domingo, 10 de agosto de 2008

Modelo de Organização do Dia

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“Somente com a força da graça a natureza pode ser liberta das suas feridas e elevada à verdadeira pureza e tornada apta a acolher a vida divina. E esta vida divina é aquela força motriz íntima da qual brotam as obras de caridade. Quem quer mantê‑la perenemente em si deve nutrir‑se continuamente da fonte de onde ela nasce continuamente: os sacramentos, e sobretudo o Sacramento do amor.

Quem visita o Deus Eucarístico e com ele aconselha‑se em todas as suas necessidades, quem se deixa purificar da força divina que vem do sacrifício do altar e oferece a si mesmo ao Salvador, quem o recebe na Comunhão no mais íntimo da sua alma, vai sendo atraído incessantemente, cada vez mais, na corrente da vida divina, crescerá no Corpo místico de Cristo e o seu coração conformar‑se‑á ao Coração divino.

Quando nos despertamos pela manhã os deveres e tarefas do dia já querem inundar‑nos de toda parte (se é que já não nos angustiaram durante a noite). Vem continuamente a interrogação inquietante: “Como posso fazer tudo num dia? Quando farei isto e quando farei aquilo? Como fazer este dever, como iniciar aquela tarefa?” Seria preciso levantar‑se rapidamente e imergir‑se inteiramente nas atividades. Mas então é necessário tomar as rédeas nas mãos dizer a si mesmo: “Calma! Por ora nada disso tudo! Esta minha primeira hora da manhã é do Senhor. Depois enfrentarei o trabalho cotidiano que ele me confia e ele me dará a graça para cumpri‑lo.”

Então dirijo ao altar do Senhor, onde não se trata só de mim e das minhas mesquinhas tarefas, mas do grande sacrifício de Redenção. Nele devo participar, purificar‑me todo encher-me de santa alegria e colocar‑me sobre o altar com o sacrifício divino, com todas as minhas obras e os meus sofrimentos. E quando o Senhor vier a mim na santa Comunhão, poderei pedir‑Lhe. “Que desejas de mim, Senhor?” (S. Teresa). E aquilo que depois do silencioso colóquio com Ele se me apresentará como tarefa mais urgente será o início do meu trabalho. Se começo meu dia de trabalho assim, depois da missa matutina, terei em mim um silêncio sagrado e a minha alma estará livre de tudo que a inquieta e lhe causa fadiga. Ela se encherá de santa alegria, de coragem e energia. E eis que é tornada ampla porque saiu de si e entrou na vida divina. Qual chama silenciosa arde nela o amor que o Senhor acendeu e a impulsiona a dar em troca amor e espalha-lo aos outros: flammescat igne caritas, accendat ardor proximos [a caridade é flamejante e o seu ardor derram‑se no próximo].

A alma vê claro diante de si o próximo trecho de estrada: não vê muito longe, mas sabe que quando o horizonte limita o seu olhar, abrir‑se‑á diante de dela uma nova vista.

Agora começa o trabalho cotidiano: pode ser dar aulas ‑ 4 ou 5 horas consecutivas. É necessário estar sempre atento; não se pode obter em cada hora o que se quer e, talvez, em nenhuma outra. Cansaço, interrupções não previstas, alunos não preparados, irrequietos, briguentos. Ou mesmo trabalho no escritório: relacionamentos com colegas insuportáveis e superiores, pretensões impossíveis, reprovações injustas, mesquinhez humanas; talvez misérias de natureza variada.

Chega a pausa do meio‑dia. Volta‑se para casa exausta, ofegante. E talvez aqui nos esperam novas angústias. Onde foi parar o frescor matutino da alma? Também agora se quer mergulhar de novo na luta e na tempestade: agitação, inquietude, arrependimento. Há tanta coisa a fazer até à tarde! Não se deve recomeçar depressa? Não! Não antes de ter encontrado, pelo menos por um instante, um pouco de silêncio. Cada pessoa deve conhecer‑se ou aprender a conhecer‑se, para saber onde pode encontrar um pouco de calma. A melhor maneira, se possível, seria despejar todos os cuidados aos pés do tabernáculo por um breve tempo. Quem não pode fazê‑lo, porque talvez precise de um pouco de repouso, fique um pouco no próprio quarto. Mas se não é possível um momento de calma exterior, se não há um ambiente apto ao qual poder retirar‑se, se deveres improrrogáveis impedem uma hora de silêncio, será necessário pelo menos voltar a si por um instante, distanciando-se de todas as coisas e refugiar‑se no Senhor. Ele está no nosso íntimo e pode conceder‑nos num só instante tudo o que temos necessidade. Enfrentar‑se‑á depois todo o resto do dia; passar‑se‑á, talvez em grande fadiga e cansaço, mas em paz. Quando, depois vier a noite e olharmos para trás, virmos o quanto permanece incompleto e como muitos de nossos projetos não foram efetuados. Se isto suscita em nós uma forte confusão e arrependimento, peguemos tudo isso, assim como está e coloquemos nas mãos de Deus, abandonemo‑nos nele. Nele podemos assim repousar, repousar de verdade, para começar o novo dia com uma vida nova.

Eis uma pequena amostra de como se pode organizar o dia para dar lugar à graça de Deus. Cada [pessoa] saberá bem como fazer a aplicação à própria vida. ... depois, o Domingo, deve ser como uma grande porta através da qual vida divina entra no tumulto cotidiano e que nos fortalecerá no trabalho da semana.

(E. Stein. A Mulher, citado em Incontro a Dio; antologia di scritti spirituali. A cura de Maria Cecilia dei Volto Santo.(Ciniselo Balsamo (Mi): San Paolo 1999)p. 44-47). Tradução: fr. Alzinir

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