terça-feira, 5 de julho de 2011

PALESTRAS VIII CONGRESSO OCDS NORTE/NORDESRE

 Sagrada Escritura: lugar de encontro com Cristo(Frei Wilson)

2. A oração, experiência de gratuidade e experiência de compromisso. (Frei Fabiano)

3. “A esperança cristã, terreno fértil em que a semente cresce, mesmo sem perceber.”(Gustavo)

4. Orando com Teresa através da Palavra de Deus(Maria Eduarda)































A Sagrada Escritura: lugar de encontro com Cristo

O tema desta palestra é tratado no documento de Aparecida, números 240-249, que vai enfocar ‘O caminho de formação dos discípulos missionários’.
Junto ao acontecimento de Cristo surgem na história os discípulos: ’Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas através do encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva’. (DA n. 243)
A história de seguimento de João e André começa com uma pergunta: O que procuram? (Jo 1, 39). Com ela ouvem o convite para viver uma experiência: Venham e verão (Jo 1, 39).
Ainda hoje essa pergunta ressoa cheia de expectativa: Mestre, onde vives (Jo 1, 38), onde te encontramos de maneira adequada para abrir um processo de conversão, comunhão e solidariedade?
Quais são os lugares, as pessoas, os dons que nos falam de ti, que nos colocam em comunhão contigo e nos permitem ser discípulos e missionários teus?
Uma das respostas do D.A. é:
Encontramos Jesus na Sagrada Escritura, lida na Igreja. A Sagrada Escritura, Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo, é, com a Tradição, fonte de vida para Igreja e alma de sua ação evangelizadora. Desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo e renunciar a anunciá-lo.
O Papa Bento XVI diz ser indispensável o conhecimento profundo e vivencial da Palavra de Deus, educar o povo na leitura e na meditação da Palavra; que ela se converta em seu alimento para que, por experiência própria veja que as palavras de Jesus são espírito e vida (Jo 6, 63). É preciso fundamentar nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus.
A Palavra de Deus é dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo vivo, caminho de autentica conversão e de renovada comunhão e solidariedade.
Os discípulos de Jesus desejam alimentar-se com o Pão da Palavra: querem chegar à interpretação adequada dos textos bíblicos, emprega-los como mediação de diálogo com Jesus Cristo, e que eles sejam a alma da própria evangelização e do anúncio de Jesus a todos.
É importante que a pastoral bíblica, entendida como animação bíblica pastoral, seja uma escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, e de evangelização inculturada ou de proclamação da Palavra.
Precisamos nos aproximar da Sagrada Escritura não apenas numa atitude intelectual e instrumental, mas com o coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8, 11).
Entre as muitas formas de se aproximar da Sagrada Escritura existe uma privilegiada à qual todos somos convidados: a Lectio divina ou exercício de leitura orante da Sagrada Escritura. Essa leitura orante, bem praticada, conduz ao encontro com Jesus-Mestre, ao conhecimento do mistério de Jesus-Messias, à comunhão com Jesus-Filho de Deus e ao testemunho de Jesus-Senhor do universo.
Com seus quatro momentos (leitura, meditação, oração e contemplação), a leitura orante favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo semelhante ao modo como tantos personagens do evangelho o encontraram: Nicodemos e sua ânsia de vida eterna (Jo 3, 1-21), a Samaritana e seu desejo de culto verdadeiro (Jo 4 1-42), o cego de nascimento e seu desejo de luz interior (Jo 9), Zaqueu e sua vontade de ser diferente (Lc 19, 1-10)... Todos eles, graças a esse encontro, foram iluminados e recriados porque se abriram à experiência da misericórdia do Pai que se oferece por sua Palavra de verdade e vida. Não abriram o coração para algo do Messias, mas ao próprio Messias, caminho de crescimento na ‘maturidade conforme a sua plenitude’ (Ef 4, 13), processo de discipulado, comunhão com os irmãos e de compromisso com a sociedade.
A Exortação Apostólica VERBUM DOMINI, Sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja, no número 87, recorda brevemente os passos fundamentais da lectio divina:
1. “começa com a leitura (lectio) do texto, que suscita a interrogação sobre o autentico conhecimento do seu conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem este momento, corre-se o risco que o texto se torne somente um pretexto para nunca ultrapassar os nossos pensamentos.
2. Segue-se depois a meditação (meditatio), durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui cada um, pessoalmente mas também como realidade comunitária, deve deixar-se sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras pronunciadas no passado, mas no presente.
3. Sucessivamente chega-se ao momento de oração (oratio), que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, ação de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma.
4. Finalmente, a lectio divina conclui-se com a contemplação (contemplatio), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? São Paulo, na Carta aos Romanos, afirma: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito” (12, 2). De fato, a contemplação tende a criar em nós uma visão sapiencial da realidade segundo Deus e a formar em nós “o pensamento de Cristo” (1Cor 2, 16). Aqui a Palavra de Deus aparece como critério de discernimento: ela é “viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4, 12).
5. Há que recordar ainda que a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à ação (actio), que impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade.”









A oração, experiência de gratuidade e experiência de compromisso.

A oração levanta esperanças e suspeitas. Abre horizontes e provoca retiradas. É palavra doce e látego implacável. Enamorados despreocupados e ingênuos, críticos sofridos e perspicazes, se aproximam e se distanciam com a mesma palavra nos lábios.
Realidade e palavra nuclear na mensagem cristã e, para além disso, humana, a oração é portadora de conteúdos e esclarecimentos, bem como de vazios e de obscuridades. A palavra tornou-se ambígua para nós.
E, no entanto, contamos com uma plataforma, rocha firme em que nos apoiamos todos em busca da afirmação, pacífica ou conflituosa: a oração é um dado essencial de cunho antropológico, cristão. Por isso, resistimos a perdê-la e lutamos denodadamente por sua permanência existencial e por sua adequada apresentação doutrinal.
A busca da oração é constante, inevitável, viva, pessoal. Não é de estranhar que, em momentos de busca e de averiguação, quando o fiel - pessoa ou comunidade - perde a segurança e mergulha na corrente movediça da mudança, quando a experiência do mistério ganha vulto e os conceitos fenecem e diminuem porque lhes foi tirado o conteúdo, a busca da oração se generalize e se faça radical. E até adquira agressividade, revestindo-se dela, e fique carregada de paixão. É sinal que percebemos como algo que afeta intimamente o ser cris¬tão. Uma coisa irrenunciável.
Por isso, nessa busca, não podemos ignorar os grandes orantes que contribuíram para o patrimônio oracional da Igreja. Nunca se parte do zero. Menos ainda na vida. Uma boa, ampla e penetrante memória é força criadora de futuro.
Nessa "nuvem de testemunhas" e profetas da oração, Teresa de Jesus tem estatura suficiente e palavra luminosa para merecer a nossa atenção. Principalmente quando estamos assistindo, ao mesmo tempo, a um despertar e a um desencanto da oração.

1. Oração, experiência de gratuidade
Sem pretender fazer sínteses precipitadas, mas com a segurança de apontar para o mais substantivo e nuclear da palavra teresiana, podemos dizer que a oração é experiência de gratuidade e exigência de compromisso.
A oração é amizade. "A oração mental não é, a meu ver, outra coisa além de uma relação de amizade, estar muitas vezes num contato privado com quem sabemos que nos ama. " Acerto genial. Amizade: palavra sugestiva, de amplíssima circulação e com profundo conteúdo. Realidade universal e estritamente pessoal; homogênea em sua evolução e profun¬damente inovadora, de dinamismo crescente e aceleração ininterrupta.
Amizade: relação pessoal de amor. A oração é uma forma de ser e de viver. Ser-em-relação, em abertura "ontológica" e amorosa, na presença de e com "quem sabemos que nos ama". Como forma de ser, a oração é uma estrutura interior que se projeta e se plasma enquanto o orante vive e faz. Ao mesmo tempo que se afirma e se realimenta em todo lugar e em toda missão.
A oração é experiência de uma amizade que nos é oferecida, que entra em nós "quando abrimos a porta". Essa experiência confere in¬-sistência, interioridade e profundidade, "recolhimento" e raiz. E nos transforma em força e provocação de ex-istência, de saída até o Outro com o mesmo vigor com que nos faz "baixar", situar-nos e viver em espaços progressivamente mais íntimos do nosso eu.
São esses os dois extremos da oração teresiana. A oração "reco¬lhe", interioriza, dá profundidade à pessoa. "Recolhe" o amor. O amor experimentado de outro. Por isso, não é um "recolhimento" de si consigo, um ensimesmamento, mas em si com ele: "A alma recolhe todas as suas faculdades e penetra em si mesma com o seu Deus ” Ou, de modo mais simples e melhor, "recolhimento" no Outro, cuja presença é percebida como mais íntima e interior a nós do que nós mesmos. Esse recolhimento cura do derramamento e da dispersão, da debilidade.
A oração não é evasão, nem solidão egoísta, mas presença de todo o ser diante de quem, com a força e o poder do seu amor, antevisto e experimentado com antecipação, nos recolhe para "sair" e para ex¬istir com raízes e sustentação. Só a "saída" a partir do "recolhimento" da amizade e da comunhão, do reconhecimento do outro diante de quem e com quem viver, é personalizante e sinal de personalidade. Só o "recolhimento" que ex-tasia é centramento não-evasivo, alienação positiva e fecunda.
Orar é "entrar". Viver. Conquistar a própria pessoa para a relação. Voltar à pátria que é a amizade e a comunhão, o con-viver.
Interiorizar-se é alter-izar-se. Deus é o nosso eu maior e melhor: "Morra já este eu, e viva em mim outro que é mais do que eu, e, para mim, melhor do que eu ... Que ele viva e me dê vida; reine e seja eu sua escrava, pois minha alma não quer outra liberdade ". Perder-se no outro é encontrar-se a si mesmo.
E não é difícil compreendê-Io. A oração-amizade é, prescindindo de suas "formas", o "lugar" da experiência de Deus e de si mesmo, simultaneamente e em intrínseca relação. A oração nos faz "conhecer as verdades", é uma fortaleza "de onde se descortinam as verdades ".

Deus se dá a nos
Deus, amando-nos, cria em nós a bondade. "O olhar de Deus é amar e conceder graças ”. Deus, amor e dom, nos faz amor e dom. Fazer-nos à sua imagem é comunicar-nos 'seu ser. Somos dom.
Essa é a raiz do otimismo teresiano. É o que a faz transbordante e confiante na entrega de si mesma. A vida a pressiona de forma incontida por dentro, particularmente a partir de sua experiência mís¬tica, a partir do momento em que a presença do Amigo se impõe a ela e a envolve, lhe dá sustentação e lhe abre horizontes insondáveis. Essa presença vai à frente, definindo comportamentos e conteúdos, marcan¬do ritmos de vida e de compromisso, e tornando-os possíveis.
A ação de Deus é eficazmente transformadora, transforma a partir da raiz, do ser. É o grande testemunho teresiano da vida mística, da presença atuante de Deus em nós. "Basta uma graça dessas para trans¬formar uma alma por inteiro . "Não me parecia que eu conhecesse a minha alma, tão transformada eu a via ". “A própria alma não se conhece a si mesma ". "Ela não se parece consigo mesma ”.
A verdade última do homem é ser dom. A experiência de Deus¬-Amor, que age comunicando-nos o seu ser, é experiência de si como ser radicalmente gratificado. A ação de Deus é criadora de um novo ser. São João da Cruz diz que a alma "está aqui vestida de Deus e banhada em divindade; não que ela esteja em cima, mas... nos inte¬riores do seu espírito ".
A ação de Deus alcança tão profundamente o homem, e o renova e gratifica de modo tão verdadeiro, que não só experimentamos dom e amor, como chegamos a ter consciência de que somos mais dom e amor do que o seríamos pelo nosso próprio ser. "Esta é a grande satisfação e contentamento da alma: ver que dá a Deus mais do que é em si e vale por si " Ela dá a Deus uma coisa sua que é adequada a Deus de acordo com seu infinito ser ”.
Diz Teresa aos principiantes: "Pois Deus lhe deu (à alma) tão grande dignidade que não se deve. forçá-Ia a ficar muito tempo num só aposento...; que a alma alce voo algumas vezes e considere a grandeza e majestade de Deus ". Grandeza e majestade de Deus em nós, fazendo-nos por inteiro dom, vivendo e agindo em nós, comunicando-nos o seu ser e deixando-nos partilhar dele. Consequências? Entre outras, diz Teresa, a de que "o nosso intelecto e a nossa vontade se tornam mais nobres e mais aptos para todo bem ". Conhecer o que somos. E concretizá-lo para ser mais. O ser é ato e se faz concretizando-se.

2. A oração, compromisso de gratuidade
A experiência de Deus como graça e dom desvela e afirma o homem como graça e dom. A vivência e a aproximação da verdade de Deus e do homem são oração, experiência de amizade. Pois a amizade não se sustenta se as "condições" dos amigos não são compatíveis. "Para ser verdadeiro o amor e duradoura a amizade, as condições devem ser compatíveis ".
São' João da Cruz alerta com segurança e gravidade que, para incitar Deus a acelerar sua doação a nós, devemos tratar com ele e conduzir-nos em sua presença amorosamente, de acordo com sua condição. "Porque Deus tem tal condição que quem o levar por amor e por bem o fará fazer o que quiser; se agir de outra maneira, não há palavras nem poder diante dele, mesmo que chegue a extre-mos ”. Em Subida, explica mais: trata-se de ter uma conduta gratuita, desinteressada. Agir simplesmente, com amizade: "Porque Deus é de tal maneira que quem o levar por bem e de acordo com a sua condição fará dele o que quiser; mas se age por interesse, nenhuma palavra o move ".
Temos dito que Deus está comprometido com a recriação do homem, para que a sua condição seja o amor, e Deus e o homem possam convergir em um ser, compatibilizar suas "condições", ser amigos até os limites insuspeitados de que fala São João da Cruz: “A igualdade de amor", "pretensão" de qualquer verdadeiro amante: "Amar tanto quanto é amado ".
Voltemos ao texto teresiano, profundo em sua formulação sim¬ples, com sabor de história autobiográfica, e que vincula a mudança e a novidade, de modo explícito, com a oração: "Quero agora voltar ao ponto em que parei na narração da minha vida... Daqui por diante é outro livro, isto é, uma vida nova; a que veio até aqui era minha; a que passei a viver desde que comecei a falar dessas coisas de oração é a que Deus vivia em mim ". Somente Deus, amor e dom, abre o homem ao amor e ao dom. Só a mudança de protagonista produz vida nova, história nova. A novidade da minha vida é ser vivido. Só quan¬do Deus nos vive há mudança qualitativa, em extensão e em profun¬didade, de vida.
A oração é abrir a porta a Deus, acolher o Reino que ele nos dá, como dom radical e fundante de nossa responsabilidade de ser o que ele nos faz e outorga ser; e de fazer e agir em nós e "fora", na história, aquilo que recebemos. O fato de Deus "nos dar" o seu Reino equivale a nos tornar capazes de fazê-lo.
Como se vê, o "abrir" a porta a Deus, o "receber" o seu Reino ¬- recebê-lo, deixar que ele nos viva -, não é passivo, mas profunda¬mente ativo, requerendo esforço. "Venha a nós o vosso Reino", por¬que não está em nós, nem é "produto" nosso. Esse Reino - Deus ¬- é nossa única capacidade de ser.
Capacidade de ser em gratuidade, em relação de amizade. O Reino que nos é dado é a dimensão de gratuidade sem a qual não é possível falar de amizade, de encontro de "condições". Sem essa dimensão, não se pode falar de eficácia na implantação e consolidação do Reino no coração do homem e nas estruturas da sociedade.
Duplo plano: capacidade de entrega, de relação e comunhão com o Outro; e capacidade de ser dom, de viver em gratuidade com ele e como ele. Difícil tarefa. Mas possível. Palavra-chave, palavra liberta¬dora. É possível. Embora a Santa saiba que essa possibilidade de vida nova é morte radical para a vida anterior, uma passagem de lagarta a mariposa, de acordo com a comparação da Mestra de oração. "Será muito mais trabalhoso...; mas, quanto a ser possível, não há por que duvidar . Possibilidade que se liga à doação total de si que o Pai fez a nós em Jesus, seu Filho: "Não é preciso que o Senhor nos conceda grandes graças para isso; basta o que já nos deu ao dar-nos seu Filho ".
Contemplando Jesus, e em tom de resposta amorosa ou de segui¬mento, Teresa começa a grande descrição da oração: "Porque, falando agora dos que começam a ser servos do amor (pois não me parece outra coisa o fato de nos determinarmos a seguir por esse caminho de oração aquele que tanto nos amou) ... ”.
Palavra-chave a que ela voltará e que explicitará ao longo do capítulo. A atitude que recolhe e a que essa palavra remete se oferece a ela como a única que salva a oração-amizade e a abre a realizações ulteriores. Diante da sensação psicológica de mal-estar, de secura e de dureza, a certeza de que "agrada e serve ao senhor da horta" a leva a permanecer fiel ao encontro de amizade. Pois "sabe que o contenta com aquilo, e que seu intento não há de ser contentar a si, mas a ele ". Pouco mais adiante, ela sentencia, vigorosamente: "Já não somos nossos, mas seus". E, em seguida: "Leve-nos Sua Majestade por onde quiser ".
Amor gratuito. Amor limpo e desinteressado. Humaníssima Teresa quando escreve: "Contentamos e agradamos a Deus". Basta isso para "justificar" e sustentar a nossa oração. E para abri-Ia a um futuro de comunhão transformadora e gratificante. "Pois há muitos que nunca acabam de acabar. E creio que isso se deve em grande parte ao fato de não abraçarem a cruz desde o começo ”.
"Abraçar a cruz", "não deixar Cristo cair com a cruz", "ajudar Cristo a carregar a cruz" são expressões habituais em Teresa, e que significam viver a relação com Jesus gratuitamente: "É de grande importância que as almas que começam a oração se desapeguem de todo gênero de contentamentos e se determinem unicamente a ajudar Cristo a carregar a cruz, como bons cavaleiros que, sem soldo, dese¬jam servir o seu Rei ". No final de sua vida, ela aconselha uma religiosa: "Orgulha-te de ajudar Deus a carregar a cruz e não lances o olhar à recompensa, pois que é de soldados civis querer logo o soldo. Serve desinteressadamente, como os grandes servem ao rei".
"Servir desinteressadamente", não "querer logo o soldo". A ami¬zade é gratuita. O que conta é o outro, o amigo. Devemos contentá¬-lo, porque "já não somos nossos", já não nos pertencemos. Ao iniciar as Moradas místicas, em que o chamariz dos "gostos" de Deus pode apoderar-se do orante, a Doutora Mística formula com tino e profun¬didade a única atitude válida, usando estas palavras: "Ir pelo caminho da oração" "apenas para servir ao seu Cristo crucificado ".
Essa é a resposta corretiva das almas das terceiras moradas. Secre¬tamente egoístas, elas apresentam a Deus uma fatura de sua "vida reta". Teresa adverte: "Creia que não obrigou Nosso Senhor a lhe conceder semelhantes graças ". "Há algumas pessoas que parecem querer pedir graças a Deus por direito ”.
O que aparece na relação com Deus, Teresa também vai mostrá¬-lo na relação com os outros: quando e na medida em que se vive com gratuidade, "beneficia-se" o próximo, se faz e se constrói o Reino, a comunhão. Ouçamos suas palavras: "E quando saem dessa raiz, as obras ativas são admiráveis...; porque procedem dessa árvore do amor de Deus e só por ele, sem nenhum interesse próprio". Só têm pre¬sente o benefício do seu próximo, e nada mais," Por isso, "beneficia¬-se mais uma alma destas com suas palavras e obras do que todos quantos as façam com o pó da nossa sensualidade e com algum inte¬resse próprio".
O fundamento disso é sua concepção da oração como amizade. E que, no auge do seu desenvolvimento, ela exprime com simplicidade: "Sua Majestade é quem vive agora ". "Esta mariposa já morreu ... e é Cristo quem vive nela". Na Exclamação 17, ela fala da "morte" de um eu e da "ressurreição" de outro, o do Amigo: "Morra já este eu, e viva em mim outro que é mais do que eu, e, para mim, melhor do que eu, para que eu possa servi-lo".
É de estranhar a portentosa ativação do ser do homem provocada pela oração? A amizade com Deus dinamiza o ser do orante. E, diante disso - ¬intelectualmente inquestionável - e, na verdade, na vida dos orantes autênticos, são anedóticas, acidentais, as formas concretas que esse dina¬mismo de compromisso com Deus em favor dos homens possa assumir.
A questão essencial é: ser presença para Deus. Na solidão, que é total comunhão de vida e de interesses. Da qual não se sai, à qual tudo alimenta e com a qual se impregna tudo quanto se faz. Ser presença de amor para Deus, ser contemplativo. Ainda que as aparências possam indicar outra coisa. "Embora seja uma vida mais ativa que contemplativa... no ativo, e vida que parece exterior, é o interior que age".
Confissão autobiográfica feita há menos de um ano de sua morte, em pleno dinamismo: "E dize-lhe que aquela alma [ela mesma] che¬gou àquele ponto, e com aquela paz que aí há, e assim se vai com uma vida deveras descansada". E, como tradução universal: "Nesse tem¬plo de Deus, nessa morada sua, só Ele e ela se comprazem um do outro com um imenso silêncio ". Nada é capaz de romper esse silêncio nem de interromper essa presença: "Por mais sofrimentos e afazeres que tives¬se, o essencial de sua alma jamais se movia daquele aposento ".
Por isso, mesmo quando as ocupações aumentam e ela vê ameaçado o tempo para "estar com ele", e mesmo quando o "desejo de solidão é con¬tinuo ", já não a preocupa o tempo para estar a sós com ele, mas o tempo "para gastar sempre a seu serviço". Do mesmo modo, não a preocupa propriamente o que se faça por Deus ou pelos homens. Ela se preocupa em ser presença de amor, com profundidade e pureza. E isso é o que se é. Por essa razão, porque é o amor o que tem importância, se faz tanto.

Processo oracional, processo de libertação
A oração é amizade. E a relação amistosa entre pessoas é essen¬cialmente dinâmica e dinamizadora. Ativa todas as potencial idades e aciona todos os recursos do ser humano, fundindo-os em um "nós" cada vez mais consistente e firme.
Ao recorrer à amizade para definir a oração, Teresa se põe numa ótima posição para mostrar O seu dinamismo, explicar o seu conteúdo e indicar as suas vicissitudes.
O código explicativo de que ela se serve para traduzir sua expe¬riência pode encontrar resistências em nós. Ela fala de "quietude", "suspensão de faculdades", "união". E isso soa como paralisação, suspensão de atividade...
Mas não é menos certo que outra "atividade" é desencadeada no orante. E que este a percebe como mais importante, causa da concomitante "suspensão" de uma atividade anterior. E é o que define sua vida, dando-lhe um novo conteúdo e abrindo-a a um novo hori¬zonte.
Observemos - para ajudar o leitor na compreensão de Teresa de Jesus - que a "suspensão-ativação" do ser do homem orante são termos correlativos, que apontam para a mesma coisa a partir de pers-pectivas diferentes, e que eles não ocorrem por partes, em momentos sucessivos, cronológicos da pessoa orante. A oração é "alienação" dos locais públicos em que os homens costumam se juntar e se convocar por múltiplos motivos. O orante deixa de frequentá-los: "Distanciei¬-me". Não por juízo negativo e reprobatório do que os outros - até ontem companheiros - continuam a fazer. Nem por condenação de uma atividade que ocupou e preencheu amplos e talvez intensos espa¬ços de tempo. O místico é definido pela afirmação. E, nesse caso, pela afirmação do amor pessoal que se apodera dele de tal modo que o tira de onde ele antes vivia. "Estando apaixonada, distanciei-me e fui acolhida", canta com acerto São João da Cruz. Uma pessoa que é "achada" e acolhida pela força do amor não se perde para a humani¬dade nem para a Igreja. A perda se produz, para si e para a história, naqueles em quem o amor não se faz presente. Perda, tanto se "anula o mundo com suas atividades ", como se mergulha na solidão e pene¬tra no retraimento de aparência contemplativa.

1. Oração de quietude
Em primeiro lugar, digamos que é produzida, ativada por Deus. Passividade do nosso lado humano. Isso não deveria causar-nos ne¬nhuma estranheza: o melhor do homem, na linha da ação e do com-promisso, surge da influência que ele, secreta ou conscientemente, recebe de outro. O eu ativo é explicado por quem age sobre ele. O eu ativo nasce do eu passivo. O ser próprio, mais íntimo e real, é expli¬cado pelo que o acompanha.
É a experiência que se impõe: Alguém "cativa" e "encarcera", aliena a vontade. Experiência de passividade e de domínio. A ação de Deus domina a atividade anterior e a forma de realizá-Ia que o homem tinha. Por isso, a suspende, interrompe. "Quietude" com relação a ela.
Mas o ser do homem é ativado, acelerado, qualificado. Em que sentido? No da relação, da amizade. Partes do homem vão sendo ganhas progressivamente para a relação amistosa com Deus. E de acordo com a modalidade impressa pelo próprio Deus. Experiência de quietude, de "submissão" da vontade. Experiência da ativa presença de Deus. Ativa e ativadora. Deus convoca para a relação com eficácia e poder. “Ó Jesus e Senhor meu, quanto nos vale aqui o vosso amor! Porque este tem o nosso tão atado que não deixa liberdade para amar outra coisa senão a vós ”. A vontade está unida com Deus "e deixa as outras faculdades livres para que se dediquem a coisas do seu serviço. E, para isso, têm então muito mais habilidade ”.
Um mundo desaparece, e outro surge com chamativo poder e eficácia. Cai e se extingue uma atividade, e cresce e se afirma outra com o mesmo sinal de amor, se bem que em direção distinta e, por agora, oposta. Ou melhor, cessa uma porque outra a domina e a sus¬pende. O amor de Jesus "não deixa liberdade para amar outra coisa senão a ele". Concentração amorosa. Atividade densa e unitária.
Amor ativo, acionado pela experiência de um amor passivo que arrebata e leva consigo. Alguém entra em cena domina e fascina o homem, fazendo que sua vontade, sua capacidade amorosa, parta na direção desse alguém. "Saída" na direção do outro, imposta por sua presença dominadora. Há uma Pessoa no meio. "Sua Majestade come¬ça a comunicar-se a essa alma e
quer que ela sinta de que modo se comunica a ela ". Comunicação que silencia e suspende uma ativida¬de porque ativa o ser do homem - nesse caso, sua capacidade de amar - em outra direção e com outro conteúdo.
Ativação que, embora, à primeira vista e em um primeiro momen¬to, pareça restritiva, pareça enclausurar o homem na percepção das vibrações psicológicas que a comunicação de Deus produz nele, é "entrega" viva, real, ao Outro, ao poder de Deus. Só isso já basta para afugentar qualquer pensamento de alienação que estivesse unida à oração como o efeito à causa. Onde se registra uma ação de Deus, há uma libertação do ser para a entrega criadora e absoluta de si mes¬mo.
A experiência de enamoramento e de engolfamento em Deus é experiência de sustentação, plataforma e definição do chamado divino para entrar na solidariedade amorosa com ele, na condução e recriação da própria vida e da história, pelos caminhos do amor e da comunhão. Mesmo quando de fato prevaleça e se acentue a experiência de ser "colhido", de centramento nele, e se perceba a ativação "externa", num primeiro momento, como um empecilho ao encontro com o Amado, sentindo-se a vontade de deixá-Ia ficar com ele, intui-se e adivinha-se que a "ação" cativante de Deus é chamado a fazer. E pouco importa que o místico remeta esse fazer a etapas posteriores do processo.
O que importa não é o momento de fazer, mas a qualificação do agente. Adverte Teresa: "Eu queria muito avisar que não deveis esconder o talento, pois parece que Deus vos quer escolher para pro¬veito de muitas outras [almas], em especial nestes tempos em que são necessários amigos fortes de Deus para sustentar os fracos ". A "saí¬da" precipitada, provocada pelo próprio "prazer" da oração, que faz o orante buscar tornar os outros partícipes daquilo que recebe, pode converter-se numa armadilha por meio da qual se põe a perder o apóstolo de amanhã . A experiência, ansiosa e impaciente, que envol-ve uma boa dose de egoísmo, de estar com ele, de não cuidar de outra coisa, é um movimento normal em toda relação amistosa - num primeiro, longo momento. Ela tem a função de aprofundar e decantar a amizade. E, por isso mesmo, não é tempo perdido para o esforço e a solidariedade com os outros e a história.
Mas o que importa indicar é que a oração de quietude ativa a relação do homem com Deus. Ativação da relação e para a relação. E que começa pelo amor, por "colher" e "cativar" a vontade do homem para o amor, centrando e qualificando sua abertura pessoal. Experiên¬cia de que Deus começa a agir, arrastando nessa ação o homem, que consente e acede.
Deus começa a ativar o ser humano. Desenvolvimento de suas poten¬cialidades de ser e de agir. Essas potencial idades se estenderão, em progressão contínua e crescente, ao ser do homem na totalidade do sujeito. Do mesmo modo, com o correr do tempo, se qualificarão e aperfeiçoarão.

2. Oração mental
Essa oração marca a extensão da ação de Deus a outras faculdades da alma, a outros setores do homem. Quanto mais Deus age, tanto mais o homem experimenta a passividade, tanto mais impossibilitado para agir por si mesmo e no que gostaria de fazer este se experimenta.
A "suspensão" ou adormecimento, certa paralisação da atividade, ocorre realmente - e é para isso que aponta a expressão habitual na linguagem mística - com referência a campos de ação ou a formas de relacionar-se com Deus no "contato amistoso". Podemos dizer que os campos de ação para os quais o homem "dorme" são todos aqueles que não avivam diretamente a amizade ou relação com Deus. O homem desperta para Deus e adormece para o que não é Deus. Cessam também as modalidades de relação marcadas pela pluralidade de atos e pela ini¬ciativa do homem orante. Isso assinala igualmente uma certa "suspensão" da clareza de consciência e de percepção com respeito ao que Deus está operando na alma. Em resumo, "é um morrer quase que por inteiro para todas as coisas do mundo", um "ficar se deleitando em Deus ".
Mas a ativação das faculdades vai se qualificando e acelerando com relação ao Amigo, Deus. "[As faculdades] só têm capacidade para se ocupar todas de Deus ”. Naturalmente, isso alcança o auge no ato da oração, no tempo em que Deus age e o homem tem consciência disso. A ativação ou "ocupação" do homem interior recai sobre Deus: celebrá-Io, louvá-lo. Vibração amorosa até o frenesi: "Ela deseja que todo o seu corpo e alma se despedacem para mostrar o prazer" de ver¬-se assim dominada ou para "contentar quem a tem assim ".
Ativação do "abandonar-se a Deus", do "deixar-se por inteiro em seus braços ", experiência de passividade ativa.
E, por tratar-se da experiência da ação de Deus na alma, é expe¬riência de fortalecimento e de "chamado" a agir e a fazer. Num sen¬tido explícito e numa direção concreta e clara: "Começa a operar grandes coisas" para aprofundar a amizade com Deus. Mas também para agir na vida: "Nesta oração, também podem ser Marta (...) e se ocupar de obras de caridade e negócios que convenham ao seu esta¬do". Com uma precisão, que não é recorte mas esclarecimento e ga¬rantia da ação "externa", "entendem bem que a melhor parte da alma está do outro lado"." Aqui está a solução para um fazer, extenso e intenso, que não é desarraigamento de si, mas aprofundamento e en¬raizamento em si mesmo e de si mesmo, decantação do ser, porque este está com e na fonte do ser de onde emanam com abundância para o homem todas as riquezas. Um fazer que é fazer-se; crescer para dentro na direção da presença e da comunhão pessoais que fazem do homem vetor de humanização.
Essa linha vai se aprofundar e se tomar mais vigorosa adiante: imersão em Quem nos sustenta e dá raízes, e expansão serviçal, aumento e qua¬lificação de uma presença para os homens, como a árvore, que tem a raiz e o caule imersos na terra que lhe dá vida e sustentação, e que se expande e cresce, frutifica, para os outros. Na Sétima Morada, Teresa escreve com vigor: "Por mais sofrimentos e compromissos que tivesse, o essencial de sua alma jamais se movia daquele aposento ".
Unidade de vida: ser Marta e Maria, ação e contemplação. A experiência do místico não dá lugar ao dualismo e muito menos ao conflito. O amor é uno.

3. Oração de recolhimento
Assim acontece na passagem seguinte, a oração de união. Na comparação teresiana entre as diversas formas de regar o jardim da alma, trata-se da chuva que cai do céu, a graça de Deus que empapa e satura o campo do homem, tomando-o fecundo.
Deus "colhe" e domina completamente o homem . "Experiência de passividade absoluta." Que é também, e por isso mesmo, experiên¬cia de presença absoluta diante de Quem o domina. E gozo transbor¬dante de comunhão em que todo o homem participa. "União de todas as faculdades ”. E de todos os sentidos internos e externos. Uma espécie de desfalecimento, "à maneira de um desmaio ". Com pala¬vras que anota tal como ouvidas de Deus, Teresa define o que a alma faz naquele brevíssimo momento: "Desfaze-te toda, filha, para te pores mais em mim; já não é ela quem vive, mas eu ". Experiência de ser vivida, atuada por Deus. "É alma sua, é ele que já a tem a seu cargo e vai dando-lhe luz; parece que sempre a está ... favorecendo e desper¬tando para que o sirva”.
Experiência de presença diante de Deus e de sublime comunhão: "Fica sozinha com ele ". Acentuando a resposta da alma, "obrigada", livre, íntima, total: "Fica sozinha... "Porque poderosamente "recolhida", eficazmente conduzida por Deus na profunda solidão do amor oferecido.
Experiência de libertação interior, multiplamente percebida. Experiên¬cia de silêncio de amor que se oferece a Deus. E experiência de agente de libertação, de palavra que se quer gritar para levar e reconduzir todos ao mundo de Deus em que a alma vive. Experiência de superabundância de graça e de participação a todos: "Ela já pode, ao entender claramente que a fruta não é sua, começar a reparti-Ia, sem que lhe faça falta. Começa a dar mostras de alma que guarda tesouros do céu e a ter desejos de reparti¬-los com os outros e de suplicar a Deus que ela não seja a única rica ".
Desejo impetuoso de ser libertada de tantos cativeiros, da mentira, do egoísmo, da cegueira. Libertada para ser, a partir do âmago, relação com Deus. E, a partir dessas profundidades abissais, fazer-se presença de liberdade, de verdade e de amor por todos. "São já almas fortes que o Senhor escolhe para beneficiar outras. Deus não se reserva para ninguém, nem escolhe ninguém só para si, mas "para beneficiar outros". Toda experiência de Deus é percebida e vivida como doação aos outros e presença de serviço junto aos outros.
No auge do processo de comunhão, Teresa alerta para um possível erro em que o leitor menos atento pode incorrer. Ela escreve: "Eu já vos disse que o sossego que essas almas têm no interior vem para que o tenham muito menos, para que não queiram tê-Io, no exterior. Para que pensais que são essas inspirações...? Para que ides dormir? Não, não, não; ele vos impede ainda mais a partir disso para que as facul¬dades, os sentimentos e todo o corporal não fiquem ociosos... "
Recolhimento máximo, máximo dinamismo. Viver no mais pro¬fundo centro e alcançar a máxima interiorização é chegar ao máximo de ativação do ser a serviço de Deus. Presença máxima, porque todo o ser é dinamizado pelo amor.

Conclusão
O processo místico, de arrebatamento por Deus e em Deus, e finalmente, de união com ele, é dinamização e ativação de todo o ser na linha do amor e da humanização. A "quietude" e a "suspensão", bem como a "entrega", são a experiência que a força do amor pessoal de Deus produz no homem com relação a tudo o que não é Deus: pecado, dispersão, egocentrismo, tudo o que não contribui para cons¬truir o Reino. Mas é ativação e mobilização, despertar poderoso de todas as potencialidades que o homem é por vocação divina.
A ativação é vivenciada, no princípio da oração mística, como centramento na pessoa divina, libertação de "setores" do ser antes subtraídos à relação com Deus ou acionados muito sofrivelmente. Mas vai se percebendo uma progressiva explicitação de que esse centramento e recolhimento em Deus é presença serviçal aos irmãos.
O que de fato importa é que o ser do homem é ativado, ganho para o amor, passiva e ativamente experimentado. Isso já é um enriquecimento para todos: eleva o nível da humanidade. "Por¬que é mais precioso diante de Deus e da alma um pouquinho desse amor puro, e mais proveito faz à Igreja, embora pareça não fazer nada, do que todas essas outras obras juntas”. “O muito que aproveita e importa à Igreja um pouquinho desse amor ”. É isso o realmente importante e decisivo na construção do Reino. E o Santo alerta que não é neces¬sário chegar a essa pureza e qualidade de amor para que assim seja. Que é sempre assim, desde os primeiros passos na libertação do amor: o amor, e só o amor, constrói o Reino.
Eis a realidade vivida e relatada por Teresa e João da Cruz: o homem nasce, cresce e se consolida como relação. Uma presença - a de Deus - se impõe a ele e reclama e produz a sua presença - a do homem. É um jogo entre pessoas em relação de amizade. Através dela ocorre essa relação dinamizadora e libertadora de todas as escravidões que pesam sobre o homem não aberto ao amor, fechado sobre si mesmo.
Um encontro ativador de relação com Deus e presença diante de Deus. E também de ativação de presença diante dos homens. Funda¬mentalmente porque é uma ativação de comunhão com Deus, que irrompe amorosamente comprometido e divinamente empenhado com o homem. E esse Deus não gera evasões.





 Texto extraído da Coleção Espiritualidade nº 26; Maximiliano Herraiz; Edições Loyola, 1993.
 Frei Fabiano Alcides Pereira, ocd.
 Referências
V – Livro da Vida
C – Caminho de Perfeição
F – Fundações
M – Moradas
Ct – Cântico Espiritual
Ch – Chama viva de amor
S – Subida do Monte Carmelo


Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares
VIII Congresso Norte Nordeste
São Luís – Maranhão – 23 a 26 /06/2011

Palestra de Gustavo Castro
Grupo Sta. Teresinha do M. Jesus e da Sgda. Face
Camaragibe – PE

“A esperança cristã, terreno fértil em que a semente cresce, mesmo sem perceber.”

Introdução
1 - A esperança cristã
2 - Terreno fértil para a semente crescer
Para terminar

“Não temos aqui uma cidade permanente, mas estamos à procura daquela que está para vir.” (Carta aos Hebreus 13,14)
“A esperança é como âncora para a nossa vida.” (Hb 6,19)

Introdução

Anualmente vivemos na liturgia o tempo forte da Páscoa em que celebramos o maior acontecimento de nossa fé: Cristo, morto e sepultado, ressuscitou verdadeiramente!
- apareceu a Madalena;
- aos discípulos de Emaús;
- a Simão e aos outros apóstolos que se escondiam numa casa no Monte Sião;
- comeu com eles, peixe e mel de abelhas em favo;
- na Galileia, à beira mar, instigou-os a avançarem para águas mais profundas e jogarem as redes; ao chegarem à praia com a barca cheia de peixes, Jesus já os esperava com peixes assados sobre uma pedra; e comeram juntos;
- convencidos de sua ressurreição, deixou-os com a missão de evangelizar o mundo;
- deu-lhes uma vida nova, plena de esperança.
Jesus venceu a morte, ressuscitou. Esta é a novidade para a humanidade. Temos futuro!
Vida nova que se inicia em cada encontro com Jesus Cristo. Vida nova que é alimentada a cada novo encontro em uma crescente união de conhecimento e amor. Vida mantida na Palavra de Deus até a satisfação plena da esperança que não ilude.
Cantamos com o hino ferial das Laudes do Tempo Pascal:
É esta a nossa espera,
é este o nosso gozo:
também ressurgiremos,
com Cristo glorioso.
Com a oração do Domingo da Ascensão do Senhor afirmamos nossa fé rezando:
“Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros do corpo do Vosso Filho, somos chamados na esperança a participar de sua glória.” (Lit. da Ascensão).



1 – A esperança cristã

Precisamos conferir os termos que utilizamos e o seu significado. Há um sentido da palavra “esperança” quando na ordem natural tratamos de uma esperança como um movimento da nossa sensibilidade que persegue um objeto/objetivo visto como um bem, mas ausente e que pode ser alcançado embora, às vezes, até com certa dificuldade. O desejo de chegar a esse bem estabelece uma dinâmica, uma força contra a inércia de comportamento, que impulsiona o ser e o agir humano em vista do que se quer atingir, mas ainda não se possui. Como se percebe, essa esperança “natural” é de grande valia, desempenha um grande papel na vida humana. Ela sustenta o homem e a mulher nos seus empreendimentos.
Há também uma esperança sobrenatural, que sustenta o cristão no meio das dificuldades que enfrenta, relativas à sua salvação eterna. Esta tem por objeto todas as verdades reveladas que se referem à vida eterna e aos meios de consegui-la. Funda-se no poder e na bondade divina. Por isso tem firmeza inabalável. É bem isto o que comunica o seu símbolo - a âncora. Em outras palavras firma-se no próprio Deus e dirige-se unicamente a Ele. O Papa Bento XVI diz assim, na sua Encíclica “Spes Salvi”, sobre a esperança cristã: “a esperança atrai o futuro para o presente, de modo que aquele já não é puro ‘ainda não’” (Spes Salvi, nº 7). Confirmamos isto quando desenvolvemos vida de oração.

A esperança cristã abrange três aspectos principais:
a) O amor e o desejo do bem sobrenatural, isto é, de Deus, nossa suprema bem-aventurança. A gênese desse sentimento reside no desejo de felicidade estruturado no coração das pessoas, desejo esse que nada nem criatura alguma criada pode satisfazer (lembrar do pensamento de Sto. Agostinho: “Nosso coração estará inquieto enquanto não repousar em Ti, Senhor!”) Quando nos encontramos com Jesus Cristo, lemos o seu Evangelho, quando nos deparamos com a fé dos apóstolos inscrita nos demais livros do Novo Testamento, esta fé nos contagia na graça que recebemos e assim passamos também nós a abrigar a certeza de que só Deus pode fazer a nossa felicidade. Logo nos dispomos a corresponder com amor o tanto de amor que recebemos d’Ele. Da nossa parte, não deixa de ser um amor interessado, embora sobrenatural, pois se dirige a Deus, conhecido pela fé. Já o percebemos e o possuímos em parte, mas um tanto embaçadamente, na experiência de oração, na noite da fé. Como este bem é difícil de se alcançar, experimentamos instintivamente temor de não o atingir, porque em nós não encontramos forças para isto.
b) Esta esperança não se funda, evidentemente, em nossas próprias forças que são radicalmente insuficientes para alcançar este bem; mas em Deus, com o auxílio de sua onipotência. É d’Ele que esperamos todas as graças necessárias para adquirir algo de sua perfeição nesta vida e a salvação na outra.
c) Contudo, a graça exige nossa colaboração. Daí um terceiro aspecto:a necessidade de colaborarmos com essa dinâmica, sustentar e desenvolver o impulso, um sério esforço para tender para Deus e utilizar os meios de salvação postos ao alcance. Esses esforços devem ser tanto mais enérgicos e constantes quanto mais elevado é o objeto da nossa esperança.

No Antigo Testamento o cap. 2º do Livro do Eclesiástico encontramos uma pedagógica orientação para a nossa esperança. Destaco os versículos 10 a 12:
“Examinem a história e verão. Quem confiou no Senhor, e ficou desiludido? Quem perseverou no seu temor, e foi abandonado? Quem o invocou e não foi atendido? Porque o Senhor é compassivo e misericordioso perdoa os pecados e salva no tempo do perigo.”
Mas nos versículos seguintes lemos as advertências: nada de dubiedade, de preguiça, de desconfiança, de ansiedade e perda de paciência.
O Livro dos Salmos traz uma multiplicidade de situações humanas em que se ressalta a importância dessa fé-confiança segurança da ação-presença de Deus em nossas vidas em função da salvação eterna.
Do Salmo 117
“É melhor buscar refúgio no Senhor, do que pôr no ser humano a esperança.”
“O Senhor me prova, mas não me abandona nas mãos da morte.”
“Não morrerei, mas ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor!” ( O que nos lembra a palavra de Teresa de Lisieux : “Não morro, entro na vida” (Carta 244, ao Pe. Bellière que se encontrava numa missão da África, em 9 de junho).
Do Salmo 146 (145)
“Feliz quem se apoia no Deus de Jacó,
Quem coloca sua esperança em Javé seu Deus.”

É sobretudo no Novo Testamento que brilha em todo o esplendor da revelação a eficácia da confiança. Só alguns exemplos, para lembrar.
Cristo nosso Senhor opera os seus milagres em favor dos que n’Ele põem sua confiança.
Recordemos o seu proceder para com o centurião (Mt 8,5-13). Ainda hoje repetimos a palavra do centurião dentro da Santa Missa, antes da comunhão.
O encontro de Jesus com aqueles dois cegos de Jericó (Mt 9,27-31).
A “fragilidade” de Jesus diante da mulher Cananéia que buscava a cura de sua filha: “... é verdade, Senhor, mas os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” (Mt 15,28).
Nada há que tanto honre a Deus como a confiança!

Resumindo até aqui.
A esperança cristã é uma força que nos faz desejar a Deus como nosso bem supremo, e a aguardar com firme confiança a felicidade eterna n’Ele e os meios de a alcançar, por causa da bondade, da misericórdia e do poder divino. O objeto primeiro e essencial da nossa esperança é o próprio Deus. Como nos diz nosso Senhor no Evangelho, a vida eterna é o conhecimento, a visão, a fruição de Deus e d’Aquele que Ele enviou (Jo 17,3).

Disto, concluem os santos, advém a necessidade de cultivarmos as virtudes da humildade, do desapego dos bens terrenos, o exercício do amor a Deus e ao próximo, a confiança na Providência, e a entrega aos desígnios de Deus.
Também disto decorre o cuidado de evitar tudo que nos possa levar ao desespero e à presunção.
Diz-nos o Catecismo: “Pelo desespero o homem deixa de esperar de Deus a sua salvação pessoal, os auxílios para alcançá-la ou o perdão de seus pecados.” (CIC 2091).
Pelo desespero nos opomos à bondade de Deus, à sua justiça - porque o Senhor é fiel às suas promessas - e à sua misericórdia. Isto se refere ao 1º Mandamento.
O Catecismo nos adverte ainda para evitar igualmente a presunção (CIC 2002). Duplamente: ou o homem presume de suas capacidades (esperando poder salvar-se sem a ajuda do alto), ou então presume da onipotência ou da misericórdia de Deus (esperando obter seu perdão sem conversão e sem esforços de sua parte).

Analisemos a experiência de SANTA TERESA DE LISIEUX, para iluminar nosso assunto.

Na sua vida é muito disto que se trata. Santa Teresinha - como a chamamos - reconhecia que ao passar desta vida não teria méritos a apresentar ao Senhor que lhe garantissem a satisfação de sua esperança cristã. Rezava assim: “Á tarde desta vida, eu aparecerei diante de Vós com as mãos vazias.” E noutro lugar (Carta 218, ao Irmão Simeão em Roma, em 27 de janeiro de 1897: ano de sua morte!): “Quando eu aparecer diante do Esposo, não terei mais que os meus desejos para lhe apresentar.”
Méritos humanos, não há. Necessário se desenvolver uma vida fundada na fé na Palavra de Deus; que não se engana nem nos engana. Suas promessas são firmes e inabaláveis. Fundam-se no Seu amor por nós, e não mudam.
Teresinha sabia do Catecismo que o objeto de sua esperança de vida era o próprio Deus, a fruição dessa felicidade sem limites da vida em Deus. Mas enquanto sentia esses “desejos imensos” (infinitos, no seu linguajar), sentia ao mesmo tempo seu nada, sua impotência... Perguntava-se: o que fazer? Desistir não admitia, pois tinha a promessa divina da vida eterna, recebida em gérmen no seu Batismo.

O Catecismo da Igreja Católica afirma (2090) que
“quando Deus se revela e chama o homem este não pode responder plenamente ao amor divino por suas próprias forças. Deve esperar que Deus lhe dê a capacidade de corresponder a este amor e de agir de acordo com os mandamentos da caridade. A esperança é o aguardar confiante da bênção divina e da visão beatífica de Deus; é também o temor de ofender o amor de Deus e de provocar o castigo”.

Premida por tais sentimentos de sua própria impotência, descobre, assim, pouco a pouco, as trilhas do seu “Pequeno Caminho” da Infância Espiritual - sua pequena via. Inclusive incorporando experiências e notícias do mundo ao redor, como é o caso da notícia da inauguração em Paris de um elevador instalado numa das primeiras “lojas de departamento” daquela capital. Constatando a sua incapacidade de progredir por suas próprias forças, descobre que também ela não é capaz de subir as íngremes escadas da vida espiritual para atingir a perfeição. Que precisa de um tipo de ‘elevador’ que supere sua fragilidade. E exulta com a sua descoberta: “O elevador que me alçará até Vós no céu, são Vossos braços, ó Jesus.” (Ms.As. “C” 2v-3r).

Continuando a busca de uma saída para a sua pequenez, a encontra nos textos bíblicos de Isaías e Provérbios:
Prov 9,4 – “Os pequenos venham até a mim...”
Is 40,11 – “Como um pastor, ele cuida do rebanho e com o seu braço o reúne; leva os cordeirinhos no colo e guia mansamente as ovelhas que amamentam.”
Is 66,12-13 – “Os seus bebês serão levados no colo e serão acariciados sobre os joelhos. Como a mãe consola seu filho, assim eu vou consolar vocês; em Jerusalém, vocês serão consolados.”

Ela estabelece, assim, as bases da dinâmica da confiança. E logo chega ao abandono como prática da esperança cristã.

Mais tarde, interrogada sobre o significado do “Pequeno Caminho” do ser cristão conforme o Evangelho, Teresa de Lisieux respondeu, entre outras coisas que é “reconhecer o seu nada, é esperar tudo do bom Deus, assim como uma criança pequena espera tudo do seu pai” (Últimos Colóquios, anotados por sua irmã Paulina no Caderno Amarelo, em 6 de agosto de 1897).

Um escritor francês da Academia Francesa de Letras – François Mauriac – tomou conhecimento de que, - no seu dizer - “uma certa freirinha normanda” falecida há poucos anos teria escrito vários poemas que estariam fazendo sucesso, procurou conhecê-los para julgar. Escreveu uma crônica, então, em que os classificava como fracos, meio-bobos, e pretensiosos, (“des mièvreries”). Passados uns meses, os retomou para uma análise mais profunda, de conteúdo. Descobriu então todo o seu valor espiritual. Retratou-se reconhecendo a grande importância dos seus escritos para a humanidade. Quanto á sua pequena doutrina da infância espiritual, definiu-a assim: Agora entendi o alcance de sua doutrina da infância espiritual. É como a atitude de uma criança que dá a mãozinha ao seu papai e fecha o olhos deixando-se conduzir em total confiança.

A fé-confiança em Teresa de Lisieux chega ao abandono confiante de quem ama e se sabe amada e que vive na certeza segura de obter o que espera por confiança arraigada em quem promete. É a virtude teologal da esperança, uma marca registrada da espiritualidade do “Pequeno Caminho”. Totalmente voltada para o Senhor:
“Eu quero, sim, ó meu Deus, fundar somente sobre Vós a minha esperança” (Oração nº20; cf Ms.As “A”, 66r).

Vimos, então, ainda, como as atitudes desenvolvidas na vida de Teresa de Lisieux nasceram fundados na Sagrada Escritura, consoantes com os preceitos da Regra do Carmelo. Orientada por seus preceitos encontrou seu caminho para a vida em Deus.
Como todos nós, ela passou por certezas e incertezas, angústias diante da problemática da morte, decepções com situações pessoais e eclesiais que lhe lançavam dúvidas, provações diversas, períodos de secura amenizados apenas por breves momentos de segurança. Ela dizia: “Eu não cessava de esperar contra toda a esperança” (Ms.As. “A”, 64v). E ainda: “É seguro que Deus não pode enganar uma esperança tão cheia de humildade, todos os favores que recebemos são uma prova disso” (Ms.As. “A”, 78v).
Sua esperança não se detinha em objetivos passageiros, mas no próprio Deus, n’Ele próprio, como dizia em sua poesia intitulada “Só Jesus”: “Em ti, Senhor, repousa a minha esperança. Após o exílio, no céu eu irei te ver” (Poesia nº 36,4, intitulada “Só Jesus”).
No final de sua vida ela podia cantar com toda a verdade: “Oh! Mon Dieu, vous avez depassé toutes mes attentes...” (Ó, meu Deus, vós excedestes, ultrapassastes todas as minhas expectativas...)

Na leitura de seus escritos – História de uma Alma, Cartas, Poesias, Peças de Teatro e Orações, podemos perceber como ela viveu uma dinâmica espiritual toda fundada exatamente sobre os elementos que poderiam – deveriam – trazer-lhe a segurança de fé, para “viver de amor” (cf. sua Poesia nº 17, intitulada “Viver de Amor”) no cotidiano de sua vida, entretecida de uma esperança enraizada na confiança amorosa até o abandono de uma união cada vez mais estreita.
Para nutrir sua esperança, ela vive a Regra do Carmelo. A centralidade de Cristo em sua vida é a constatação mais ampla e forte disso. É alimentada por uma meditação permanente da Palavra de Deus, sobretudo os Evangelhos. Escreveu ela numa poesia: “Ah! Que este livro de ouro é o meu mais querido tesouro, recorda-Te” (“Ah! Que ce livre d’or c’est mon plus cher tresor!” - da Poesia nº 24, intitulada “Recorda-Te, Jesus, meu Bem-amado”, estrofe 12) As citações bíblicas que nos deixou em seus escritos avultam... apesar de não ter tido acesso fácil ao conjunto dos livros bíblicos. Aproveitou ao máximo os que conseguiu coletar.
Também a sua comunidade, os sacramentos – sobretudo a Eucaristia, a Santa Missa – fortaleciam sua esperança. Mas, em tudo e todos os momentos ela nutria sua esperança, sobretudo a partir da meditação diária da Sagrada Escritura.


2 – Passemos agora à questão do “Terreno fértil para a semente crescer”.
O terreno pode ter aqui um duplo significado. È sem dúvida o nosso coração, que deve estar aberto a Deus, a receber suas graças, disposto a dar passos concretos na direção de um relacionamento cada vez mais próximo e íntimo com Ele. Passos concretos buscando viver no cotidiano aquilo que percebemos como ideal válido para a construção de nosso ser cristão e carmelita. ‘Adubar’ nosso coração com as disposições propostas nas nossas Constituições, na Regra do Carmelo, na leitura dos escritos dos nossos santos doutores da Igreja, especialmente os textos da Santa Madre Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santa Teresinha. Caminhar com a Igreja acolhendo com convicção formada as orientações do Magistério, do Santo Padre Bento XVI, da CNBB, do nosso bispo, dos nossos superiores da Ordem.
Cultivar a sensibilidade para acolher os irmãos, sem distinções; procurar conhecer e solidarizar-se com as suas necessidades, inclusive trazendo-os para as nossas orações diárias. Fazer assim de suas esperanças nossas esperanças também.

Há esta dimensão pessoal da virtude da esperança que se refere ao fim último da vida humana e há decorrências dessa virtude na sua dimensão social, uma vez que para atingir o objeto de sua esperança o homem necessita realizar em todos os campos de sua atuação e relações o projeto de Deus para si e para a humanidade, para o cosmos, para tudo que criatura de Deus. Como já citei acima, no dizer do Papa Bento XVI é a esperança que “atrai o futuro para o presente” e tem que vincular unitariamente todas as dimensões humanas.


Tudo isso, é o terreno fértil, básico para recebermos no silêncio de um coração assim preparado as sementes que o Senhor desejar nele semear. Tudo o mais nos deve preparar para esses momentos de semeadura do Senhor. Sua Palavra nos falará, sem precisarmos sequer ouvir sua voz em nossos ouvidos. (Santa Teresa: V. 7,7; 14,4; 25,1ss.18.19; 26,6; 27,3-5.6.7.10).

Sejamos fiéis ao que prometemos quando ingressamos na Ordem, desenvolvamos uma organização do nosso dia, uma dinâmica em que nos demos tempo para viver os “tempos fortes de oração” (Cc III). São “estruturas de graça”, estabelecem uma dinâmica que nos conduz, pouco a pouco, a viver uma vida de oração, uma busca de união com Deus, de experiência em experiência. Fidelidade igualmente aos nossos irmãos de comunidade e fortalecendo os laços com as demais comunidades da Província e da Ordem no mundo.
A semente da graça da esperança será depositada pelo Senhor, a quem assim se dispuser. Então, acolhamos a sua Palavra, vivamos nela, por ela. Jesus é a Palavra semeada nos nossos corações. Vivamos d’Ele, n’Ele. Ninguém pode progredir na vida espiritual se não se unir intimamente a Jesus Cristo. Não há esperança cristã fora d’Ele, pois, Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Ninguém vai ao Pai senão for por Jesus Cristo (Ibidem). Ninguém atingirá o objetivo de sua esperança senão em e por Jesus Cristo.
Quem “se deixar apreender pelo Cristo” (Fl 3,12), este viverá por Ele e o Pai o amará e reconhecerá nele o Seu Filho Amado (Gl 4,19; Rm 13,11-14; Fl 2,5 - no dizer de São Paulo).
Para chegarmos a essa união com Jesus temos que encontrá-lo, conhecê-lo, pois. Onde vamos fazer isto? Pessoalmente e em comunidade, pela Leitura Orante dos Evangelhos, do Novo Testamento, dos Salmos, de toda a Bíblia, enfim. São as sementes que devem ser acolhidas no terreno fértil de nossos corações. Neles medrarão para a vida eterna, objeto de nossa esperança cristã.


Para terminar

“Mesmo sem perceber”, o que quereria isso dizer? Interpreto assim: que não devemos estar preocupados se estamos, ou em que grau estamos, atingindo ou garantindo a finalidade de nossa esperança. Não é para se deter nisto. Nem se ficar “contabilizando” pretensas virtudes ou méritos, que são jaças diante de Deus. O céu não se negocia. Se tal atitude existir perdemos o rumo e o relacionamento com Deus é equivocado.

Para finalizar mesmo, não se pode esquecer uma dimensão importante - diria, até essencial da esperança cristã - a dimensão missionária. É a atitude que nos pede o Cap. IV das nossas Constituições, - “A SERVIÇO DO PROJETO DE DEUS”. Como o Papa Bento XVI nos incita na sua Carta Pós-Sinodal “Verbum Domini” (30-09-2010), “não podemos guardar para nós as palavras de vida eterna que recebemos no encontro com Jesus Cristo: são palavras para todos, para cada homem (e mulher)” (n. 91). A nossa esperança inclui esperança para todos os nossos irmãos.

Como está nossa realidade de hoje?
Preocupa-nos saber que em nossos dias, na nossa sociedade, as pessoas afastam de si as referências cristãs, mais até, voltam-se a um vazio ateísmo. Tão pior quanto é reduzir-se a um cristianismo cultural, de características folclóricas muito apreciado pela mídia televisiva em busca de atrações do momento. Nesse chão a experiência de fé em Jesus Cristo, o pobre de Nazaré dos Evangelhos é afastado. Nela não cabe o compromisso que conduz ao sofrimento redentor da cruz e nem se fala da verdade da ressurreição, da vida eterna.
O que o povo esperava do Senhor que decepcionou? Será que os que ainda se dizem católicos - ou se sentem católicos - conhecem a sua fé? Não será que os acostumamos a reduzir a fé católica a um “comércio sagrado”, no sentido mais vulgar de uma troca de favores centrada nos santos, para livrar-se de uma dor, do sofrimento, disso e daquilo mais? A esperança não pode ser reduzida apenas a uma dimensão menor. Passageira, finita. Ela não preenche o coração. O papa Bento XVI na “Spe Salvi” utiliza exatamente essa insatisfação para apontar para a certeza necessária da grande esperança, que é nosso encontro com Deus.
As pequenas esperanças cultivadas podem reduzir-se a livrar de dificuldades, fragilidades humanas. Podem conduzir o coração humano ao individualismo e egocentrismo religioso, ao fechamento ao irmão e, implicitamente também arriscam gerar uma mecânica materialista com o trato do ser divino. Pode esvaziar a relação profunda homem e Deus. A proposta de alguns grupos cristãos e seitas estruturam-se sobre uma estratégia assim de proselitismo imediatista, oferecendo facilidades, expectativas materiais, riqueza, conforto, etc. Não é este o caminho católico para a esperança cristã, como explicitamos já no início aqui.
É necessário darmos hoje testemunho da esperança cristã ao homem moderno, envolvido muitas vezes com vastos e inquietantes problemáticas que lhe solapam o ser e o atuar de suas vidas.
Consentâneo com nosso modo de vida carmelita, guardemos o nosso testemunho cristão vivendo a oração conforme a Regra do Carmelo e nossas Constituições. Diz Bento XVI que a oração é uma escola da esperança (SS 32).
Aceitemos os sofrimentos e vicissitudes da vida com paciência, com os olhos fixos em Jesus (Lc 4,20; Hb 3,1; 12,2; CT 134). Sem inércia, com zelo, fazendo tudo para superar o sofrimento, mas sabendo que eliminá-lo completamente no mundo não entra em nossas possibilidades, “simplesmente porque não podemos desfazer-nos da nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, que é fonte contínua de sofrimento. Isto só Deus poderia fazer: e só Ele que entra na história, fazendo-se homem e sofre nela” (SS 36). Só Ele nos salva e salvará. Ele é nossa única esperança de salvação, nas esperanças pequenas e na grande e definitiva esperança.

Assim rezamos no Salmo 139 (138), 8-12 (cit. in. SS 37):
“Se subir aos céus, lá vos encontro,
Se descer aos infernos, igualmente. (...)
Se eu disser: ‘Ao menos as trevas me cobrirão’, (...)
nem sequer as trevas serão bastante escuras para vós,
e a noite será clara como o dia,
Tanto faz a luz como as trevas...”

Afinal, “quem ou o que poderá nos separar do amor de Cristo?” (Rm 8,28-38)

Cristo transforma as nossas trevas em luz. As dificuldades, sofrimentos, o que for, poderão continuar terríveis, quase insuportáveis. Mas temos n’Ele nossa esperança. Ele que desceu aos “infernos” da humanidade para de lá nos tirar. Veio como estrela da esperança, a âncora do nosso coração para chegar a Deus (cf. SS 37). Porque eterna é a sua misericórdia e bondade (Salmo 136/135).

Cresçamos em fé, exercitemos nossa confiança, alarguemos nosso amor, ampliemos nosso abandono.

“Que o Deus da esperança encha vocês de completa alegria e paz na fé, para que transbordem de esperança, pela força do Espírito Santo.” (Epístola de São Paulo aos Romanos 15,13)

*

Livros citados:
Catecismo da Igreja Católica. Editoras Católica, 1993.
Cavalcante, Pedro Teixeira, Pe. Dicionário de Santa Teresinha. Edt. Paulus, SP, 1997.
Marco Caldas, Frei, OCD (Domus Carmeli – Fátima, Portugal). “Teresa de Lisieux e
a Dinâmica da Vida Teologal”. In. Revista Orar e Espiritualidade, Edição nº 59/julho-agosto-setembro, Edç. Carmelitanas OCD, SP, ano 2010.
Meester, Conrad de. De mãos vazias. Edç. Paulinas, SP, 1978.
Papa Bento XVI. Carta Encíclica “Spe Salvi” - sobre a esperança cristã –
em (30.11.2007). Edç. Paulinas, SP, 2007.
Papa Bento XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Verbum Domini” - sobre a
Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. (30.09.2010). Edç. Paulinas, SP,
2010.
Sagrada Escritura.
Tanquerey, Ad. Compênio de Teologia Ascética e Mística.
Teresa d’Ávila. Livro da Vida (1562). Edç. Porto, 1970.
Teresa de Lisieux. Obras Completas. Edç. Loyola, SP, 1997.





Orando com Teresa através da Palavra de Deus


A experiência pessoal com o divino leva a um apaixonamento cada vez maior.
Quem é apaixonado vive por causa de Alguém que O seduziu ,atraiu,conquistou...
Quem encontra com Deus é enviado para a vida.
A experiência mística é entendida como experiência pessoal que o ser humano vive de um modo particular como intervenção direta de Deus na própria vida espiritual, sentida como união íntima com Ele no amor e na consciência.
A vida mística seria a progressiva expansão espiritual do coração, na vida, fruto da obra continua do Espírito Santo e da moção de seus dons.
Envolve passividade e atividade, receptividade e busca continua. Ação e contemplação. Vida de oração e trabalho apostólico.Mística e espiritualidade .Fé e vida.Relação sincera com Deus e com os outros(as).
É um estilo de vida que implica o perfeito cumprimento do amor a Deus, ao próximo, a todas as coisas e a si mesmo.
A vida mística é um caminho, uma luta e a decisão de percorrê-la com todas as forças.
É a relação pessoal com Deus que se torna estado de vida e que tem como método e compromisso o amor.
Mística é um processo de apaixonamento pelo Senhor, um mergulho continuo.
O (a) apaixonado não só deseja o Amor, mas é modelado pelo Amor, torna-se Amor e enfim age em amor.
Foi assim que Santa Teresa viveu e deixou-nos seu exemplo, ensinamentos, doutrina...
Ela também se alimentou da Palavra de Deus...
“Todo dano que vem ao mundo é porque os homens não conhecem com clareza as verdades da Escritura, da qual nem um til se deixará de cumprir”V 40,1.
“Grande coisa é a ciência! Os que a tem nos instruem, a nós que pouco sabemos e nos esclarecem de modo que ,apoiados nas verdades da Sagrada Escritura ,fazemos o que é nosso dever “V 13,16.
“Tenho visto que, embora alguns careçam de experiência, não aborrecem o que é espiritual nem o ignoram, porque nos estudo constante da Sagrada Escritura acham a verdade do bom espírito”V 13,18.
“O que tenho visto e sabido por experiência é que, nestas coisas, só fica a certeza de que procedem de Deus, na medida em que são conformes à Sagrada Escritura. Se desta se desviarem ,por mínimo que seja,julgá-las-ia obra do demônio”V 25,13.
“Está fortalecida na fé e pronta a morrer mil vezes por uma só de suas verdades”V 25,12.
“Achei-me com invicta fortaleza e verdadeira resolução de cumprir, com todas as minhas forças ,até a mínima palavra da divina Escritura, e para isto nenhum obstáculo se apresentaria, que eu não o superasse”V 40,2.
“E se acontecer alguma não estar plenamente conforme à Sagrada Escritura,não façais mais caso dela do que se a ouvísseis do próprio demônio”6 M -3,4.
“Ó Jesus! E quem sabe as muitas passagens na Sagrada Escritura descrevendo esta paz da alma!Deus meu ,vendo quanto nos importa a paz,infundi nos cristãos desejos de buscá-la.`Aqueles aos quais já a concedestes ,não a tireis por vossa misericórdia.”7 M -3,7.
Vemos o seu amor às Sagradas Escrituras quando também usa o Pai Nosso no Caminho de Perfeição.
Ela vai dizer :”Suplicai a Sua Majestade dar-nos luz porque somos cegos”C 30 ,3.
Nos fala: ”tratemos... de progredir... aprofundando o conhecimento de nós mesmas”1M 2,9.
Para ser uma pessoa apaixonada pelo Mistério e mergulhada definitivamente Nele ,é necessário “em primeiro lugar o exercício do conhecimento próprio ,conhecimento este que se deve adquirir para chegar ao conhecimento de Deus”(São João da Cruz C 4,1)
Espiritualidade é transformadora–dar um passo a mais.
Antes a Palavra de Deus era trancada. Cântico dos Canticos colado com durex.
“Se não procurarmos conhecer a Deus,jamais acabaremos de nos conhecer”1 M 2,9
Santa Teresa em V 16,3 lembra a mulher de Lc 15 que” queria chamar ou chamava todas as suas vizinhas “ Ela diz desejaria “comunicar-lhes parte de sua felicidade ,porque se sente incapaz de alegra-se tanto a sós!(idem)
Lembra também Davi que diz ela “devia sentir isso,quando tocava a harpa e cantava celebrando louvores a Deus”(idem)
Em V 30,19 vai dizer: ”tantas vezes me recordo da água viva de que o Senhor falou à samaritana! É o que me faz ser muito afeiçoada a este Evangelho. Já era desde pequena... No aposento onde eu morava tinha um quadro representando o Senhor junto ao poço com este letreiro: Senhor ,dai-me desta água! (João 4,15)”
No Caminho 21, 4, inicia falando: ”Durante toda minha vida, afeiçoe-me às palavras do Evangelho. Elas me recolhem mais do que os melhores livros...”.
“Está claro: todo mestre ,quando ensina ,cobra amor ao discípulo. Gosta de ver que estuda com prazer e ajuda-o a aprender,Assim fará conosco, este mestre celestial” C 21,4
“Fazem-na compreender aquelas palavras do Senhor no Evangelho...que veriam morar na alma que o ama e guarda seus mandamentos(Jo 14,23)”7 M 1,6
No autógrafo do Escorial em C 31,6 A.E, vemos que escreve “Bendito seja Ele que nos convida a que vamos beber em sue Evangelho”
Como vemos conhecer o”processo” orante de santa Teresa é importante por várias razões e uma delas porque é um caminho de fundamentação bíblica.
É um modelo antropológico “normal”,vida cheia de altos e baixos ,flutuações em cadeia em que Deus atua nos momentos decisivos.
Figura e imagem para mostrar seu perfil: uma serra ,uma cadeia de montanhas ,que sobem e descem.É um gráfico :a subida simboliza Obra de Deus e a descida a Obra de Teresa.
Isso nos anima... Também nós vivemos desta maneira...
Mas seu caminho espiritual ,sua experiência pessoal ,traz um caminho objetivo ,válido para as pessoas orantes que queiram iniciar neste caminho e não conseguem idênticas metas.É uma história de salvação experimentada por outros convertidos como São Paulo ,São Francisco,Santo Agostinho...
Confessa no Livro da Vida que sua vida foi um transbordar da “misericórdia de Deus”,que a chamou uma infinidade de ocasiões e que ela traia esse amor ,com sua “miséria”.
Esse contraste entre a chamada de Deus à santidade e a resposta de santa Teresa existem até que a bondade de Deus a converte definitivamente.
Deixemo-nos converter assim também!!!!!
A fonte da espiritualidade está na Palavra de Deus onde encontramos direção para qual o vento nos impele. Possibilidade de uma vida nova, de um mundo novo e pressupõe grande coragem ,grande esperança.
Espiritualizar a ação concreta, estendendo a experiência de Deus à nossa história.




.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...