XXX Congresso da OCDS da Província S.
José
Aparecida – SP – 18-21 de
Abril de 2013
Este
Congresso, 30º, pela primeira vez realizado fora do CTE de S. Roque, tem como tema Aproximar o céu. O fazemos com o Castelo
Interior ou Moradas, a obra literária mais importante de santa Teresa de
Jesus (1515-1582). Fazemos este percurso junto com toda a Ordem do Carmelo
Descalço que prepara-se para celebrar o V Centenário de nascimento de sua
fundadora em 2.015. Esta releitura tem a finalidade de redescobrir e buscar com
que também nós façamos a experiência da proximidade do Deus Trindade, que fez
morada em nossos corações. É um caminho de fé, por cuja porta Teresa entrou e
deixou-nos seu testemunho e convite a entrar neste Castelo pela “porta da
oração”.
INTRODUÇÃO GERAL AO LIVRO DAS
MORADAS DE
SANTA TERESA DE JESUS
Teresa
havia ensinado onde é o céu no Caminho de
perfeição:
“Pensais que importa pouco saber que coisa é o céu e onde se deve
procurar vosso Pai sacratíssimo? …
Já sabeis que Deus está em toda parte. Pois claro está que, onde está o
rei, está, como se diz, a corte, isto é, onde Deus está é o céu. …
Aquelas que puderem se recolher nesse pequeno céu de nossa alma onde
está Aquele que o fez, bem como à terra, e acostumar-se a não olhar nem estar
onde os sentidos exteriores se distraiam, acreditem que seguem excelente
caminho e que não deixarão de beber da água da fonte, pois o percorrerão em
muito pouco tempo…” (C 28, 1.2.5).
“Porque, tornada a terra céu, será possível fazer-se em mim a Vossa
vontade” (C 32,2).
No Castelo Interior Teresa faz um percurso rumo a este céu, à
interioridade de si.
Ao longo desta obra vamos descobrindo
algumas realidades de fé fundamentais,
que vão enriquecendo-se de outros sentidos e símbolos, luminosos, sensitivos e
até fruitivos.
Tais realidades de fé ou núcleos
temáticos são:
ü Deus está dentro da alma;
ü No seu centro;
ü Aí comunica-se plenamente à pessoa e opera maravilhas nela;
ü A pessoa deve entrar em seu interior;
ü Deve esforçar-se, até morrer a si mesma;
ü Para unir-se a Deus e ser transformada Nele;
ü Tudo acontece com
grande gozo, com o fim de estar em comunhão com Deus-Trindade e servir aos demais.
Estes núcleos temáticos vão evoluindo
ao longo do livro:
ü A presença de Deus no interior
da alma manifesta-se de maneira progressiva e em crescendo, das primeiras às
sétimas Moradas.
ü O contato com o centro aumenta o número de frequências à
medida que se aproxima das moradas místicas.
ü A comunicação de Deus à pessoa e sua atuação salvífica
intensificam-se a partir das quartas moradas; há uma coerência na doutrina
teresiana sobre a oração mística como obra exclusiva de Deus e que a pessoa tem
que ter uma atitude passiva diante das graças que recebe; porém deve
corresponder com um maior empenho em praticar a vontade de Deus.
ü A necessidade de entrar no interior vai decrescendo das
primeiras moradas às sétimas e cai bruscamente a partir das quartas moradas.
ü O esforço, até morrer,
decresce das primeiras às sextas moradas e vai sendo substituído pela ação
arrebatadora de Deus. A necessidade de
se morrer a si mesmo aumenta das
segundas moradas às quintas, onde o verbo morrer
aparece com insistência; são as moradas da união, e para consegui-la, é
necessário morrer definitivamente a si mesmo e deixar que Cristo viva em si.
ü A união e transformação da alma em Deus cresce muito à medida que a
alma aproxima-se das sétimas moradas, quando acontece o matrimônio espiritual.
ü O gozo no relacionamento da alma com Deus cresce muito à medida que a
alma aproxima-se da sétima morada, porque o maior gozo coincide com a máxima
doação de Deus e, consequentemente, da
pessoa ao seu serviço.
Cada um dos núcleos temáticos
constitui-se em uma série de imagens
que apresentam-se de forma repetitiva:
ü A alma na graça, em
cujo centro vive Deus, é vista por Teresa de Jesus como castelo, diamante, cristal,
pérola, paraíso, árvore, fortaleza e casa.
ü Deus, que vive na alma,
é simbolizado como Rei, sol, fonte, hóspede, bom vizinho, amigo,
Bom Pastor, braseiro, esposo.
ü O centro da alma,
identificado com a morada de Deus, é significado por: morada principal, palácio,
aposento real, terra, adega de vinho, casulo, casa, estância, céu, Templo de
Deus, castelo interior. A partir da
terceiras moradas Teresa cunha a expressão para designar o centro: o interior. Esta expressão vai se
reiterando e reforçando nas moradas
seguintes: o profundo, fundão interior, o
íntimo das entranhas, a essência da alma, o mais íntimo da alma, o centro mui
interior, o essencial da alma.
ü A comunicação de Deus à
pessoa e a graça divina são simbolizadas pela água e pela luz, sendo esta especialmente símbolo de
Cristo-Luz.
ü O processo
morte-transformação que experimenta a alma antes de unir-se definitivamente com
Deus é simbolizado pelo bicho da seda,
que transforma-se em borboleta.
ü O processo de interiorização
é simbolizado pelo caminho.
ü A partir das quintas
moradas, nas quais começa a oração mística, o amor de Deus é simbolizado
progressivamente pela faísca ou fagulha,
a flecha ou seta, o fogo e a chama. A união e o êxtase místico pelo vinho.
ü A união plena da alma
com Deus é significada pelo simbolismo nupcial em três fases a partir das
quintas moradas: “vistas” ou união
simples, desposório ou união plena e matrimônio espiritual ou união
transformante.
É um
processo de fé, como escreveu Bento XVI:
“É
possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração
se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica
embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início no
Batismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai,
e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da
ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer
participantes da sua própria glória quantos crêem n’Ele (cf. Jo 17, 22) (Bento
XVI, Porta fidei, 1).
Vou
procurar dar uma visão geral do Castelo Interior em 3 momentos.
1) Os aspectos gerais do livro: o contexto
histórico e pessoal que vive a autora quando o escreve e a estrutura interna da
obra.
2) Num
segundo momento procuro ressaltar quais são as virtudes mais importantes e estão presentes ao longo de toda a obra
(como as barras de ferro que estão dentro das colunas e vigas de concreto de um
edifício ou construção e lhe dá solidez e sustento).
3) Concluindo, procuro lembrar alguns
aspectos importante do livro das Moradas para nós hoje.
1. Um olhar ao tempo e ao momento da história pessoal de Teresa
Teresa
nos diz a data de início e de fim da redação do livro das Moradas: “E assim começo a cumpri-la (a obediência)
hoje, dia da Santíssima Trindade, ano 1577 (Era o dia 2 de junho) … Acabou-se de escrever isto..., ano 1577,
véspera de santo André (29 de novembro).
Do
ponto de vista da história pessoal de Teresa, ela acabava de defrontar-se com a
Inquisição de Sevilha (1575-76), está no Carmelo de Toledo, onde praticamente e
de fato encontra-se encarcerada, tendo que deixar de fundar conventos por causa
da perseguição que a reforma descalça está sofrendo. Escreve nas Fundações:
Trazem-me uma ordem dada no Definitório
(Capítulo Geral de Placência, Itália 1575) para que não só deixasse de fundar
outras casas, mas que também por motivo algum deixasse o convento que tive
escolhido para morar, que é como estar encarcerada
(27,20).
Sofre, ela e a comunidade de Sevilha, de
calúnias e difamações. Havia escrito a Maria de S. José: Muito desgosto me deu N. Pe. estar apurando os ditos contra nós,
especialmente por serem tão desonestos; são disparates, e é melhor rir-se deles
e deixar falar[1].
Havia escrito antes sobre de que lhes acusavam:
atavam os pés e as mãos das monjas
e açoitavam-nas; aprouvesse a Deus que fosse só isso. Sobre este negócio tão
grave, outras mil coisas[2].
E na carta mais famosa sobre o assunto, ao rei Filipe II, para colocá-lo a par
do acontecia: que procuram agora difamar
estes mosteiros, que dizem coisas
monstruosas, testemunhos tão
infamantes[3].
A obra de reforma de Teresa passa pelos momentos mais difíceis da
sua história; afirma categoricamente: começaram
grandes perseguições muito repentinamente..., a ponto de acabar com tudo[4].
Morreu o núncio de Sua santidade, Nicolau Ormaneto a 18 de junho de 1577. No
fim de agosto já chegava em Madrid o seu sucessor, Filipe Sega. Escreve Teresa:
Morreu um núncio santo, que favorecia
muito a virtude e por isso estima os descalços. Veio outro, que parecia enviado
por Deus para nos exercitar no padecer [5]. Se
em setembro de 1576 escreve radiante a Maria de S. José, que Deus nos libertou do Tostado, sem dúvidas,
com a vinda do novo núncio, o Tostado apresenta-se constantemente como uma
ameaça para Teresa e sua obra. Na mesma carta manifesta Teresa que vinha contra os descalços e contra mim. Ele vai ordenar a prisão de São João da Cruz,
confessor da Encarnação em Ávila[6].
Por ordem dele procede-se a eleição da priora da Encarnação, com o único
intuito de que não dessem o voto a mim,
escreve Teresa[7].
Eleição amarrotada, como a chama
Teresa, porque a cada voto que entregavam
ao Provincial, ele as excomungava e maldizia, e, com o punho fechado amarrotava
os votos e os socava e os jogava no fogo.
A tudo isso se refere quando escreve falando dos negócios revirados[8]. Sobre isso projeta um olhar de fé e de
esperança. Queria o Senhor colocar-nos em
aperto para fazer dar tudo certo[9]. Um
ano depois escreverá ainda: Causa-lhe
espanto a vinda do Tostado? Deixe Nosso Senhor agir, pois se trata de sua
glória, e de tudo vai tirar proveito. A mim não causa nenhuma pena, porque vejo
que todos os nossos negócios parecem ir contra corrente, e vão melhor do que
outros aparentemente levados pelo curso natural[10]. Promove uma cruzada de orações entre suas
monjas. É mister encomendar muito ao
Senhor os assuntos da Ordem[11].
Passando
ao contexto pessoal de Teresa quando
recebe a ordem de escrever, temos que ela encontra-se com a saúde debilitada e
queixa-se de dores de cabeça: por ter a
cabeça já a três meses com um zumbido e uma fraqueza tão grandes que mesmo dos
negócios indispensáveis escrevo a custo[12]; tinha
medo de ficar inabilitada para tudo[13]. Estou ruim da cabeça, o zumbido tornou-se muito penoso[14]; os
negócios e a saúde me obrigam a deixá-lo quando está na melhor parte[15].
Tudo isso explica a secura da
inspiração e a dificuldade que sofre ao
escrever. Não atinava com o que dizer,
nem sabia como começar cumprir a obediência[16].
Apesar de sua saúde
estar em péssimas condições, do ponto de vista espiritual Teresa vive o período
de maturidade humana, de experiência e de doutrina. Recebera a ordem de
escrever no fim de maio de 1577: estava então com 62 anos de idade e pouco mais
de 40 anos de vida religiosa. Havia escrito o livro da Vida 14 anos antes, se
dedicado aos trabalhos de fundação de mosteiros e de redação de livros; é um
período de grande experiências místicas. Desde
o ano de 1572 encontra-se no estado de matrimônio espiritual, que narrará pela
primeira vez nas 7M. neste período tem mais luz sobre a vida interior, como diz
ao iniciar a exposição das moradas místicas: Tenho agora um pouco mais de luz acerca destas mercês concedidas por
Deus a algumas almas[17];
parece-me ter recebido do Senhor mais
luzes para o entender[18].
Logo após ter terminada a redação escreve ao Fr. Salazar expressando o seu
parecer sobre a obra: É muito mais lindo
(o livro das Moradas em relação ao da Vida), porque o ourives que lavrou a prata não sabia muito naquele tempo[19].
Escreve ao Fr. Gracián: A meu parecer
sobre esse leva vantagem o que escrevi depois (Moradas)...; pelo menos tinha mais experiência quando
escrevi este último[20].
O mistério trinitário é o centro de suas experiências, como mostram as Contas de consciência, que desde 1571
narram a abundante experiência trinitária, base do Livro de Moradas.
A decisão de escrever vem de Gracián,
que conta-nos uma conversa com Teresa no
locutório do convento de Toledo. Em certo momento exclama Teresa: Oh que bem está escrito sobre esse ponto no
Livro da minha Vida que está com a Inquisição! Eu lhe disse: Como não
podemos tê-lo, lembre-se do que puder e de outras coisas, e escreva outro livro
e diga a doutrina comum, sem nomear a quem lhe tenha acontecido o que nele
disser. E assim lhe ordenei que escrevesse este livro das Moradas... O
próprio Fr. Gracián conta-nos o fato em outra ocasião e com mais detalhes: Estando em Toledo, eu a convenci... com
muita importunação que escrevesse o livro... que se chama As Moradas. Ela me
respondeu... para que querem que eu escreva? escrevam os letrados que
estudaram, pois sou tonta e não sei o que digo; tomarei uma palavra por outra,
vindo a causar dano. Há muitos livros sobre oração: por favor deixem-me fiar na
roca, seguir os atos do coro e os ofícios religiosos com as outras irmãs, que
não sou feita para escrever, nem tenho saúde ou cabeça para isso[21].
A conversa aconteceu em fins de maio.
No dia dois de junho Teresa iniciava a obra. Passaram-se dois dias necessários
para adquirir folhas de papel, pena... E mergulha imediatamente na questão: veio-me à mente... considerar nossa alma
como um castelo[22].
Focalizado está o tema e o meio para expressá-lo: a comparação alma-castelo.
Teresa apresenta-nos nas primeiras linhas a
"comparação" que "lhe veio à mente" para "começar com
alguma base": considerar nossa alma
como um castelo[23].
Fr. Tomás Álvares diz: cremos poder
assegurar com absoluta certeza, que verdadeiramente o livro das Moradas é fruto e termo da reflexão
pessoal teresiana e da inspiração mística[24].
Teresa jamais nos oferece a explicação
detalhada do símbolo. Está presente em todas as suas páginas, porém como que em
penumbra, e às vezes vem à tona, por isso recorre a outras comparações mais
significativas para explicar o ponto concreto do desenvolvimento espiritual. A comparação sugere luminosidade, amplidão,
folga, extrema sobriedade, interioridade e que devemos considerar a comparação
em forma esférica: "... umas no alto, outra em baixo; outras aos lados, e
no centro, no meio está a principal"[25].
"Não deveis imaginá-los uns depois dos outros, enfileirados"[26].
Esta concepção esférica tem a sua importância doutrinal: a oração será vista
como um movimento de interiorização. O ser humano pode viver na superfície ou
nas profundezas de si, onde encontra a verdade e a Trindade.
Aos elementos
da comparação Teresa dá escassa importância. Assinalamos brevemente o seu
equivalente.
a. elementos essenciais:
castelo o
homem
cerca do castelo o corpo
porta a
oração
moradores Deus e o homem
Moradas diferentes
modos do homem viver o seu relacionamento com Deus
b. elementos acidentais
guardas, alcaides
mordomos, mestres-salas potências da alma[27]
répteis e animais,
coisas peçonhentas, inimigos da alma[28]
demônios fora do castelo zona de escuridão e morte
Concentra-se
mais nos protagonistas: Deus e o ser humano. Juntamente
com este símbolo estrutural aparecem
no livro outros símbolos funcionais
que expressam determinado momento ou uma situação do processo espiritual:
as duas fontes »»» experiência
da graça[29]
o bicho da seda »»»
transformação em Cristo[30]
o matrimônio »»» processo de união:
"vistas"
- conhecer-se - relacionamento pessoal, 5M.
desposório
- enamoramento - promessa firme de matrimônio, 6M.
matrimônio
- comunhão profunda, 7M.
Duas são as principais funções do símbolo em Teresa:
função expressiva: procura revelar, desvelar o mistério
função mistagógica: procura comunicar e provocar a experiência.
O que pretende comunicar-nos através do
símbolo do castelo? Qual o conteúdo do livro?
Se nos atemos às palavras do Prólogo a resposta é simples: coisas de oração. Mais adiante precisa
melhor o seu pensamento: Mas (nos livros
que tratam de oração) só nos exortam sobre o que podemos fazer por nós mesmos.
Pouco se fala dos prodígios que Deus realiza nas almas, quero dizer, por via
sobrenatural[31].
O que Deus realiza, suas ações salvíficas: eis o tema de Teresa.
No princípio do livro adverte que pela
comparação do castelo quer fazer-nos
entender alguma coisa das mercês que Deus concede às almas[32].
Terminando o livro, no epílogo, volta
a se expressar com clareza: "Se achardes algo de bom na ordem que segui para vos dar notícias dele[33].
E sete dias depois de tê-lo concluído escreve ao Fr. Salazar sobre a sua
recente obra: "Trata do que Ele é"[34].
Em Moradas assistimos ao desvelamento progressivo, linear de Deus que Teresa
percebeu em sua vida.
E à luz de Deus, vê-se o ser humano,
ordena-se o seu comportamento e apresenta-se a vida espiritual com um matiz
fortemente dinâmico, como relação interpessoal, atuada em Cristo. Em Cristo o
ser humano vai se revelando, à medida que avança no processo espiritual...
Cristo é a revelação de Deus e do ser humano e o seu "lugar" de
encontro[35].
Para a compreensão do processo espiritual, Teresa usa poucos
elementos, faz surgir o conceito de "moradas",
como estados diferentes da realização da amizade divino-humana.
São os
seguintes:
Deus
comunica-se na interioridade da pessoa. Esta comunicação de é uma
graça, um dom. Elemento místico:
Deus é uma presença viva e atuante em todo o processo da vida espiritual, das
primeiras às últimas moradas.
O homem
(a alma) é o “lugar” e o protagonista da aventura espiritual. Sua ação
e esforço ascético de busca é resposta à ação de Deus. O elemento ascético crescerá na medida em que
crescer a ação de Deus e a experiência da alma. Deste modo será maior nas
moradas místicas que nas ascéticas.
A oração-união,
como relacionamento é ponte de comunhão entre Deus e alma. O termo é a união
transformante. A graça recebida responsavelmente pela alma opera nela uma
transformação espiritual: positivamente,
situando seu relacionamento com Deus em diferentes planos de profundidade. No
duplo sentido, convergente: Deus atua na alma e ela acolhe e responde de um
nível de interioridade cada vez maior; negativamente, renunciando a setores superficiais
de seu ser e de sua vida até ficar "instalada" no "centro"
de si mesma, isto é, uma maneira de ser diante de Deus. Tudo isso - graça
recebida e resposta dada - permanece encerrado na palavra e no conceito
"oração", que significa o modo concreto de comunicar-se de Deus.
Em conclusão, em cada morada teremos:
· A ação de Deus (elemento místico)
· A resposta do homem (elemento ascético)
· A oração, combinação de ambos.
Oração, produz efeitos, quer morais (principalmente) quer psicológicos, que levam
a um comportamento novo da alma (conselhos).
A estrutura interna do Livro: três blocos, levando em conta a ação de Deus e
a do homem.
moradas ascéticas. Nelas predominam e emergem os esforços da alma para
responder às exigências da graça. Moradas
I-III.
morada de transição, ponte entre o
primeiro bloco e o terceiro, fronteiriças: conjugam e harmonizam a incipiente
vida mística e a obra ascética da alma. IV moradas
moradas místicas. A ação de Deus torna-se cada vez mais envolvente e
experienciável. Deus estabelece o ritmo
e toma a iniciativa. O homem experimenta a ação de Deus, responde. Moradas
V-VII.
Não existem moradas puramente ascéticas ou
puramente místicas. As mais fortemente ascéticas são as moradas místicas.
Ascética de melhor qualidade, ascética de pessoa mais do que de coisas.
Nas moradas místicas é particularmente
necessário distinguir entre a fenomenologia
mística (as diferentes graças místicas que Teresa descreve) e o conteúdo da mística. Teresa visa
decididamente o conteúdo ao contar a história dos fatos místicos pelos quais
Deus mostrou-se presente em sua vida.
2. Virtudes
essenciais no Castelo Interior de Santa Teresa
“Desse modo, irmãs, para que esse edifício tenha bons
alicerces, procure cada uma ser a menor de todas, …vendo como ou em que podeis
servi-las e dar-lhes prazer...
Assentareis pedras tão firmes que o vosso castelo não desabará” ( S. Teresa, 7 Moradas 4,8)
Veremos
aqui três virtudes em separado; porém elas são interligadas entre si, como a
estrutura de uma construção está interligada pelas barras de ferro presentes
nas colunas e vigas que a sustentam. Assim, humildade,
amor a Deus/ao próximo e obras-serviço são essenciais na
estrutura do Castelo, e ao mesmo tempo colunas que o sustentam em pé e garantem solidez ao
edifício.
2.1. Humildade
“Enquanto estamos nesta terra, não há coisa que
mais nos importe do que a humildade” (1 M
2,9).
No livro das Moradas, assim se exprime Teresa:
“Certa vez, pensando eu por que Nosso Senhor aprecia tanto a virtude da humildade, deparei logo... com o seguinte:
sendo Deus a suma Verdade, e a humildade,
andar na verdade…” (M 6,10,7). Para santa Teresa “humildade é andar na
verdade” (6 M,10,7).
“Deus é a suma Verdade”. Entendê-lo foi um dos
regalos secretos dados por Deus a Teresa
em seu desposório espiritual: “É revelado à alma como se veem todas as coisas
em Deus e como Ele as contém em Si... com grande clareza que só Ele é a verdade
que não pode mentir” (M 6,10,2.5).
Verdade das criaturas: em sua
dupla vertente de participada e própria. A verdade participada é todo o
bem que existe em nós: a criação mesma com toda a sua formosura e harmonia
admiráveis, a maravilha do ser humano com sua bondade e saber. Nossa verdade própria
é “de nada de bom proceder de nós; só o fazem a miséria e a insignificância. E
quem não entende isso anda na mentira” (M 6,10,7).
“Andar na verdade” é, pois, uma atitude, que
Teresa explicará com lógica segura: “deveremos ter sempre essa verdade como
guia... diante de Deus e das pessoas, de todas as maneiras possíveis,... em nossas obras, dando a Deus o que é Seu, e a nós
o que é nosso. Procuremos em tudo a verdade” (M 6,10,6).
No que diz respeito à oração entendida como amor e a humildade como verdade, a humildade
nascerá no caminho orante como atitude e fruto. Será uma exigência do amor orante e um fruto de sua
experiência. Nascerá do encontro com Deus, seja normal ou místico.
Teresa colocará na base da humildade o conhecimento próprio. Porém, em sua consecução, não
quer aprisionar o orante na própria negação; prefere que se confronte com Deus:
“Jamais chegamos a nos conhecer totalmente se não procuramos conhecer a Deus.
Olhando a Sua grandeza, percebemos a nossa baixeza; observando a Sua pureza,
vemos a nossa sujeira; considerando a Sua humildade,
constatamos como estamos longe de ser humildes” (M 1,2,9; 2,8).
Porém sempre será Cristo o mestre. Também do
próprio conhecimento humilde. Ele fará que não nos abatamos perante nossa
pobreza espiritual, mas que nos inunde de paz interior a descoberta de nossa
verdade: “Ponhamos os olhos em Cristo, nosso bem, e com Ele, bem como com seus
santos, aprenderemos a verdadeira humildade.
Isso nos enobrecerá o intelecto..., e evitará que o nosso conhecimento próprio
se torne rasteiro e covarde” (M 1,2,11).
A consciência de gratuidade é o termômetro da humildade. Este é o ensinamento de
Teresa: “Humildade, humildade!... A primeira coisa em que
vereis se sois humildes é não pensando que mereceis essas graças e gostos do
Senhor nem que os haveis de ter em vossa vida” (M 4,2,9). O saber que tudo é
dom gera em nós desejos de “amar a Deus sem interesse”, pois “não deixa de ser
de pouca humildade pensar que, por
nossos serviços miseráveis, haveremos
de conseguir coisa tão grande” (M 4,2,9).
O desposório espiritual é um ato de humildade de Deus: “Bendita seja Sua
misericórdia, que tanto se quer humilhar!” Ele “nunca se cansa de humilhar-se
por nós” (M 5,4,3). (cf.: Dic. S. Teresa, verbete Humildade)
Podemos ver as
seguintes características da humildade no Castelo:
·
O modelo de humildade é Deus e Cristo, os santos: 1 M 2,11;
·
Percebe que as boas obras que faz e que os outros fazem vem de Deus 1 M 2,5;
·
Está unida ao conhecimento próprio: 1 M 2,8; 1 M 2,9;
1 M 2,13; 3 M 2,2; 6 M 9,15; 6 M 10,7.
·
Alegra-se pelas graças que Deus concede aos outros: 1 M 1,3; 3 M 2,11; 5 M 3,11;
·
Não se inquieta diante dos períodos de aridez na oração:3 M 1,7; 3 M 1,9; 3 M 2,6
·
É virtude que faz avançar na
vida espiritual : 3 M 2,8; 7 m 4,8.
Critério de discernimento do progredir na vida
espiritual: 3 M 2,10; 4 M
1,6; 4 M 2,9; 4 M 3,5; 5 M 1,8; 6 M 3,16; 6 m 3,18; 6 M 4,16; 6 M 5,10; 6 M 8,10;
6 M 9,11; M ep. 2.
...............................
2.2. Amor-Caridade
O
centro da vida cristã é o amor a Deus e ao próximo ou caridade. Para Teresa é
necessário perceber o amor de Deus para estimular a amá-Lo; daqui e em
consequência decorre o amor ao próximo.
“O amor compreende
a totalidade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem
poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa
a eternidade. Sim, o amor é « êxtase »; êxtase, não no sentido de um instante
de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si
mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o
reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: « Quem procurar
salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus; afirmação
esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu
caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do
grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do
centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele,
com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em
geral” (Bento XVI, Deus caritas est,
6)
“A história do
amor entre Deus e o homem consiste precisamente no facto de que esta comunhão
de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso
querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de
ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a
minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus é mais
íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio. Cresce então o abandono em Deus, e
Deus torna-Se a nossa alegria (cf. Sal 73/72, 23-28)” (id, 17).
“Teresa
de Jesus capta perfeitamente o preceito do amor
a Deus e ao próximo, promulgado pelo Senhor (Mt 22,34-40). É sua doutrina
fundamental, que repete em todos os seus escritos e sintetiza admiravelmente em
Moradas: “A verdadeira perfeição é o amor
a Deus e ao próximo. Quanto mais fielmente guardarmos esses dois
mandamentos, tanto mais perfeitas seremos” (M 1,2,17). “Aqui, só duas coisas
nos pede o Senhor: amor a Sua
Majestade e ao próximo. É nisso que devemos trabalhar. Seguindo-as com
perfeição, fazemos a Sua vontade, unindo-nos assim a Ele” (M 5,3,7).” ( Ciro
Garcia, Teologia e espiritualidade da
Caridade, em Dic. de S. Teresa).
·
A fonte do
amor está em Deus/Cristo: 2 M 1,4; 5 M 3,12; 7 M 2,7;
·
Amor a Deus e ao próximo
estão unidos: 5 M 3,7; 5 M 3,8; 3,9;
·
O amor ao próximo é possível
de ser verificado nas obras: 1 M 1,3; 1 M 2,17; 1 M 2,18; 3 M 1,7;
·
O amor deve crescer: 3 M 1,5; 3 M 2,4; 2,7; 3 M 2,11;
·
A oração é amar muito: 4 M 1,6; 4 M 1,7; 4
M 1,11; 4 M 2,9; 4 M 3,8; 3,10;
·
As purificações do amor: 4 M 3,13; 5 M 2,6 ; 5 M 3,4; 5 M 3,6; 5 M 3,10.
·
Discernimento : 5 M 4,9: 5 M 4,10; 6 M 1,1; 6 M 2,4; 6M 4,15; 6 M 6,1; 7,4: 7,5; 6 M 7,6; 6
M 8,1; 6 M 8,4; 7 M 3,5; 3,9; 3,14; 4,6;
4,8; 4,9; 4,14; ; 7 M 4,15.
………………………………
2.3. Obras e
Serviços
Com estes termos, Teresa
ressalta a necessidade de que a oração
transforme-se em ações concretas de amor e de boas obras para com o
próximo, atendendo às suas necessidades. Com uma condição porém: devem brotar
da raiz que é Deus (cf.: 5 M 3,9). Dentre estas, o trabalho no cumprimento do dever, a
afabilidade, o sacrifício, o zelo apostólico - fome da glória de Deus -, a
prosseguimento da missão evangelizadora no serviço dos irmãos e na salvação das
almas. Isto mostra a santidade de uma
vida. É configuração a Cristo, no
serviço da Igreja e dos irmãos. Assim como o gesto simbólico de Maria que com seus
cabelos unge os pés de Jesus (7 M 4,13), ou como Jesus que faz de sua vida um
serviço aos outros, é o “servo de Javé”. Enfim , é “fazer-se escravo de Deus, marcado com o Seu
selo, o da cruz..., assim nos poderá vender como escravos de todo mundo, como
Ele próprio foi. Com isso não nos injuria, mas nos concede imensa graça”
(7,4,8). “Olhar as virtudes e ter por mais santa aquela que serve a Nosso
Senhor com mais mortificação, humildade e pureza de consciência” (6M 8,10).
·
As obras feitas em estado de
pecado não levam ao crescimento: 1 M 2,1.
·
Fé e obras da fé em
gratuidade; corresponder à vontade de Deus: 2 M 1,11 ; 3 M 1,2; 1,5; 1,6;
4 M 2,8; 5 M 3,1; 5 M 3,11; 5 M 4,11; 6 M 3,7; 6 M 8,4; 6 M 8,6; 6 M 10,6; 6 M
11,12; 7 M 1,1; 7 M 1,8;.
·
As palavras de Deus são eficazes e cumprem o
que dizem: 7 M 2,7; 7 M 3,2;
·
A perfeição espiritual leva
a servir e trabalhar por amor: 7M 3,3; 7M 4,6; 7 M 4,7
Concluindo…
* O livro das Moradas é o
testemunho da dignidade da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus e templo
vivo da SS. Trindade; narra a experiência pessoal de Teresa.
* É o testemunho do aspecto
relacional da pessoa, chamada à comunhão e amizade com Cristo, “divino e humano
junto” e por Ele com o Deus Trindade através do dinamismo da oração;
* Moradas é um testemunho
da graça do Batismo levada à plenitude: vive na “agradável
companhia” do Deus Trindade e no doar-se ao bem dos outros, em serviço gratuito
e amoroso a eles; Marta e Maria andam juntas.
* Humildade-verdade, amor a
Deus e ao próximo e obras-serviço, são como que as colunas vertebrais do
Castelo, que harmonizam e tornam fecunda a vida cristã de quem as vive
intensamente.
* A Obra é um convite a
encontrar a paz na “própria casa” na comunhão com o Deus Trindade no interior
de si, sempre presente. Assim não caímos
na distração estéril e na busca do supérfluo impostos pela sociedade consumista
(inclusive no âmbito eclesial e religioso).
Servem de conclusão as
palavras de Teresa:
“Em suma, irmãs minhas, concluo dizendo que
não edifiquemos torres sem alicerces sólidos, porque o Senhor não olha tanto a
grandeza das obras quanto o amor com que são realizados. E, desde
que façamos o que pudermos, Sua Majestade nos dará forças para fazê-lo cada dia
mais e melhor. Não nos cansemos logo. No pouco que dura esta vida — e talvez
seja ainda menos do que pensamos —, ofereçamos interior e exteriormente ao
Senhor o sacrifício que pudermos. Sua Majestade o unirá ao sacrifício que
ofereceu ao Pai na cruz por todos nós. Assim, conferirá a ele o valor merecido
pelo nosso amor, embora sejam pequenas as obras”
(7 M 4,15)
Bibliografia:
Santa Teresa de Jesus, Obras Completas. Loyola.
Concordancias
de los escritos de Santa Teresa de Jesús (2 vol). Roma 2000.
Tomas Alvarez, Dicionário de Santa
Teresa.
Maximiliano Herraiz García, Introdução às Moradas de Santa Teresa de
Jesus. Trad. Frei Antônio Perim
OCD. 1999.
Para reflexão:
1. Que significa para você que a pessoa humana possui
“grande dignidade de falar” até com Deus?
2. Qual a virtude que você pensa que é a mais importante
no livro das Moradas?
3. Que consequências para a vida em Comunidade podemos tirar do
Castelo ou Moradas de S. Teresa e desta
afirmação do Documento de Aparecida: “Uma
autêntica proposta de encontro com Jesus Cristo deve estabelecer-se sobre o sólido
fundamento da Trindade Amor. A experiência de um Deus uno e trino, que é
unidade e comunhão inseparável, permite-nos superar o egoísmo para nos
encontrarmos plenamente no serviço para com o outro. A experiência batismal é o
ponto de início de toda espiritualidade cristã que se funda na Trindade”
(n. 240).
4. Comente esta frase: “… concluo dizendo que não
edifiquemos torres sem alicerces sólidos, porque o Senhor não olha tanto a
grandeza das obras quanto o amor com
que são realizados. E, desde que façamos o que pudermos, Sua Majestade nos dará
forças para fazê-lo cada dia mais e melhor. Não nos cansemos logo” (S. Teresa 7
M 4,15).
Fr. Alzinir F. Debastiani OCD
[1] cf. Carta ao Fr.
Mariano de 28/02/77
[2] Carta a Maria Bautista
em 29/04/76.
[3] Carta de 18/09/77.
[4] F 28,1.
[5] F 28,3.
[6] Carta a Teutônio de
Bragança em 16/01/1578.
[7] Carta a Maria de São
José de 22 de outubro de 1577.
[8] 4M 2,1.
[9] Carta a Maria Bautista
de 29/04/1576.
[10] Carta ao Fr. Ambrósio
Mariano de 5/02/1577.
[11] Carta a Maria de São
José de 28/05/1577.
[12] Moradas, Prólogo, 1.
[13] Carta a Lourenço de
27-28/02/1577.
[14] Carta a Maria de São
José de 28/06/1577; cf. 4M 1,10.
[15] 4M 2,1.
[16] 1M 1,1.
[17] 4M 1,1.
[18] 4M 2,7.
[19] Carta 07/12/1577.
[20] Carta de 14/01/1580
(313).
[21]Delucidário do verdadeiro espírito..., cáp.6, página 16, em
BMC tomo 15, Editorial Monte carmelo, Burgos 1932.
[22] 1M 1,1.
[23] 1M 1,1.
[24] Tomás da Cruz (Álvarez), Sulla
dottrina della N.S.M Teresa nel libro delle Mansioni (note pro
auditoribus), Roma 1958 pág. 12-23.
[25] 1M 1,3.
[26] 1M 2,8.
[27] 1M 2,4.12-15.
[28] 1M 2,8.11; 1,6.
[29] 4M 2,2-6.
[30] 5M 2,2.
[31] 1M 2,7.
[32] 1M 1,3.
[33] 7M 4,23.
[34] Carta de 07/12/1577.
[35] Cf. Castro Secundino, Cristologia
teresiana, Ede, Madrid 1978, particularmente pág.s 73-144.
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