segunda-feira, 19 de março de 2018

Carta do Padre Geral Fr.Saverio Cannistrà à OCDS na Solenidade de São José






"Queridos irmãos e irmãs da Ordem Secular,

Com a alegria que vem do Senhor, escrevo-lhes neste dia em que festejamos São José, o "providencial protetor de nossa Ordem" (Constituições OCD 52).
O evangelho de Mateus o qualifica como "justo" (Mt 1, 19), fiel à vontade de Deus e aos ensinamentos da Sagrada Escritura e, por isso, sábio. Como tal, está atento aos sinais de Deus na história, para atuar de acordo com a vontade do Senhor.

Mateus nos apresenta São José, que obedece com docilidade e prontidão (cf. Mt l, 24; 2, 1316.19-23), seguindo o exemplo da Virgem Maria. Assim, com uma missão única na história da salvação, José exerceu com presteza e fidelidade a tarefa que lhe foi confiada de custodiar a Virgem e o Menino Jesus.



Diante dessas atitudes de São José e tendo em conta o tema do Sínodo dos Bispos deste ano, gostaria de refletir com vocês nesta carta sobre alguns aspectos importantes da identidade da vocação à OCDS. Na complexa realidade em que vivemos atualmente, não podemos perder-nos em aspectos secundários da vocação, com o risco de mesclá-la a tendências espirituais estranhas, às vezes nem mesmo cristãs.

Quisera somente recordar alguns "pontos básicos" de referência, que, espero, possam ajudá-los a ser fiéis à sua vocação ao Carmelo Secular.




l . Todos nós experimentamos que a mudança de época na qual vivemos produz rápidas e profundas transformações em nossas sociedades. Nosso tempo é caracterizado por uma grande variedade, quantidade e velocidade das informações que recebemos a cada instante. Muitas vezes, somos incapazes de aprofundar e ficamos em um nível superficial de conhecimento das coisas e da relação com o outro. Acrescentam-se a isso os problemas políticos e econômicos de tantos países onde abundam a corrupção e a violências, as guerras, as migrações, a insegurança urbana, a fome etc. Em resumo: movemo-nos numa realidade multicultural e secularizada, repleta de conflitos: pluralista do ponto de vista religioso. Tudo isso provoca em nós a sensação de não ter referências seguras e estáveis sobre as quais nos orientar; é uma realidade "líquida" e mutável, fonte de constante insegurança.

Por outro lado, também dentro de algumas comunidades da Ordem, com a desagregação por falta de coesão interna, o envelhecimento de seus membros, os conflitos causados por diferentes concepções do carisma ou pelo apego ao poder ou por divergências sobre aspectos superficiais (como, por exemplo, os sinais de pertença à OCDS), se está acusando e debilitando o sentido de pertença, levando às vezes ao abandono. Tudo isso contradiz o sentido da existência das comunidades e de sua missão.

Ter clareza da própria identidade e de seus elementos fundamentais permite enfrentar a realidade interna e externa com valentia e parresía, e torna possível viver o chamado à OCDS com a determinação profética de quem caminha com decisão para "o alto do Monte, que é Cristo", como "testemunhas da presença de Deus" (CC 25) em meio ao seu povo.



2.      Um elemento comum, fundamental na compreensão da identidade de todos os membros da Ordens é a consciência de ser membro da Igreja, povo de Deus e mistério de comunhão (cf. LG cap. II; ChL 8)

Como católicos e carmelitas, somos chamados a viver "em obséquio de Cristo" (Regra 2), graças à pertença eclesial, fundada no Batismo e na Confirmação e alimentada constantemente pela Eucaristia e pela graça dos demais sacramentos.

Mais especificamente ainda, a vocação de vocês como cristãos leigos no Carmelo teresiano é caracterizada pela "secularidade". E o chamado a seguir Jesus no meio do mundo, a viver e testemunhar aí os valores do Evangelho em "amizade com Aquele que sabemos que nos ama" (V 8, 5), servindo a Igreja e ordenando as realidades temporais segundo a vontade de Deus (cf. LG 31; ChL 15; CC 3). 

Desenvolver com atitude de fé, esperança e caridade as tarefas diárias na família, no trabalho e em outras realidades culturais e sociais permite que vocês vivam a constante união com Deus e, portanto, santifiquem-se. Isso é possível, recordamos, graças à participação nos três ofícios de Cristo sacerdote, profeta e rei (cf. LG IO. 34.36; ChL 14; cf. CC Proêmio; 1).




3.      Em segundo lugar, dentro da Ordem dos Carmelitas Descalços, Carmelo Secular tem um vínculo histórico com os religiosos (cf. CC 2). O reconhecimento desse vínculo por parte do Magistério confere-lhe estabilidade do ponto de vista jurídico. As Constituições OCDS afirmam que vocês fazem parte do núcleo da Ordem, junto com as monjas e os frades: "são filhos e filhas da Ordem de Nossa Senhora do Monte Can-nelo e de Santa Teresa de Jesus" e "compartilham com os religiosos o mesmo carisma" (CC Proêmio; l)

Além disso, a OCDS foi reconhecida e aprovada pela Igreja como associação pública de fiéis (cf. CC 37; CIC can. 303), em virtude da qual vocês têm personalidade jurídica, que os constitui sujeitos com direitos e deveres na Igreja (CC 40; CIC cân. 116. 113. 301-315). 

Embora dependam juridicamente dos frades carmelitas descalços (CC 41), vocês gozam de autonomia no governo e na formação, tal como foi estabelecido pelos documentos que regem a OCDS. 

Por último, como recordei na carta que lhes dirigi ano passado, vocês são chamados a viver em colaboração com a missão da Igreja e da Ordem em suas diversas expressões, especialmente no campo da promoção da vida espiritual (cf. CC 25-28).


4.Outro aspecto, fundamental para a formação, crescimento e amadurecimento da identidade vocacional, vem da oração em suas múltiplas manifestações (cf. CC 35). Santa Teresa a estabeleceu como "pilar e exercício fundamental de sua família religiosa" (CC 17). A vida de oração, em particular com a lectio divina, faz compreender o sentido da vida e dos acontecimentos da história com os olhos de Deus, como também que "todo o mal do mundo provém de não conhecer com clareza as verdades da Sagrada Escritura" (V 40, 1).

Antes de tudo, pelo exemplo e os ensinamentos de Jesus aprendemos a ser filhos e a rezar com confiança ao Pai (cf. Mt 6, 5-15). A Santa Madre recomenda aprender de sua boca divina (cf. Caminho 26, 10). Ao lado de Jesus, temos o exemplo de Maria, que meditava todos os acontecimentos em seu coração (cf. LC 2, 19. 52). Ela é o "modelo de fidelidade na escuta do Senhor" (CC 4) "na Escritura e na vida" (CC 29) e ensina a ver e a cantar suas ações na história (cf. LC I, 46-55). Com ela, São José é mestre de oração (cf. V 6, 6-8): seu silêncio vigilante nos ensina a estar atentos às necessidades dos outros.

Ademais, a vida de oração, segundo a doutrina teresiana e sanjuanista, exige a prática das virtudes, convida cada um a viver a oração pessoal e litúrgica como amizade com Jesus. Para a Santa Madre, de fato, viver em amizade com Ele significa amá-lo e tentar tê-lo sempre ao nosso lado, recordando-nos com frequência e afetuosamente — que estamos em sua presença, inclusive em meio às tarefas cotidianas (C 26, 2; V 22, 7; F 5, 16).

São atitudes que coincidem com aquelas que nos recomenda São João da Cruz: a advertência amorosa de Deus (2 Subida 14, 6; 15, 2.4-5; IN 10, 4), a vigilância na fé, esperança e caridade (cf. CC 8). Portanto, a oração — segundo o ensinamento de nossos santos deve ter sólidos fundamentos, como a casa construída sobre a rocha (cf. Mt 7, 24-26; cf. 5M_ 2, 3-6).
Estes breves apontamentos sobre a doutrina da oração nos recordam a importância de levá-la a sério na vida pessoal e o compromisso de encontrar espaços de tempo para estar em silêncio com o Senhor. O mesmo vale para as comunidades, que têm que reservar espaços de tempo para a meditação em seus encontros, permanecendo juntos em silêncio diante do Senhor

Assim, a partir das raízes profundas do encontro pessoal com Ele, pode-se partilhar com os outros o próprio caminho espiritual (cf. CC 18; 24 c). Nessa partilha encontra-se a ajuda necessária para desenganar-se em relação às atrações do mundo e ser dóceis a Deus, como escrevia a Santa Madre sobre os que verdadeiramente se amam em Cristo (cf. V 16, 7).

5. Por último, como parte igualmente importante, gostaria de destacar outro aspecto, que deriva do que acabamos de recordar: a comunhão fraterna em relação com a identidade da OCDS. É um tema de particular importância, dado que o individualismo é percebido com mais força e isola as pessoas, atentando contra seu ser social mais profundo, que é a imagem da Trindade. A vida fraterna já foi posta em destaque no capítulo 3 B, recentemente incluído nas Constituições de vocês, Aí temos uma síntese dos elementos doutrinais e do carisma teresiano-sanjuanista para a vida em comunidade no Carmelo secular.



Na Ratio, diz-se que as comunidades são chamadas a "encarnar a identidade carmelitana no mundo de hoje e no serviço que essa identidade presta a Deus, à Igreja, à Ordem e ao mundo" (Ratio Institutionis 3). Aqui aparece o aspecto dinâmico da identidade, pelo qual as comunidades são chamadas a um constante esforço de atualização e adaptação aos tempos e aos lugares onde se encontram. 

Esse aspecto dinâmico do carisma permite não cair em formalismos baseados em aspectos secundários ou em tradições fechadas em si mesmas, frequentemente obsoletas ou estranhas, sem significado para as pessoas de hoje. 

O Papa, em Evangelli Gaudium, exortou-nos a sair do "cômodo critério pastoral do 'sempre se fez assim', sem ser valentes e criativos na tarefa de  repensar os objetivos, as estruturas, os estilos e os métodos evangelizadores das próprias  comunidades" (EG 33).

Para escapar aos possíveis desvios e não converter o carisma da Ordem em uma "múmia de museu" (para utilizar outra expressão do Papa Francisco) e ser fiéis às finalidades das comunidades, é importante encontrar o modo de tornar compreensível a espiritualidade do Carmelo teresiano hoje, abrindo-nos com coragem à ação do Espírito. 

Por isso, é necessário um forte sentido de pertença, um exercício atento de fidelidade criativa e de responsabilidade por parte de cada membro na vida da comunidade (cf. CC 24 c).

Aqui estão, queridos irmãos e irmãs, algumas reflexões que me parecia importante propor-lhes no momento atual em que vivemos. Os aspectos indicados, se vividos com seriedade e compromisso, permitirão viver a vocação na OCDS com fidelidade e dar passos com qualidade e constância, animados pela presença misteriosa do Senhor que caminha conosco.

Ele, que sustentou São José em sua missão e exortou-o a "não temer" (Mt l, 20), hoje faz o mesmo conosco. E a Santa Madre Teresa repete: "Todo tempo é bom para Deus, quando quer fortalecer com suas graças aos que o servem com fidelidade"(Fundações 4, 5)Peçamos ao Espírito Santo que nos dê luz e nos leve a ser hoje sinal da presença de Deus no mundo. 

Que o exemplo da Virgem do Carmo, de São José e de nossos santos nos ajude a viver e a custodiar fielmente a vocação ao Carmelo teresiano como seguidores de Cristo, para poder transmitiIa aos que vierem depois de nós.

Queridos irmãos e Irmãs, aos meus melhores desejos de Páscoa para suas famílias e comunidades une-se minha oração para que o Ressuscitado os renove em seu mistério pascal e lhes conceda ser, em todo lugar, luminosos de seu amor. Confiando-me também às orações de vocês, peço ao Senhor que os abençoe.

 
Roma, 19 de março de 2018 — Solenidade de São José, patrono da Igreja

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