sábado, 21 de fevereiro de 2015

IMPRESSÕES SOBRE A PARÓQUIA NOSSA SENHORA DO CARMO

IMPRESSÕES SOBRE A PARÓQUIA NOSSA SENHORA DO CARMO
                                                                                                Frei Mariano Júnior, ocd

Hoje completam quatro dias que me encontro em Itabaiana. Itabaiana é a segunda ou terceira maior cidade do menor estado da federação: Sergipe. Sua população é pouco mais de 91 mil habitantes; pertence à arquidiocese de Aracaju. É a última cidade antes do chamado sertão de Sergipe. Quem vem do sertão sergipano quase que necessariamente passa por Itabaiana
A cidade é conhecida como a cidade dos caminhoneiros.  Por aqui passam caminhões de várias partes do país. E com isso vem  também os desafios: houve época em que se dizia que aqui era forte o roubo – não só de cargas, mas também de caminhões. Ouvi de dentro da Fazenda Esperança – em Marechal Deodoro – que ao lado de um posto policialhá pouco tempo foi desbaratada uma oficina de desmanche. Ouvi também da boca de um dos que lá se encontram que Itabaiana era a única cidade do Brasil em que foi proibido por lei municipal de os motociclistas pilotarem com o capacete.
Se verdade ou não, fato é que a fama de violência na cidade é grande. Isso em nível geral, mas não escapa à Paróquia Nossa Senhora do Carmo que se encontra na periferia da cidade, num bairro denominado São Cristóvão, mas conhecido como a paróquia da Invasão.
“Paróquia da Invasão” porque, segundo o moto-táxi que me levou ao convento, as casas foram construídas pelo governo para serem vendidas a preço popular para o povo. Mas, uma vez prontas e somada a demora em liberar para a população, a mesma população sofrida se sentiu no direitode ocupar aquilo que lhe era destinada. Assim a região ficou conhecida como a ‘invasão’, e a paróquia, como ‘Paróquia da Invasão’.
O clima é bom, muito bom. Não é tão quente como o de Marechal Deodoro. Esta, por sua vez, é aliviada pela brisa do mar, que, como canta o poeta nordestino,não se cansa de beijar e balançar as vagas do mar. A cidade de Itabaiana não tem mar, e consequentemente não possui os beijos da brisa marítima; no entanto, é aconchegada pela Serra de Itabaiana com um frescor todo especial, serra que traz em si a proteção de um Parque Nacional.
Em quatro dias que aqui cheguei, presidi apenas uma vez na eucaristia, assim mesmo foi fora da paróquia. O antigo pároco deixou a impressão de que não queria muito a presença dos religiosos na diocese. Isso percebi quando, no dia em que fui celebrar missa, sozinho com ele em seu carro, falou-me  que  na diocese há mais de 120 padres e pouco mais de 90 paróquias. E que havia mais padres diocesanos que paróquias, e que, fora os carmelitas, havia cerca de 10 congregações masculinas prestando assistência na diocese. Enfim, utilizando suas palavras, ‘os religiosos estavam tomando o emprego dos diocesanos’.
Fato é que ele foi convidado pelo bispo a deixar a paróquia e assumir outra. Aqui deixou após um sexênio de zelo pela ‘igreja pedra’. ‘Zelo pela igreja pedra’ é linguajar dele. Partilhou que trabalhou muito a ‘igreja pedra e muito pouco a igreja povo’.  E fez bem o seu trabalho. A casa é imensa, muito grande. É verdade que não foi ele o idealizador, mas um padre que no passado esperava ser bispo, e querendo fazer daqui um seminário, construiu ‘casa paroquial’ pensando num seminário.
E por aqui passaram vários padres, segundo antigo pároco e alguns paroquianos com quem conversei. Alguns, não sei se maioria, deixaram o ministério, seja para edificar família, seja para dedicar ao povo de Deus na política. Fato é que foram três ou quatro padres, antes da vinda do último pároco.
Se a ‘Igreja pedra’ está bem trabalhada, o mesmo não se pode dizer da ‘Igreja Povo de Deus’. Pastoralmente, ou melhor, ‘movimentalmente’- isto porque  Movimento é diferente de Pastoral - na Paróquia se reúnem: ‘Apostolado da Oração, Legião de Maria, Terço, Armada branca (=terço de crianças) e Catequese. Há também uma missa muito frequentada – talvez mais pelo pessoal de fora que dos da paróquia, chamada ‘missa da misericórdia’. No mais, pelo menos na matriz, nada mais há, fora as missas dominicais. Há também nove capelas no território paroquial que requer assistência do padre.
Digo de nota é o projeto ‘nossa mesa’, ligado ao SESC e que, por duas ou até mais vezes por semana distribui alimentos às famílias mais necessitadas, todas cadastradas. Funciona nas dependências da matriz. Se é trabalho voluntário ou não, não me inteirei; mas fato é que muito contribui para a subsistência dos mais carentes da zona denominada ‘invasão’.
Algo, no entanto, acontece aqui que não vi em lugar algum, embora tenha quase duas décadas de ordenado. Aqui há uma ou duas funcionárias que são pagas pela prefeitura. Segundo meu confrade, alguns dos coordenadores de comunidadestêm laços muito fortes com os políticos. Outro fenômeno que observei é que a igreja matriz fica aberta apenas na parte da manhã, com uma secretária (?) que trabalha apenas meio horário; secretária que é funcionária da prefeitura (?).
E o povo? Sem deixar de ser detalhes, o povo é acolhedor. Como nos recorda o evangelho, joio e trigo caminham juntos até a época da colheita em que o Dono da Messe virá separar o que lhe pertence.  Para quem se sente chamado a ser discípulo missionário, trabalho é que não falta. O discípulo missionário não precisará se preocupar com estrutura. Há ‘benfeitores’ de peso na cidade, principalmente os ‘devotos da missa da misericórdia’, onde é grande a frequência dos empresários, dizem.
Estranhou-me o fato de o padre antecessor partilhar que, quando aqui chegou há seis anos, veio substituir um padre muito querido, alguém que poderia se qualificado, ao nosso limitado entender, como ‘pastor com cheiro de ovelhas’. E o ‘cheiro de ovelhas’ era tão forte que, segundo o padre, trazia para a casa paroquial quem se encontrava caído à beira do caminho, ou seja, todos os tipos de ovelhas machucadas, a saber, prostitutas, travestis, bêbados, dependentes químicos.  Com isso, achegava-se também à casa todo tipo de bandidagem. Assim, muitas portas tiveram fechaduras arrombadas, danificadas. Razão pela qual, em seus primeiros tempos de paróquia, dormisse nunca sozinho, mas sempre acompanhado de um revólver.
Hoje, pela segunda vez – há quatro dias aqui me encontro! – resolvi visitar o lado direito da paróquia, isto é, o pessoal da ‘invasão’; visitar mais o lugar que o pessoal propriamente dito. Algumas pessoas – na verdade menos que meia dúzia! – me aconselharam a não ir, pois consideram a região perigosa.  Tão perigosa, que um dos grupos da Legião de Maria resolveu trocar o horário de reunião da noite para tarde a fim de evitar possíveis encontros com pessoas não desejáveis; algumas legionárias optaram em não fazer a visita legionária na região mais afastada, pois, ali o ‘perigo’ ronda com mais frequência.
E pensando nas atitudes o Mestre, olhando sempre a sua humanidade, Ele que ‘desceu aos infernos para resgatar os que lá se encontravam’, resolvi não obedecer aos que me aconselharam. Com certo receio – o novo parece sempre causar medo ou insegurança! - , venci a mim mesmo e segui pela direita da frente da Igreja. De frente a um asilo, que segundo frei Claudiano é uma obra da paróquia vizinha, fui aconselhado por mais dois senhores com quem puxei conversa para não seguir adiante.  Mas não lhes dei ouvidos, fui até o final da rua calçada e onde havia poste de luz na rua. Depois adentrei, ainda que rapidamente, para o interior. As casas que vi são de alvenaria. Não é favela como se vê no sudeste. São casas, pelo menos por fora, boas, embora sejam pequenas e pobres. Encontrei com muitas crianças brincando na rua, em frente das casas. Descobri uma praça no interior do povoado; praça sem árvores, cimentada e com bancos. Encontrei um pequeno grupo de crianças correndo na praça. Estranhei, pois, esperava maior número. Cruzei com alguns adolescentes a pé e alguns que passaram por mim com motos.  Motos com 50 ou 100 cilindradas, daquelas que não precisam de placas ou Permissão para conduzi-las. Sem me deter muito no olhar, percebi que os olhos de muitos desses adolescentes pareciam denunciar que consomem drogas. Mas quase não trocamos palavras, exceto com um ou outro uma ‘boa tarde’. Isso porque quando saí de casa para visitar o ‘povo de Deus’ era mais ou menos 17 horas.
Interessante que no interior da ‘invasão’ encontrei uma igreja pentecostal, Igreja Pentecostal Fogo de Amor. Na porta da igreja, que se localizava numa garagem, estava o pastor. Como se encontrava na porta,resolvi aproximar e puxar conversa. Havia uma ou duas pessoas no interior preparando o som e cadeiras para o culto, que se daria às 19 horas. Conversamos pouco, foi a segunda vez que parei e puxei conversa. A primeira vez foi quando perguntando por uma obra a dois senhores, eles me aconselharam não seguir adiante, pois era ‘perigoso’. Com o pastor não houve esse tipo de aconselhamento. Trocamos palavras a respeito da vida e do Reino e, após cordiais contatos e apresentações, me despedi.
Refleti comigo: tem razão de o catolicismo está perdendo adeptos. Muitos líderes religiosos católicos não se misturam com o povão, pois tem medo daqueles por quem Jesus deu a vida.Pensei: certo está o papa que não se cansa de exortar a Igreja a deixar a pastoral de manutenção para abraçar a pastoral de ‘missão’. Indaguei a mim mesmo pensando na igreja: “será possível passar de uma pastoral (de manutenção) a outra (de missão) e viver numa segurança estrutural com muros altos, cercas elétricas, portões e janelas com grades e cadeados? Por fim, conclui refletindo comigo mesmo: há momentos que dizemos que ‘damos tudo para Deus,professamos votos de pobreza, castidade e obediência para mais livres servir a Deus e seu Reino, e, no entanto,[ sem querer julgar, mas só constatando e refletindo,] parece não sermos capazes de ‘ir aos confins do mundo e ensinar tudo aquilo que Jesus ensinou’, pois não estamos dispostos a sair de nosso comodismo e segurança. E os poucos que se dizem ‘sair para servir’ – há exceções, graças a Deus! - fazem tantas exigências que é preciso de uma ‘baita estrutura econômica’ para manter o missionário, ‘homem de Deus’. Enfim, concluí que vivemos para nós e não para os outros. E fazemos isso em nome de Deus”.
Voltei, então, para casa, pedindo perdão a Deus e misericórdia por todos nós, principalmente nós que recebemos pela imposição das mãos de um sucessor dos apóstolos o ‘encargo’- diga-se múnus - de ‘reger, governar e ensinar’ o povo de Deus.
Antes de chegar a casa, puxei conversa com uma senhora que estava com a camisa estampada com a imagem de Nossa Senhora do Carmo, paroquiana, frequentadora da igreja. E desta conversa, ofereceu-me um copo de café, que tomei na calçada mesmo. Louvei e agradeci a Deus, e pedi a Ele que não se esquecesse de recompensá-la pelo café, Ele que prometeu não deixar sem paga a quem desse um copo de água em seu nome.
Itabaiana, 12 de fevereiro de 2015.
Frei Mariano Júnior,ocd


Observação: o texto foi lido e aprovado por frei Claudiano, futuro pároco da Paróquia de Itabaiana, que aqui chegou uma semana antes de mim.  Embora com muitíssimo pouco tempo de estadia aqui, temos consciência de que nossas impressões são por demasiadas limitadas. Nós confabulamos e chegamos a seguinte conclusão interpessoal, com a consciência de que cada comunidade tem o seu perfil próprio e depende do estado de espírito de cada membro que a compõem.  Acreditamos que cada membro da comunidade deve ter claro para si mesmo o porquê aqui veio. Diante dessa pergunta duas são as possíveis respostas: ou para servir o povo de Deus (pastoral de missão) ou para ser servido pelo povo de Deus (pastoral de manutenção). Sendo assim, projetamos:
Quem aqui vier morar e chegar com o espírito missionário de quem quer fazer comunidade de partilha, de vida, de doação ao outro e serviço – pois o missionário é sempre um servo que se imola para o outro - há de encontrar ambiente propício na paróquia, pois há uma estrutura – embora a casa seja grande – que possibilita a manutenção dos frades que não queiram levar vida ociosa e não são muitos exigentes para si mesmos. A manutenção viria de esportulas de missas, dízimos (a trabalhar) e cursos).


Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...