XXX Congresso da OCDS –
Provincia São José – Aparecida/SP 2013
Segundas
Moradas – Frei Wilson Gomes do Nascimento
Os que entram nas segundas
moradas são aqueles(as) que começaram a ter oração e compreendem a importância
de não parar nas primeiras moradas. Elas sabem dos perigos que correm ficando
estacionadas ou voltando atrás.
Nas segundas moradas os
orantes enfrentam duros combates. Perseverança e bons desejos são essenciais
para vencer.
Os combates, a “bateria” do
demônio, é “terrível” e acontecem de mil maneiras. Santa Teresa analisa a
diferença que há entre a luta nesta morada e na anterior:
_Na 1M é como um mudo que
não ouve, isto é, surdo-mudo.
_Na 2M ouvem os chamados de
Deus. Estes chamados são graças exteriores, assim eram chamadospelos Catecismos
da época, através de “palavras que se ouvem de gente boa ou sermões, ou as que
se leem em bons livros e muitas coisas que ouvis dizer que Deus usa para chamar,
ou então enfermidades, sofrimentos”. Além destes meios exteriores dos quais se
serve Deus como uma voz, há que assinalar as verdades que Deus lhes ensina
naqueles momentos em que estão na oração; ainda que seja frouxamente e sem
fervor. Deus considera muito esse tempo dedicado a conversar com Ele, para
estar com Ele. Deus sabe “aguardar muitos dias e anos, especialmente quando vê
perseverança e bons desejos” (2M 1, 3). A perseverança é o mais necessário aqui
e “com ela jamais se deixa de ganhar muito” (2M 1, 3).
_Na 1Mpor estar muda e surda
ou ao menos ouvir bem pouco, resistia menos aos embates do inimigo, “como quem
perdeu parcialmente a esperança de vencer”.
_Na 2M “andam os golpes e
artilharia de tal maneira que a alma não pode deixar de ouvir” pois o
entendimento está mais vivo e as potencias mais hábeis e despertas (2M 1, 3)
Esses golpes ou assaltos
resumem-se em: a) o demônio representa as coisas do mundo (cobras) e os
contentamentos dele como se fossem eternos ou quase eternos; b) lembra a estima
com que alguém é considerado no mundo; c) recorda os amigos e parentes; d) sugere
que a saúde corre o risco de se perder nos atos de penitência.
Diante de tanto barulho,
colocado pelo inimigo, para confundir a alma, impedi-la de ir adiante e para que
não persevere no bom caminho iniciado, ela pode contra-atacar com todas as suas
forças vivas: a razão, a fé, a memória,a vontade e o entendimento, que são
objetivamente suficientes e validas para que servindo-se delas combata e
triunfe do inimigo. Porém, a batalha é perdida pelo “costume nas coisas de
vaidade e ver que todo mundo age assim”, a fé ainda que nos fale e nos mostre o
que é melhor para nós, não desenvolveutodo seu poder e eficácia em nossa vida
“porque está tão morta que queremos mais o que vemos do que aquilo que ela nos
ensina”, e isto, mesmocontemplando no mundo “muita má ventura daqueles que vão
atrás destas coisas visíveis” (2M 1, 5).
Nem todas as pessoas passam
ou sofrem os mesmos ataques, nem com a mesma intensidade ou duração. Valorizadas
e cobiçadas pelo demônio são as pessoas que ele entende possuem qualidades “em
sua condição e costumes de ir bem adiante”. Nesse caso, juntará todo o inferno
para tirar do castelo a essa pessoa. Deve-se invocar a ajuda do Senhor para que
ilumine e fortaleça esta alma;o aproximar-se de boas companhias, não apenas
daqueles que se encontram nesta mesma moradaem que ela está, mas daqueles que
vê estãomais adiantados “será de grande ajuda e de tanto conversar com eles a
colocarãojunto consigo”. Deixar as más companhias é algo básico (2M 1, 6).
Para alcançar a vitória o
orante deveacima de tudo estar bem determinado, “com aviso”, a não deixar-se
derrotar, “porque caso o demônioo veja com uma grande determinação de que antes
perderá a vida, o descanso e tudo o que lhe oferece que voltar à peça anterior,
bem mais rápido o deixará”. Protótipo de quem quer ser bom combatente são os fortes
soldados de Gedeão. “Seja varão!”, decidido a enfrentar “todos os demônios”; e
das armas a serem usadas não há melhor que “a cruz”. Um modo de desdenharda
cruz é começar a “querer gostos na oração” e queixar-se das “securas” que se experimenta.
Nesta situação concreta,onde a pessoa se encontra cheia de imperfeições, esse
modo de comportar-se é uma falta de vergonha e comparada a uma construção, a um
edifício,é construir sobre areia. Assim Teresaaconselha: “Nunca vos aconteça,
irmãs; abraçai-vos com a cruz que vosso Esposo levou sobre si e entendei que
esta há de ser vossa empresa: a que puder padecer, que padeça mais por Ele e
será a mais liberada; o resto, como algo acessório, caso vos der o Senhor,
dai-lhe muitas graças” (2M 1, 6-7). O acessório aqui são os regalos e gostos na
oração. Deus sabe o que nos convém e não há razão para dar conselhos a Ele,
como se Ele não soubesse.
Quem começa a orar deve
procurar sobretudo: “trabalhar, determinar-se e dispor-se, com quantas
diligencias for possível, conformar a própria vontade com a de Deus... estaé a
maior perfeição que se pode alcançar no caminho espiritual. Quem mais
perfeitamente viver assim, mais receberá do Senhor e mais adianteestará neste
caminho” (2M 1, 8).
Nem trabalhos, nem securas,
nem tentações, nem quedas devemser suficientes para desanimar de “procurar ir
adiante” (2M1, 8-9).
A paz deve ser procurada na
própria “casa” por todos para cessar a guerra: “aos que não começaram a entrar
em si e aos que começaram” (2M1, 9).
Atenção às recaídas: confiar
na misericórdia de Deus é o mais necessário e lembrar sempre “não deve começar
a recolher-se com violência, mas com suavidade, para perseverar num
recolhimento mais duradouro e contínuo”. Comviolência o recolhimento não dura.
Voltar atrás no caminho é
muito ruim; logo alguém pensará: “seria melhor nem começar e ficar fora do castelo”
(2M 11). Teresa responde a esta questão dizendo: quem anda no perigo nele
perece, estar fora do castelo é o perigo dos perigos e a perdição em ato.
Anteriormente já havia dito: “a porta para entrar no castelo é a oração” (1M 1,
7; 2M 1, 11). O horizonte, a união deste princípio-porta de entrada em si pela
oração, com a ascensão ou desembocadura na morada eterna é aqui revelado pela
Santa tal como ela o concebe e o integra em todo itinerário espiritual: “pois
pensar que vamos entrar no céu e não entrar em nós mesmos, conhecendo-nos e
considerando nossa miséria e o que devemos a Deus, pedindo-lhe muitas vezes
misericórdia é desatino” (2M 1, 11). Nas Segundas Moradas, Santa Teresa coloca
temas e atividades ou vivencias de oração e de vida espiritual prática. Em
definitivo, quem não vive a oração está como que desvinculado de Cristo,
mediador, caminho e escada para o Pai, então se torna claro que não pode subir
ao Pai (2M 11).
Bibliografia:
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