A FÉ NA PRIMOROSA OBRA CHAMA VIVA
(Prólogo2)
"Oh! Lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
que estava escuro e cego,
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto a seu Querido!"
(Canção 3)
A partir dos estudos de Karol Wojtyla, nosso São João Paulo II, em Chama 3 pretendemos reconhecer pontos importantes sobre a fé na primorosa obra do santo padre João da Cruz. Pois, através desta obra torna-se fácil reencontrar a profunda teologia sanjoanista da fé. Por exemplo, em Chama 3,48 nos diz: "Deus, a quem o entendimento se encaminha, excede ao próprio entendimento; e assim é incompreensível e inacessível ao entendimento; portanto, quando o entendimento vai entendendo, não vai se aproximando de Deus, antes vai se afastando. E assim, antes se há de afastar o entendimento de si mesmo e de sua inteligência para se aproximar de Deus, caminhando na fé, crendo e não entendendo. E dessa forma o entendimento chega à perfeição, porque pela fé e não por outro meio se une a Deus [...]. E o ir adiante o entendimento é caminhar cada vez mais na fé, e assim é caminhar mais na obscuridade, porque a fé é trevas para o entendimento". E, portanto, é necessário "que não se empregue em inteligências distintas".
O DOM DE DEUS: "DÁ A DEUS O PRÓPRIO DEUS EM DEUS".
A alma age "em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só". (Ch 3,78) São João nos esclarece: "[...] sendo ela sombra de Deus por meio desta transformação substancial, age ela em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só. Logo, como Deus se dá a ela com livre e graciosa vontade, assim também ela, tendo a vontade tanto mais livre e generosa quanto mais unida a Deus, faz o dom de Deus ao mesmo Deus em Deus, e esta dádiva da alma a Deus é total e verdadeira. Porque a alma vê então que Deus verdadeiramente é seu, e que ela o possui com possessão hereditária, com direito de propriedade, como filha adotiva de Deus, pela graça concedida por Ele ao dar-se a si mesmo a ela, e que, como coisa sua, o pode dar e comunicar a quem ela quiser, por sua livre vontade; assim a alma o dá a seu querido, que é o mesmo Deus que se deu a ela, e nisto paga a Deus tudo o que lhe deve, porquanto voluntariamente lhe dá tanto quanto dele recebe". (Ch 3,78) Toda esta concepção relacional se fundamenta sempre em um duplo elemento: a comunicação da graça e a força do amor. A alma se faz "Deus por participação", e então possui participativamente a Deus, e retribui à vontade, em recíproco amor, o que do Amado recebeu: o dom de Deus: "dá a Deus o próprio Deus em Deus". O sopro do Espírito Santo é quase contínuo no estado de transformação.
O DOM DE DEUS: "DÁ A DEUS O PRÓPRIO DEUS EM DEUS".
Que dá a alma a Deus? Responde-nos o santo: "[...] sendo ela sombra de Deus por meio desta transformação substancial, age ela em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só. Logo, como Deus se dá a ela com livre e graciosa vontade, assim também ela, tendo a vontade tanto mais livre e generosa quanto mais unida a Deus, faz o dom de Deus ao mesmo Deus em Deus, e esta dádiva da alma a Deus é total e verdadeira. Porque a alma vê então que Deus verdadeiramente é seu, e que ela o possui com possessão hereditária, com direito de propriedade, como filha adotiva de Deus, pela graça concedida por Ele ao dar-se a si mesmo a ela, e que, como coisa sua, o pode dar e comunicar a quem ela quiser, por sua livre vontade; assim a alma o dá a seu querido, que é o mesmo Deus que se deu a ela, e nisto paga a Deus tudo o que lhe deve, porquanto voluntariamente lhe dá tanto quanto dele recebe". (Ch 3,78)
"A COMUNICAÇÃO DA GRAÇA E A FORÇA DO AMOR"
Na concepção relacional, filial e conjugal ao mesmo tempo, se fundamenta sempre em um duplo elemento: a comunicação da graça e a força do amor. A alma se faz "Deus por participação", e então possui participativamente a Deus, e retribui à vontade, em recíproco amor, o que do Amado recebeu: o dom de Deus: "da a Deus o próprio Deus em Deus". O sopro do Espírito Santo é quase contínuo no estado de transformação. De fato, quem dá é a alma, incendiada pelo sumo amor; já unida a Deus plenamente, não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz a vontade divina. Por conseguinte, por todo seu ser não corre mais do que amor, e só se ocupa em amar uma vez que chegou à perfeição de união transformadora, igual à vontade divina; amar a Deus, devolvendo-lhe amor por amor - o amor participado ou recebido - de modo divino, sob a moção do Espírito Santo. Estamos dentro da mística 'trinitária', que já havíamos vislumbrado em Cântico: "[...] o Espírito Santo [...] com aquela sua aspiração divina levanta a alma com grande sublimidade e a informa e habilita para que ela aspire em Deus a mesma aspiração de amor que o Pai aspira no Filho, e o Filho no Pai, e esta aspiração é o próprio Espírito Santo que também aspira a alma, no Pai e no Filho, na dita transformação, para uni-la consigo". (Cântico 39, 3)
TRANSFORMAÇÃO DO ENTENDIMENTO, VONTADE E MEMÓRIA EM CHAMA.
As frases transcritas foram tiradas do texto maior, no qual descreve detalhadamente a união, consumada na transformação do entendimento, vontade e memória. Conserva aqui a divisão tripartida que já conhecemos. Mas, se compararmos este texto com o de Noite Escura II 4,2, que já submetemos a análise, o de Chama é muito mais forte e expressivo; na realidade, anuncia a união consumada e não só sua dolorosa preparação através da noite purificadora. Porém, estamos ainda no caminho, e por isso na área da fé. Devemos recordar para não perder de vista as suculentíssimas palavras: "pela união seu entendimento e o de Deus é todo um só". E talvez não seja supérfluo recordar também o que diz me Subida II 29,6 acerca da moção do Espírito Santo e o que declara em Cântico sobre a "substância apreendida", que o entendimento possível experimenta e na qual goza e descansa.
METÁFORA DAS CAVERNAS. Citemos, por último, a seguinte passagem, que nos explica a metáfora das 'cavernas': "Estas cavernas - diz - são as potências da alma: memória entendimento e vontade; as quais são tanto mais profundas quanto mais capazes são de grandes bens, pois não se enchem com menos que o infinito. Pelo que elas padecem quando estão vazias, podemos avaliar, de certo modo, quanto gozam e se deleitam quando estão cheias de Deus, pois por um contrário se esclarece o outro. Quanto ao primeiro, notemos que estas cavernas das potências, quando não estão vazias, e purificadas, e limpas de toda afeição de criatura, não sentem o grande vazio de sua profunda capacidade". (Ch 3,18)
"A ABERTURA DA ALMA AO INFINITO"
Que profundidades do espírito humano! Capacidade imensa das potências superiores, capacidade do infinito: eis aí a raiz e o fundamento metafísico que serve de sustento às virtudes teologais! Porém é necessário, para que se dê essa união com o Infinito, que primeiro a almas e purifique e se despoje de todo o finito, limitado, particular e distinto. A abertura da alma ao Infinito constitui a tarefa peculiar das virtudes teologais que, ao mesmo tempo, enchem a alma da Divindade participada. A doutrina fundamental do Doutor Místico sobre as virtudes teologais, exposta em Subida II 6, corresponde a este conceito das potências: devem se pôr em 'vazio e trevas' para unir a alma a Deus. A purificação se ordena à união. E nela está se personificando o princípio da Subida I 4, que afirma a impossibilidade de que duas formas totalmente diferentes coexistam ao mesmo tempo em um sujeito. O entendimento é abismo profundo, "caverna" sedenta: " [...] seu vazio é sede de Deus, e esta é tão grande quando o entendimento está disposto, que Davi a compara à do cervo [...]; e esta sede é das águas da sabedoria de Deus, que é o objeto do entendimento". (Ch 3,19)
Já dissemos em outro momento, e voltamos a repetir que, Chama Viva é a epifania do mistério sobrenatural escrito e inspirado a São João da Cruz, que os olhos não podem ver, nem ouvidos podem ouvir, e que só o coração sente e conhece (cf. Is 64,4), que é o mistério da transformação da alma na Santíssima Trindade. O Senhor generosamente o antecipa a quem, como São João da Cruz, renunciando a tudo, sabe esperar tudo do Tudo. Que do vale de nossa miséria, sintamos a atração dos altos cumes, por onde passeia o espírito do místico carmelita, encerrando e fazendo de nossa oração o poema de São João da Cruz:
Canção I
Oh! Chama de amor viva
que ternamente feres
De minha alma no mais profundo centro!
Pois não és mais esquiva,
Acaba já, se queres,
Ah! Rompe a tela deste doce encontro.
Canção II
Oh! Cautério suave!
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão! Oh! Toque delicado
Que a vida eterna sabe,
E paga toda dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.
Canção III
Oh! Lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
que estava escuro e cego,
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto a seu Querido!
Canção IV
Oh! Quão manso e amoroso
Despertas em meu seio
Onde tu só secretamente moras:
Nesse aspirar gostoso,
De bens e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!”
Oração: Ó Deus, que inspirastes ao presbítero são João da Cruz, nosso pai, extraordinário amor pelo Cristo e total desapego de si mesmo, fazei que, imitando sempre seu exemplo, cheguemos à contemplação da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!
intercedei por nós!
Estela da Paz.
(Estela Maria Teresa
de Jesus, OCDS)
Comissão de História
Comissão de
Espiritualidade
Karol Wojtyla A DOUTRINA DA FÉ SEGUNDO SÃO JOÃO DA CRUZ.
Tese: L.2, C.2.
Catecismo da Igreja Católica.
Bíblia Sagrada.
“Ser carmelitas Descalços hoje”. Declaração carismática, 2019.
CAPÍTULO GERAL DOS CARMELITAS DESCALÇOS. ÁVILA –
17 de maio de 2003. "Em Marcha
com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz". Voltar ao Essencial. Documento
Capitular.

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