sábado, 12 de dezembro de 2009

“SEM ARRIMO E COM ARRIMO”



Em 1991 celebrávamos o IV Centenário da morte de s. João da Cruz. Nesta ocasião, o então papa João Paulo II, que fez sua tese doutoral sobre a fé em S. João da Cruz, escreveu uma Carta ao Carmelo Teresiano intitulada Mestre na fé. Nela, ele reflete sobre a centralidade da fé na doutrina do místico espanhol do século XVI. Para o Santo, de fato, “Quanto mais fé a alma possui, mais está unida a Deus”.

Já o papa Bento XVI¸ em sua encíclica Deus caritas est, faz a seguinte afirmação de sabor sanjoanista:
“A fé, a esperança e a caridade caminham juntas. A esperança manifesta-se praticamente nas virtudes da paciência, que não esmorece no bem nem sequer diante de um aparente insucesso, e da humildade, que aceita o mistério de Deus e confia n'Ele mesmo na escuridão.” (n. 39).

Na doutrina de nosso Doutor místico, as virtudes teologais, unem a pessoa a Deus e ao mesmo tempo purificam os dinamismos psíquicos da pessoa em sua meta essencial de unir-se a Deus. Assim ele escreve: “Estas três virtudes, deste modo, fazem o vazio nas potências; a fé no entendimento, obscurecendo-o acerca de suas luzes naturais; a esperança na memória, pro¬duzindo o vazio de toda posse; e a caridade operando na vontade o despojamento de todo afeto e gozo de tudo o que não é Deus” (2 Subida do Monte Carmelo 6,2).

Esta mesma realidade, João da Cruz canta poeticamente na poesia Sem arrimo e com arrimo. Para unir-se a Deus é necessário caminhar sem apoio das coisas sensíveis ou das apreensões dos sentidos, da inteligência e da vontade e memória, mas apenas utilizar-se delas, enquanto ajudam a manter o afeto amoroso em Deus. Isto é, sem o arrimo das apreensões naturais, mas com o arrimo da fé, da esperança e da caridade. Isto significa viver sem a luz, às escuras, na doação amorosa e oblativa de si a Deus e ao próximo, consumindo-se pelo amor a Deus, assim como a chama consome a madeira e a transforma em labareda, luz e calor para os demais...

Meditemos, preparando e celebrando a festa de S. João Da Cruz no próximo dia 14 e saboreemos esta sua bela poesia, escrita entre os anos de 1585-1586.

“Sem arrimo e com arrimo,
sem luz e às escuras vivendo,
todo me vou consumindo.

1. Minha alma está desprendida
de toda coisa criada
e sobre si levantada,
numa saborosa vida
só em seu Deus arrimada.
Por isso já se verá
a coisa que mais estimo,
que minha alma se vê já
sem arrimo e com arrimo.

2. E, embora trevas padeço
nesta vida mortal,
não é tão grande meu mal,
porque se de luz careço,
tenho vida celestial;
porque o amor dá tal vida,
quanto mais cego vai sendo,
que tem a alma rendida,
sem luz e às escuras vivendo.

3. Faz obra tal o amor,
depois que lhe conheci,
que se há bem ou mal em mim,
tudo faz de um só sabor,
e à alma transforma em si;
e assim sua chama saborosa,
a qual em mim estou sentindo,
apressa, sem restar coisa,
todo me vou consumindo.”


 fr. Alzinir f. Debastiani OCD

Caratinga, 12 de dezembro de 2009.



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