domingo, 7 de novembro de 2021

MEMÓRIA DE SANTA ELISABETE DA TRINDADE – 08 de novembro de 2021.

 


“Harmonia perfeita entre oração e vida”

 “Os Santos são homens e mulheres que se entranham profundamente no mistério da oração. Homens e mulheres que lutam mediante a oração, deixando rezar e lutar neles o Espírito Santo; lutam até ao fim, com todas as suas forças; e vencem, mas não sozinhos: o Senhor vence neles e com eles”. (HOMILIA DO PAPA FRANCISCO, 16 de outubro de 2016)

Santa Elisabete da Trindade, considerada a “santa do silêncio”, já aos 15 anos sonhava, em suas poesias, com solidão, em companhia de seu Cristo: “Viver contigo, solitária”. (cf. Poesias, agosto de 1896). Aos 19 anos anota no diário: “Brevemente serei toda Tua, viverei na solidão, só contigo, só me ocupando de Ti, vivendo apenas de Ti, conversando unicamente contigo”. (Diário.  27 de março de 1899).  Sua maior felicidade no verão, quando estava no campo, era retirar-se para os bosques solitários. Desde a entrada, a solidão carmelitana encantou-a: “Só com o Só”, eis toda a vida do Carmelo. Em Carta escrita à Sra. Angeles a 29 de setembro de 1902, dirá: “A Carmelita é uma eremita contemplativa, cuja pátria é o deserto de Carith e o abrigo, a cavidade do rochedo. Não é que esqueça as almas que se perdem — foi o espetáculo dos estragos causados pela heresia luterana que determinou Santa Teresa a fundar sua reforma — mas, o testemunho que ela deve dar a Deus é o da anacoreta cujo olhar permanece fixo n’Ele, só esquecida de tudo mais. Atestado silencioso, mas quão comovente, de que só a Beleza divina merece a atenção duma alma elevada pela graça até o consortium da vida trinitária. Só Deus basta. Sua ação apostólica é a da oração que obtém tudo. Uma só alma que se eleva até a união transformante é mais útil à Igreja e ao mundo do que uma multidão de outras que se agitam na ação”.

Santa Elisabete da Trindade é uma verdadeira mestra e guia na vida de oração, sua espiritualidade é um convite a que nas nossas vidas encontremos um espaço e um tempo para estar a sós com Deus. É preciso parar, fazer silêncio, escutar e responder a Deus que continuamente se revela. A atitude de fé implica necessariamente um escutar e um responder à revelação de Deus e só na medida em que na vida quotidiana assumimos esta posição é que vivemos plenamente, pois o homem foi criado para viver em comunhão com Deus. A oração para Isabel é porta da intimidade com Deus, mas também o ponto de encontro com todos os que ama, mesmo que se encontrem distantes e a sua forma de apostolado por excelência. Para ela oração e vida identificam-se completamente. Há uma harmonia perfeita entre oração e vida, e a vida é por si só motivo suficiente para rezar ao Criador. Por outro lado, rezar é viver, pois é a oração que lhe permite ter acesso à intimidade com Deus que é a Vida. Ela ama a Deus e vê Deus em tudo e em todos, através de tudo e de todos. As montanhas, o mar, a natureza em geral, a música, tudo lhe fala de Deus e tudo é motivo para ela orar. “A natureza conduz a Deus. Entusiasmavam-me tanto essas montanhas! Elas me falavam d’Ele”. (C 87)

No Carmelo, onde tudo está orientado para possibilitar esta vida de oração, Elisabete encontra o espaço ideal para a sua sede de Deus. Mas a sua oração no Carmelo não se limita apenas às horas dedicadas à oração e à participação na recitação do Ofício Divino. “Amo-O apaixonadamente e tudo possuo n’Ele, contemplo as coisas e realizo tudo sob a sua irradiação divina”. (C 128) A sua vocação contemplativa significa que a sua vida está orientada para Deus. Não está afastada da realidade da vida, mas todas as atividades – trabalho, convívio, amizade, estudo, descanso – são realizadas com a presença da oração. Ela ama e por isso em tudo o que faz está refletido o seu amor e a oração é a concretização desse amor. Vida e oração caminham juntas tornando-se numa só, pois a oração para ela é um estado de vida. Ela vive orando e ora vivendo. “Mestre, que a minha vida seja uma contínua oração. Que nada, realmente nada, me possa distrair de Ti, nem as minhas ocupações, nem os prazeres, nem o sofrimento. Que eu me abisme em Ti, que tudo faça sob o Teu olhar. Mestre, toma-me, toma-me inteiramente.” (D 156). Ela lê, medita, acolhe, reza e vive a Palavra de Deus. É na Bíblia que ela busca o alimento para a sua vida espiritual e para a sua oração. É na leitura meditada e rezada da Palavra de Deus que santa Elisabete da Trindade descobre a sua vocação de “louvor de glória”. Este aspecto foi salientado pelo Papa João Paulo II na sua homilia da missa da beatificação de Isabel. “À nossa humanidade desorientada que já não sabe encontrar Deus ou que O desfigura, [...] Isabel dá o testemunho de uma abertura perfeita à Palavra de Deus que ela assimilou a ponto de alimentar verdadeiramente a sua reflexão e a sua oração, a ponto de encontrar nela todas as razões de viver, e de se consagrar ao louvor da sua glória”. (Homilia de João Paulo II por ocasião da beatificação de Isabel da Trindade em 24.11.1984) Sua oração é necessariamente uma oração trinitária, sente-se habitada pela Trindade. Ela sabe que não está só, mas que a sua alma abriga um Hóspede Divino, vê-se claramente na sua oração “Elevação à Santíssima Trindade”, oração essa toda dedicada à Trindade Santa e que constitui uma pérola da mística cristã.

Com seu coração ferido pelo infinito, santa Elisabete viveu o grande silêncio no exílio do Carmelo. Na Trindade mergulhada viu se entreabir a imutável beleza de Cristo. Suas experiências interiores e exteriores se traduziram em dois elementos fundamentais que constituem a essência de toda santidade: o desapego de si mesmo e a união com Deus. Elementos estes que se encontram, de maneiras diferentes, na vida de todos os santos, e que podem nos levar ao crescimento na intimidade com Deus, e nos conduzir à santidade. Façamos de sua poesia nossa meditação, nos colocando sob sua intercessão.

O Coração ferido pelo infinito (1902)

“Não se pode dar uma grande prova de amor

Senão dando a vida por Aquele que se ama…

Não percebes o grande silencio,

O hino de amor que se canta lá no alto?

Irmã, esqueçamos o exílio e o sofrimento

E que nossos corações saúdem este dia tão belo!

Não vês o esplendor esterno,

A Trindade que se debruça sobre nós?

 

O Céu se entreabre: escuta… chamam-nos…

Recolhamo-nos, minha Irmã, eis o Esposo!

Não Vês a nuvem luminosa

Que até nós projeta sua claridade?

Ah, permaneçamos lá completamente silenciosas,

Fixando a Imutável beleza!

De nosso Cristo o olhar se clarifica

Ao imprimir a pureza de Deus.

 

Irmã, permaneçamos, para que Ele nos deifique,

A alma em sua alma e os olhos em seus olhos.

Ele vem, Ele próprio, diante das virgens

Para lhes dar o inefável beijo.

Ele passa aqui, Sua sombra nos protege.

Olhemo-lO para nos virginizar.

Ele é tão belo, o Cristo, Esplendor do Pai,

Iluminado pela Divindade,

Ele é, Ele próprio, uma fogueira de luz

Envolvendo os seus em Sua Claridade.

 

Amemos minha irmã, e que tudo desapareça.

A alma amando se identifica a seu Deus.

Não esperemos que sua glória apareça

Para contemplar como os bem-aventurados!

Ele está em nós, nós temo-lo por sua graça,

E como no Céu já O adoramos!

Mas logo ao contemplar Sua Face,

Seu Nome divino brilhará sobre nossas frontes!

 

Quando, então, será o fim da espera?

Quando poderemos, enfim, nos imolar?

Esperando, sejamos totalmente adorantes,

Porque nosso Cordeiro quer nos purificar.

Não percebes a paixão suprema

De dar ao Cristo um pouco de seu amor?

Eu quero morrer, para Lhe dizer: “Eu te amo,

E como tu, eu me entrego neste dia!”

 

Santa Teresa no Céu deve-nos sorrir

Porque ela também quis fugir um dia.

Deus reservou-lhe outro martírio,

Ela morreu Vítima do Amor!

Oh! Como é belo o martírio das virgens

Aquele dos corações feridos pelo Infinito,

Tormento divino em que o amor é a espada!

Dardo inflamado transpassa-nos também!

 

Santa Elisabete da Trindade,

Rogai por nós!

 

Estela da Paz, OCDS.

(Comunidade São José, Petrópolis/RJ).

Comissão de Espiritualidade

 

Referência:

TRINDADE, Elisabete. Obras Completas. Ed. Vozes, 1993.

PHILIPON, M. M. A Doutrina Espiritual da Irmã Elisabeth da Trindade. Livraria Agir, 1957.

 

 

Um comentário:

Giovani Carvalho disse...

Que linda postagem, querida irmã Estela Márcia!

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