segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

SOLENIDADE DE SÃO JOÃO DA CRUZ, PRESBÍTERO, DOUTOR DA IGREJA E NOSSO PAI

 


A FÉ NA PRIMOROSA OBRA CHAMA VIVA

 Ao celebrar a festa de São João da Cruz, neste dia, queremos agradecer a Deus, que em sua suma bondade e amor nos concedeu a graça de termos como reformador do Carmelo Descalço, ao lado de santa madre Teresa de Jesus, este mestre na fé e na vida interior. Sobretudo, agradecermos e rogarmos que ele, o santo da Chama Viva de Amor, como pai na fé sempre nos inspire a buscar em suas inefáveis obras, a doutrina do caminho de subida ao Monte que é o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus.

 Ao longo de nove dias, meditamos o “Mistério do Amor Trinitário”, deixando-nos conduzir para o sentido de retorno ao “essencial” de nossa vida cristã-carmelita, e à essência de nosso carisma. O intuito esteve e permanece sendo o fortalecer nossa identidade, para assim dar respostas concretas às motivações da doutrina que norteiam nossa fé e nosso chamado, “Vivemos numa época, que alguns compararam ao exílio. Como Israel, que nesse período de sua história se encontrou despojado de todas as suas seguranças: o templo, lugar da presença de Deus (...) ponto de referência de sua identidade como nação (...) também, perdemos muitos pontos de segurança que tínhamos num passado próximo. Deu-se lugar à busca, à incerteza, à pluriformidade, ao desconcerto”. (Voltar ao Essencial. Documento Capitular, 2003)

 Aqui pretendemos adentrar na primorosa obra do santo, que é Chama Viva de Amor, por acreditar que também São João da Cruz alegrava-se intimamente lendo-a, também por perceber que nesta, como também no Cântico Espiritual, está a mais límpida e clara retratação de sua alma; talvez porque eram os livros espirituais que mais bem lhe faziam, que melhor podia pô-lo mais em contato com Deus, como aquelas páginas de seu espírito. São João realizou esta redação nos últimos anos de sua vida, quando mais do que nunca era "celestial e divino", redação dedicada a sua filha espiritual Dona Ana de Peñalosa. Ao ler esta última obra de São João da Cruz, podemos pensar que estamos presenciando a glorificação de sua alma divinizada. O céu parece abrir-se e vislumbramos a glória de que será inundada na outra vida, face a face com a Santíssima Trindade, a alma que aqui amou a Deus sobre todas as coisas. Poderíamos dizer que a "Chama" é a epifania desse mistério sobrenatural, que os olhos não podem ver, nem ouvidos ouvir e que só o coração sente e conhece: o mistério da transformação da alma na Santíssima Trindade. O Senhor generosamente o antecipa a quem, como São João da Cruz, renunciando a tudo, Sabe esperar tudo do Tudo.

 “Não é para admirar faça Deus, tão altas e peregrinas mercês, às almas que lhe apraz regalar. Na verdade, se considerarmos que é Deus, e que as concede como Deus, com infinito amor e bondade, não nos há de parecer fora de razão”. Suas próprias palavras nos afirmam que se alguém o amar, o Pai, o Filho e o Espírito Santo virão fazer nele sua morada (Jo 16,23).  

(Prólogo2)

 A Trindade é um mistério de fé em sentido estrito, um dos «mistérios ocultos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados lá do alto». Os cristãos são batizados «em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 19). Batizados «em nome» do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e não «nos nomes» deles porque não há senão um só Deus – o Pai Omnipotente, o Seu Filho Unigênito e o Espírito Santo: a Santíssima Trindade - centralidade mistérica da fé e da vida cristã, sendo o mistério de Deus em si mesmo, a fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na «hierarquia das verdades da fé». (Cf. CEC 237.232-234).

 A concepção de Deus expressa em Chama viva de amor assume o sentido trinitário. Enquanto em Cântico espiritual, insiste-se na união com o Verbo, Filho de Deus e em Subida do Monte Carmelo, na imitação de Cristo, Chama viva de amor se centra na atuação da Santíssima Trindade junto à alma em seu processo de união mística: “Não havemos de considerar inacreditável que a uma alma já examinada, provada e purificada no fogo das tribulações e trabalhos, e por grande variedade de tentações, e achada fiel no amor, seja recusado nesta vida o cumprimento da promessa feita pelo Filho de Deus quando disse: se alguém o amasse, a este viria a Santíssima Trindade para estabelecer nele a sua morada (Jo 14,23). E isto significa para a alma ter o entendimento divinamente ilustrado na sabedoria do Filho, a vontade inebriada de deleite no Espírito Santo, absorvendo-a o Pai, forte e poderosamente, no abraço e abismo de sua doçura. (Ch 1,15). Portanto, achamos em Chama Viva de Amor muitos elementos doutrinais repetidos, ou resumidos de Subida e de Noite Escura; também, a doutrina da noite, a doutrina da passagem da meditação para a contemplação. Isto acontece principalmente em Chama 3.

 

"Oh! Lâmpadas de fogo

Em cujos resplendores

As profundas cavernas do sentido,

que estava escuro e cego,

Com estranhos primores

Calor e luz dão junto a seu Querido!"

(Canção 3)

 

A partir dos estudos de Karol Wojtyla, nosso São João Paulo II, em Chama 3 pretendemos reconhecer pontos importantes sobre a fé na primorosa obra do santo padre João da Cruz. Pois, através desta obra torna-se fácil reencontrar a profunda teologia sanjoanista da fé. Por exemplo, em Chama 3,48 nos diz: "Deus, a quem o entendimento se encaminha, excede ao próprio entendimento; e assim é incompreensível e inacessível ao entendimento; portanto, quando o entendimento vai entendendo, não vai se aproximando de Deus, antes vai se afastando. E assim, antes se há de afastar o entendimento de si mesmo e de sua inteligência para se aproximar de Deus, caminhando na fé, crendo e não entendendo. E dessa forma o entendimento chega à perfeição, porque pela fé e não por outro meio se une a Deus [...]. E o ir adiante o entendimento é caminhar cada vez mais na fé, e assim é caminhar mais na obscuridade, porque a fé é trevas para o entendimento". E, portanto, é necessário "que não se empregue em inteligências distintas". 

O DOM DE DEUS: "DÁ A DEUS O PRÓPRIO DEUS EM DEUS". 

A alma age "em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só". (Ch 3,78) São João nos esclarece: "[...] sendo ela sombra de Deus por meio desta transformação substancial, age ela em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só. Logo, como Deus se dá a ela com livre e graciosa vontade, assim também ela, tendo a vontade tanto mais livre e generosa quanto mais unida a Deus, faz o dom de Deus ao mesmo Deus em Deus, e esta dádiva da alma a Deus é total e verdadeira. Porque a alma vê então que Deus verdadeiramente é seu, e que ela o possui com possessão hereditária, com direito de propriedade, como filha adotiva de Deus, pela graça concedida por Ele ao dar-se a si mesmo a ela, e que, como coisa sua, o pode dar e comunicar a quem ela quiser, por sua livre vontade; assim a alma o dá a seu querido, que é o mesmo Deus que se deu a ela, e nisto paga a Deus tudo o que lhe deve, porquanto voluntariamente lhe dá tanto quanto dele recebe". (Ch 3,78) Toda esta concepção relacional se fundamenta sempre em um duplo elemento: a comunicação da graça e a força do amor. A alma se faz "Deus por participação", e então possui participativamente a Deus, e retribui à vontade, em recíproco amor, o que do Amado recebeu: o dom de Deus: "dá a Deus o próprio Deus em Deus". O sopro do Espírito Santo é quase contínuo no estado de transformação. 

O DOM DE DEUS: "DÁ A DEUS O PRÓPRIO DEUS EM DEUS". 

Que dá a alma a Deus? Responde-nos o santo: "[...] sendo ela sombra de Deus por meio desta transformação substancial, age ela em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só. Logo, como Deus se dá a ela com livre e graciosa vontade, assim também ela, tendo a vontade tanto mais livre e generosa quanto mais unida a Deus, faz o dom de Deus ao mesmo Deus em Deus, e esta dádiva da alma a Deus é total e verdadeira. Porque a alma vê então que Deus verdadeiramente é seu, e que ela o possui com possessão hereditária, com direito de propriedade, como filha adotiva de Deus, pela graça concedida por Ele ao dar-se a si mesmo a ela, e que, como coisa sua, o pode dar e comunicar a quem ela quiser, por sua livre vontade; assim a alma o dá a seu querido, que é o mesmo Deus que se deu a ela, e nisto paga a Deus tudo o que lhe deve, porquanto voluntariamente lhe dá tanto quanto dele recebe". (Ch 3,78) 

"A COMUNICAÇÃO DA GRAÇA E A FORÇA DO AMOR" 

Na concepção relacional, filial e conjugal ao mesmo tempo, se fundamenta sempre em um duplo elemento: a comunicação da graça e a força do amor. A alma se faz "Deus por participação", e então possui participativamente a Deus, e retribui à vontade, em recíproco amor, o que do Amado recebeu: o dom de Deus: "da a Deus o próprio Deus em Deus". O sopro do Espírito Santo é quase contínuo no estado de transformação. De fato, quem dá é a alma, incendiada pelo sumo amor; já unida a Deus plenamente, não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz a vontade divina. Por conseguinte, por todo seu ser não corre mais do que amor, e só se ocupa em amar uma vez que chegou à perfeição de união transformadora, igual à vontade divina; amar a Deus, devolvendo-lhe amor por amor - o amor participado ou recebido - de modo divino, sob a moção do Espírito Santo. Estamos dentro da mística 'trinitária', que já havíamos vislumbrado em Cântico: "[...] o Espírito Santo [...] com aquela sua aspiração divina levanta a alma com grande sublimidade e a informa e habilita para que ela aspire em Deus a mesma aspiração de amor que o Pai aspira no Filho, e o Filho no Pai, e esta aspiração é o próprio Espírito Santo que também aspira a alma, no Pai e no Filho, na dita transformação, para uni-la consigo". (Cântico 39, 3) 

TRANSFORMAÇÃO DO ENTENDIMENTO, VONTADE E MEMÓRIA EM CHAMA. 

As frases transcritas foram tiradas do texto maior, no qual descreve detalhadamente a união, consumada na transformação do entendimento, vontade e memória. Conserva aqui a divisão tripartida que já conhecemos. Mas, se compararmos este texto com o de Noite Escura II 4,2, que já submetemos a análise, o de Chama é muito mais forte e expressivo; na realidade, anuncia a união consumada e não só sua dolorosa preparação através da noite purificadora. Porém, estamos ainda no caminho, e por isso na área da fé. Devemos recordar para não perder de vista as suculentíssimas palavras: "pela união seu entendimento e o de Deus é todo um só". E talvez não seja supérfluo recordar também o que diz me Subida II 29,6 acerca da moção do Espírito Santo e o que declara em Cântico sobre a "substância apreendida", que o entendimento possível experimenta e na qual goza e descansa.

METÁFORA DAS CAVERNAS. Citemos, por último, a seguinte passagem, que nos explica a metáfora das 'cavernas': "Estas cavernas - diz - são as potências da alma: memória entendimento e vontade; as quais são tanto mais profundas quanto mais capazes são de grandes bens, pois não se enchem com menos que o infinito. Pelo que elas padecem quando estão vazias, podemos avaliar, de certo modo, quanto gozam e se deleitam quando estão cheias de Deus, pois por um contrário se esclarece o outro. Quanto ao primeiro, notemos que estas cavernas das potências, quando não estão vazias, e purificadas, e limpas de toda afeição de criatura, não sentem o grande vazio de sua profunda capacidade". (Ch 3,18) 

"A ABERTURA DA ALMA AO INFINITO" 

Que profundidades do espírito humano! Capacidade imensa das potências superiores, capacidade do infinito: eis aí a raiz e o fundamento metafísico que serve de sustento às virtudes teologais! Porém é necessário, para que se dê essa união com o Infinito, que primeiro a almas e purifique e se despoje de todo o finito, limitado, particular e distinto. A abertura da alma ao Infinito constitui a tarefa peculiar das virtudes teologais que, ao mesmo tempo, enchem a alma da Divindade participada. A doutrina fundamental do Doutor Místico sobre as virtudes teologais, exposta em Subida II 6, corresponde a este conceito das potências: devem se pôr em 'vazio e trevas' para unir a alma a Deus. A purificação se ordena à união. E nela está se personificando o princípio da Subida I 4, que afirma a impossibilidade de que duas formas totalmente diferentes coexistam ao mesmo tempo em um sujeito. O entendimento é abismo profundo, "caverna" sedenta: " [...] seu vazio é sede de Deus, e esta é tão grande quando o entendimento está disposto, que Davi a compara à do cervo [...]; e esta sede é das águas da sabedoria de Deus, que é o objeto do entendimento". (Ch 3,19) 

Já dissemos em outro momento, e voltamos a repetir que, Chama Viva é a epifania do mistério sobrenatural escrito e inspirado a São João da Cruz, que os olhos não podem ver, nem ouvidos podem ouvir, e que só o coração sente e conhece (cf. Is 64,4), que é o mistério da transformação da alma na Santíssima Trindade. O Senhor generosamente o antecipa a quem, como São João da Cruz, renunciando a tudo, sabe esperar tudo do Tudo. Que do vale de nossa miséria, sintamos a atração dos altos cumes, por onde passeia o espírito do místico carmelita, encerrando e fazendo de nossa oração o poema de São João da Cruz:

 

Canção I

Oh! Chama de amor viva

que ternamente feres

De minha alma no mais profundo centro!

Pois não és mais esquiva,

Acaba já, se queres,

Ah! Rompe a tela deste doce encontro.

 

Canção II

Oh! Cautério suave!

Oh! Regalada chaga!

Oh! Branda mão! Oh! Toque delicado

Que a vida eterna sabe,

E paga toda dívida!

Matando, a morte em vida me hás trocado.

 

Canção III

Oh! Lâmpadas de fogo

Em cujos resplendores

As profundas cavernas do sentido,

que estava escuro e cego,

Com estranhos primores

Calor e luz dão junto a seu Querido!

 

Canção IV

Oh! Quão manso e amoroso

Despertas em meu seio

Onde tu só secretamente moras:

Nesse aspirar gostoso,

De bens e glória cheio,

Quão delicadamente me enamoras!”

 

Oração: Ó Deus, que inspirastes ao presbítero são João da Cruz, nosso pai, extraordinário amor pelo Cristo e total desapego de si mesmo, fazei que, imitando sempre seu exemplo, cheguemos à contemplação da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!

 SANTO PADRE JOÃO DA CRUZ,

 intercedei por nós!

 

 

Estela da Paz.

(Estela Maria Teresa de Jesus, OCDS)

Comissão de História

Comissão de Espiritualidade

 

 Ref.:

Karol Wojtyla A DOUTRINA DA FÉ SEGUNDO SÃO JOÃO DA CRUZ. Tese: L.2, C.2.

Catecismo da Igreja Católica.

Bíblia Sagrada.

“Ser carmelitas Descalços hoje”. Declaração carismática, 2019.

CAPÍTULO GERAL DOS CARMELITAS DESCALÇOS. ÁVILA – 17 de maio de 2003. "Em Marcha com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz". Voltar ao Essencial. Documento Capitular. 

 

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