quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Tempo Quaresmal na vida do carmelita secular








O tempo quaresmal é um tempo de reflexão, interioridade e reconciliação não só para nós Carmelitas Seculares, mas para todos nós cristãos Batizados.  Todos os homens são chamados a participar na caridade da única santidade de Deus.
Para nós carmelitas temos seguimentos práticos que nos ajudam a caminhar com segurança. Não só neste tempo de espera, mas em preparação permanente para a Páscoa definitiva.
Apenas lembrando vou citar aqui, os números 10 e 11, das Constituições ocds:
ORAÇÃO E MORTIFICAÇÃO
10. A vida de oração, cimento e exercício primordial do Carmelo, seja cultivada pelo Carmelita Secular com o uso dos meios que a Ordem para isto sugere:
a. participação cotidiana da Eucaristia;
b. leitura orante das Sagradas Escrituras;
c. acompanhamento espiritual;
d. meia hora por dia de oração mental;
e. celebração cotidiana da Liturgia das Horas: Laudes, Vésperas e Completas;
f. leitura espiritual, particularmente das obras de autores carmelitas;
g. retiro anual.

11. Porque a vida de oração e de união com Deus exige uma contínua conversão e purificação, o Carmelita Secular cultivará o espírito de penitência e de mortificação, segundo as indicações que se seguem:
a. receberá, preferencialmente uma vez por mês, o sacramento da Reconciliação;
b. praticará algum exercício de penitência, segundo a tradição da Ordem, especialmente nas sextas-feiras do Advento e Quaresma, e em preparação às festas da Ordem, especialmente o jejum e abstinência na Vigília da festa de N. Sª do Carmo.
c. exercitará a virtude do silêncio; visitará os enfermos, especialmente aqueles que são membros do Carmelo Secular, para os animar a viver no Amor de Deus e dos irmãos; receberá com paciência as contrariedades da vida...”

A quaresma é especificamente para nós Carmelitas Seculares  o grande exercício prático da nossa escolha e entrega de vida a Deus por meio das promessas e da vivência da espiritualidade Teresiana.  É  um tempo de graça e de verdade, para descobrir mais sobre si mesmo, para quebrar correntes e abrir nossos corações para Deus, na comunhão na solidariedade.
Cremos que se por nossa decisão somos carmelitas seculares, temos em nossa vida , não um privilegio e sim uma responsabilidade”. Nós fazemos um compromisso com a Ordem. Por este compromisso assumimos  a responsabilidade de corresponder às exigências de sermos Carmelitas. E assim, abrimo-nos a responsabilidade  de sermos na Igreja a parte oracional  silenciosa que  a ordem nos propõe.
É tempo de exercitar nossa Vida,exercitar o desapego da  vontade e colocá-la a serviço do reino e de Nosso Senhor Jesus, na oração, “no esforço de transformar a realidade segundo os valores evangélicos, unindo-as ao sacrifício de Cristo; oferecer o trabalho cotidiano como participação na Criação e na Redenção, bem como sacrifício grato a Deus no exercício do sacerdócio comum dos fiéis batizados”  (conf. Est. 11)

«Não consintamos, irmãs, que a nossa vontade seja escrava de alguém, mas só d’Aquele que a comprou com o Seu sangue» Sta. Teresa (CV 4, 8.)

Que tenhamos uma santa quaresma, e que a Páscoa plenifique nossos corações de vida nova.
Rose Lemos Piotto, ocds


Podemos ou não nos divertir no Carnaval?




Qual é o gordinho que nunca passou o final de semana se fartando com comidas gostosas como despedida para a dieta que iria começar na segunda-feira? Da mesma forma o Carnaval, que significa "festa da carne" tem sua origem como festa religiosa onde os cristãos se fartavam de carnes, assados e frituras, entre o domingo e a “terça-feira gorda” diante da perspectiva de passar quarenta dias em abstinência de carne no período da Quaresma, que é um tempo penitencial em preparação a Páscoa do Senhor.

Atualmente, a Igreja só determina a abstinência de carne e o jejum na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme Can. 1251 do Código de Direito Canônico. Porém, a tradição do Carnaval continua até os dias de hoje.

Muita gente acredita que a Igreja é contra o Carnaval e o condena, mas isso não é a verdade. A Igreja Católica não é contra o Carnaval, mas contra os excessos cometidos durante o Carnaval. Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira (PB) aborda o tema[i]: “Há, porém, o Carnaval verdadeiro, marcado por uma alegria verdadeira. Nesse Carnaval é dispensado o prazer irresponsável, a bebida, as drogas, para se celebrar a vida. O católico pode comemorar o carnaval, desde que respeite os princípios cristãos, sem se entregar aos excessos permissivos tão difundidos em nossos dias. Quem não participa das festividades públicas, procure se alegrar junto a sua família e amigos. Isso precisa ser resgatado. As Dioceses, as Paróquias e as Comunidades deste país promovem um carnaval diferente, repleto de alegria, a qual Deus quer para todos os seus filhos. Em todo caso, é carnaval. Quem vai fazer festa que faça com respeito ao próximo e aos valores. Muitos decidem passar o Carnaval na tranquilidade do campo, da praia. Outros em retiro espiritual, numa experiência de Deus, profunda e transformadora. Outros ainda vão ficar em casa e assistir ao espetáculo de criatividade, de luz e de cores, promovido pelas escolas de samba.”



Dessa forma, vemos que há formas nobres, simples e sadias de lazer. Elas irradiam a alegria autêntica que revigora o corpo e o espírito. A alegria é uma necessidade básica do ser humano. Povos, raças e culturas das mais remotas origens encontraram formas para exteriorizar esse desejo. Cada país, de acordo com sua cultura e costume, possui suas datas festivas. No Brasil, o Carnaval é uma delas.

Fé e consciência limpa são inseparáveis na vida do cristão, inclusive durante essas festividades. “Tudo o que não procede da fé é pecado”, ensina São Paulo (cf. Rm 14,23). A fé é a luz que ilumina a consciência e a confirma nas convicções morais. Quem se guia pela consciência do que é bom, digno e justo, possui um “faro moral”. Sabe posicionar-se, escolher e decidir onde, como e com quem se divertir ou não. E equivocada a ideia de achar que a religião é contrária à alegria, levando os fiéis à tristeza. O Evangelho é uma mensagem alegre e feliz! Dele nos vêm as festas religiosas, as celebrações e solenidades festivas, as comemorações de datas e fatos históricos. A alegria cristã é autêntica, simples e espontânea!



O cristão deve sempre ser alegre, conforme nos ensina Dom Eurico dos Santos Veloso, Arcebispo Emérito de Juiz de Forma-MG[ii]:" O cristão que vive na esperança não pode ser triste. Já assim falava São Francisco de Sales: “Um santo triste é um triste santo” condenando aqueles que não se rejubilavam com a graça. São Paulo, igualmente, concitava os evangelizados à alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor, de novo vos digo alegrai-vos” (Cf. Fl. 4,4). Os dias de Carnaval deveriam nos conduzir à alegria do corpo e do espírito, pois se fomos criados do limo da terra,  temos também em nós insuflado o Espírito de Deus e recebemos este mesmo Espírito pelo qual podemos chamar a Deus de Pai. Quando o povo hebreu foi reconduzido do cativeiro de Babilônia, o sacerdote Esdras depois de lhe ter exposto a lei, convida-o à festa: “Hoje é dia consagrado a Javé vosso Deus... Não vos entristeçais nem choreis... Ide e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e mandai porções a quem não a preparou, porque hoje é um dia consagrado a nosso Senhor”. (Cf. Neem.8,10). Esse é o espírito que nos deveria animar nos dias de Carnaval: a alegria que se traduz nas festas e danças a que todos são convidados, ricos e pobres, porque nossa salvação está próxima, como confirma São Paulo na complementação do texto acima."




Portanto, como carmelitas seculares, responsáveis e conscientes do nosso papel como cristãos, podemos nos divertir ou nos recolher nesses dias de Carnaval, conforme discernirmos. O que não podemos é cair no farisaísmo, como nos admoestou Dom Hélder Câmera: "Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que aconteceu... Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu... Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!” (Dom Helder Câmara, 01 de fevereiro de 1975, durante sua crônica radiofônica "Um olhar sobre a cidade" da Rádio Olinda AM).

Desejo a todos, portanto, um excelente Carnaval!
Luciano Dídimo

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ordem dos Carmelitas Descalços - Postulantado 2014



Ordem dos Carmelitas Descalços


Posted: 24 Feb 2014 06:53 AM PST

Dia 23, domingo, às 9 da manhã, o Padre Provincial Frei Cleber dos Santos presidiu a Santa Missa, no Convento Beata Elisabeth da Trindade, em Paranoá-DF, dando início ao Postulantado. Concelebraram Frei Marcos Matsubara (Superior do Convento Beata Elisabeth da Trindade), Frei Márcio (Formador dos postulantes), Frei Luciano Luiz, Frei Jorge (Superior do Convento de Caratinga e formador de aspirantes) e Frei Hudson.


A Santa Missa teve presença significativa dos leigos da OCDS.
São 10 postulantes: Edízio, Eustáquio, Evaristo, Felipe Resende, Felipe Rocha, Jean, Júnior, Leonardo, Matheus, Rafael.


























Que a Virgem do Carmo interceda por cada postulante, para que seja perseverante no amadurecimento da vocação!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

22 de Fevereiro: CÁTEDRA DE SÃO PEDRO, Dia do Primado de Pedro e do Dogma da Infalibilidade do Santo Padre.



A Cátedra de São Pedro é o mais eloquente símbolo da Infalibilidade Pontifícia, da pessoa do Papa e da própria Santa Igreja!
A infalibilidade pontifícia e o primado de jurisdição do Pontífice, necessariamente unidos, devem ser, para todo católico, alvo de um amor preferencial. Mas, como fundamentá-los na Escritura, na Tradição e na História?


"Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16, 18).



Nos últimos cem anos, poucas passagens do Evangelho têm sido objeto de discussões tão veementes e apaixonadas, pois, segundo alegam alguns, a formulação atual não corresponderia ao original escrito por Marcos, mas tratar-se-ia de um texto manipulado por volta do ano 130 com vistas a justificar o primado de Pedro e seus sucessores sobre seus irmãos no episcopado.

Entretanto, durante séculos ninguém pusera em dúvida a autenticidade dessa passagem. Foi preciso aguardar a infiltração do racionalismo na exegese bíblica no século XIX e o historicismo protestante do século XX, para começarem as tentativas de desqualificá-la.




Argumentos bíblicos em favor do primado de Pedro

Sob o ponto de vista documental, a tese da suposta manipulação desse versículo não se sustenta. Os textos mais antigos que reproduzem a passagem em questão não apresentam nenhum vestígio de adulteração: nem o Diatessaron (concordância dos quatro Evangelhos) de Taciano, de meados do segundo século, nem os escritos dos Padres da Igreja anteriores ao século IV e nem os quatro mil códices dos oito primeiros séculos que hoje se conhecem.


Mais de 160 passagens do Novo Testamento mencionam Pedro ocupando, em muitos deles, uma posição de preeminência sobre os demais Apóstolos. Até mesmo São João, que trata em menor medida do Príncipe dos Apóstolos em seu Evangelho, devido às circunstâncias históricas nas quais foi escrito - em plena polêmica com os gnósticos -, traz duas importantes referências à entrega do primado petrino: "Serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)" (Jo 1, 42); e "Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes? [...] Apascenta meus cordeiros" (Jo 21, 15-17).

Ora, é em Mateus 16, 18-19 que se baseia principalmente a doutrina sobre o Papado, realçando-se normalmente na interpretação destes versículos a tríplice metáfora usada por Nosso Senhor: São Pedro é fundamento da Igreja, pois é comparado com os alicerces que dão coesão e estabilidade a todo o edifício; seu poder de jurisdição está figurado nas chaves, as quais, na linguagem bíblica e profana, são símbolo do domínio; e, por último, a imagem de ligar e desligar simboliza a capacidade de criar ou abolir leis que obrigam em consciência.

Considerada isoladamente, a interpretação acima poderá suscitar ceticismo; mas unida a outros trechos do Novo Testamento, bem como aos escritos dos Padres da Igreja e à praxe dos primeiros séculos de cristianismo constitui um poderoso aparato argumentativo. Todos esses indícios somados convergem em afirmar o primado indiscutível de São Pedro, dado por Cristo e reconhecido ininterruptamente ao longo da História da Igreja.


Testemunho dos Padres Apostólicos

De especial importância para o tema que nos ocupa é a história dos primeiros séculos da Igreja, por chocar frontalmente com a gratuita suposição de que o primado de jurisdição universal do Romano Pontífice tenha sido uma invenção posterior aos tempos apostólicos.

Ora, já na carta enviada pelo Papa São Clemente aos fiéis de Corinto, a respeito da rebelião ocorrida nessa comunidade em torno do ano 96, fica patente o primado romano. Com efeito, nela o Pontífice não pede desculpas por imiscuir-se nos assuntos internos de outra Igreja - como seria normal, caso fosse um simples primus inter pares, chefe de outra Igreja irmã -, mas escusa-se por não ter tido oportunidade de intervir no assunto com mais rapidez; adverte do perigo de cometer pecado grave quem não obedecer às suas admoestações; e mostra-se convencido de que sua atitude é inspirada pelo Espírito Santo. Por outro lado, a carta foi recebida em Corinto sem resistências e considerada como uma grande honra, a ponto de ainda no ano de 170, segundo testemunhas, ser lida na liturgia dominical.



Fundamento bíblico do primado petrino

São Pedro ocupa posição preeminente no Novo Testamento, onde é mencionado 114 vezes nos Evangelhos e 57 vezes nos Atos dos Apóstolos.


Fala em nome de todos os Apóstolos (Lc 12, 41, Mt 19, 27, Mc 10, 28, Lc 18, 28), responde por eles (Jo 6, 68, Mt 16, 16, Mc 8, 29) e age por todos (Mt 14, 28, Mc  8, 32, Mt 16, 22, Lc 22, 8, Jo 18, 10). Outras vezes, os evangelistas referem-se aos Apóstolos dizendo  "Pedro e os seus" (Mc 1, 36, Lc 8, 45; 9, 32, Mc 16, 7,  At 2, 14. 37). Jesus o elege depois de fazer um grande milagre (Lc 5, 1-11); serve-Se de sua barca  para pregar às multidões (Lc 5, 3); hospeda-Se em  sua casa (Mc 1, 29); associa-o a Si no pagamento do tributo (Mt 17, 23-26); escolhe-o, com Tiago e João,  para assistir à ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,  37), à transfiguração (Mc 9, 2) e à agonia no  Getsêmani (Mc 14, 33); é o primeiro a quem aparece  ressuscitado (Lc 24, 34). É o único dos Doze que o  anjo nomeia para ser-lhe comunicada a mensagem  da Páscoa (Mc 16, 7). São João espera a chegada  de São Pedro, para deixá-lo entrar primeiro no  Sepulcro de Jesus (Jo 20, 2-8).

Depois da Ascensão e de Pentecostes, vemos São  Pedro exercendo a autoridade máxima na Igreja.  Completa o Colégio Apostólico com a eleição de São Matias (At 1, 5ss); fala em nome dos Apóstolos  no dia de Pentecostes (At 2, 14ss); defende perante  as autoridades judaicas o direito dos Apóstolos, de  pregar a Fé em Cristo (At 4, 8-12); condena Ananias  e Safira (At 5, 1-11); é inspirado a abrir as portas da   Igreja também aos pagãos, com a conversão do  centurião Cornélio (At 10, 47); preside o Concílio de  Jerusalém (At 15, 6ss); toda a Igreja orava por sua  libertação, quando foi encarcerado por ordem de  Herodes (At 12, 5).

Tu es Pedro! Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja! 


Por outro lado, São Paulo assinala de modo preeminente a importância de São Pedro como da Igreja. Depois de sua estada na Arábia, dirige-se a Jerusalém para vê-lo (Gal 1, 18);  reconhece nele uma das colunas da Igreja (Gal 2, 9);  coloca-o como o primeiro entre as testemunhas das aparições de Cristo ressuscitado (Cor 15, 5); e mesmo quando lhe resiste "em face" em Antioquia,  age como quem reconhece sua autoridade e, portanto, confirma de algum modo seu primado (Gal  2, 11-14).

Esses fatos adquirem especial relevo ao considerar-se que o Apóstolo São João, ainda vivo, encontrava- se em Éfeso, bem mais perto de Corinto do que de Roma. E não consta que nem São Clemente, nem os fiéis de Corinto, nem o próprio São João tenham duvidado da autoridade do Sucessor de Pedro para dirimir a questão.

Outro importante testemunho dessa época a favor do primado do Sucessor de Pedro é a carta enviada por Santo Inácio de Antioquia (†107) à Igreja de Roma. Nela também se manifesta de modo evidente, e mais explícito que no caso anterior, o primado da Sé Romana sobre as outras. Com efeito, essa missiva é substancialmente diferente das enviadas por ele nas mesmas circunstâncias (prisioneiro levado da Síria para Roma, onde seria martirizado) a outras Igrejas, como Éfeso, Magnésia, Trália, Filadélfia e Esmirna. Na primeira, o santo Bispo de Antioquia escreve em tom submisso; nas demais, em tom de autoridade.

Além do mais, Santo Inácio reconhece à Igreja de Roma o poder de dirigir as outras Igrejas, instruindo- as como a discípulos do Senhor e recomenda sua diocese na Síria à solicitude pastoral da Sé Romana, e não à de qualquer outra Igreja, talvez mais próxima.

Um terceiro testemunho é o de Santo Irineu de Lyon. Nascido entre 130 e 140, falecido por volta de 202, foi discípulo de São Policarpo, o qual, por sua vez, havia sido discípulo de São João. Portanto, esteve em contato quase direto com a idade apostólica.

Em seu tratado Adversus hæreses, fala clara e explicitamente do primado da Igreja Romana sobre todas as outras Igrejas e faz referência à mencionada carta de São Clemente Romano aos fiéis de Corinto, que tinha entre outros objetivos "renovar sua Fé" e "declarar a tradição que havia recebido dos Apóstolos".

Eloquente também é a intervenção do Papa Vítor I (189-199) a propósito da data da comemoração da Páscoa, que ele resolveu unificar. Na Província da Ásia se obedecia a outro calendário. Para solucionar a questão, o Papa convocou um Sínodo dos Bispos italianos em Roma, escreveu aos Bispos do mundo inteiro e, por fim, conclamou os Bispos da Ásia a adotar a prática da Igreja universal, de sempre celebrar a Páscoa no domingo. Caso não o atendessem, ele os declararia excluídos da comunhão da Igreja. Vários Bispos tentaram moderar a decisão papal, incluindo Santo Irineu, sem resultado, ao que parece. Fato é que pouco a pouco o costume romano se tornou prática comum em toda a Igreja. Trata-se de mais uma amostra do reconhecimento universal do primado do Papa.



Insuspeito testemunho de um herege

Mas os argumentos não provêm apenas do campo católico. Por volta do ano 220, Tertuliano, já então envolvido na heresia montanista, escreveu um libelo8 atacando o Papa Calisto I, que publicara um edito para ser lido em todas as igrejas, suavizando a disciplina penitencial aplicada aos adúlteros e fornicadores.

Atribuindo de modo sarcástico ao sucessor de Pedro a expressão "Pontífice Máximo, ou seja, o Bispo dos Bispos" - títulos então usados pelo Imperador romano -, o malfadado escritor eclesiástico mostra quão abrangente era o poder espiritual do Papado. Ademais, termina sua longa objurgatória com uma crítica à reivindicação de Calisto I de que sua autoridade "de ligar e desligar" se fundamentava na de São Pedro, dando um precioso testemunho de quão antiga é a consciência da origem divina dessa autoridade.

Detalhe importante: ao tentar refutar o Papa, Tertuliano - acérrimo adversário da Igreja que antes amara - cita sem qualquer objeção a passagem do Evangelho de São Mateus contestada pelos racionalistas dezoito séculos mais tarde: sim, o Senhor disse a Pedro que este era a rocha sobre a qual construiria a Igreja; deu- lhe, de fato, as chaves, assim como o poder de ligar e desligar, e confiou-lhe o cuidado da Igreja. Basta ler as palavras de Tertuliano para constatar que ele se referia a um fato pacificamente aceito por todos em sua época, tão próxima dos tempos apostólicos, nem se permitindo alguma suspeita relacionada com adulteração do texto bíblico.



Supremacia fundada sobre uma rocha divina

São Leão Magno - cujo pontificado, entre os anos 440 e 461, constitui um interessante ponto de inflexão na história do primado petrino - referia- se à Igreja de Roma como magistra (mestra) e não tinha dúvida alguma a respeito da autoridade do Papa sobre o concílio.

Em nome dessa autoridade confirmou a doutrina definida pelo Concílio de Calcedônia (451), iniciando assim uma prática que será mantida por seus sucessores e considerada como necessária para conferir validez a qualquer concílio ecumênico.  Sua conhecida Epístola dogmática foi aclamada com transportes de entusiasmo pelos Padres reunidos em Calcedônia, quase todos orientais, com a famosa sentença: “Isto disse Pedro através de Leão”!

Ora, São Leão Magno desenvolve o conceito de soberania petrina tomando justamente por base o já citado versículo de São Mateus: "Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16, 18). Ele põe em realce que essa declaração do Divino Mestre aplica-se efetivamente à Sé Romana e que o Papa, como Sucessor de Pedro, tem a missão especialíssima de guiar e governar a Igreja universal, bem como o direito de intervir e tomar decisões nas questões eclesiásticas das Igrejas locais.

Infelizmente, fatos históricos indicam, a partir do século VII, uma latente recusa do primado de jurisdição universal do Bispo de Roma por parte de alguns líderes da Igreja do Oriente, embora reconhecendo em geral a autoridade papal em matéria doutrinária. O exaltar dos ânimos teria como triste desfecho o cisma de 1054.



Jurisdição plena e universal

Duas importantes prerrogativas dimanam do primado de Pedro: o primado de jurisdição universal e a infalibilidade pontifícia.

A jurisdição do Papa se aplica plena e supremamente à Igreja universal, porque ela abrange toda a potestade outorgada por Nosso Senhor Jesus Cristo à Igreja. Essa jurisdição é também monárquica, pois Cristo a concedeu a São Pedro e não aos outros Apóstolos, e ilimitada, o que significa que o Papa não presta contas senão a Deus, por não existir na Igreja instância alguma superior a ele. Além do mais, abarca os poderes legislativo, judiciário e executivo. Diz- -se também que é uma potestade ordinária no sentido de que é constitutiva do próprio exercício do ministério petrino; imediata porque se exerce por direito próprio, sem necessidade de intermediários; e episcopal, visto ser eminentemente pastoral o objetivo de seu exercício.

Em consequência, o Papa é, por um lado, livre de entrar em contato direto com seus Pastores e com os fiéis, sem coerção por parte do poder civil; e por outro, é o juiz supremo dos fiéis, ao qual todos têm o direito de recorrer e ninguém pode impugnar, nem mesmo um concílio ecumênico.



Magistério ordinário e extraordinário

A infalibilidade pontifícia, por sua vez, é um carisma inerente ao próprio ministério petrino que confere uma assistência especial do Espírito Santo ao Papa quando este - falando ex cathedra, ou seja, como supremo Pastor da Igreja universal - define uma doutrina de Fé e moral.

Três Padres Apostólicos dão importante testemunho do reconhecimento universal do primado de Pedro nos primeiros séculos da Igreja: São Clemente Romano, Santo Inácio de Antioquia e Santo Irineu.

         Sobre a infalibilidade papal pronunciou-se claramente o Concílio Vaticano II nos termos seguintes: As definições do Romano Pontífice "com razão se dizem irreformáveis por si mesmas, e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de São Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo. Pois, nesse caso, o Romano Pontífice não fala como pessoa privada, mas expõe ou defende a doutrina da Fé Católica como mestre supremo da Igreja universal, no qual reside de modo singular o carisma da infalibilidade da mesma Igreja".

Junto com essa forma de Magistério extraordinário, o Papa exerce também o ordinário, por meio de orientações e ensinamentos através de encíclicas, constituições, exortações apostólicas, discursos, etc.



Infalibilidade não significa impecabilidade

Convém lembrar, por fim, que nem do exercício do ministério petrino, nem do carisma da infalibilidade advém ao Romano Pontífice a impecabilidade ou, por outras palavras, a confirmação em graça.

Um dos argumentos racionalistas contra o primado de Pedro é que o pescador da Galileia era sujeito a pecar, como todo homem. E, sem dúvida, o era. Entretanto, seu primado não repousa sobre qualidades humanas, mas na onipotente força do Fundador da Igreja.


 


A Igreja celebra a festa de São Pedro em dois dias diferentes: em 29 de junho, junto com São Paulo, e em 22 de fevereiro, a Cátedra de Pedro. A antiquíssima origem desta última festa está documentada por sua inclusão num calendário do ano 354 e no Martyrologium Hieronymianum, o mais antigo da Igreja Latina, composto entre 431 e 450. Há também referências a ela em duas homilias do século V.

Essa longa existência mostra a relevância do símbolo da Cátedra para a vida da Igreja e reforça com o testemunho da Tradição a importância dada ao primado petrino, pelo menos a partir de meados do século IV, pois, segundo explica o Martyrologium Romanum, a Sé de Pedro é "chamada a presidir a comunhão universal da caridade". O Missal Romano acrescenta que a comemoração da Cátedra de São Pedro põe em relevo a missão de mestre e de pastor conferida por Cristo a São Pedro que, em sua pessoa e na de seus sucessores, é fundamento visível da unidade da Igreja.

Cristo não chamou São Pedro por causa das suas qualidades naturais; foi a graça de Deus que o converteu numa rocha firme e sólida. "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça" (Lc 22, 31-32).

No seu livro-entrevista recentemente divulgado, Bento XVI relembrou que a tarefa exercida pelo Romano Pontífice não foi dada por ele a si mesmo. Pelo contrário, é o Espírito Santo quem escolhe o Papa, usando critérios divinos: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça" (Jo 15, 16).

A santidade de um Papa, portanto, não é inerente ao ministério petrino, mas provém do esforço pessoal e, sobretudo, da ação da graça. As eventuais infidelidades na vida de qualquer Pontífice Romano serão sempre gravíssimas, mas não abolem sua autoridade, já que Deus pode servir-Se de instrumentos infiéis, e o Espírito Santo impedirá, com sua assistência, que os pecados pessoais ponham em risco a integridade da Igreja, garantida pela promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16, 18).


"Trono de São Pedro" de Bernini, no Vaticano. 

Quis a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ao fundar a sua Igreja, estabelecer como chefe supremo um homem pecável, mas infalível em matéria de Fé e moral. Isto que foi aceito pelo consensus fidelium sem restrição, forma com a pessoa e o primado de Pedro uma feliz união fundada na caridade e na fé.




Salve, Papa Francisco! Tu és Pedro! 


(fonte: Revista Arautos do Evangelho) 
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