“A mística dos nossos Santos fundamentada na Sagrada Escritura”
“Todo dano que vem ao mundo é de não conhecer as verdades da Sagrada Escritura... Fiquei com grandíssima fortaleza ... para cumprir com todas as minhas forças a menor parte da Escritura divina”. (V, 40, 1-2).
“Aproveitar-me-ei para tudo da Sagrada Escritura, guiando-nos por Ela não poderemos errar”. (Sub. Prólogo 2).
O tema aqui proposto é de uma vastidão tal que abrange todos os escritos e a vida de nossos santos, pois a Palavra de Deus, contida no livro das Escrituras foi o espaço natural onde eles se formaram, amadureceram e frutificaram. No entanto, com excessão de São João da Cruz, os demais não tiveram como nós, acesso a todos os livros da Bíblia, lembrando a grande dificuldade que tiveram de encontrar textos em língua vernácula.
Outra grande limitação era a comum leitura que se fazia da mesma, considerando-a uma lista de sentenças, mandamentos, proibições, etc... que acabavam por influenciar fortemente a própria espiritualidade, distorcendo a imagem de Deus e das realidades divinas, criando uma situação de quase heresia; por isso, a atitude da Igreja, oficialmente falando, em proibir, coibir o acesso às Escrituras, particularmente às mulheres.
Nossos santos tiveram o privilégio de não deixar-se condicionar por esse ambiente comum; a profunda experiência que tiveram de Deus levaram-nos a acolher a Sagrada Escritura com uma limpidez impressionante: sempre em sintonia com o Magistério da Igreja a lêem, sobretudo numa clave pessoal, iluminando com ela a própria vida e as próprias experiências. Para eles é impossível pensar a Bíblia sem a vida e na vida sem a Bíblia, confirmando existencialmente o salmo 118: “vossa Palavra é uma luz para os meus passos, é uma lâmpada luzente em meu caminho”. Eles respiram, exalam a Palavra de Deus.
Essa experiência bíblica de nossos santos não deve maravilhar-nos e devia ser-nos algo familiar, visto que a nossa Regra é profunda e substancialmente bíblica. Mais de uma centena de vezes ela cita a Sagrada Escritura, de modos explícitos, implícitos e alusivos.
A aplicação da Regra no cotidiano vai levando-os a assimilar, gradativamente, a Palavra de Deus ao ponto de tornarem-se uma palavra viva, uma palavra que se torna carne, “uma encarnação do Verbo”, expressão tão querida de Elizabet da Trindade.
Falando da Palavra de Deus na vida de Santa Teresa, Maximiliano Herráiz, ocd, assim se expressa: “A Bíblia adere a sua vida e a sua mensagem. Penetra uma e outra, saturando-as. Ao escrever sobre “as coisas do espírito”, a Palavra de Deus flui dela com simplicidade e abundância. O mesmo se dá com sua própria vida. Textos, tipologias, evocações, reminiscências bíblicas se juntam sobre sua pena no momento preciso, como a pressão da vida que leva dentro de si, com toda carga de vibrações, ressonâncias e luminosidade que a Palavra de Deus nela produz”.
O mesmo pode-se dizer de nosso pai São João da Cruz. Uma olhada, ainda que superficial, em seus escritos, basta para convencer-nos de sua profunda familiaridade com a Sagrada Escritura; tantas são as citações e os comentários dela. Porém, o mais importante - o que mais nos interessa – é que, como Teresa, sua vida é uma palavra.
“A novidade
... “Ele vive, respira e se move no mundo da revelação bíblica. Sente os fatos e as palavras da Escritura como expressão espontânea da própria experiência, e a própria experiência como verificação desses fatos e palavras. Nos momentos fortes, identifica-se com as testemunhas pessoais, que experimentam as mesmas alegrias e sofrimentos: Davi, Jó, Jeremias, Paulo; sobretudo com Jesus Cristo, Ato e Palavra por excelência. Sabia a Bíblia de memória e de coração”. (F. Ruiz, ocd)
Seguindo os passos de seus pais Teresa e João da Cruz, santa Teresinha manifesta-se como jovem-santa toda bíblica, iluminada pelo Evangelho, irradiando dele uma luz que fascina a humanidade.
Frei Rômulo Cuartas, ocd, assim se expressa: “Essa história da alma de Teresa Martin é uma versão existencial do Evangelho, de alcance universal... Teresa é uma testemunha excepcional. Ela é Evangelho, quer como testemunha, quer como o anúncio que faz e o caminho que propõe”.
Teresa seduz, abre horizontes, por sua vida transparente. É uma provocação á santidade. Em seus escritos nos deixou uma mistagogia prática e sugestiva.
Tal transparência e sedução manifestam que Teresa não só leu o Evangelho e orou com ele, mas também o viveu. Fez a experiência bíblica. Lendo a Palavra de Deus, meditando-a e contemplando-a o Espírito Santo foi progressivamente moldando a sua vida sobre o ideal do Evangelho.
Lembremo-nos que o mistério de sua vocação ao Carmelo ela descobre meditando o Evangelho de Mc 3,13: “Chamou a si os que ele quis”. O mesmo se dá, já como monja, em relação à sua vocação específica, ser o amor no coração da Igreja ao ler (ruminar) os capítulos 12 e 13 da Primeira Carta aos Coríntios.
O mesmo ocorre com a beata Elizabet da Trindade, toda impregnada da Sagrada Escritura, discípula admirável do apóstolo Paulo (“meu querido São Paulo”) e de João Evangelista, dando vida a cada palavra do apóstolo: “Deus me plenificará de seu Filho, sepultar-me-á nele, far-me-á reviver com ele, de sua própria vida”. “Para mim viver é Cristo” (Fl 1,21) = (UR 31)
O testemunho luminoso, sedutor e atual de nossos santos, nutridos pela Palavra dá-lhes autoridade, para, com o apóstolo Paulo, exclamar: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive
Sugestão: Como os carmelitas lêem a Bíblia – Coleção temas de Espiritualidade – nº 30 – Ediçõ
es Carmelitanas / Loyola.
Frei Geraldo Afonso, ocd.























