sexta-feira, 30 de maio de 2008

VISITANDO O PASTOR- IGREJA ACOLHEDORA, MISERICORDIOSA, MISSIONÁRIA, PARTICIPATIVA

"Jesus, manso e humilde de coração,
fazei nosso coração semelhante ao Vosso."


AComunidade Santa Teresinha do Menino Jesus, de Passos, visitou nesta 5a-feira, véspera da solenidade do Sagrado Coração de Jesus, nosso Pastor Diocesano D. José Lanza, em Guaxupé, sede de nossa Diocese. A visita em caráter oficial para apresentar-nos como Comunidade OCDS, e também pedindo a Carta para aprovação da Ereção Canônica de nossa Comunidade junto a Casa Geral em Roma. Fomos recebidos com Carinho por nosso Bispo, que além de nos demostrar o cuidado e amor de Pastor, também nos apresentou a assessoria de Comunicação da diocese que esta sob os cuidados do Diácono Gilvair Messias, o novo site e o blog da diocese.

O endereço está abaixo para que nossa Província possa conhecer e divulgar as riquezas de nossa Diocese.
http://www.guaxupe.org.br/
http://dioceseguaxupe.blog.terra.com.br/

quinta-feira, 29 de maio de 2008

BEATIFICAÇÃO DA IR. MARIA JOSEFINA DE JESUS CRUCIFICADO, OCD - EM 01/06/2008

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Domingo, dia 1º de junho de 2008, na Catedral de Nápolis, o Sr. Cardeal S. Excia. Crescenzio Sepe, Arcebispo metropolitano de Nápolis, proclamará Beata a Venerável Irmã Maria Josefina de Jesus Crucificado (1894-1948 – no século Josefina Catanea), monja da Ordem dos Carmelitas Descalços, que viveu no Mosteiro de Ponti Rossi, Nápolis.
Como traçar, brevemente, a existência teologal desta nossa irmã no Espírito? O que evidenciar do seu percurso humano e espiritual que a levou a configurar-se plenamente ao mistério pascal de Jesus Cristo? Em que termos considerar seu profundo e radical amor pelos sofrimentos do povo? Tentaremos percorrendo a sua vida.
Uma adolecência serena e uma vida bela.
A adolescência de Josefina se passa serena a Nápolis, na intimidade familiar, sustentada pela doçura da mãe Concetta e da discreta presença do pai Francisco, da amizade das irmãs Antonietta e Maria, do testemunho cristão da avó materna, Antonietta Grimaldi.
Josefina, “Pinella” como a chamavam em família, testemunha uma vida bela, iluminada pela transparência do seu coração de menina e de adolescente, por aquela bondade celeste e que colore de beleza a terra. Os traços desta beleza emergem considerando a bondade da sua vida quotidiana em casa e na escola, analizando os tantos gestos de caridade a favor dos pobres e anciãos, na sua experiência de oração feita de confiança e abandono em Deus.
Uma busca vocacional inquieta.
A busca vocacional de Josefina é estreitamente ligada à da sua irmã Antonietta, ainda que se revelam traços completamente originais e personalíssimos. Quando, em 1908, Antonietta tenta a vida do Carmelo Teresiano, junto às Carmelitas Descalças do Arco Mirelli, Nápolis, Josefina tem 14 anos. A tentativa da irmã fale, parece por causa da frágil saúde, e retorna à sua casa. Em agosto de 1910, porém, sob a guia do Frei Romualdo de Santo Antônio, Carmelita Descalço, Antonietta dá início, sobre a colina de Santa Maria ai Monti, junto aos Ponti Rossi, a uma experiência de vida que se inspira no Carmelo Teresiano. O início se dá como leiga terciária e a vida é marcada pela pobreza, pelo trabalho e a oração.
Josefina vive intensamente a experiência da irmã, deixa-se interpelar por tudo o que lhe acontece em torno e dentro de si, experimenta quanto “Deus é um Deus ciumento” (Dt.6,15). Assim vive uma luta interior entre as exigências do amor divino, que sentia crescer em si, e os reclames do amor familiar, sobretudo daquele materno, até que, em março de 1918, aparentemente sem uma oção definitiva, vai ao Carmelo para uma breve estadia. Esta permanência no Carmelo durou por toda a vida!
Os primeiros anos no Carmelo e a doença.
Os primeiros anos no Carmelo dos Ponti Rossi não foram fáceis. Josefina os vive provada por diversas doenças, até adoecer de bronco-pleurite. Fica gravemente enferma, lhe é administrada a unção dos enfermos. Não morre, mas também não se cura por cinco longos anos. Sempre doente, pregada em um leito de dor.
Em junho de 1922 passa mal com uma forma de tuberculose na espinha dorsal. Fica irreconhecível, totalmente contraída pela dor, quase imóvel. As curas médicas não produzem algum efeito sobre ela. Josefina é no limite da suportação humana, mas a Jesus pede para “dar-lhe algo da sua Paixão, mas de modo escondido, só a Ele conhecido”. Vie tudo dentro e transforma os seus sofrimentos, unida ao Mistério de Cristo, em oferta de amor pelo Pai e pelos homens, seus irmãos”.
A cura e a ministerialidade da escuta e do discernimento.
O tempo da sua doença termina no dia 26 de junho de 1923 quando Josefina cura-se instantaneamente só pelo contato com a relíquia de São Francisco Xavier. Josefina, logo depois da cura, diante do tabernáculo, repete: “a via que tu novamente me doastes, Senhor, a gastarei para morrer a tudo o que é terreno, para viver verdadeiramente em Ti.... Quero que seja para a tua glória, toda a minha vida. Não quero nada para mim nesta terra, a não ser o teu amor. Dai-me almas. Ofereço-me como vítima (de amor) pelos teus sacerdotes”.
Deste dia em diante não só Josefina tem clara a sua vocação mas, nesta história de relação entre ela e o seu amado Senhor, é envolvida a mesma comunidade, o mesmo espaço físico onde vivem. De fato, sobre a estrada dos Ponti Rossi, a partir daquele dia, encontra-se sempre alguem que sobe ao Carmelo. Tem quem sobe à procura de uma palavra de conforto, quem por uma oração; outros vão em busca do sentido da sua vida, ou para reencontrar o eus perdido.
Frei Romualdo, como o Cardeal Ascalesi, solicitam a Josefina de desenvolver este apostolado de acolhida e de escuta na “porta da tenda”, entre as exigências da vida contemplativa e apostólica. Um ministério que a torna capaz de fazer compania à humanidade sofrida, de ler no íntimo do coração, até à conversão e à pacificação.
“Divido as penas de cada coração, apresento a Deus todos os suspiros, todas as lágrimas que irrigam esta terra”. Em uma outra cirunstância anota: “São confiadas às minas orações um grande número de pessoas. Tive a imporessão que todos estivessem no meu sangue, todos irmãos, todos meus filhos”. Neste levar os outros, todos os outros, na sua existência, Josefina amadurece as experiências místicas mais profundas. omo dirá o Vaticano II, Josefina sente que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de genuinamente humano que não encontre eco no seu coração” (Vat. II, Gaudium et spes, Proemio). Foi um apostolado extremo o seu, vivido com vivo sentido de obediªencia ao Pastor da Igreja local, o Cardeal Ascalesi, e o seu diretor espiritual, Frei Romualdo; foi uma experiência de ardente e terníssima maternidade espiritual sobre cada limbo de humanidade. Esta maternidade a vive como chama viva que tudo acende, como empatia que tudo assimila e transforma, como busca do seu amado Jesus.
A dimensão contemplativa da vida.
No meio de tanto apostolado, Josefina tem os olhos fixos em Jesus, vive com Ele em uma intimidade profunda. Escreve: “Como é doce viver com Deus, conversar com Ele, doar-se a Ele, escutá-lo, amá-lo e não ter nada sobre a terra que nos distraia dele”. Palavras, estas, que carregam uma profunda carga vital, que trás à luz a capacidade de Josefina de viver totalmente unificada, compata, profundamente reconciliada, sem nenhuma dicotomia entre vida ativa e contemplativa. Escreve com extrema lucidez: “A missão no mundo não impede a vida e vida em um mosteiro, porque o verdadeiro mosteiro não está na solidão do corpo, mas no desnudamento do coração de toda vanidade” (cf. S. João da Cruz, C. B, III, 3).
Este é o segredo da sua relação com Cristo. Este é o segredo da sua alegria, enquanto se doa aos irmãos. A sua atividade não é evasão, distração, gosto pessoal, mas participação na obra do Reino dos céus, configuração a Cristo nu, transparência do coração.
Soube sacrificar, sem dúvida, o seu ideal de escondimento à vontade de Deus, expressa pelos superiores. “Como queria passar as minhas horas na cela – dizia -, mas as almas me esperam e a tudo devo renunciar por amor a eles”. Nos seus propósitos escrevia: “Esta é a minha vida, ó Jesus: atividade de obediência, de fé, de zelo para levar-te às almas, para conduzi-las a ti.... Que me importa que isto me custe sacrifícios? Não me fez, tu, mamãe das almas? Darei a elas todas as minhas energias por teu amor, resistirei ao trabalho, mesmo sentindo-me faltar as forças, contente de sofrer até a morte, desde que as almas se salvem e te glorifiquem, ó Jesus”.
É fortemente teresiano o seu zelo pelas almas, erradicado no amor de Deus e na obediência à Igreja, capaz de motivar a vida contemplativa e acendê-la do único amor, aquele de Cristo.
6. Finalmente monja Carmelita Descalça.
Josefina, como a irmã Antonietta e as outras jovens que viviam sobre a colina de S. Maria ai Monti, junto aos Ponti Rossi, sempre se sentiram Carmelitas Descalças, mas eram também conscientes que, depois de tantos anos de experiência Teresiana, faltava ainda a aprovação oficial por parte da Ordem dos Carmelitas Descalços e por parte da Igreja.
Josefina vai a Roma e encontra pessoalmente o Cardeal Rossi, carmelita Descalço, o P. Guglielmo, Geral da Ordem, e o Prefeito da Congregação dos Religiosos, o Cardeal Lépicier. A eles apresenta a situação da comunidade e o vivo desejo de ser confirmada entre as Carmelitas Descalças.
Após três meses, no dia 7 de dezembro de 1932, o Papa Pio XI aprova a fundação do Carmelo em Ponti Rossi, Nápolis, como mosteiro de Carmelitas Descalças.
No dia 30 de janeiro onze terciárias recebem o hábito e iniciam o noviciado. Josefina tem então 39 anos. No dia 6 de agosto de 1933 Josefina Catanea torna-se, com a primeira profissão, Irmã Josefina de Jesus Crucificado. A Jesus, naquele dia solene e íntimo, pede uma graça: “Que eu não seja jamais privada do dom preciosíssimo do sofrer”. Jesus a contentou e a configurou a si até o último instante da sua vida. Ir. Maria Josefina, consciente de ter sido escutada, escreve alguns anos mais tarde: “Quando penso que Jesus me colocou com Ele sobre a Cruz, sinto em mim uma maternidade espiritual, uma ternura pelas almas, uma alegria grande, profunda que não sei dizer”.
Ir. Maria Josefina, a este ponto, tem um só medo: não amar o Amor. Por isto quer convergir tudo sobre Jesus, vive uma concentração cristológica, um esposalício elevado ao máximo. Escreve: “Fazer-me crucificar com Jesus para morrer com Ele, para ressurgir com Ele”. Aqui encontramos a síntese pascal da sua existência, o seu percurso espiritual. Anota em um outo escrito: “Ó Jesus, absorve-me em ti, aprofunda-te em mim, transforma-me em Ti, faze que eu viva só de Ti”. Como S. Teresa de Jesus, Ir. Maria Josefina está dizendo, ao seu modo, a partir da sua experiência: “Só Deus basta”.
A devoção a Maria.
A devoção de Ir. Maria Josefina à Virgem é grande. Ela explica assim àqueles que se admiram da sua familiaridade com Ela: “Sinto na alma a ternura que a SSma. Virgem tem pelas almas”. Tem clara a consciência que Maria de Nazaré opera na sua ida e na vida daqueles que encontra no Carmelo, escreve: “Quero a completa transformação do meu espírito n’Ele”.
Ir. Maria Josefina, na escola do Carmelo, aprendeu que a verdadeira devoção a Maria é toda interior, que a verdadeira imitação começa nos espaços interiores da Virgem, que é preciso habitá-la dentro, olhá-la dentro para poder verdadeiramente imitá-la. Assim, o verdadeiro devoto de Maria transforma-se mariforme e se reencontra, ao mesmo tempo, por graça, sempre mais cristificado. Escreve sobre este aspecto: “Maria, nenhum outro, deve unir a nossa alma a Deus bendito, com união íntima de adesão ao divino querer”.
O amor aos sacerdotes.
Não existe Carmelita Descalça que não nutra um amor grande aos sacerdotes, um amor que nasce da dimensão teologal e encontra fundamento na comunhão dos santos, naquele eclesiologia de comunhão que leva a viver a Igrej como “corpo”, com sentido de corresponsabilidade e de companhia.
Ir. Maria Josefina, desde o início da sua missão, vê os sacerdotes como os “prediletos”; para eles oferece a sua vida de contemplativa, com eles vive a missão de mãe. Recebe-os no Carmelo com exprema delicadeza e amor, a eles dedica tempo e atenção, reza com eles e por eles oferece a si mesma, faz brilhar, em cada encontro, a sua altíssima e belíssima vocação.
A beleza de uma vida vivida às últimas consequências.
Os últimos meses da vida de Ir. Maria Josefina são assinalados pelo sofrimento e pela presença do Amado Senhor: “Sofro muitíssimo, mas sou feliz”.
No dia 14 de março de 1948, frei Romualdo lhe dá a santa comunhão. À tarde chega ao mosteiro o Cardeal Ascalesi que a abençoa e lhe dirige estas últimas palavras: “Se Deus te quer vai, minha filha, te deixo livre: faze a vontade de Deus”. Às 19:10h do dia 14 de março de 1948, domingo da Paixão, Ir. Maria Josefina contempla finalmente a radiante beleza do seu amado Senhor Crucificado e ressuscitado, a beleza daquele que por toda a vida a foi configurando lentamente a si. Tinha 54 anos.
No dia 27 de dezembro do mesmo ano o Card. Assalesi inicia em Nápolis o processo informativo.
No dia 3 de janeiro de 1987, Papa João Paulo II proclama a heroicidade com que viveu as virtudes.
Conclusão
Tantas poderiam ser as leituras atualizadas da experiência de Ir. Maria Josefina, para entrar no tempo em que vivemos, para tentar compreender como uma existência teologal fale aos nossos dias, toque as nossas exisgências mais verdadeiras. Tentemos alguns percursos interpretativos.
O Cardeal Sepe, na mensagem endereçada à diocese e Náplolis, por ocasião da Beatificação de Ir. Maria Josefina de Jesus Crucificado, justamente fala da modernidade da vida e da mensagem da Irmã em relação a dois âmbitos: o eclesial (em relação à pessoa do Bispo, dos sacerdotes, dos consagrados e das consagradas, dos fiéis) e social (em relação a todos os irmãos e irmãs da cidade de Nápolis).
Neste momento histórico particular da cidade de Nápolis, adiciono alguns elementos, que creio, representem a alma do testemunho de Ir. Maria Josefina; refiro-me à bem-aventurança da pureza do coração (Mt.5,8) e à bem-aventurança daqueles que choram (Mt.5,4).
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8). À sua Igreja, mas também à nossa, seja qual for, Ir. Maria Josefina recorda a sua vida bela, a transparência do seu coração de adolescente e a bondade da sua vida quotidiana. Em uma palavra, nos coloca na estrada da bem-aventurança dos puros de coração, nos convida a crer que os meninos, os adolescentes representam esta cultura da vida limpa. Eles salvarão o mundo da poluição existencial e ambiental e por esta razão, como recorda Papa Bento XVI, o verdadeiro desafio é o educativo. Um desafio que passa através a Univerdade da vida, que á família, verdadeiro útero de cada existência. Nápolis deve dar voz aos seus “scugnizzi”, como o mundo aos seus pequenos; é importante re-custurar a cultura da limpeza interior, da transparência do coração e dos olhos que torna cada criatura contemplativa, capaz de admiração diante da vida e de Deus.
“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt.5,4). À sua cidade, mas também à nossa, seja qual for, Ir. Maria Josefina recorda que a vida consiste em sentir o outro como alguém que me pertence. Ela, para nos dizer que nínguém está sozinho, sobretudo na experiência da dor, quanto tudo pode reduzir-se em espaço de desespero, foi disponível a viver atipicamente a sua vocação de monja de clausura, correndo sobre o fio da ortodoxia carismática do Carmelo, profeticamente atravessando a fronteira da distinção entre contemplativos e ativos, exercitando a ministerialidade da consolação, da misericórdia sem “se” e sem “mas”, da solidariedade sem fronteiras, até sentir o outro, independente da sua condição social, como alguém que habitava as veias, que corria nas auto-estradas das suas artérias, da sua vida. Ela, uma Carmelita Descalça, revela-se muito capaz de estar profundamente erradicada na vida da sua Igreja e da sua cidade, colocando à mostra a fantasia de Deus, como capacidade de amor elevado ao máximo, como possibilidade de construir a civilização do amor, uma sociedade mais equa e solidária, capaz de acolher e de escutar, de integrar e abrir espaços de esperança sustentáveis.
Por tudo isto, com toda a Igreja e a Ordem do Carmelo, louvemos a Trindade, fonte de todo bello dom.


P. Luigi Gaetani, Ocd, Definidor Geral.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

VIDA DE SÃO JOÃO DA CRUZ – TESTEMUNHA DA LUZ

Nasceu em 1542, em Fontiveros, em meio à pobreza e passando fome. Não conheceu o pai, Gonçalo de Yepes, falecido alguns depois de nascido. A mãe Catalina Alvarez e os filhos, Francisco, Luis e João começam a andar de cidade em cidade para fugir da fome, morrendo, devido às privações, o irmão Luis. Finalmente se instalam em Medina del Campo que nesse tempo é um dos centros comerciais mais famosos da Espanha. O ofício que exercem é de tecelagem. João chega à Medina com a idade de 9 anos e é colocado numa das escolas para crianças pobres ou órfãs, chamado COLÉGIO DA DOUTRINA.
Nesse colégio aprende, além do catecismo e da doutrina cristã, a ler e escrever. Nesse colégio os estudantes são enviados para aprender diversos ofícios: carpinteiro, alfaiate, escultor de madeira, pintor. Ele fracassa em todos. Mas esses ofícios deixam marcas em seu caráter e ele os usará em seus escritos. Os diretores do colégio decidem enviá-lo ao MOSTEIRO DE MADALENA para prestar serviço de coroinha. Aqui se sente bem, é estimado pelas monjas, e encanta pela modéstia, seriedade, habilidade com que desempenha o seu trabalho.
Na idade 14 anos, atinge o máximo de sua altura 1,50m. Seu porte é modesto e sereno, tem rosto moreno e agradável, constituição robusta, olhos negros e vivos, é encantador e tranqüilo. Todos lhe querem bem e é simpático. Do colégio da doutrina passa a trabalhar no HOSPITAL DE LA BUBAS. Aqui tinha duas ocupações servir como enfermeiro e recolher as esmolas para as despesas. A caridade para com os doentes, a paciência, a delicadeza, a alegria e disponibilidade com que atendia aos enfermos lhe cativaram a simpatia geral. Essa experiência lhe será muito útil quando escrever a CHAMA VIVA DE AMOR, pois o contato com as feridas dos doentes lhe servirá de metáfora para falar da outra chaga que regala alma. O primeiro a admirar João é o administrador D. Alonso Alvarez de Toledo que lhe concede licença para estudar no COLÉGIO DOS JESUÍTAS. Aqui ele estuda gramática e filosofia. Desse colégio sairá para se tornar religioso, aos 21 anos.
Em Medina estão presentes os Beneditinos, Premonstratenses, Agostinianos, Trinitários, dominicanos, Jesuítas e os Carmelitas. João é conhecido por todos e por todos é apreciado. Em qualquer porta que batesse seria acolhido. Mas, ele escolhe o CARMELO.
Inicia sua vida religiosa no Convento de Santa Ana em Medina del Campo. É revestido com o hábito da Ordem no dia da liturgia de São Matias e por isso, segundo o costume da ordem toma o nome FREI JOÃO DE SÃO MATIAS. Começa aqui sua breve, mas fecunda e santa jornada. No Carmelo aproveita plenamente do silêncio e solidão. Estuda profundamente a Regra da Ordem e por ela se apaixona, desejando a intimidade com Deus, a experiência da presença de Deus, impressionado com a figura do profeta Elias. Já no noviciado começa a se distinguir pelo comportamento, seriedade com que desempenha seu trabalho e piedade com que manifesta na liturgia.
Nessa fase sabe aproveitar cada momento para se aprofundar e se preparar para a sua profissão religiosa. Quando escrever seus DITOS DE LUZ E AMOR, enumerará entre as doze estrelas necessárias para a alma no caminho de perfeição, a POBREZA, a CASTIDADE e a OBEDIÊNCIA.
A POBREZA, que lhe foi imposta desde que nasceu e o levou até a experimentar a amargura da miséria, agora ele a escolhe livremente, jamais a desprezou e agora na ordem a deseja ardentemente. Pobreza que não é simples renúncia aos bens da terra, mas empenho constante e sério para libertar a alma e o coração de toda sedução. No prólogo DA SUBIDA DO MONTE CARMELO, nº 8 diz que “não se trata de matéria moral e saborosa, nem de consolações sensíveis como gostam os espirituais. Pretendo ensinar doutrina substancial e sólida para aqueles determinados a passar pelo despojamento interior”.
Nos ditos de luz: “traga interior desapego de todas as coisas e não ponha o gosto em qualquer temporalidade; assim recolherá a sua alma aos bens que não conhece.” (D 94)
“Desapegada do exterior, desapossada do interior, desapropriada das coisas de Deus, nem a prosperidade a detém nem a adversidade a impede” (D123)
Quando ele inicia a reforma da ordem, despoja-se dos sapatos e a caminha a pés descalços. Quando está perto de morrer, chama o prior do convento, pede perdão por todos os incômodos, mostra o hábito que usa e lembrando-se de que é pobre e não tem nada com que ser sepultado, pede-lhe que lho dê como esmola.
A CASTIDADE para ele jovem, que na flor da idade escolhe a vida religiosa, é saciada em Deus. Tem sede do absoluto.
“A alma desejosa de que Deus se lhe entregue totalmente, há de se entregar toda, sem reservar nada para si.” (D126)
“O demônio tem a alma unida a Deus, como ao próprio Deus”. (D124)
Na oração da alma enamorada: “Os céus são meus e minha é a terra; minhas são as criaturas, os justos são meus e meus os pecadores; os anjos são meus e a Mãe da Deus e todas as coisas são minhas; e o próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim”.
A OBEDIÊNCIA é vivida ele e transparece em seus escritos: Na Subida 2S5, 3: “Quando as duas vontades a da alma e a de Deus, de tal modo se unem e conformam que nada há em uma que contrarie a outra. Assim, quando a alma tirar de si, totalmente o que repugna e não se identifica à vontade divina, será transformada em Deus por amor”.
“Quem confia em si mesmo é pior que o demônio.” (D176)
“Se queres ser perfeito, vende a tua vontade e dá aos pobres de espírito e vem a Cristo pela mansidão e humildade e segue-o ao Calvário e ao sepulcro”. (D175)
A obediência foi a luz que iluminou a sua vida, desde o noviciado. A quem se cansa em buscar fazer muitas coisas para a glória de Deus, ele diz: “Deus quer de ti antes o menor grau de obediência e sujeição, que todos esses serviços que pensas prestar-lhe” (D 13).
Para o discernimento dos espíritos não há norma mais segura. O demônio pode se esconder em tudo, inclusive nos grandes desejos que temos de sofrer por amor a Deus como no caso das grandes mortificações e penitências. O único caminho que se tem para, com certeza, o desmascararmos é o da obediência. Para ele, dizer não à obediência é se expor a todos os perigos.
Após o noviciado, ele se transfere para Salamanca para continuar os seus estudos, e aqui chama também a atenção pela dedicação aos estudos e recolhimento na oração, sendo por isso, nomeado “mestre dos estudantes”. Torna-se sacerdote, tendo se preparado com todo o empenho para esse caminho. Uma irmã do Mosteiro da encarnação de Ávila, sua grande admiradora é testemunha de que São João de fato é uma pessoa de uma inocência, a sua maneira de se comportar como se fosse um menino... o seu olhar suave como as suas palavras, tudo deixava entrever a sua alma puríssima. Sua expressão, “antes morrer e deixar-se fazer em pedaços do que pecar.” Tem o desejo de ser fiel ao carisma primitivo da ordem que é mais contemplação que atividade apostólica. O Carmelo da forma como está não lhe agrada, pois perdera a fisionomia da época ermítica. E ele abraça com entusiasmo o ideal ermítico-contemplativo e deseja vive-lo com toda a fidelidade possível. O que fazer ir para a Cartuxa?
Entra em cena Teresa de Jesus. Ele volta à Medina, ao seu convento de origem para celebrar a sua primeira missa. Está acompanhado de Frei Pedro de Orozco e quem os recebe é o Pe. Antonio de Herédia, prior do convento. Santa Teresa tinha acabado de fundar seu segundo mosteiro da reforma em Medina. Ela pensa em estender a reforma aos religiosos. Recebeu para isso a necessária autorização e a benção do geral da ordem. Expõe seu projeto ao Pe. Herédia que para sua surpresa se declara disposto a começar a obra. Ele sente necessidade de maior solidão e austeridade. Para realizar esse desejo batera à porta da Cartuxa. A madre se sente feliz, mas não totalmente tranqüila. O Pe. Herédia tinha uma certa idade e, segundo ela não tinha condições de suportar o rigor para essa empresa. Disse-lhe que aguardasse algum tempo. Frei Pedro que viera de Salamanca com frei João, foi visitar o Carmelo. No encontro com Teresa ficou indiferente ao seu convite, mas apontou um nome João de S. Matias, conhecido pela austeridade de vida. No encontro dos dois, ele fala do desejo de ir à Cartuxa. Teresa o vê com 25 anos e o faz compreender que louvaria muito mais ao Senhor se, ao invés de buscar a Cartuxa, realizasse o mesmo ideal em sua própria ordem. S. João sabe que pode ser contemplativo em sua ordem, mas a situação em que esta se encontra agora torna o ideal quase impossível. Está plenamente de acordo com ela. Só pede uma coisa: “que tudo se rápido.” Teresa fica fascinada pelos desejos do jovem carmelita e pede a suas filhas que a ajudem a agradecer a Deus. Encontrara, para iniciar a reforma entre os religiosos, “um frade e meio”, se referindo à estatura do Pe. Antonio e de frei João. Agora pode começar. A primeira coisa que faz, aproveitando a sua permanência em Medina é um hábito para o primeiro carmelita descalço. A prova acontece numa das tantas visitas de frei João. Ele tirando o hábito da Observância, finamente talhado, entra no locutório com o de burel, preparado pela Madre e com os pés descalços. A Madre e suas filhas contemplam o “a figura do primeiro descalço” revestido com os sinais da penitência e do despojamento.
S. João volta à Salamanca pra completar os estudos e se prepara para a Reforma.
Um ano depois S. Teresa tem uma casa, em Duruelo. Aqui nasce, em 28 de novembro de1568, o CARMELO DESCALÇO MASCULINO e um nome JOÃO DA CRUZ. Ele inicia o Carmelo Descalço junto o Pe. Antonio Herédia que toma o nome Frei Antonio de Jesus. Madre Teresa durante o tempo em que permanece em Medina, encontra-se frequentemente com S. João. Os dois se compreendem perfeitamente. Os encontros são sempre repletos de sopro divino a ponto de Teresa falando às suas irmãs dizer: “O padre João é uma das almas mais puras e santas que Deus possui em sua igreja. Deus lhe infundiu grandes tesouros de sabedoria celeste”. Deseja que todas as monjas se deixem instruir por ele nos caminhos que conduzem ao vértice da mais alta perfeição. Ele é tudo que a madre deseja para começar trabalho tão cheio de responsabilidade como este da reforma entre os religiosos. É completo: amante de Deus, do silêncio, é puro, sábio, prudente, conhecedor do autêntico espírito carmelitano e das sendas de Deus. Sua conversação a enriquece, deixa-a mais segura, mais próxima de Deus. As suas experiências místicas tem em S. João todo o apoio e confiança para abrir-lhe mais ainda a sua alma. Recebera a graça da transverberação e tem necessidade de se abrir com quem possa compreender, e sabe que S. João é homem favorecido por Deus.
A vida de penitência, solidão, silêncio começa a impressionar, o convento fica pequeno e torna-se necessário a mudança para Mancera. Aqui o ascetismo de S. João é vivido plenamente. Tudo o que desejava silêncio, pobreza, forte vida interior ele o vive. Quer chegar ao mais alto: a comunhão com Deus. Quer amá-lo com toda a totalidade do seu ser. Na “subida” escreverá: “Oh! Se soubessem as almas interiores a abundância de graças e de bens espirituais de que se privam, recusando desapegar-se inteiramente do desejo das ninharias deste mundo! A alma cujo amor se reparte entre a criatura e o Criador testemunha sua pouca estima por este, ousando colocar na mesma balança Deus e um objeto que dele está infinitamente distante. O que ele mesmo aprendeu na vida com meditações, penitências ensina a seus noviços e mostra o caminho com zelo, serenidade, acolhimento, doçura. É exigente consigo mesmo, mas muito afetuoso com seus filhos. Indica-lhes o caminho que conduz à verdadeira liberdade de espírito e aqui chega-se à contemplação de Deus tanto quanto é possível nesta terra. O ideal, a comunhão com Deus, ele o realiza impondo exigências, pois, escalar o monte para chegar ao vértice, arrastando coisas, não só retardariam a subida, mas poderia impedi-la totalmente.
Em 1S 5,6: Durante a ascensão desta montanha, é necessário reprimir e mortificar, com cuidado incessante, todos os apetites. E tanto mais depressa chegará a seu fim, quanto mais rapidamente isto fizer.
1S 11,3 e 4: Quantos aos apetites deliberados e voluntários, e pecados veniais de advertência, ainda sendo em coisa mínima, basta um só deles que não se vença, para impedir a união da alma com Deus. Quanto a certos hábitos de voluntárias imperfeições, dos quais a alma não consegue corrigir-se, não somente impedem a união com Deus, como detém os progressos espirituais. Estas imperfeições habituais são: costume de falar muito, apegozinho a alguma coisa que jamais se acaba de querer vencer, seja a pessoa, vestido, livro ou cela; tal espécie de alimento; algumas coisinhas de gostos; conversações, querendo saber ou ouvir notícias, e outros pontos semelhantes.
Em 1S 4,7: “Todas as delícias e doçuras que a vontade saboreia nas coisas terrenas, comparadas aos gozos e às delícias da união divina, são suma aflição, tormento e amargura. Assim todo aquele que prende o coração aos prazeres terrenos é digno diante do Senhor de suma pena, tormento e amargura, e jamais poderá gozar os suaves abraços da união com Deus”.
Em 2S 5,7: “O amor consiste em despojar-se e desapegar-se, por Deus, de tudo que não é Ele.
O desapego de todo o criado leva S. João a dar o verdadeiro significado e valor a todas as coisas e criaturas. A volta às criaturas e à criação com os olhos purificados pela luz que emana da contemplação de Deus é cheia de reconhecimento:

“Ó BOSQUES E ESPESSURAS,
PLANTADOS PELA MÃO DO MEU AMADO!
Ó PRADO DE VERDURAS,
DE FLORES ESMALTADO,
DIZEI-ME SE POR VÓS ELE HÁ PASSADO!”

“MIL GRAÇAS DERRAMANDO,
PASSOU POR ESTES SOUTOS COM PRESTEZA
E ENQUANTO OS IA OLHANDO,
SÓ COM SUA FIGURA
A TODOS REVESTIU DE FORMOSURA.

De Mancera, passa por Pastrana, Alcalá de Henares e é sempre o primeiro na prática da vida austera, com doçura e mansidão de modos que conquista jovens para a vida carmelitana. Quando Teresa é chamada para ser priora no Mosteiro da Encarnação em Ávila; lembra de S. João para a direção espiritual do mosteiro que passa por crise tanto no plano econômico como espiritual. E quando se refere a S. João para as monjas lhes diz: “Senhoras, dou-lhes um confessor que é santo”.
Frei João se detém em Ávila neste convento e aqui acontecem grandes progressos espirituais. A mudança ali se torna visível. A paz retorna, a vida em comunidade se edifica com fervor; elas descobrem o valor do despojamento, recolhimento, oração, silêncio, solidão. As conversas nos locutórios cessam. Mas, a que mais usufrui e encontra a plena realização para o seu progresso espiritual é Santa Teresa. É sob os olhos de S. João que ela encontra o matrimônio místico. É neste período que atinge o vértice da união com Deus. Ela diz a respeito dele: “Busco aqui e ali a luz; acho tudo de que tenho necessidade no meu senequita. As riquezas e tesouros que Deus pôs nesta alma são grandíssimos”.
Em 1573, no dia da festa da Santíssima Trindade, frei João se acha no locutório do mosteiro. Por detrás das grades, Teresa o escuta com prazer, pois fala sobre o mistério de Deus. A santa mantém os olhos baixos, a alma recolhida. De improviso, frei João se cala e, com o rosto todo inflamado de amor, eleva-se da terra, levando consigo inclusive a cadeira à qual se agarrara na falta de outra coisa. Teresa olha para ele e, também ela arrebatada por Deis, se eleva. A irmã Beatriz, que quer falar com a Madre, entra e é testemunha da cena feliz. Teresa para desculpar-se diz: “Não se pode falar de Deus com o meu padre João sem que, de súbito, ele entre em êxtase, arrastando junto a si também os outros”. Quando Madre Ana de Jesus ficar chocada por ouvir Frei João chamar Teresa de “sua filha”, esta lhe escreverá que frei João é verdadeiramente o pai de sua alma, um homem celestial e divino, aquele de quem recebeu maiores luzes, porque é muito espiritual e de grandes letras. Que todas em sua casa falem com ele, que lhe abram a alma e verão que proveito obterão. E noutra ocasião dirá: “Encontrei um homem segundo o coração de Deus e meu”.
São João semeia o amor e não cansa de semear e nem de aguardar com paciência os frutos. Por isso, nos DITOS DE LUZ ele fala: ”A alma que caminha no amor, não cansa nem se cansa”. Ele permanece cinco anos em Ávila e lá no Convento da Encarnação ele não é o único a confessar as monjas. Os Calçados também freqüentam. Como tem o dom de conquistar e levar as almas a Deus, começam as perseguições. Os Calçados não tolerando mais seus irmãos Descalços, começam a tramar o fim da reforma. A perseguição culmina com a prisão de frei João e seu companheiro frei Germano. Frei João é levado ao CÁRCERE em Toledo. É dezembro de 1577.
Aqui sua luz brilha na escuridão da noite, noite escura. Começa o seu itinerário de escritor com o primeiro dos seus grandes tratados, o CÂNTICO ESPIRITUAL:

“ONDE É QUE TE ESCONDESTE, AMADO,
E ME DEIXASTE COM GEMIDO?
COMO O CERVO FUGISTE,
HAVENDO-ME FERIDO,
SAÍ, POR TI CLAMANDO, E ERAS JÁ IDO.”

Com o coração mergulhado na noite ele enriquece sua dolorosa recordação, compondo:

“EM UMA NOITE ESCURA,
DE AMOR EM VIVAS ÂNSIAS INFLAMADA,
OH! DITOSA VENTURA!
SAÍ SER NOTADA,
JÁ MINHA CASA ESTANDO SOSSEGADA.

ESSA LUZ QUE ME GUIAVA,
COM MAIS CLAREZA QUE A DO MEIO-DIA
AONDE ME ESPERAVA
QUEM EU BEM CONHECIA,
EM SÍTIO ONDE NINGUÉM APARECIA.

OH! NOITE QUE ME GUIASTE,
OH! NOITE MAIS AMÁVEL QUE A ALVORADA!
OH! NOITE QUE JUNTASTE
AMADO COM A AMADA,
AMADA JÁ NO AMADO TRANSFORMADA!


Aquela eterna fonte está escondida,
Mas bem sei onde tem sua guarida,
Mesmo de noite.
E sua origem não a sei, pois não a tem,
Mas sei que toda origem dela vem,
Mesmo de noite.
Sei que não pode haver coisa tão bela,
E que os céus e a terra bebem dela,
Mesmo de noite.
Eu sei que nela o fundo não se pode achar,
E que ninguém a pode atravessar,
Mesmo de noite.

São João começa o seu sofrimento mais pungente, a cruz que leva no nome, começa a carregar em si mesmo com consciência e desejo de suportá-la. Recusa toda a ajuda que lhe oferecem, desde quando é preso, onde pessoas próximas como o arrieiro, preparam planos de fuga e a todos não cede, agradece, mas quer padecer por Cristo. Quando é declarado preso em nome do Vigário Geral, ele responde: “pois bem, vamos”. Ali, ele experimenta à semelhança de Cristo, a captura à noite, quem o prende são homens da Igreja, arrastam-no ao Convento onde não faltam escárnios, humilhações e flagelos. Tudo suporta em silêncio. Alguns padres calçados vêm de vez em quando falar junto à porta do cárcere e para inquietá-lo, começam a ameaçá-lo de morte, falam do fim da reforma, da sua obstinação e supressão de seus conventos. Aliado à fome, frio, calor, condições sub-humanas que o expõe, as dúvidas, interrogações na sua alma. Quando sair do cárcere e escrever a obra “NOITE ESCURA”, lembrar-se-á dessa fase mais profunda e questionadora no cárcere de Toledo.
“... O que, porém, mais faz penar esta alma angustiada, é o claro conhecimento, a seu parecer, de que Deus a abandonou, e que, detestando-a, arrojou-a nas trevas. Na verdade, grave e lastimoso sofrimento é para a alma crer que está abandonada por Deus. Com efeito, quando verdadeiramente a contemplação purificadora aperta alma, esta sente as sombras e gemidos da morte, e as dores do inferno, de modo vivíssimo, pois se sente sem Deus, castigada e abandonada, e indigna dele que dela está enfadado. Todo este sofrimento experimenta aqui a alma, e ainda mais, porque lhe parece que assim será para sempre.
Em agosto de 1578, expressa ao superior do convento que viera visitá-lo o desejo de celebrar a missa no dia seguinte, festa da Assunção de Nossa Senhora. O superior recusa, dizendo: “Não, em meus dias.” Mas Nossa Senhora diz, SIM e lhe pede paciência porque suas provas logo acabarão. De fato, o novo carcereiro se compadece de seu sofrimento e o atenua como pode. Facilita a sua fuga e provavelmente na oitava da Assunção de Maria, ele sai do cárcere e se refugia no convento das carmelitas.
Após a sua saída do cárcere, a situação dos descalços é dramática, a reforma ameaçada de supressão. Em Almodóvar, São João com outros descalços se reúnem num Capítulo, estando no centro dos debates a separação definitiva dos Calçados. Para consegui-la decidem enviar a Roma uma comissão. Enquanto isso, o novo Núncio Apostólico Mons. Sega conhece os Descalços pelo o que lhe falam os padres Calçados. Para ele os Descalços são um grupo de homens rebeldes, indisciplinados e desobedientes. Assim, quando estes se aproximam para esclarecer os mal-entendidos ouvem somente insultos, ameaças e excomunhões. Nem Madre Teresa escapa da sua fúria. Ele a define como “mulher inquieta, andarilha, desobediente e contumaz que sob a aparência de religião, inventa doutrinas errôneas”. Somente anos depois com a intervenção do rei Felipe II, que lhe diz com franqueza: “Estou a par da oposição que os Calçados fazem contra os descalços, mas esta atitude me parece suspeita, sendo contra gente que vive uma vida rigorosa e perfeita. Aconselho-vos a favorecer a virtude porque me é dito que vós não ajudais os Descalços”. Mons. Sega começa a duvidar e ajuda na separação.
Terminado o Capítulo de Almodóvar, S. João é eleito superior do Convento do Calvário para ficar mais livre das perseguições dos Calçados. No caminho para esse convento, pára em Beas e é recebido pela priora do , Madre Ana de Jesus amiga e colaboradora de Santa Teresa. É a ela que ele dedica o CÂNTICO ESPIRITUAL e ela será fundadora dos conventos de Granada e Madri. Em Beas acontece um momento muito singelo e bonito de S. João da Cruz assistido pelas monjas. Ele está magérrimo, esgotado, falando com dificuldade. As religiosas se empenham em reconfortar o visitante e cantam para ele:

“QUEM NÃO PROVOU AMARGURAS
NO HUMANO VALE DA DOR,
NADA ENTENDE DE DOÇURAS,
DESCONHECE O QUE É O AMOR:
AMARGURAS SÃO O MANTO DOS QUE AMAM COM ARDOR”.

S. João se enternece, recorda a escura prisão de Toledo, revive os momentos de dor, privações sofridas por Deus, pensa nas graças recebidas justamente nesse momento, e não podendo resistir à emoção, com uma mão segura na grade e com a outra faz sinal para cessar. Fica em êxtase por 1 hora. Quando volta a si diz às monjas que não se espantem porque durante a prisão recebeu muitas luzes no que diz respeito ao mistério da cruz e não pôde, escutando o canto, evitar o arrebatamento.
A partir de 1585, começa uma série de viagens e responsabilidades até ser eleito em 1588 no Capítulo, conselheiro e prior de Segóvia. Durante o seu priorado a casa é escolhida como sede de Governo definido como “A CONSULTA”. Uma das primeiras preocupações do novo prior é a de ampliar a casa; com ele se unindo aos operários para fazer às vezes de pedreiro. Ao padre João Evangelista que lhe diz: “Deus meu, nosso Padre, quanto gozo Vossa Reverência acha em meio à cal e às pedras!”, o santo lhe responde: “Não se admire, filho, porque tenho menos ocasião de queda tratando com elas do que com os homens”. No terreno há uma pequena gruta que frei João freqüenta com assiduidade para recuperar o tempo empregado no expediente das coisas não só da casa, mas também de toda a província. Muitas vezes é encontrado nos seus arroubos, mas não deixa de cumprir com exatidão e responsabilidade os seus deveres. No CÂNTICO 28, 2-3, joga luz para defender os que estão imersos em Deus:

“Enquanto a alma não chega ao perfeito estado de união de amor, convém exercitar-se no amor tanto na vida ativa como na vida contemplativa; mas quando a ele chega, não lhe é mais oportuno ocupar-se em obras e exercícios exteriores -, sejam mesmo de grande serviço do Senhor, que possam no mínimo impedir aquela permanência de amor em Deus. Na verdade, é mais precioso diante dele e da alma um pouquinho desse puro amor, e de maior proveito para a Igreja, embora pareça nada fazer a alma, do que todas as demais obras juntas”. Afinal de contas, é este amor o fim para o qual fomos criados. Considerem aqui os que são muito ativos, e pensam abarcar o mundo com suas pregações e obras exteriores: bem maior proveito fariam à Igreja, e maior satisfação fariam a Deus- além do bom exemplo que proporcionariam de si mesmos- se gastassem ao menos metade do tempo empregado nessas boas obras em permanecer com Deus na oração, embora não tivessem atingido grau tão elevado como esta alma. Muito mais haviam de fazer, não há dúvida, e com menor trabalho, numa só obra, então, do que em mil, pelo merecimento de sua oração na qual teriam adquirido forças espirituais. Do contrário tudo é martelar, fazendo pouco mais que nada, e até prejuízo.”
Em 1591, ano de sua morte, participa em Madri do Capítulo Geral dos Descalços. Ao saudar as carmelitas, a priora Madre Maria da Encarnação, exclama sem poder conter a alegria: “Padre, quem sabe se Vossa Reverência não sairá provincial desta província!” Frei João que por iluminação interior previu a sua humilhação, responde com a calma de sempre: “Serei lançado a um canto, como um trapo velho de cozinha”. E isto se confirma. Do Capítulo, frei João sai sem ter sido eleito para nenhum ofício. O primeiro Descalço compreende que se deseja afasta-lo porque é a última testemunha fiel de um estilo de vida pobre, penitente e retirada que não agrada a todos. Sua presença é tida como impedimento. Sua palavra no Capítulo foi clara e firme. Testemunha da luz: defendeu as monjas do perigo do abandono e das modificações de suas constituições, tomou a defesa do Pe. Graciano da ameaça de expulsão. Ao Pe. Dória, vigário Geral, não agradam as intervenções de frei João que obstaculizam seus planos de expulsar da ordem o Pe. Graciano. Por isso decide livrar-se dele. É mandado à solidão de La Peñuela. Frei João, então, não serve mais aos religiosos da Reforma. O primeiro Descalço, que para permanecer fiel ao ideal teresiana sofreu até ao heroísmo todo gênero de humilhações, é posto de lado. Sua presença é incômoda. Os seus o afastam como elemento suspeito, perigoso, nocivo. É alguém que deve ser posto em silêncio, que deve ser esquecido por todos. Ele escreve à Madre Maria da Encarnação: “... Quanto ao que me diz respeito, filha, não fique penalizada, porque a mim nenhuma pena dá. Não pense outra coisa senão que tudo é ordenado por Deus. E onde não há amor, ponha amor e colherá amor”.
Em La Peñuela livre dos cargos de responsabilidade, dedica-se a Deus plenamente. Busca-o na solidão, experimenta-o presente na contemplação, frui dele em elevada e pura atividade de amor. A calma do lugar, o silêncio, a natureza, os pássaros tudo o chama às realidades interiores, o mergulham nos mistérios de Deus. Antes do amanhecer vai em meio às árvores para rezar. Na cela dedica-se à oração, a noite inteira passa no jardim do convento em oração.
Aqui revê sua última obra “CHAMA VIVA DE AMOR”. Abordando, aqui o que falou no Cântico Espiritual, do mais alto grau de perfeição a que a alma pode chegar nesta vida, ou seja, a transformação em Deus, sendo o amor mais qualificado e perfeito. À alma que se exercita no amor “acontece como à lenha quando dela se apodera o fogo, transformando-a em si pela penetração de suas chamas: embora já esteja feita uma só coisa com o fogo, em se tornando este mais vivo, fica a lenha muito mais incandescente e inflamada, a ponto de lançar de si centelhas e chamas”.
Enquanto mergulha no mistério da inabitação da Santíssima Trindade, expressa na sua obra da Viva Chama e frui tão bem da solidão de La Peñuela, o Pe. Diogo evangelista eleito definidor no Capítulo de Madri, e que fora repreendido por frei João pelo excessivo apostolado em prejuízo da observância regular e da oração; busca ocasião para vingar-se. É encarregado pelo definitório de completar a coleta de informações que devem servir para levar à expulsão da ordem do Pe. Jerônimo Graciano e aproveita sem o conhecimento do definitório para envolver nesta sanção frei João.
Muitos desejam que ele se defenda. Mas ele escolhe o silêncio e a oração como armas de defesa. Não falou dos perseguidores quando estava encarcerado, agora, é que não falará mesmo. O pe. Diogo vai de mosteiro em mosteiro imprecando contra frei João e exigindo declarações de acusação contra ele. Mesmo após a morte de S. João ele diz: “Se não estivesse morto, ter-lhe-ia tirado o hábito e não teria morrido na ordem”.
Em La Peñuela, frei João começa a sentir sintomas de mal-estar devido a uma inflamação na perna. Quando esta se torna grave, o prior preocupado propõe a ele Baeza ou Úbeda para tratamento. Ele podia escolher Baeza, convento que ele fundou e onde é estimado inclusive pelo prior que é seu grande admirador, mas escolhe Úbeda querendo dar mais um gesto de fidelidade à cruz. Ele sofre fisicamente com essa chaga na perna, mas a dor no coração devido ao ressentimento e ao ódio manifestado entre seus irmãos é muito maior. Sofre mais que na carne.
Chegado à Úbeda é recebido com manifestações de afeto e estima pelos religiosos onde revê seus filhos espirituais. Todos lhe querem bem e o recebem como bênção de Deus para a comunidade. O único a recebê-lo com visível frieza é o prior, Pe. Francisco Crisóstomo. Como Pe. Diogo Evangelista, ele também não esqueceu as repreensões de frei João pelo excessivo empenho no apostolado, com prejuízo da vida espiritual. Aproveita a ocasião para humilhá-lo indicando a cela “mais pobre e estreita do convento, arrumada apenas com um miserável leito e um Cristo”. Depois quando frei João se encontra gravemente enfermo, não mo dispensa de participar dos atos comunitários, e o repreende asperamente diante de todos, um dia em que o enfermo se desculpou de não poder descer ao refeitório.Proíbe os religiosos de visitá-lo e quando entra em sua cela é somente para humilhá-lo. Certamente recordou nesse período o que outrora escrevera às monjas de Beas: “A primeira cautela é que compreendas que não viestes para o convento senão para que todos te instruam e exercitem. Convém pensar que todos os que se encontram no convento são agentes encarregados de te exercitar, como o são na realidade: que uns te hão de aperfeiçoar por palavras, outros, por obras, outros pensando mal de ti e que a tudo hás de estar sujeito, como a estátua está ao que a lavra, e pinta e doura”. O momento é mais do que propício para estas reflexões; elas têm dupla finalidade: ver os acontecimentos a mão de Deus que tudo permite para o nosso bem e alimentar a paciência, virtude essencial a quem sofre injustiças.
Suas chagas começam a supurar e quem delas faz uso como remédio, comprova a cura. Entre as pessoas está o médico que vem medicar o enfermo e leva consigo as bandagens que cobriam as feridas. S. João vive o mistério da cruz e não lamenta vendo as chagas se propagando pelo seu corpo. No Cântico não vê outro caminho para atingir a transformação em Deus senão o da cruz: “A alma verdadeiramente desejosa da sabedoria deseja primeiro deveras entrar mais adentro na espessura da cruz, que é o caminho da vida pelo qual poucos entram! Com efeito, desejar entrar na espessura da sabedoria, riqueza e regalos de Deus, é de todos; mas desejar entrar na espessura de trabalhos e de dores pelo Filho de Deus é de poucos.
O sofrimento apesar de atroz o conduz à contemplação. Os irmãos que vão visitá-lo notam, muitas vezes, ele ausente como que recolhido em Deus, em contemplação. Algumas vezes pede para ficar sozinho. O próprio médico o encontra como que atraído por uma visão de beleza infinita e só com muito esforço volta a si. O médico limita-se a dizer: “Deixemos o santo rezar. Quando voltar a nós, viremos medicá-lo.
Quando ele começa a perguntar insistentemente que dia é hoje? Que horas são? Já conhece a data de sua morte e sabe também a hora. No dia 13 de dezembro de 1591 pede para chamarem o prior e lhe pede a caridade de dar-lhe o hábito que veste para ser sepultado, pois, de seu não possui nada. Pede-lhe perdão por todas as faltas e dificuldade que com a doença causou à comunidade. E por fim, pede-lhe a bênção. O prior lhe dá e convertido chora, pedindo desculpas porque devido à pobreza do convento não pode fazer mais para aliviar seus sofrimentos.
No dia 14, pergunta como de costume o dia e a hora e como repete a pergunta os religiosos curiosos perguntam o porquê. Frei João responde: “Glória a Deus! Devo cantar matinas no paraíso!”
Quando o sino toca à hora das matinas, frei João ouvindo-o aperta o crucifixo ao peito, o beija e o frade que o sustenta entre os braços, percebe que expirou vendo sobre o leito “um grande esplendor em forma de círculo. Brilhava como o sol e a lua e as lamparinas que estavam sobre o altar e as duas velas que estavam na cela, pareciam não dar mais luz”.
Na CHAMA VIVA DE AMOR S. João ensina, Ch1, 30: “Convém saber que a morte natural das almas que chegam a este estado (união transformante), embora seja semelhante às outras quanto à própria condição da morte, é, todavia, muito diferente quanto à causa e ao modo; porque se os outros morrem e, conseqüência de enfermidade ou velhice, esses de que tratamos aqui, morrendo efetivamente de doença ou em idade avançada, não é isso,todavia, que lhes tira a vida, e sim algum ímpeto e encontro de amor muito mais subido que os antecedentes, e bem mais poderosos e eficaz, pois consegue romper a tela, e arrebatar a jóia da lama. Assim, a morte de semelhantes almas é suavíssima e dulcíssima, muito mais do que lhes foi a vida inteira; morrem com os mais subidos ímpetos e deliciosos encontros de amor, assemelhando-se ao cisne que canta mais suavemente quando vai morrer. Daí vem a palavra de Davi: Preciosa é diante do senhor a morte de seus santos (Sl 115,15)”.




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Palestra proferida por Ana Stela de Almeida Silva, no V Congresso OCDS Norte/Nordeste, realizado em Fortaleza-Ce, de 22 a 25 de maio de 2008

terça-feira, 27 de maio de 2008

Beata Josefa Naval Girbés

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HISTÓRICO

Josefa Naval Girbés nasceu em Algemesi, Província de Valência, Espanha, no dia 11 de dezembro de 1820. Algemesi era um povoado eminentemente agrícola, com quase 8000 habitantes, uma única paróquia, um convento de Dominicanos, um hospital, escassos centros de instrução e poucas indústrias elementares. Foram seus pais Francisco Naval Carrasco e Josefa Girbés, e seus cinco irmãos: Maria Joaquina (morreu pequena), outra Maria Joaquina, Vicente, Peregrina (morreu aos 14 anos) e a pequena Josefa (que morreu apenas nascida).
De seus pais herdou Josefa, seu grande espírito de fé, sua ardente caridade, seu amor ao trabalho e o desejo ardente de viver sempre na graça de Deus. Maria Josefa recebeu o Santo Batismo no mesmo dia em que nasceu. Desde aquele momento só a chamavam com o nome de Josefa, mas alguns de seus devotos a seguem chamando de “Senhora Pêpa”.
Quando Josefa tinha oito anos, recebeu o Sacramento da Confirmação. Adquiriu uma cultura elementar, suficiente para desenvolver-se em meio no qual se passava sua vida. Aprendeu a bordar, atividade que com tanto acerto ensinou as suas numerosas alunas.
Sua infância transcorre sem acontecimentos especiais. Em sua formação religiosa colaborou eficazmente sua mãe. Desde pequena aprendeu a amar à Santíssima Virgem, venerada perto de sua casa, no convento dos Padres Dominicanos. Desde pequena já manifestava um caráter reto, um tanto enérgico, que ela depois administraria em sua atividade apostólica.
Fez sua Primeira Comunhão quando apenas contava com nove anos e, nesta época, se comungava pela primeira vez apenas aos onze anos cumpridos.
Sua mãe morreu quando ela tinha treze anos. A Virgem dos Padres Dominicanos a inspirou que nunca a abandonaria. Josefa, com seu pai e seus três irmãos, foi viver com sua avó materna.
Resultou em uma perfeita “ama” de casa, nos afazeres próprios da família. Dedicava um grande e doce cuidado com sua avó enferma, sem deixar sua vida de piedade nem dar concessões à rotina do cansaço. A avó morreu quando Josefa contava com 27 anos, ficando nesta casa com seu pai, seu tio Joaquim e seus irmãos sobreviventes Maria Joaquina e Vicente.
Seu pai morreu aos 62 anos, quando Josefa tinha 42 anos. Sua irmã Maria Joaquina se casou, morrendo aos 43 anos de idade. Seu irmão Vicente também se casou, teve três filhos que morreram muito pequenos, assim como sua esposa, pelo que já viúvo foi viver com ela. Seu tio Joaquim, um santo varão solteiro, morreu aos 77 anos, em 1870, ano no qual Josefa convidou sua discípula e confidente Josefa Esteve Trull a viver com ela, a quem, ao morrer, deixou seus bens em usufruto vitalício para que continuasse sua obra.
Josefa era de estatura mediana, nem alta, nem baixa; mais delgada do que gorda; de pele branca e fina; rosto ovalado, tinha um dente superior um pouquinho levantado que lhe fazia graça; olhos vivos e penetrantes, porém muito modestos; cabelos castanhos que logo se tornou grisalho; voz suave e acariciadora; sorria com muita freqüência, porém nunca se lhe viu rir forte; seu andar era moderado; vestia-se de cor escura, com sapato baixo e algo largo: o conjunto era de humildade e modéstia.
Para melhor agradar e entregar-se a Deus, em 04 de dezembro de 1838, escolheu a Jesus como seu único esposo, e a Ele consagrou para sempre sua virgindade; permanecendo indiviso seu coração (I Cor 7, 32-34), em sua união com Cristo fez progressos incessantes e se dedicou com todas suas forças à sua própria santificação e ao serviço da Igreja e das almas, demonstrando assim que a virgindade é o verdadeiro sinal e estímulo do amor e uma muito especial fonte de fecundidade espiritual no mundo (Documento Conciliar Lumem Gentium 42, Concílio Vaticano II).
Buscava todas as oportunidades para anunciar a Cristo, por palavras e com obras, tanto aos não crentes, para atrai-los à fé, como aos fiéis, para instruí-los, confirmá-los na mesma e estimulá-los a um maior fervor de vida. Com esta intenção ensinava às meninas a doutrina cristã, visitava aos enfermos, ajudava os pobres, aconselhava os quantos acudiam a ela, restaurava a paz em famílias desunidas, para as mães organizava em sua casa um círculo com a finalidade de conduzi-las à formação cristã, encaminhava de novo à virtude às mulheres que se haviam apartado do caminho reto e admoestava com prudência aos pecadores.
Porém, a obra a qual concentrou todos os seus cuidados e energias, foi a da educação humana e religiosa das jovens, para as quais abriu em sua casa uma escola gratuita de bordado, atividade manual que muito conhecia. Aquela atividade que por si mesma era “comercial”, à qual acudiam com assiduidade e entusiasmo muitas jovens de todas as esferas sociais, se converteu em um centro de convivência fraterna, oração, louvor a Deus, explicação e aprofundamento da Sagrada Escritura e das verdades eternas.
Deste modo contribuiu eficazmente para o incremento religioso de sua paróquia, formando assim muito boas mães de família, fomentando o germe da vocação à vida consagrada e ensinando a todos o que significa ser membros do Povo de Deus. Por tudo isso, ganhou grande estima e fama de santidade entre o clero e o povo. Inclusive depois de sua morte, que ocorreu piedosamente em 24 de fevereiro de 1893, continuou estendendo-se sua lembrança devido à santidade de sua vida e de suas obras.
Vestida com o hábito da Terceira Ordem do Carmo, seu venerável corpo foi depositado em um humilde ataúde. Pela manhã do dia seguinte, 25 de fevereiro, se celebrou o funeral e, pela tarde, o enterro. A caixa mortuária foi levada por suas alunas; as argolas brancas que pendiam do ataúde, por quatro das menores. Josefa foi depositada em um nicho que temporariamente adquirido e, definitivamente em 1902, por dona Josefa Esteve Trull, sua discípula predileta.
Ali permaneceu incorrupta até seu translado à paróquia, em 20 de outubro de 1946. A Cúria Arquiepiscopal de Valência iniciou a Causa de sua Canonização com a celebração do Processo Ordinário informativo durante os anos de 1950-1952, ao qual se seguiu um processo adicional em 1956. Em 03 de janeiro de 1987, Sua Santidade João Paulo II aprovava o decreto sobre as virtudes heróicas de Josefa Naval Girbés, e em setembro de 1988 o milagre proposto para sua Beatificação. A cerimônia de Beatificação se celebrou em São Pedro em 25 de setembro de 1988.

VOCAÇÃO À ORDEM SECULAR

Josefa Naval Girbés é, sem dúvida, um exemplo para todos os que são chamados à santidade sem abandonar o mundo. Quer dizer, sem deixar seu lugar, sua vida familiar e seu trabalho profissional. Ela permaneceu no mundo para ser modelo de santidade para os seculares. Josefa não fez votos para a vida consagrada e não ingressou em um convento, não por comodidade ou para escapar do rigor da vida comunitária, já que no mundo, sem sair de sua casa, viveu, em plenitude, os conselhos evangélicos, para ser um modelo exeqüível para a maior parte dos filhos da Igreja que são os seculares.
Teve plena consciência da condição de secular na Igreja, aos treze anos era uma perfeita “ama” de casa, à frente de uma família composta por sete membros.
Josefa andou pelos caminhos da santidade em total entrega a Deus e em serviço a seus semelhantes. À sua condição de secular temos que aliar a de sua virgindade, que a introduz na intimidade com Deus e a faz disponível para uma ação apostólica visivelmente fecunda. Josefa é uma virgem secular, as duas coisas de uma só vez.
Josefa Naval se volta com a bagagem de suas virtudes e de sua atividade apostólica ao mundo de hoje, tão necessitado de guias nos caminhos da santidade: uma santidade imitável pelos filhos da Igreja, chamados a ela em sua condição de seculares.
Esta mulher de Algemesi viveu no laicato da perfeição evangélica, entregando-se ao apostolado entre as jovens de seu povo, sendo um convite para a grande maioria dos cristãos que não foram chamados a uma consagração especial, e que nem por isso sua dignidade eclesial é menor. Ela que encheu os conventos de clausura, com virgens de vida consagrada, permaneceu no mundo para ser testemunho sem ter que abandona-lo. Foi testemunha de como a consagração a Deus é sinal e estímulo do amor e uma muito especial fonte de fecundidade em meio ao mundo. Santificar-se e santificar! Foi a norma de conduta desta Beata; e fazer sempre e em tudo a vontade de Deus, em circunstâncias ordinárias da vida e no cumprimento de seus deveres de estado.
Josefa, sem sombra de dúvida, pensou na possibilidade de orientar sua vida até algum convento; claro que consultou esta possibilidade com seu diretor espiritual, porém, com as luzes que o Senhor lhe concedeu e que ela recebeu com humildade e obediência e com o conselho de seus diretores, viu claramente que devia continuar no mundo sendo guia de almas que necessitavam de sua direção, seu exemplo de entrega a Deus e da ação benéfica de sua atividade apostólica.
Seu lugar na Igreja esteve sempre bem definido, desde o mundo para o mundo, desde Deus para os homens. O chamamento à perfeição que consiste fundamentalmente na união com Deus pelo amor, vivendo fielmente sua vontade, foi assumida por Josefa, desde sua condição de secular.
Viver em plenitude o amor a Deus e praticar esse amor na acolhida do próximo. Ela viveu na vizinhança dos demais irmãos e irmãs e, nesta vizinhança, o caminho de sua perfeição. “Procurai a perfeição com simplicidade”, e insistia: “temos que chegar à perfeição custe o que custar!”.
O que ensinava à suas alunas, Josefa o vivia em plenitude. Sempre, com simplicidade e humildade, com naturalidade; como virgem consagrada a Deus em meio ao mundo, por cujos caminhos andou nossa Josefa até essa perfeição, que outras almas alcançam no silêncio dos claustros.

IDEAIS VOCACIONAIS

Josefa Naval Girbés, como abrindo de par em par sua alma, dizia muitas vezes: “meu ideal não é largar a vida, senão santificar minha alma”. Praticou em grau heróico as virtudes teologais da fé, esperança e amor, cujo exercício, bem sabemos os Carmelitas, nos levam ao abandono, à abnegação e à doação de nós mesmos, como ideais vocacionais.
Sua vida era toda para Deus: “temos que retorcer a vontade própria para que solte tudo o que não é vontade de Deus”. Essa vontade a descobria, com grande espírito de fé, em sua santa lei e nas obrigações do próprio estado. O apreço pelo cumprimento do dever que ela vivia e que ensinou a suas discípulas, se traduz nestas palavras: “o cumprimento do dever é o caminho; o grau de amor com que se cumpre é a medida da virtude que tem a alma”.
Josefa teve sempre um claro conhecimento da bondade de Deus, por isso pôs nEle toda sua confiança; ela que aspirava aos bens eternos e trabalhava por consegui-los, contava sempre com a ajuda de Deus. Para lográ-los consagrou toda sua vida: seus sofrimentos, que não foram poucos, ocasionados em grande parte por sua enfermidade, que a acompanhou desde os trinta anos até sua morte; seus trabalhos, os domésticos que ela teve que enfrentar desde os treze anos, e os que ela se impôs na escola-atelier que fundara; seus desvelos apostólicos que a levavam a preocupar-se com todos os que padeciam alguma carência material ou moral.
Ela esteve sempre nas mãos de Deus. Infundir esta confiança no coração de suas alunas foi sua tarefa. Assim dizia: “que nenhuma de vocês desconfie à vista de seus muitos pecados; nossa confiança não se apóia no que nós somos, senão no que Deus é e no amor misericordioso que Ele nos tem”.
Josefa foi uma humilde serva do Senhor. O humilde reconhece seu nada, sua inteira dependência de Deus e em suas mãos confia. Anulava-se no templo, ante a imensa majestade de Deus; e essa atitude humilde se prolongava durante todo o dia, em que se dedicava a toda espécie de trabalhos, alguns os mais humildes.
Nunca consentiu que suas discípulas lhe ajudassem nos trabalhos ordinários de sua casa. Amava o retiro e o passar despercebida. Não falava de se mesma e nem de suas coisas. Nunca se fez objeto de festas ou de comemorações. Querendo enamorar suas alunas da virtude da humildade, lhes dizia: “Somos o que somos diante de Deus; haveremos de fazer as coisas com grande pureza de intenção. Procedendo desta maneira, se logo nos desprezam, devemos nos calar e não nos defendermos, ainda que, humanamente, tenhamos razão”.
O amor de Deus preenchia toda a vida de Josefa, a fé a fazia ver a Deus como infinitamente amável. Ele é o Bem Absoluto que sacia todas as aspirações da alma. Merece, pois, ser amado. Seu amor era um amor profundo na abnegação, no sacrifício, na entrega total ao cumprimento de sua vontade: “amar a Deus é entregar-se; amar a Deus é sofrer; o amor verdadeiro se prova com o sacrifício”.
Porém sabia que o amor a Deus passa também pelo meridiano do amor ao próximo. Amar ao próximo por Deus, amor que começa da convicção de que somos filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo. Tinha muito presente a Palavra de Deus (I João 4,20). Amou aos seus: a seus pais, a sua avó, a seu tio, a seus irmãos, ainda que um deles, Vicente, tivesse com ela um trato pouco amável, quando já viúvo, veio viver com ela. Amou a seus superiores, especialmente os sacerdotes, entre os quais cabe destacar a seus sábios diretores espirituais. Amou a suas discípulas, com paixão proporcionada a seu zelo. Porém, sobre tudo, amou aos indigentes, aos quais dedicou seus melhores afãs.
Seu amor à cruz foi uma mensagem constante para todas suas alunas. Assim dizia: “correspondamos ao amor sacrificado de Jesus em sua paixão. Haveis de levar a vossa cruz, cumprindo o dever como Deus manda. Sofrei com amor, aproveitando todas as ocasiões de pequenas doenças. Amar, amar e sofrer em silêncio; o amor se prova no sacrifício. Sacrificai vossos gostos”.

VIVÊNCIA DO CARISMA CARMELITANO

Alma de vida interior, aspirou sempre à perfeição. Para alcançá-la, se valeu dos meios que o carisma carmelitano põe a nossa disposição para fazê-los experiência de vida.

VIDA DE ORAÇÃO. - Josefa Naval foi uma alma de profunda vida interior. Sua fé a levava à convicção de que Deus, Uno e Trino, habita em uma alma em estado de graça. Ela viveu em plenitude aquele anúncio de Jesus Cristo: “a quem me ama, meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada” (João 14, 23). Tão compenetrada estava com essas verdades que às vezes parecia como absorta em meio de suas ocupações. Mais de uma vez tinha que se retirar a seu quarto, onde, abstraída, com as mãos juntas e os olhos fechados, dedicava longo tempo à contemplação.
Alimentava sua vida interior com a Eucaristia e a oração. Oração vocal que aprendeu dos lábios de sua mãe. Oração mental que realizava nas primeiras horas da manhã, em sua paróquia, depois de sua Missa e comunhão. O trato íntimo com seu Esposo, Jesus, se acentuava na comunhão eucarística de cada dia, que ela renovava com freqüência na comunhão espiritual. E, ao encerrar as tarefas do dia, antes do descanso noturno, roubava algum tempo do descanso da noite para dá-lo a um trato íntimo com o Senhor. Nesta comunicação secreta com Deus, Josefa experimentava arroubamentos que silenciava com humildade.
Orando durante o trabalho, exercitando a presença de Deus com jaculatórias, vivia plenamente a presença de Deus. Dizia insistentemente a suas alunas: “levai convosco a presença de Deus”; e ajuntava: “tenhamos muita devoção à Santíssima Trindade, que mora em uma alma em estado de graça”. Deste seu espírito de fé na presença de Deus na alma brotava sua devoção ao Espírito Santo. Como celebrava Sua festa anual! Pentecostes era ocasião propícia para impulsionar em suas alunas o amor a Deus que tanto nos ama. Assim, com o motivo desta solenidade, organizava entre elas, durante três dias, turnos de oração e penitência.
A oração do Ângelus ao meio dia, e algumas outras práticas de piedade, entre as que sobressaía era a reza do Rosário a cada dia, se possível com suas discípulas.
Esta era sua repetida mensagem: “oração, oração; fazer a cada dia um momento de oração e tudo vos parecerá maneiro e suave. Aprendei a falar com Deus sem palavras e fazei assim um momento de oração meditativa. Diante do sacrário havemos de estar com grandíssima fé e reverência”; este último conselho ela dizia como expressão de seu espírito eucarístico.
PENITENCIA E MORTIFICAÇÃO. - Consciente das dificuldades que se opõem à perfeição, dizia a suas alunas: “filhas minhas, não temos que temer demasiadamente as dificuldades do caminho que temos empreendido; é verdade que esse caminho é pedregoso e está cheio de trabalhos e privações, porém também é certo que nosso Divino Capitão o trilhou durante sua vida, paixão e morte”. Viveu sempre unida às dores de Cristo, a esses sofrimentos redentores de Cristo uniu os seus, aquelas dores de cabeça que sofreu desde os trinta anos até sua morte e as penitências, inclusive materiais, que se impunha e autorizavam seus diretores. Praticou heroicamente a virtude da fortaleza, que fortalece a alma para servir a Deus, sem deter-se por nada, nem ante nada, nem sequer ante o temor da morte.
Era exigente consigo mesma, logo o era também com os demais. Para exercitar-se na fortaleza, seguindo adiante com exemplo, propunha a suas discípulas a prática da mortificação. Mortificações às vezes simples, porém saturadas de vitória contra si própria que pouco a pouco a preparavam a oferecimentos mais amplos e generosos. Dizia às suas alunas: “filhas minhas, se é necessária a fortaleza para empreender o caminho de Deus, não o é menos para aceitar o que Ele envia ou permite para nossa purificação, a saber: moléstias, enfermidades, desprezos...”.
Outra das virtudes que Josefa exercitou heroicamente foi a da temperança, necessária para moderar a inclinação ao prazer sensível, que pode impedir a perfeição e conseguir assim a posse de Deus. Fez como norma de sua vida aquela que São Paulo pregava: “castigo meu corpo e o reduzo à servidão” (I Cor 9,27). Castigou seu corpo, porém com prudência. Sua comida era sóbria, mas bem pouca e às vezes, voluntariamente, sem sabor. Não comia carne, a não ser por prescrição médica. Não bebia vinho (coisa muito comum naquela época e em sua região). Jejuava com certa freqüência. Na Semana Santa não comia nada desde Quinta-Feira Santa até o dia do “Glória” (noite do Sábado Santo).
Usava cilícios (instrumento de penitência, tipo cinturão largo ou faixa larga de couro com pontinhas de ferro contra a pele, nos braços ou abdome), empregava disciplinas (pequeno flagelo de couro, com o qual a pessoa se auto-açoitava, principalmente durante a reza de salmos penitenciais, tipo o Salmo 50 e o Salmo 29); sempre com anuência de seus santos diretores espirituais. Sobre tudo aceitava com amor tudo o que Deus lhe enviava. Suas cruzes eram um regalo. Nunca comentava sobre seus sofrimentos (enfermidades) que eram muitos.
À mortificação exterior superava a interior; essa vitória contra si própria que ela dissimulava com seu perene sorriso. Ninguém adivinhava que ela estava constantemente vigilante sobre suas paixões; porque tudo o fazia com grande naturalidade, sem sobressaltos, sem por em perigo sua inata longanimidade e equilíbrio emocional.
APOSTOLADO. - Josefa foi uma apóstola de seu tempo, alma entregue a Deus ao serviço das jovens, especialmente aquelas de pobre condição social. Seu espírito observador captou as carências das jovens, profundamente influenciadas pelo ambiente de seu século (Nota: não estaríamos vivendo agora a mesma realidade?). Não foi a única na Igreja de seu tempo nesta luta por levar a salvação de Cristo às jovens mais necessitadas, porém foi uma das que com maior dedicação, com mais ardor, com mais calor humano se dedicou a esse trabalho apostólico, desde sua pequenez de virgem secular, desde sua humilde condição de professora de bordado, desde suas profundas convicções religiosas, sobre tudo, desde seu ardente amor pelas almas remidas por Cristo!
Ela se antecipou ao Concílio Vaticano II, vivendo sua condição de secular no meio do mundo, para o serviço de Deus, em obras concretas de apostolado. Entregou-se ao apostolado dos humildes num século em que a classe trabalhadora irrompe na história para defender seus interesses materiais, ainda que a custa de afastar-se do que ensina a Igreja, com a delicadeza de uma mulher que, desde sua entrega a Deus, se fez toda para todos, para levá-los todos a Cristo (à imitação do Apóstolo S. Paulo). Quando Josefa completava os trintas anos de idade, seu confessor reflexiona largamente sobre os planos apostólicos de sua dirigida e aprova a criação daquela escola-oficina (ou ateliê) como “Coisa de Deus!”. Aquela casa onde ela foi viver desde os treze anos produziu fervorosas religiosas, abnegadas esposas, mães de família e jovens praticantes, de vida secular consagrada. À casa que herdou de sua avó acudiam as jovens, atraídas pelo zelo ardente de sua mestra, por sua fé vivíssima, por seu espírito de amor provado no sacrifício, por seu otimismo, por sua alegria..., e pelo alimento espiritual que lhes proporcionava. Tudo por seu amor a Deus, tudo por seu ardente amor pelas almas.
A jornada diária de Josefa acabava sendo muito apertada: levantava muito cedo para participar da primeira Missa da paróquia, comungava e praticava oração mental; a seguir dedicava algum tempo à limpeza; o horário da escola-oficina era das 09 as 12 e das 14 às 18 horas.
Durante a jornada de trabalho, Josefa ensinava bordado, porém isto era o pretexto para formar a alma de suas alunas no amor a Deus. O trabalho era acompanhado de orações, jaculatórias e cânticos piedosos; entre leituras do Evangelho e da Doutrina Cristã (catecismo), se escutava a palavra da mestra, suave e enérgica ao mesmo tempo, explicando os pontos mais incisivos das leituras. Articulavam-se com estas leituras e orações, largos silêncios, que Josefa suscitava para que suas alunas se adestrassem na oração. Ali, nesse ambiente de paz, bordavam seu enxoval as jovens que iam contrair matrimônio e seu dote as que se preparavam para entrar no convento.
Sua caridade, para com o próximo, teve sempre objetivos espirituais. Assim, por exemplo: empenhava-se para que os pais batizassem quanto antes a seus filhos recém-nascidos; visitava aos enfermos que estavam em perigo de morte, procurando que recebessem os últimos sacramentos; vestia ao desnudo com delicadeza, trocando as vestes sujas e rasgadas dos mendigos por outras limpas, lavando e remendando com exemplar caridade aos que deixavam. Sua casa foi, mais de uma vez, asilo de órfãos. Por duas longas temporadas albergou crianças que haviam perdido suas mães, cuidando delas com amor maternal.
Quando verdadeiramente brilhou a caridade de Josefa, foi na epidemia de cólera de 1885, quando contava 65 anos. Ela e algumas de suas alunas se dedicaram a atender aos empestados que estavam sozinhos e, portanto, os mais necessitados de ajuda.
Sua caridade se estendia às coisas e atividades aparentemente pequenas tais como: escutar com paciência e interesse as confidências que lhe faziam as pessoas desesperadas em busca de conselho. Era muito respeitosa com a boa fama dos demais. Não tolerava em suas discípulas a menor palavra de crítica, nem de murmuração. Lembrava-se das Almas do Purgatório, rezando por elas e ensinando a suas alunas que fizessem o mesmo.
Unida intimamente a seu Divino Esposo, se cumpriu nela o que Ele disse: “Quem permanecer em mim e eu nele, este dará muito fruto” (Jo15, 5).

CONSELHOS EVANGÉLICOS

Josefa Naval Girbés, em sua casa, viveu plenamente os Conselhos Evangélicos de castidade, pobreza e obediência, que são normas das almas consagradas.
A CASTIDADE em plenitude: fez voto de virgindade aos dezoito anos e tornou norma de vida aquilo que pregou São Paulo: “Castigo meu corpo e o reduzo à servidão” (I Cor 9, 27). Sua virgindade lhe alcançou uma perfeita união com Jesus Cristo e uma disponibilidade maior para engendrar e iluminar almas consagradas a Deus, e fiéis filhas da Igreja, na vida solteira ou no matrimônio. Com sua virgindade, demonstrou que pode ser vivida, no mundo, a total consagração a Deus. Com sua virgindade, ensinou que esta entrega a Deus é um dos caminhos – sem dúvida, o melhor – para a santificação própria e a dos demais. No tocante a virtude da pureza foi fidelíssima observante. Viveu a mais estrita pureza de alma e de corpo, e ensinou a vivê-la a suas alunas. Recomendava a modéstia no falar, no vestir e no agir.
Virgem, porém secular no mundo, abre novos caminhos à santidade da maior parte dos membros da Igreja, que vivem a secularidade. Josefa viveu e morreu no mundo; foi uma solteira exemplar que, mesmo fazendo voto de castidade, permaneceu no mundo. O Senhor lhe concedeu que seu corpo virginal permanecesse, após sua morte, incorrupto para sempre!
A POBREZA, que lhe veio por herança, e que ela cultivou até o desprendimento de tudo aquilo que não era útil ou necessário para seu apostolado. Desprendimento das coisas, dos bens materiais, do mundanismo, mesmo da família, porém, sem a menor mostra de egoísmo, que na área da justiça ensinou a suas alunas.
A OBEDIÊNCIA cristã é uma virtude que nos inclina a submeter nossa vontade à dos superiores legítimos, que nos representam Deus. A obediência é um tributo de amor, a quem tem absoluto domínio sobre si mesmo. Josefa foi sempre obediente, à imitação de Jesus, seu divino esposo.
Assim, no exercício desta virtude, traçou para si mesma, desde muito jovem, um plano de vida que abarca o cumprimento de suas obrigações como ama de casa e como professora de sua escola-oficina, o cumprimento de seus deveres religiosos e o cumprimento de seus compromissos apostólicos. A obediência ao diretor espiritual foi norma inquestionável de sua conduta.
Às suas alunas mais preparadas, as provava na obediência, às vezes com a argúcia de que “mudaram de cor” as flores de seus bordados. Os pais daquelas jovens, educadas assim na obediência, estavam encantados de que suas filhas exerciam com eles esta virtude.

VIDA ESPIRITUAL

A vida espiritual de Josefa, tão plenamente cultivada, não foi um horto fechado para seu deleite. Ela se comprometeu com a necessidade de ir à conquista das almas, trabalhando por salvar tantas jovens ameaçadas pelo estranho ambiente do século (do mundo). Parecia que Josefa havia intuído aquela frase do Vaticano II, tão dura como importante: “há de ser considerado como inútil o membro que não contribua, segundo sua própria capacidade, para o aumento do Corpo Místico de Cristo” (AA,2). Ela entendeu, em seu tempo, que em meio ao mundo, o secular tem de atuar como fermento e que, para ser eficaz, é necessário viver unido a Cristo: “aquele que permanece em Mim e Eu nele, este dá muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer” (João 15,5).
Uma de suas discípulas nos descreve o ambiente sossegado de sua escola-oficina: “Naquela casa se respirava uma atmosfera de fé, piedade e virtude cristã e, sobre tudo, de alegria e de caridade. Nossa mestra inspirava devoção e recolhimento: vivia o espiritual com muita verdade e simplicidade, e nos infundia desejos de sermos cada dia melhores”.
Durante as horas de aula, atendia em particular às jovens que necessitavam de cuidado especial. Na habitação na qual ela praticava sua oração e suas preces, recebia às jovens que ou a pediam ou aquelas que ela chamava. Umas vezes eram jovenzinhas desejosas de que lhes ensinasse a praticar oração mental; outras vezes, eram jovens maiores, as que ela ajudava a desvanecer suas dúvidas e evitar prejuízos morais e espirituais, pelo que as deixava cheias de paz e alegria!
Também acudiam a Josefa pessoas maiores, mais ou menos crentes, e com prudência e tato orientava suas vidas, lhes dava uma grande paz interior. Uma de suas recomendações, era a de ter um confessor fixo, ter confiança nele e obedecer-lhe. Não faltaram as meninas pequenas que eram enviadas por suas mães à escola-oficina, sendo beneficiadas com suas carícias e suas lições elementares de catecismo.
As alunas mais seletas chegavam a permanecer, terminada a jornada de trabalho, para prosseguir à sua formação espiritual, de ordinário, no jardim da casa. Deste grupo escolhido saiu um amplo “jardim” de jovens religiosas; tantas que o Cardeal Guisasola, Arcebispo de Valência, em visita pastoral a Algemesi, perguntou cheio de admiração: “que povo é este que tem tantas religiosas em todos os conventos de nossa arquidiocese?”.
Porém, Josefa não descuidou das jovens com vocação para o matrimônio. A elas dedicou tempo e esforço. De sua escola saíram excelentes esposas e mães de família. A “Escola Dominical”, aos domingos à tarde, depois dos cultos vespertinos da paróquia, foi outra oficina na qual se forjavam as almas no amor de Deus! Deixemos que uma de suas alunas nos descreva o ambiente daquelas reuniões às tardes de domingo: “a casa de nossa mestra era uma casa de oração. Sua conversação era sobre coisas espirituais, alentando-nos a seguir, perfeitamente, nossa vocação. Depois de falar um pouco com ela, se saía dali sem gosto pelas coisas do mundo. Suas palavras infundiam espírito de amor pelas coisas do Céu. Levava-nos a Deus, por amor! Todas suas discípulas, ainda que o Senhor as tenha chamado ao matrimônio, tem sido piedosas, levando em suas almas a recordação eficaz de seus avisos. Dizia-nos: ‘haveis de levar vossa cruz e cumprir o próprio dever como Deus manda: as solteiras, como solteiras e as casadas, como casadas’”.
Quando Josefa tinha cinqüenta e sete anos, o pai de uma de suas alunas lhe ofereceu o “Horto da Torreta”, coberto de laranjais e árvores frutíferas, para seu retiro e o de suas alunas. Ali se retirava com suas discípulas prediletas, ao entardecer dos dias de primavera e verão. Ali, enquanto anoitecia, empregava Josefa seus dons de catequista e de forjadora de almas ansiosas de perfeição: “filhas minhas, imaginemo-nos que estamos aqui como o Senhor, rodeado de seus apóstolos. Eu, em Seu nome, vos digo: sede boas, fazei tudo por amor; tende muita caridade uma com as outras; vivei com espírito de abnegação e sacrifício”.
Naqueles deliciosos entardeceres do “Horto da Torreta”, ressoava límpida, como a água das fontes vizinhas, a voz da mestra: “Nossa entrega a Deus há de excluir todo costume mundano; tudo aquilo que de alguma maneira Lhe desagrada, como são: o apego às coisas ou pessoas que nos impedem de cumprir a vontade divina; a vida dos sentidos que se opõem à perfeição que Deus nos pede. A vida superficial, que busca o gosto próprio e agradar ao mundo, não pode acompanhar-se com o verdadeiro amor”.
Josefa adestrava a suas alunas para a vida, era como sua “mãe espiritual”. A ela acudiam atrás de conselhos e na hora de escolher o estado de vida. Com aquela segurança que lhe conferia sua íntima união com Deus, dizia a umas: “vós, ao matrimônio”; e a outras: “Vós, ao convento”.
Párocos e sacerdotes, filhos de Algemesi, com discrição e prudência, acudiam a Josefa, com a qual tinham deliciosas conversações de elevado alimento espiritual. Estas visitas de sacerdotes qualificados aumentava, em suas alunas, a admiração e o respeito que tinham por sua mestra.
Muito ajudou a formar a Josefa a gratificante ação de seus diretores espirituais. Em seu tempo teve a sorte de coincidir com sábios, santos e experientes párocos, que puseram, a seu serviço, seus dotes de guias de almas. Ela deu sempre muita importância à “direção espiritual”.
Digna filha de Santa Teresa, a recomendou vivamente a suas amadas alunas: “sede simples a dar conta ao diretor; obedecei-lhe com fidelidade e perseverança; proibido falar mal de confessores...”. Quando um de seus diretores espirituais foi transferido ao povoado de Alcira, Josefa acudia a sua direção a cada duas ou três semanas, durante seis anos, percorrendo a pé a distância, às mais das vezes acompanhada de alguma de suas discípulas, com as quais entretinha entranhadas conversações espirituais.
Lutou, com denodo, contra a tibieza, nunca se contentou com um vida espiritual lânguida; sua intransigência para o mal tinha conotações humanas: sem chegar a ser áspera em seus modos, ao contrário, era de elegante e solene caráter, com uma grande capacidade de comando que ela administrou em favor de suas amadas alunas.
Ela viveu à vizinhança do homem e, nela, o caminho de sua perfeição. Seu convento foi a casa de sua avó, onde viveu até à morte de sua mãe; a campana do convento, a voz da superiora, a vida de comunidade, as regras monásticas que asseguram o bom caminho... Todo esse modo de vida conventual o resumiu sabiamente Josefa ao ser fiel à vontade de Deus, explorada na oração e na prudente consulta a seus diretores espirituais. Josefa permaneceu no mundo, para ser exemplo de santidade para os seculares.

VIDA MARIANA

Josefa aprendeu a amar à Virgem Maria, desde menina, no altar do Rosário do convento dos Padres Dominicanos. Seu amor se fazia patente nestas e noutras referências: “Maria, minha Mãe, ensina-me a ser fiel e a agradar a Deus”. “Virgem Maria, minha Mãe, faz-me pura, casta, boa e santa”. Acuda-nos a Santíssima Virgem, para que nos ensine e os ajude a ser fiéis a Deus”.
Amante da pureza, que ela havia vivido sempre em plenitude, recomendava às jovens: “Sede limpas, asseadas no modo de vestir, sede muito honestas como a Virgem. Todas as virtudes embelezam a alma, porém, a pureza a embeleza de um modo especial, fazendo-a semelhante aos anjos”.
A fé de Josefa se traduzia em uma acendrada devoção à Virgem. Em prova de sua entrega filial à Senhora, ela levou em sua morte o Escapulário do Carmo e um Rosário em forma de colar. O Ângelus, que assinalava ao meio dia o sino da paróquia, era rezado por todas as alunas, assim como a Ave Maria a cada hora e aos sábados a “Felicitação Sabatina”.
Preparava e celebrava com fervor as solenidades da Virgem. O mês de maio, em honra da Virgem, se celebrava na escola-oficina com orações, cantos e oferecimento de flores. Com que alegria celebrou Josefa a declaração dogmática da Concepção Imaculada de Maria! Para recordar tão grato acontecimento, impulsionou a criação da “Corte de Maria” em Algemesi.
Como Carmelita Secular, Josefa tinha uma especial devoção à Santíssima Virgem do Carmo, como tal, em repetidas ocasiões pediu a suas discípulas que, à sua morte, a vestissem com o hábito do Carmo, desejo que se cumpriu fielmente. Esta filiação Mariana a soube transmitir às suas alunas; bastem-nos estes testemunhos: em uma das casas de Algemesi se conserva um grande quadro da Virgem do Carmo, bordado em ouro e seda pela senhora Vicenta Morán através da direção da “Senhora Pêpa”, como era conhecida Josefa em sua terra natal no ano em que morreu nossa Beata. Outro feito mencionado por seu biógrafo relata que, às vésperas de uma das festas da Virgem do Carmo, a uma das discípulas prediletas de Josefa, que se encontrava moribunda, se lhe ouviu invocar à Rainha do Carmelo com estas palavras: “Minha Mãe do Carmo, vem por mim”, e ele mesmo comenta, “feliz alma que assimilou perfeitamente a doutrina e o espírito de sua santa mestra”

VIDA FRATERNA

Viver, em plenitude, o amor a Deus e, verificar esse amor na acolhida ao próximo, foi norma de sua conduta. Deste amor, brotou seu zelo pelas almas e seu afã por ensinar-lhes este modo de pensar e viver.
Josefa era de estatura mediana, nem alta, nem baixa; mais delgada que gorda; pele branca e fina; rosto de forma algo oval, tinha um dente superior um pouquinho levantado que lhe dava um ar de graça; olhos vivos e penetrantes, porém muito modestos; cabelos castanhos que logo ficaram algo grisalhos; voz suava e acariciadora; sorria com muita freqüência, porém nunca se lhe viu rir forte; seu andar era moderado; vestia-se de negro, com sapato baixo e um pouco largo: todo o conjunto era simplicidade e modéstia. Tinha muito talento natural e, muita luz e graça de Deus. A isto uniam um grande coração de mãe, que ardia em amor pelas almas que queria salvar. Tudo isso motivava o grande amor, a obediência e a fidelidade que sentiam por ela suas discípulas.
Josefa penetrava o interior das almas, se adiantava ao que queriam dizer-lhe, lia em seus corações; estas qualidades lhe deram um grande prestígio e autoridade em seu povo, fazendo com que todos a quisessem bem, a respeitassem e obedecessem.
Para atrair as almas, primeiro tratava-as com doçura e amabilidade, porém, quando as conquistava, as estimulava, energicamente, para que não se contentassem com pouco, se podiam fazer mais, para servir melhor a Deus e ao próximo. O modo de falar de Josefa era simples, modesto e humilde, começava a falar sempre dizendo: “Filhas minhas...”. Não havia nela ar de suficiência, nem se engrandecia ao ver quantas pessoas acudiam a ela em busca de conselho, por sua fama de prudência e santidade. Ademais, ao pregar às suas discípulas, o fazia com tal fogo e espírito, que nos disse uma delas: “Quando nos falava de Deus, tinha muita unção, se emocionava e lhe saíam lágrimas”.
O que ela havia semeado produziu muitos frutos, especialmente manifestos durante seus últimos dias nesta terra.
Quinze dias, esteve na cama em fevereiro de 1893; pressentindo aproximar-se a hora de sua morte, no dia 22 (de fevereiro) mandou trazer seu confessor. No dia 23 recebeu os últimos sacramentos. Suas discípulas chegavam à casa: todas queriam vê-la morrer. Com aquela lucidez que Deus lhe concedeu até sua morte, Josefa lhes dizia: “Filhas minhas, filhas de meu coração: que nenhuma me falte lá no Céu. Depois de minha morte, abandonareis o caminho empreendido?... Sempre adiante, nunca para trás!... E continuava lenta, pausadamente, com os olhos apenas abertos: “Filhas minhas: permanecei muito unidas, como os apóstolos”. Assim como as brasas que estão muito unidas, conservam o fogo, e as que estão separadas prontamente se apagam, assim vós, se permaneceis unidas, falando das coisas de Deus, conservareis o fogo do fervor; porém, se vos separais e deixais de tratar estas coisas do espírito, o fogo se apagará... Eu me vou; porém espero que persevereis no gênero de vida que haveis aprendido”.
No dia 24 entrou Josefa nesse tranqüilo torpor que precede à morte, todo o dia com os olhos fechados, estava recolhida, como em êxtase, porém falava com um fio de voz quase imperceptível, pedindo que rezassem com ela jaculatórias e outras orações, repetindo ação de graças e que consolo elas lhe estavam dado! Pela noite, na hora de morrer, abriu os olhos e, com voz fraca, porém perceptível, perguntou: “estais todas?”. E acrescentou: “minhas filhas, vou deixá-las!”. E insistiu: “estai unidas, sede fervorosas, sacrificai-vos por Nosso Senhor”. Fez um esforço, o coração lhe atraiçoava, olhou pela última vez às suas discípulas e, com voz apagada, lhes disse: “filhas minhas, filhas de minha alma...” e expirou. Eram 20 horas e 30 minutos do dia 24 de fevereiro de 1893

VIDA ECLESIAL

Josefa foi uma fidelíssima filha da Igreja. Com os olhos da fé, via nela a obra mestra de Jesus Cristo! Com que convicção falava a suas alunas da veneração que devemos ao Papa, aos bispos, aos sacerdotes, aos religiosos.
Assim lhes dizia: “filhas minhas, obedecei com rendimento a Sua Santidade o Papa, rogai muito por suas intenções e necessidades; amai muito a Igreja e atendei a seus mandatos e conselhos”. Ela amou apaixonadamente a Igreja e infundia esse amor às almas que se acercavam a ela. “Amemos a Igreja a que pertencemos e aproveitemo-nos de seus meios de santificação. Tenhamos respeito e veneração pelos ministros de Deus”.
Josefa viveu e morreu em um século difícil para a Igreja. Foi consciente do que ocorria, sofreu com ela e compartilhou suas alegria. Dois Papas sofreram exílio da cidade de Roma; perderam-se os Estados Pontifícios e se instalou o movimento trabalhista com virulência (contra o catolicismo) implacável.
O Papa Leão XII, que reinou durante 06 anos, promove a ação missionária da Igreja na política exterior. Criam-se novas dioceses em vários lugares e em lugares fora da cristandade se firmam novas concordatas. Porém, a cristandade do século XIX, em seu conjunto, cumpriu deficientemente seus deveres sociais e, por esta razão, se tornou culpada da apostasia da classe trabalhadora, boa parte da qual passou às fileiras do bolchevismo, fundamentalmente ateu. “O grande escândalo do século XIX foi perder a classe trabalhadora”, exclamou, alguns anos depois, o Papa Pio XI.
A atividade de Leão XIII e do bispo Ketteler no campo trabalhador, nós temos que aluir das ações empreendidas pelos mais diversos personagens da Igreja, para elevar o nível religioso e cultural dos proletários daquele tempo. Valência não podia permanecer afastada dessa luta. A partir de 1808, vários arcebispos empreenderam, de diferentes formas, a restauração religiosa da arquidiocese.
Em Algemesi, sem dúvida, encontraram ressonâncias especiais estas iniciativas: dada sua profunda religiosidade e com a sorte de contar com uns sábios e santos sacerdotes ao serviço dos fiéis.
Nossa Beata viu sempre próxima de si a Igreja, nessa célula dela que é a paróquia. Seu amor (e serviço) à paróquia é uma das mais destacadas facetas de seu espírito eclesial.
Os párocos foram modelo de zelo pastoral: Josefa encontrou neles uns guias seguros para sua vida espiritual e uns auxiliares maravilhosos para suas obras de apostolado. Neste agitado ambiente do século XIX, tenso no campo civil e religioso, especialmente no social, uma virgem secular chamada Josefa punha em marcha uma escola-oficina para a conquista e formação das jovens, e uma escola de formação para casadas e mães. Era sua contribuição ao movimento social da Igreja para a cristianização dos humildes. Um tempo apaixonante que não permitia descanso, um tempo que Josefa aproveitou para passar, como seu Divino Esposo, “fazendo o bem” (Atos 10, 38).
Amar, freqüentar e ajudar a paróquia era o tripé de conclusões às quais ela chegava em sua visão de comunidade paroquial. À limpeza e decoro do templo paroquial dedicava tempo e esmero nossa Josefa. Sua casa era a rouparia da paróquia, ali se costurava a roupa branca de uso litúrgico, se reparavam os ornamentos e se bordavam em seda e outros tecidos as ricas vestes das solenidades.
Todavia, hoje, as descendentes das jovens que, com Josefa, limpavam o templo, seguem fazendo o mesmo ofício. Prova evidente de que os gestos, atitudes e trabalhos que realizava Josefa, marcaram fundo suas alunas

CONCLUSÃO

Josefa Naval Girbés, virgem, porém secular no mundo, abre novos caminhos à santidade da maior parte dos membros da Igreja, que vivem a secularidade. Importante é a vida consagrada, porém a santidade, feita de amor a Deus e de amor ao próximo, não fica apenas guardada no convento ou no sacerdócio. Josefa, virgem, porém secular, é um exemplo!
Ela viveu e morreu no mundo, deixando atrás de si um caminho de luz que seque iluminando àqueles que, na secularidade, buscam a perfeição cristã. Seu mundo, o agitado século XIX, sua casa, sua oficina de trabalho, sua catequese, seus círculos de formação de mulheres, suas obras de caridade, eram seu convento! Dali, ela irradiava amor, amor que alimentava com uma intensa vida interior, cultivada com esmero e tensão, porém nunca perdeu o contato com as pessoas. Vivia entre o povo, atenta às suas necessidades, que fazia suas, ajudando a remedia-las, através dessa proximidade que sua condição de secular propiciava.
Exemplo e palavra! Com que claridade viu Josefa o agir do cristão secular, fermento das estruturas sociais, segura de que, com sua maneira de viver, e com procedimentos de apostolado, percorria o caminho traçado para uma cristã secular em vista de sua santificação pessoal e a dos demais!
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Palestra proferida por Giovani Carvalho Mendes, no V Congresso OCDS Norte/Nordeste, realizado de 22 a 25/05/2008, em Fortaleza-CE.
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