que. se fosse servido noutra coisa, lho
manifestasse», cf. declaração do frei Inocêncio de S. André.
Na
oração, sente o impulso interior que o arrasta para a fuga, convencido que o
Senhor e Nossa Senhora o vão ajudar e toma essa decisão. Estamos nos dias da
oitava da festa da Assunção. Frei João tem tudo preparado: desfez as mantas em
tiras, atou-as e coseu-as nas pontas umas às outras e 'tem em sua mão o gancho
de ferro da candeia que lhe emprestou o carcereiro num dos últimos dias. Já é
de noite: uma noite de luar límpido. O carcereiro leva-lhe o jantar, mas esqueceu-se
da água. Enquanto a vai buscar, frei João aproveita essa pequena ausência para,
tendo a porta aberta, desapertar as armelas do cadeado; terminada a refeição, o
guarda fecha a porta sem reparar em qualquer coisa de novo e vai-se embora. Não
conhecia a cidade de Toledo, ignora-se o itinerário de frei João.
Após
a fuga, frei João chega ao mosteiro de S. José, ao vê-lo, as monjas ficam
assustadas. Frei João manifesta à priora o seu medo de que os Calçados possam
chegar de um momento para outro à sua procura, e ela toma as devidas
precauções, de colocar outra irmã na roda que saiba guardar segredo da chegada
do fugitivo, com maior sigilo do que Leonor de Jesus, jovem ingênua e
inexperiente, e nomeia a irmã Isabel de S. Jerônimo. Pouco tempo depois,
aparecem dois frades do Carmo perguntando, muito discretamente, por um padre
da Ordem, chamado frei João da Cruz. Isabel de S. Jerônimo evita uma resposta
direta: “Maravilha será que possam encontrar algum religioso”. Os frades pedem
as chaves do locutório e da igreja, examinam tudo minuciosamente e vão-se
embora sem dizer palavra. Entretanto, frei João, dentro da clausura e rodeado
pelas monjas que o contemplam com assombro, vai contando, com voz muito sumida,
os episódios do cárcere e da fuga que elas, por sua vez, contarão depois nos
processos. Está lá até ao meio dia.
“Falava coisas sublimes de
Nosso Senhor”
As
monjas presenteiam-no quanto podem. Incapaz de suportar alimentos mais fortes,
pelo estado de extrema fraqueza em que se encontra, após nove meses a pão, água
e sardinhas, a irmã enfermeira, Teresa da Conceição, oferece-lhe umas peras
assadas com canela. Outras limpam o hábito e, entretanto, ele veste uma batina
velha do capelão do convento. Por volta do meio dia, terminada a hora das
missas e fechada a porta da Igreja, frei João sai por uma pequena porta
interior que dá para a Igreja, e ali passa a tarde. Ele, da parte de fora das
grades do coro e as monjas da parte interior, vai recitando os poemas que
escrevera na prisão. A voz quase imperceptível do santinho de frei João, como
lhe chama a madre Teresa, ecoa no silêncio e na penumbra do recinto sagrado,
como um murmúrio dos anjos. Declara Irmã Constança da Cruz: «O Santo estava conosco, atrás da grade da
igreja e falava coisas sublimes de Nosso Senhor e de uma obra que tinha feito,
na prisão, em honra da Santíssima Trindade; era um gozo do céu ouvi-lo». Eis
o murmúrio dos anjos:
No princípio morava
O Verbo e em Deus vivia
E naquele amor imenso
Que de ambos procedia,
Nele sua felicidade
Infinita possuía.
O mesmo Verbo Deus era,
E o princípio se dizia.
Ele morava no princípio
e princípio não havia.
Palavras de grande gozo
O Padre ao Filho dizia,
De tão profundo deleite,
Que ninguém as entendia;
Somente o Filho as gozava
Pois a Ele pertencia.
Enquanto
frei João recita, lentamente, os versos, uma religiosa vai anotando-os.
Declara a Irmã Isabel de Jesus Maria: «Lembro-me também que, aquele tempo que o
tivemos escondido na igreja, recitou umas poesias que trazia de memória e uma
religiosa as ia escrevendo... ele mesmo as tinha feito... São três e todas
falam da Santíssima Trindade..., e começam: «No princípio morava — o Verbo, e
em Deus vivia...» - « Isto aconteceu,
quando eu era noviça em Toledo». Mais tarde, as monjas vão dizer que «era
uma alegria do céu ouvi-lo» - declara Irmã Constança da Cruz.
Peçamos
ao Santo Padre João da Cruz, que neste dia solene, alcance de Deus para o
Carmelo, para a Igreja e para cada um de nós, a perfeita comunhão com o Pai, o
Filho e o Espírito Santo, a fim de nos permitir adentrar no profundo deleite da
alma.
Oração: Ó Deus, que inspirastes
ao presbítero são João da Cruz, nosso pai, extraordinário amor pelo Cristo e
total desapego de si mesmo, fazei que, imitando sempre seu exemplo, cheguemos à
contemplação da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo. Amém!
SANTO PADRE JOÃO DA CRUZ,
intercedei por nós!
Estela
da Paz.
(Estela
Maria Teresa de Jesus, OCDS)
Comissão
de História
Comissão
de Espiritualidade
Ref.:
JESUS
SACRAMENTADO, CRISÓGONO DE. Carmelita Descalço. EDIÇÕES CARMELO. OEIRAS, Angola,
6.
Obras Completas de São João da Cruz, Editora vozes.
Petrópolis/RJ.
Catecismo da Igreja Católica.