
Texto publicado anteriormente e agora para nos dar uma mostrinha do que o nosso premiado pode nos ajudar a conhecer de São João da Cruz
Carlos Frederico Barboza de Souza *
João da Cruz é um santo pouco compreendido por muita gente. Normalmente se associa a sua pessoa com textos difíceis – e o são, embora isto não queira dizer que não possam e não devam ser lidos, ou mesmo adaptados para facilitar sua compreensão. Outros o têm como o doutor do Nada apenas, insistindo na leitura de sua obra exclusivamente a partir de uma visão ascética, esquecendo-se de que ele também é o doutor do Tudo. E aliado a este tipo de leitura de seus escritos, se somam narrativas acerca de sua história de vida que reproduzem uma imagem de um João da Cruz duro, rígido e distante das realidades humanas. E assim, perdem-se de vista dimensões ricas e muito humanas de sua personalidade, que podem ser encontradas no seu relacionamento com sua mãe e irmão, com seus confrades e monjas, com seus orientandos espirituais, com sua dedicação ao trabalho manual, ao serviço às pessoas, aos doentes, etc.
Esta concepção que foge ao que João da Cruz realmente foi, também se aplica acerca de sua compreensão da natureza e da Criação. Quem resume bem isto foi Teillard de Chardin que, em seu diário, escreve: “Alguns [João da Cruz e outros] estimam que o Mundo é um alimento esgotado e concluem que Deus se dá a si mesmo em substituição. [...] Fechemos nossas janelas ao Mundo e a luz divina brilhará em nós”. [1] Como Teillard de Chardin, muitos leram a obra joãocruciana nesta perspectiva, entendendo que sua busca de desapego e união com Deus possuía também uma concepção negativa do cosmo. Porém, em época de grave crise ecológica, a discussão sobre o respeito à natureza tem-se tornado algo de importância fundamental. A obra de João da Cruz poderia nos ajudar neste debate? Ou sua concepção reforçaria uma visão de que a natureza deve apenas servir aos interesses humanos?
Os termos “criação”, “Criador” e “criaturas” aparecem muitas vezes na obra joãocruciana, [2] assim como a palavra “mundo”. [3] Apontam para a importância desta temática em seus escritos, que retratam, por sua vez, a positividade da criação em sua vida e espiritualidade. Em sua concepção, a criação é compreendida como “obra de Deus” e “rastro de sua formosura”.
O primeiro texto a apresentar estas suas idéias são seus “Romances Trinitários e Cristológicos”. Neles, a criação é apresentada como obra divina, fruto de seu amor, e sua função seria a de se tornar um “palácio para a esposa” o qual em “dois aposentos, alto e baixo dividia”. [4] O aposento de baixo é a terra, espaço da multiplicidade, de “diferenças infinitas”; o aposento do alto é a morada dos anjos. Sendo a esposa a humanidade dada pelo Pai ao Filho, neste local Ele com ela se encontraria, permitindo-lhe participar de sua vida e da vida trinitária. [5]
A criação é este palácio para a esposa porque é reflexo de Deus, que deixou nela sua marca e dignidade, pois “as criaturas são, na verdade, como um rastro da passagem de Deus, em que se vislumbram sua magnificência, poder, sabedoria, e outras virtudes divinas”. [6] E são, portanto, junto com o autoconhecimento, um “caminho para Deus”. [7]
Porém, se Deus se mostra na criação, está também oculto em seu mais íntimo ser, ou seja, Ele também, com sua presença íntima, é o responsável por manter na existência todo o criado. E esta realidade aponta para uma dupla disposição do Ser divino: Ele é imanente e também transcendente, pois escapa sempre a qualquer apreensão que lhe esgote o ser. Quanto mais a fundo se conhece a criação, mais se conhece seu Criador e, ao mesmo tempo, mais se percebe que Ele transcende todo criado. Assim, Ele é percebido como presença, mas também como ausência, pois quanto mais profunda é a experiência com as criaturas, mais se tem consciência de que o que a pessoa busca não será satisfeito por meio de nenhuma delas. Daí que esta experiência produz uma “ferida de amor” ou uma “chaga”, lançando o fiel mais fortemente em sua busca por Deus.
Desta forma, a acolhida da criação na vida mística é pedagógica e necessária, pois por meio dela se experimenta com mais força o vazio do próprio ser e do cosmo quando colocados em relação a Deus. Vazio este ambíguo, pois é sinal forte da imanência divina escondida desconcertantemente no mais “profundo centro” da pessoa e de toda criação. Entretanto, este mesmo vazio abre o ser humano para acolher a Deus.
Portanto, há “uma distância infinita entre o ser divino e o ser das criaturas”. [8] Assim, embora em certo sentido elas sirvam para uma aproximação a Deus, noutro deve-se viver o desprendimento diante delas. Por isso, João da Cruz insiste freqüentemente na necessidade de se “sair de todas as coisas” para se lançar em Deus: “Não fala tanto de rechaçá-las ou repudiá-las. O peso recai mais no aspecto positivo de lançamento na direção de Deus que no fato de abandonar as coisas”. [9] A questão maior não está na negatividade das criaturas, mas no apego humano a elas, ou seja, na postura diante delas. Portanto, “não são as coisas deste mundo que ocupam a alma nem a prejudicam, pois lhe são exteriores, mas somente a vontade e o apetite que nela estão presentes e a inclinam para estes mesmos bens”. [10]
Frente a este tipo de vontade, necessita-se de um processo de purificação com vistas à conquista da liberdade, pois “estando apegado pela vontade, nada possui; antes, por todas as coisas é possuído e o seu coração como cativo sofre”. [11] E desta liberdade lhe advém vários frutos. [12] Vai lhe propiciar um “coração livre para Deus” [13] que permitirá um conhecimento mais profundo das criaturas e uma relação mais rica e humanizada com elas, capaz de abrir a novas e inusitadas formas de recepção das manifestações divinas, ao mesmo tempo em que se experimenta a unidade e harmonia com que toda a criação se movimenta em Deus.
Portanto, o desapego e a purificação em relação aos seres criados não são as palavras finais no caminho místico, pois eles serão reencontrados sob um novo prisma após este processo purificativo, tendo manifestas “as belezas próprias de cada um deles, bem como suas virtudes, encantos e graças e a raiz de sua duração e vida”. [14] E habitando este estado de liberdade, pode-se afirmar: “Meu Amado, as montanhas / os vales solitários, nemorosos / as ilhas mais estranhas / os rios rumorosos / e o sussurro dos ares amorosos / a noite sossegada / quase aos levantes do raiar da aurora / a música calada / a solidão sonora / a ceia que recreia e enamora”. [15]
Neste sentido, em relação à criação, pode-se compreender em três grandes etapas a estrutura do caminho espiritual conforme compreendido por João da Cruz: “1º) Revelação da formosura de Deus, manifestada nos seres da criação. 2º) A purificação da criatura para perceber esta formosura e acolher o convite que o Pai faz ao Filho à comunhão com ele. 3º) O reencontro com Deus e com a criação, saída de suas mãos e chamada a voltar a elas”. [16] Nesta última etapa se conhece “as criaturas por Deus e não a Deus pelas criaturas”, [17] revelando, assim, toda a riqueza do cosmo no processo de encontro místico com o Divino. Abrir-se às suas manifestações e evitar toda forma de dualismos que excluem a criação divina da experiência espiritual é um rumo certo para uma experiência rica e humanizante do encontro com Deus.
SIGLAS
CB – Cântico espiritual, segunda redação.
R – Romances Trinitários e Cristológicos.
ChB – Chama viva de amor, segunda redação.
S – Subida do monte Carmelo. A numeração romana antes da letra ‘S’ indica o número do livro que compõe esta obra de três volumes. E a numeração após a letra, indica o capítulo e a subdivisão do mesmo.
* Membro da OCDS
[1] TEILLARD DE CHARDIN. Apud. Francis Kelly NEMECK. Receptividad, p. 19.
[2] Cf. ASTIGARRAGA et alii. Concordáncias de los escritos de San Juan de
[3] Cf. Ibid., p. 1233-1236.
[4] R 4.
[5] R 3.
[6] CB 5,3.
[7] Cf. CB 4,1.
[8] II S 8,3.
[9] Francis Kelly NEMECK. Receptividad, p. 41-42.
[10] I S 3,4.
[11] III S 20,3.
[12] Cf. III S 20,2.
[13] III S 20,4.
[14] ChB 4,5.
[15] CB14-15.
[16] Ciro GARCIA. Creación. Eulogio PACHO (ed). Diccionario de San Juan de
[17] ChB 4,5.











Santa Verônica Giuliani,















Cor litúrgica: Vermelho















